Pandemia e os ideais ascéticos: o adoecimento da vontade de poder
Lúcia Schneider Hardt[1]
https://orcid.org/0000-0002-4939-0156
Resumo
A pandemia produziu no mundo um sofrimento de proporções inimagináveis. O impacto foi global e nos aproximou da finitude humana, condição sempre perturbadora. Vivemos agora um período pós-pandemia, e afinal, o que aprendemos com ela? Neste artigo, levanto a tese de que voltamos a nos ancorar em ideais ascéticos, especialmente aqueles que prometem aliviar, anestesiar nosso sofrimento. O ideal ascético na obra de Nietzsche, metodologicamente, quer nos mostrar como a vida degenera quando buscamos sentidos para o sofrimento, submetendo-nos a narrativas de culpa, configurando um novo tipo de moralismo. O ascetismo em Nietzsche é analisado como um sintoma de uma vontade de poder enfraquecida, cujo efeito, em um contexto de pandemia, embrutece a possibilidade de expandir a força para afirmar a vida.
Palavras-chave: Ideais ascéticos. Nietzsche. Pandemia.
Pandemic and ascetic ideals: the illness of the will to power
Abstract
The pandemic has caused unimaginable suffering in the world. The impact was global and brought us closer to human finitude, an always disturbing condition. We are now living in a post-pandemic period, and after all, what have we learned from it? In this paper, I raise the thesis that we have once again anchored ourselves in ascetic ideals, especially those that promise to alleviate and numb our suffering. The ascetic ideal in Nietzsche’s work, methodologically, aims to show us how life degenerates when we seek meaning for suffering, subjecting ourselves to narratives of guilt, configuring a new type of moralism. Asceticism in Nietzsche is analyzed as a symptom of a weakened will to power, whose effect, in a pandemic context, blunts the possibility of expanding the strength to affirm life.
Keywords: Ascetic ideals. Nietzsche. Pandemic.
Considerações iniciais
Indago, com certa frequência, os motivos que fizeram surgir a pandemia e me deparo com muitas narrativas. Será que poderia ter sido evitada? Quem foi o responsável pelo seu aparecimento? Se houve sofrimento, alguém precisa ser responsabilizado. Nós presenciamos efetivamente desdobramentos impactantes, vivenciamos um luto nacional e apontamos outras formas de viver. Frequentemente ouvimos que novos hábitos seriam iniciados, a natureza seria outra vez valorizada e o mundo seria mais solidário. Vozes próprias do pós-caos. Não encontro, hoje, muitas dessas iniciativas prometidas efetivamente em curso. Arrisco dizer que o que está no horizonte é o fortalecimento dos ideais ascéticos, bem ao modo daquilo que Nietzsche nos apresentou. Segundo o filósofo, “a Terra é o verdadeiro planeta ascético, um recanto de pessoas descontentes, repugnantes, enfastiadas de si mesmas” (Nietzsche, 2009, p. 113). O asceta, para Nietzsche, aparece em todos os tempos, em todos os países e em todas as classes sociais. Diante de uma crise sanitária, aqueles já domesticados por uma moralidade encarnam uma espécie de fervor sobrenatural, e
[...] neste terreno pantanoso do desprezo de si mesmo cresce esta erva ruim, esta planta venenosa, pequena, oculta, desonesta e adocicada. Aqui formigam os vermes do ódio e do rancor: o ar está impregnado de mau cheiro dos segredos e coisas inconfessáveis; aqui se atam sem cessar os fios de uma conjuração indigna: a conjuração dos doentes contra os robustos e os triunfantes, aqui se aborrece o próprio aspecto do triunfador (Nietzsche , 2009, p. 118).
Nietzsche é um pensador que valoriza os filósofos antigos por conceberem a filosofia como modo de vida, por praticarem exercícios ascéticos de controle sobre si mesmos e sobre as paixões. Assim, o ascetismo sempre interessou o filósofo, ainda que, em cada momento de sua obra, tenha-lhe convertido em algo muito singular, diferenciando-se dos antigos e outros tipos ascetas. Na maturidade, assumiu um ascetismo dionisíaco comprometido com a vida, capaz de harmonizar os desejos, espiritualizando os instintos, um ser forte que não está no campo da oposição de valores, mas criando uma ascese que se concretiza como instrumento da vontade de poder, porque é ela que garante a afirmação da vida através da hierarquia e da espiritualização dos instintos como domínio de si.
O sofrimento enfrentado pela pandemia impulsionou a intensificação de ideais ascéticos no campo da política, da filosofia, da ciência e da educação, inclusive no campo da arte. Desdobrou-se por vezes em uma metafísica, estabelecendo prioridades contempladas por um além-mundo, e em parte, aconselhando perceber o risco de viver experiências mais profundas da existência. Um Dossiê produzido pela revista da USP indaga em seu editorial: “será que as crises, sobretudo essas de proporções gigantescas [...] têm mesmo esse poder de mudar os valores das pessoas, incluindo suas convicções, crenças, comportamentos?” (Renovato, 2021, p. 5).
Na apresentação do Dossiê, a revista da USP declara que “em quase todos os países do planeta a crise da pandemia recolocou o Estado no centro [...]” dos debates, e “Governos e lideranças políticas foram chamados – e cobrados – a dar explicação de seu desempenho [...]” (Moisés; Moraes, 2021, p. 10). Em nosso caso, vivenciamos situações de omissão e negligência durante a pandemia, produzindo, ao lado da crise do vírus, também uma crise política e cultural.
A crise impactou percepções e valores, convocando nossa condição de reflexão para avaliar o mundo que está exposto diante de nós e como enfrentar sua fragilidade. Em meio à crise, surgiu o medo do outro como fonte de contágio, e ao mesmo tempo assistimos a coragem de muitas iniciativas, desde a criação de vacinas até medidas preventivas simples e muito eficientes.
Segundo Nietzsche (2009), aqueles que olham a vida e a envenenam, diante de uma crise, não se atentam a ver o exposto, mas acionam, de forma muito perigosa, uma eticidade dos costumes, como se simplesmente vivenciados, eles curassem. Afinal, carregamos uma culpa pela crise que produz falsas compreensões, e Nietzsche indagaria, com certeza: Como estar à altura de um acontecimento dessa ordem? O ideal ascético deseja aliviar as dores, promete um consolo, “traz consigo bálsamos que reconfortam, temperam e narcotizam” (Nietzsche, 2009, p. 121) aspectos que foram percebidos em muitas iniciativas durante e após a pandemia.
Nesse contexto, os humanos imaginavam que novas formas de política surgiriam, todos nós seríamos mais generosos e solidários, e a arte representaria nossos novos desejos e sonhos. Contudo, nossa suposta regeneração foi interrompida pela própria condição da vida. A natureza mostra-se cada vez mais imprevisível. De fato, uma potência indomada que está exigindo mais de nossas intenções civilizatórias até então defendidas; afinal, os humanos não são superiores aos animais, vegetais e todo o resto que o planeta integra. A natureza não é pacífica: a pandemia mostrou a força de um microrganismo invisível, demonstrando como a doença e a morte nos rondam todo tempo, e não vamos nos livrar disso.
As diferentes áreas do conhecimento iniciaram um processo de construção de projetos e metas muito conectados com um suposto desejo/verdade, visando a compreender o fenômeno vivido e, mais que isso, para evitá-lo. Estamos, em parte, assistindo a uma crise do capitalismo que se desdobra em uma crise ecológica, epidemiológica e econômica, que a rigor, não tem como ser enfrentada plenamente, pois existem muitos elementos imprevisíveis nessa crise. Entretanto, muitos ativistas creem em uma virada e possível resolução da crise. Nietzsche alertaria sobre o excesso de otimismo dessa posição, pois o “ideal ascético absolutamente não foi vencido, mas fortalecido, incompreendido, espiritualizado, polido, aformoseado” Nietzsche, 2009, p. 144). O ideal ascético, segundo Souza (2006, p. 28), “[...]ainda que muitas vezes flerte com o vir-a-ser, não está disposto a uma aproximação maior com o devir”.
Claro, preciso me debruçar sobre isso, de certa maneira, aquilo que foi vivido pode mostrar as vulnerabilidades da forma de conduzir a vida, inclusive em seu viés político. Para além disso, o que impressiona não é essa primeira inquietude, mas aquilo que vem depois, ou seja, todas as promessas compartilhadas daqueles que, ao não suportarem um mundo imprevisível, garantem que podem evitar o retorno do caos.
De quem falo quando me refiro à ascese? Muitos intérpretes acreditarão que falamos de todos os humanos. Conforme Sousa (2006, p. 25) nos lembra, para os gregos, a ascese tem o significado do exercício, de esforço para atingir um fim. Ascese como exercício de mais força para bem-viver. Nessa definição, a ascese parece não separar totalmente a relação corpo-espírito, afinal, buscar força implica solicitar a presença do corpo para melhor viver.
O que impressiona é que essa dimensão da ascese, entre os gregos, altera-se na história, e o que segue revela outra nuance: ela vai abandonando a dimensão do corpo e concentrando-se em um espírito que pensa, que usufrui amplamente de sua razão, com a certeza de acessar um lugar privilegiado, em geral comprometido com uma das faces da verdade. A ascese, assim, perde sua dimensão de força, enfraquece e aciona, no humano, a culpa e a necessidade de tutela. Desse ponto, posso sugerir que ideais ascéticos surgem no campo da religião, da ciência, da filosofia, também da política. Volto à questão primeira: seremos todos, em alguma, medida ascetas?
Sousa (2006), em seu artigo, defende a tese que, inclusive Nietzsche, é um tipo asceta, mas um asceta dionisíaco. A conexão é com a vida, com o corpo, com a abundância, uma espécie de “asceta nômade, que acompanha o devir da vida sempre em constante transformação e, por essa razão, está sempre preparado para o inesperado, para a surpresa, para as batalhas que a vida oferece” (Souza, 2006, p. 36). Nessa condição, o que está em questão é o instante, e não objetivos e metas, o “asceta quer, porém não quer o nada” (Souza, 2006, p. 37). O asceta dionisíaco não deixa adoecer sua vontade de poder, pois afirma a vida em qualquer contingência.
Uma tese interessante, a de colocar Nietzsche como um tipo asceta. Acompanho, em parte, essa defesa, pois ela faz aparecer o que, em grande medida, constitui os humanos. Afinal, como afirmamos a vida: lamentando, negando, criticando o que vemos, ou também afirmando aquilo que a vida, em sua dimensão trágica, nos oferece? No caso de Nietzsche (2009, p. 135), sua ascese afasta-se de qualquer ideia de pecado, cura ou terapia, pois ele mesmo afirma: “para eu melhorar significa domesticar, debilitar, desalentar, refinar, abrandar, efeminar, quer dizer tanto quanto desagradar”. Do pecado nasce a culpa e a má consciência. Em resumo, afirma Nietzsche (2009, p. 136):
O ideal ascético e o seu culto da sublime moral, esta sistematização engenhosa e ousada de tudo o que tende à exaltação do sentimento, exercida, sob a máscara de um fim sagrado, está escrita com caracteres terríveis em toda a história da humanidade.
O ideal ascético, afirma Nietzsche (2009), tem um fim tão amplo, que compreende, em si, todos os fins da existência humana, e configura poderes ao oferecer fórmulas de cura por toda a parte. Indaga Nietzsche (2009, p. 140): “pode também a ciência ser um meio de narcotizar uma pessoa”? Ela também necessita
[...] de um ideal de valores, de um poder que cria valores, em cujo ofício justifique a sua fé em si mesma [...] A ciência e o ideal ascético vivem no mesmo terreno, já uma vez o dei a entender, são ambos uma exageração do valor da verdade ou, para falar melhor, na mesma fé da invariabilidade e da incriticabilidade da verdade; por isso necessariamente aliados; por isso é preciso combatê-los juntos; por isso se defendem juntos (Nietzsche, 2009, p. 143).
Com certeza, é preciso destacar que a ciência nos protegeu por meio das vacinas e de uma série de recomendações, na relação com os outros, no campo da higiene e assepsia. Segundo Neves Gamarra (2021, p. 9-10), “a velocidade com que a pandemia se espalhou pelo mundo desencadeou uma corrida internacional para compreender o vírus e encontrar modos de o combater”. Todos os processos foram conduzidos a partir de métodos diferenciados daqueles que usualmente eram utilizados, e as equipes enfrentaram e admitiram possíveis fragilidades e incertezas.
A ciência ofereceu seu conhecimento à sociedade e às autoridades, vários especialistas referiam-se a incertezas ainda a serem decifradas. A conversão da oferta da ciência como verdade por muitas autoridades escondeu lacunas na relação ao conhecimento, apesar de os cientistas insistentemente alertarem sobre o que deveria ser comunicado à sociedade.
Diante das incertezas, era necessário um tanto de cautela sobre as possíveis e mais adequadas políticas públicas desdobradas em ações preventivas. Sabemos, também, que não houve consenso científico sobre procedimentos na relação com a pandemia, e esse conflito deixou de ser analisado de forma devida, muitas vezes convertendo-se em narrativas ideológicas. Por exemplo, no começo de março, segundo Wegner (Fiocruz, 2020)[2], ainda não havia consenso absoluto entre as instituições de pesquisa do Brasil sobre a necessidade de isolamento social. Assim que ficou evidente o que estava acontecendo na Itália, foi crucial para que a Fiocruz e o Ministério da Saúde, orientados pela ciência, mudassem de posição em direção a um grande consenso em defesa do isolamento social.
Afinal, divergências no meio científico são muito frequentes e até saudáveis, devem ser analisadas sob o ponto de vista da própria área de pesquisa, pois até hoje a indagação sobre a origem do vírus ainda mobiliza muitos estudos científicos. Presenciamos, em alguma medida, a crise entre diferentes posições, mas não conseguimos presenciar uma análise mais profunda sobre a questão. A divergência rapidamente converteu-se em política, apelando para discursos binários, aqueles a favor da ciência e aqueles definidos como negacionistas, como se tudo já estivesse plenamente resolvido no contexto da pesquisa.
Nas redes sociais, as narrativas insistiam em julgar, avaliar e punir, desprezando o que de mais efetivo a ciência também queria nos alcançar: a incerteza, a pergunta para pensar sobre os procedimentos mais eficazes a serem destacados no decorrer da crise e inclusive depois dela. Até mesmo os cientistas disputaram posições, enfrentaram-se em função de suas incertezas e indagações. Atualmente, a hesitação vacinal entre algumas famílias configura um novo fenômeno que tem uma dependência muito grande das estratégias de comunicação, exigindo, da área médica e científica, maior capacidade de esclarecimento para evitar discursos antivacinas.
Minha tese, neste artigo, é que exatamente as indagações, as fragilidades e as incertezas foram desprezadas pelo desejo de afirmação de supostas verdades, ancoradas em ideais ascéticos que, compulsivamente, buscavam a aprovação da sociedade e das autoridades. Considerando o contexto político em tempos de pandemia, os procedimentos também foram convertidos em pautas ideológicas e disputas entre o bem e o mal.
Em vez de aceitar o bem e o mal como opostos irreconciliáveis, por meio de sua obra, Nietzsche propõe uma nova perspectiva: o bem e o mal são manifestações diferentes dos mesmos ímpetos básicos do humano que, ao experimentar turbulências, precisa dar provas de valentia, de força em direção aos desejos mais contraditórios presentes em seu próprio corpo. Os pronunciamentos políticos foram de toda ordem, desde a irresponsabilidade de afirmá-la como uma gripezinha até aqueles que diziam: estamos seguindo o que diz a ciência. Segundo muitos cientistas, esta última é uma mensagem incompleta porque, para além da ciência, a responsabilidade das políticas públicas implica os políticos.
Bacevic, pesquisadora na Universidade de Durham, no Reino Unido, especialista em políticas públicas e filosofia da ciência, afirmou, em entrevista a Serrano (2021, p. 1): “alguns políticos usaram a ciência quase como uma desculpa para ignorar, ou pelo menos minimizar, a responsabilidade deles por certas ações, ou, mais frequentemente, por não tomar certas ações”. Para a especialista, destacar apenas a ciência parece, por vezes, deliberadamente desejar evitar questões sobre responsabilidade política que cabem a outros agentes da sociedade.
Por fim, parece, caímos na armadilha desses tantos sacerdotes ascéticos e vivemos compulsivamente traçando metas para superar nossa culpa, nosso caos, buscar outra vida, o que por fim nos distanciou da única vida que temos. O ascetismo quer pôr ordem na vida, impor regras, metas para seguir e alcançar o que está exposto na promessa anunciada. Como afirma a especialista acima, em muitas situações, políticos souberam tomar a crise sanitária a seu favor, uma vez que decidem aceitar ou recusar determinadas recomendações demonstrando que eles, políticos, é que estão no comando. Posso fazer uma analogia com o que vem acontecendo com a questão da crise climática na atualidade. É consenso inserir o alerta sobre a questão do clima nos discursos públicos, mas as ações concretas não se efetivam.
A filosofia nietzschiana oferece outra coisa, quer mostrar que é possível criar condições e valores para estar aqui, neste mundo, em que também o caos, a dor e o sofrimento ocupam espaço. Conhecendo o impacto que as forças ascéticas têm sobre os humanos, cabe tomá-las como um possível meio para avançar e consolidar uma vida para além do bem e do mal.
O próprio Nietzsche, parece, fez essa travessia identificando a decadência própria da cultura racionalista ocidental, que insiste com valores ideais a serem alcançados e que, não obstante, jamais foram alcançados. Nietzsche recomenda, segundo Corrêa (2016, p. 123), “fidelidade à terra, ou aniquila-se a si mesmo, rendendo-se à vontade de poder em função dos ideais científicos, religiosos e políticos que subsistem nas instituições”.
Segundo Giacóia Junior (2016, p. 198), a ascese “deseja nos levar a um mundo suprassensível, constituído de realidades inteligíveis, essências eternas, verdadeiras, oposto à impermanência do tempo, ao absurdo da dor, à violência da morte, à potência enganadora da imaginação e das paixões”. Nesse sentido, nem a ciência é um antípoda da ascese, ainda é devota da verdade, de fato, também uma espécie de continuadora dos ideais ascéticos. Sua compulsão está em tudo querer explicar e determinar.
Segundo Nietzsche (2009), esse mesmo ímpeto encontraremos na filosofia, na ética, na arte e na política. Assistimos disputas sobre supostas verdades acerca da pandemia entre instituições de pesquisa, entre cientistas, também políticos e até entre diferentes países. Afinal, como nos alerta Constâncio (2013, p. 278), no terreno da crítica, “o máximo de veracidade que podemos suportar pressupõe um mínimo de ilusão”, o que sugere que mesmo a busca pela verdade deve reconhecer os limites e os artifícios que sustentam nossas formas de conhecimento.
O cientista, apesar de muitas vezes se afirmar como ateu e com suposta neutralidade axiológica, desmerece sua própria vitalidade, pulsões emocionais, e acaba por apresentar-se por meio de análises objetivas, sem interferência de nenhum aspecto de sua humanidade, disso ele imagina que depende a eficácia de seu procedimento metodológico. Considerando essa força da ascese nos termos acima, Nietzsche nos convida a transfigurá-la em força dionisíaca, conectada com o devir e com a dimensão estética da vida.
Nesse mesmo horizonte, cabe a crítica à Filosofia, e Nietzsche (2009, p. 141) segue examinando aqueles que pretendem a pureza intelectual, na verdade “raquíticos de espírito” que “hoje encarnam a consciência intelectual, estes pensadores livres, demasiado livres, creem-se apartados do ideal ascético”, de fato eles habitam o terreno do ascetismo, estão “amarrados à verdade”.
E a política? Ela parece flertar sempre com os ideais ascéticos, cultiva cada um de seus aspectos e sabe que a fecundidade deles faz sobreviver e fortalecer o governo sobre os vivos. É preciso ancorar suas ações em terrenos próprios, fazendo promessas, articulando objetivos na direção de produzir uma crença que, em geral deseja, antes de tudo, o voto. Segundo Nietzsche (2009, p. 144), o risco da vassalagem ao ideal ascético pode criar épocas de grande decadência.
O que tudo isso nos ensina no pós-pandemia é que, apesar de toda uma análise do perspectivismo em Nietzsche, ele mesmo denuncia que determinada perspectiva de interpretação do mundo se afirma compulsivamente, em um formato quase tirânico, a ponto de fazer aparecerem os rebanhos, uma vez convencidos dessa moralidade, em geral pautada pelos antagonismos, escapando sempre da imprevisibilidade, da dúvida e da incerteza. Afrontar esse mundo das certezas já configura uma atitude supostamente antidemocrática, que não admite que todo valor incondicional é ridículo.
O que defendo como tese, neste texto, é que isso ficou reforçado com a pandemia. Em função de nosso sofrimento, tornamo-nos mais crentes e devotos, uns da própria ciência e outros de suas crenças mágicas, com múltiplos desdobramentos. Cada qual devoto de sua cartilha, sucumbindo a uma nova forma de suposta seriedade que nos aprisiona em convicções.
Talvez o espaço da cultura e da arte, em um movimento mais livre e oxigenado, pudesse nos fazer aprender sobre a “a ironia e o refinamento, e também sobre a força de nossa honestidade poética, que é também probidade intelectual, aquela que nos proíbe a farsa das opiniões derradeiras e definitivas, o consolo e o refúgio em todo incondicionado artigo de fé” (Giacóia Junior, 2016, p. 214).
Segundo Giacóia Junior (2016, p. 214), a potência do riso, da ironia sobre nós mesmos e sobre aquilo que nos impacta e captura pode evitar que nos tornemos “fanáticos sectários ou espantalhos moralistas”. Parece que a pandemia não deixou como legado a condição de considerar e analisar a catástrofe sanitária como uma indagação sobre nossa existência, condição que outros povos, em outros tempos, também precisaram enfrentar. Afinal, essa não foi a primeira pandemia do mundo. Não se trata de minimizar e nem de simplificar, mas talvez evitar o terreno onde cresce o fanatismo. Disso depende outra ciência, filosofia, política e educação que já circula entre nós, mas quase sempre perversamente avaliada e condenada.
Ideal ascético e sua relação com o sofrimento
A pandemia, desde março de 2020, produziu no mundo um sofrimento de proporções inimagináveis. Conhecíamos, é claro, muitas outras tragédias, seja por livros, documentários ou experiências mais localizadas e definidas territorialmente. Desta vez o impacto foi global e produziu muito sofrimento, medo, depressão, e nos aproximou da finitude humana, condição sempre perturbadora.
Vivemos, agora, um período pós-pandemia e, afinal, o que aprendemos com ela? O que foi alterado em nossas rotinas de vida? A ciência precisou criar estratégias para se conectar com a sociedade para dialogar, esclarecer e informar. Quais as conexões que a pandemia estabeleceu entre saúde e política? Em que medida esse cenário ainda nos mobiliza para tentar evitar outros eventos de tamanha magnitude?
A pandemia nos mostrou o quanto nossas condições de vida podem ser imprevisíveis. Pensar que isso possa se repetir, colocando-nos outra vez diante do caos, nos fez desejar fazer nascer objetivos (ou ideais ascéticos, na letra nietzschiana) para buscar controlar tais contingências. Escapar do jogo caótico para criar um mundo então previsível. Como decorrência buscamos, solicitamos ou apoiamos determinadas posições apresentadas como absolutamente confiáveis, e por isso nos colocamos como militantes dessas propostas com o intuito de universalizá-las.
Para enfrentar o caos, são necessários adeptos a fim de que o projeto de segurança e proteção ganhe espaço e poder. Neste ponto, deparamo-nos com o ideal ascético, que voltou com toda a força no pós-pandemia. Marginalizamos a busca de um sentido próprio de vida, que Nietzsche resume como fazer da vida uma obra de arte para, em outra direção, ser tutelado e supostamente protegido. Não é isso que assistimos no pós-pandemia? Autoridades, cientistas, muitas vezes artistas e educadores conclamando nossa humanidade, compaixão para criar um mundo sem caos, como se isso fosse possível.
Assistimos, nas redes sociais, narrativas da possibilidade de um outro normal, de uma sociedade agora capaz de materializar e viabilizar a solidariedade, ancorando suas teses em ideais ascéticos, ou seja, em um mundo sem caos, sem injustiça, pois a dor de uma pandemia impôs outra ordem, outro mundo possível.
Contudo, bastou as autoridades locais adotarem algumas medidas de relaxamento ao isolamento social para ver quanto as pessoas, apesar dos riscos ainda presentes, retornaram a seus hábitos antigos: saírem às compras, frequentarem estabelecimentos comerciais de rua e shoppings, aderindo outra vez a seus próprios horizontes de valores. Já de imediato sinais do jogo caótico de forças, sempre incontrolável.
Na questão dos processos formativos, considerando escolas e universidades, o único recurso foi aplicar procedimentos remotos de aprendizagem, aliás pouco conhecidos do público implicado. Certamente presenciamos um amadorismo nas práticas, mas também a condição de compreender, pouco a pouco, outras metodologias de aprendizagem e de conexão, considerando a função pedagógica na formação humana. Nesse meio, as incertezas e indagações não cessaram de aparecer: como atender um público com necessidades especiais, qual a possibilidade de concretizar educação infantil na modalidade remota? E a educação física? Qual o papel das famílias? Qual o prejuízo em termos de conhecimento?
Foram muitas as questões, mas também houve muita criatividade. Nas universidades, as conexões internacionais e mesmo nacionais entre docentes e estudantes se intensificaram, permanecendo até o momento. Outra vez assistimos à redução da análise da crise e seus desdobramentos pedagógicos subsumidos por narrativas binárias, nas quais, para alguns, o ensino remoto ou híbrido é a revelação da decadência formativa; e para outros, a expressão de maior liberdade. Cada grupo, uma vez configurado, quer um mundo pedagógico designado por seus interesses próprios, afirmando um determinado mundo que é o único possível de existir.
O que talvez deveria ser destacado é que a pandemia convocou a escola e a universidade a repensarem seus saberes e práticas na relação com as tecnologias. As instituições educacionais, em geral, não utilizavam as tecnologias com frequência, mas o isolamento social potencializou o debate, exigiu a adoção de procedimentos virtuais para, talvez, pensar outros modos de ser escola e/ou universidade. Outra vez as perguntas sobre esses possíveis outros modos de fazer educação não foram suficientemente analisadas, o que assistimos foi a predominância dos defensores das tecnologias e suas múltiplas possibilidades, e aqueles defensores da escola presencial em geral, questionando a intensificação da defesa das tecnologias.
Com esses exemplos busco defender minha tese, inspirando-me em Nietzsche, que nos alerta sobre nossa incapacidade de viver para além dos antagonismos, pois escolhemos viver em um território com fronteiras, e com isso deixamos de ver e praticar a potência de nossa capacidade criativa, daquilo que apareceu em nossa existência e pode produzir deslocamentos.
Como educadores, outras habilidades e conhecimentos foram solicitados para pensar atividades síncronas e assíncronas, por exemplo. Diferentes tempos podem oferecer aprendizagens significativas, para além dos tempos fixos já conhecidos das instituições educativas e aprisionados em calendários e datas. Os desafios da pandemia, segundo Alcântara (2022, p. 179), nos exigiu “repensar a escola; e repensar a escola exige a indagação sobre a escola que temos, sobre qual é sua finalidade social, assim como qual queremos construir”. Contudo, nem todos tomaram esse desafio como criativo e necessário.
Não ouso afirmar que não aprendemos nada com todo o processo da pandemia. De fato, ela produziu algumas mudanças no mundo do trabalho, na perspectiva da saúde, nas prioridades a serem definidas na vida de cada um. Contudo, quando ela parece estar distante, alguma coisa também retorna para o lugar de sempre. Neste artigo, levanto a tese de que voltamos a nos ancorar em ideais ascéticos, especialmente aqueles que prometem aliviar, anestesiar nosso sofrimento e medo, e por vezes até nos retirar de tarefas e compromissos antes assumidos.
Para suportar o sofrimento, segundo Nietzsche (2009, p. 95), precisamos buscar sentidos, nesse horizonte está a finalidade do ideal ascético, e ele “resulta do caráter essencial da vontade humana, o seu horror ao vácuo, necessita de uma finalidade e prefere querer o nada antes que não querer”.
Na terceira dissertação da obra Genealogia da moral, o filósofo toma Schopenhauer e Wagner como signos para apresentar sua tese sobre as manobras do ideal ascético também no campo da arte, entrelaçado com o da filosofia. Apesar de sua admiração pelos dois personagens, Nietzsche consegue perceber, no decorrer do tempo, como os dois estão capturados pelo ascetismo e isso o faz separar-se deles.
Wagner, é preciso recordar, inicialmente seguia as pegadas de Feuerbach, mas na obra Parsifal, percebe-se um retrocesso: seu personagem principal faz um elogio à castidade e à pureza do espírito. O que desaprendeu Wagner, indaga Nietzsche? Ou por que se rendeu a um ideal ascético? É certo que, na arte, a nuance do ideal ascético tem outra configuração, existe uma compulsão para dar espaço à obra, antes que qualquer outra coisa. Para isso precisa-se de aliados. A filosofia de Schopenhauer foi uma espécie de âncora, proteção para que Wagner, com coragem, assumisse um ideal ascético.
Wagner quis e desejou notoriedade, e para isso precisou alterar a sua própria estética musical para incorporar àquela algo que ampliaria a sua presença e valor. Contudo, Nietzsche (2009, p. 99) alerta: “quem não desejaria, pelo próprio interesse de Wagner, que se tivesse despedido de nós e de sua arte, não com um Parsifal, mas de um modo mais seguro, vitorioso, mais senhor de si, mais wagneriano, menos enganador, menos contraditório, menos sedutor, menos ambíguo [...]?. Nesse ponto, Nietzsche (2009) segue afirmando que, por vezes, nem o artista escapa das armadilhas do ascetismo, pois, sua independência é sempre muito relativa. Talvez esta seja uma condição de todos nós.
A arte, precisamos reconhecer, em muito contribuiu para que o enfrentamento do isolamento fosse suportável, por meio de filmes, da música, lives com apresentação de textos poéticos e dramáticos. Intervenções artísticas em eventos científicos foram impressionantes, utilizando a luz, a sombra, o ruído, e ainda que o espectador estivesse no convívio consigo mesmo, algo pulsava entre as telas de todos os envolvidos. Uma experiência muito significativa, parecia que, de fato, estava em andamento o encontro de muitos corpos.
A arte também pretendeu combater a desinformação, revelou contextos avassaladores da crise sanitária, conectando-a com a desigualdade social. A condição de frequentar um teatro é algo ainda muito restrito para a maioria da população. Segundo Marcelo Rocco (professor de arte da Universidade Federal de Ouro Preto), as condições do isolamento permitiram outras intervenções e possibilidades de cultura antes impensadas.
Em defesa da arte o professor ainda toma a obra de Didi-Huberman que aborda a questão da sobrevivência dos vagalumes. Eles, os vagalumes, a partir do eterno acender de luzes buscando atrair seus parceiros, produzem uma beleza que em grande medida é efêmera, mas repleta de singularidade. Na disputa com as luzes da cidade, insistentemente presentes, os vagalumes se veem obrigados a fugir, pois se perderam em meio a tanta luminosidade.
Segundo afirmou Rocco, em entrevista a Pedrosa (2021, p. 1), para Didi-Huberman, os vagalumes podem ser comparados à presença da arte em nossas vidas, pois “as artes são pequenos lampejos de luz na escuridão. São pequenos fragmentos, frestas, rachaduras em meio aos tempos de omissão, de falso moralismo e de tentativas sucessivas de barrar, de eliminar, de censurar a arte”. Por fim, Rocco acredita que a arte sobrevive respingando e soltando seus pequenos feixes de luz na escuridão.
Contudo, a arte também apresentou seu lado devoto, escapando da reflexão sobre as incertezas das políticas sanitárias, preferindo militar esporadicamente ao lado de determinadas autoridades, tomando aquilo que lhe é próprio, o direito ao protesto, à denúncia, esquecendo de expor certos incômodos tão frequentes e múltiplos em nossa sociedade em tempos pandêmicos, e justamente por parte dos políticos.
Por exemplo, incômodos políticos que poderiam, talvez, ser transformadores, se fossem efetivamente enfrentados. O escritor japonês Haruki Murakami (2019, p. 1), ao referir-se ao direito da arte ao ativismo, compartilha que cada artista pode expressar sua esperança ou seu desespero pela humanidade de muitas formas, e certamente “não precisa marchar se não estiver disposto e ainda assim pode oferecer sua contribuição criativa no combate”.
Murakami (2019) parece querer proteger o artista, pois afirma que todos nós vivemos em uma espécie de jaula, e talvez a arte, no caso dele, como escritor de ficção, seja a condição possível para sair dela e ser só você mesmo para fazer a vida seguir, a sua e a de tantos outros. O escritor afirma que tem muito interesse por política, mas sua contribuição é por meio da escrita ficcional, e não faz declarações de outra natureza.
Assim como Nietzsche fala do seu tempo, podemos nós também indagar em que medida os humanos, para calibrar o sofrimento, precisam incorporar em suas vidas algumas tábuas de salvação para suportar um mundo que parece não ter nenhuma previsão sobre o que ainda pode nos abater. Nesse horizonte, as âncoras são múltiplas, sem dúvida, desde o ascetismo religioso, político e até científico, considerando as argumentações de nosso filósofo. Reconhecer isso não significa não admitir os tempos obscuros que vivemos no decorrer da pandemia, convivendo com situações inacreditáveis de grupos humanos rejeitando procedimentos óbvios de segurança e saúde.
Esse contexto já foi muito abordado, produzindo reflexões significativas em termos de análise de nossa sociedade. O desejo, portanto, é deslocar-se desse lugar, ainda que reconhecendo todo seu valor, para fazer novas reflexões, adentrando mais o campo da política e da ciência. Como já afirmei, retornamos a um lugar que já habitamos anteriormente, e o que assistimos é uma radicalização na disputa entre ideais ascéticos, estabelecendo ambientes cada vez mais bélicos, condutas desprovidas de argumentos, movidos por sentimentos de ódio, adesão cega e até vingança. Não era bem isso que poderíamos esperar de um tempo de pós-pandemia.
A grande razão, para Nietzsche, implica todo o corpo, pois somos afetados e afetamos os outros. As forças retratadas por impulsos, instintos e paixões disputam espaços, e vários quereres começam a ter visibilidade. Importa, aqui, indagar se esse querer conecta-se com uma abundância de vida, desejando afirmá-la para viver intensamente, ou o querer, ao desejar regular e controlar todo sofrimento e dor, produz o empobrecimento da vida.
A vida circunscrita a essas condições faz com que os humanos sofram de um empobrecimento da vida, não conhecem a abundância e são capturados por ideais supostamente confortadores, mas desleais com a vida. Segundo o filósofo, o homem é um animal doente, “e nesse terreno pantanoso do desprezo de si mesmo cresce esta erva ruim, esta planta venenosa, pequena, oculta, desonesta e adocicada e nesse terreno formigam os vermes do ódio e do rancor” (Nietzsche, 2009, p. 118). Nesse homem, encontra-se um desejo de vingança que é insaciável a tal ponto que só cessa quando captura o outro para aderir ao seu próprio propósito. E nesse caminho, “leva consigo o bálsamo e o remédio, mas necessita ferir antes de curar, e, ainda, ao acalmar a dor da ferida, envenenar a chaga” (Nietzsche, 2009, p. 121).
Nesse ponto, Nietzsche adentra o terreno da domesticação, critica a constituição de rebanhos interessados em orientar, tutelar e buscar adesão. O campo da religião tende a produzir esse efeito, mas não só ele. Vamos encontrar procedimentos semelhantes no campo da política, da educação, e talvez até no campo da ciência, como já vimos anteriormente. Sim, ela mesma, a ciência, que foi fundamental para nossa proteção no decorrer da pandemia, precisa frequentemente suspender sua vontade de poder para não desistir de seu procedimento mais importante e sofisticado: a investigação, a pesquisa, a análise do campo empírico para conectar-se com a vida e suas múltiplas nuances.
Melhor seria afirmar que nem sempre é o próprio campo da ciência que precisa desses cuidados, mas aqueles que viraram adeptos incondicionais de narrativas repetindo compulsivamente determinados enunciados, muito mais preocupados em vingar-se de algo que acompanhar e incentivar o que ainda deve ser conduzido e investigado para qualificar as políticas sanitárias de nosso país.
No campo político, a captura é mais radical, apresenta-se como promessa, seleciona e solicita condutas de adesão e instaura um projeto que, em certa medida, também se ancora em um alívio da dor, ou em um protocolo de resistência, o que em geral produz uma anestesia da força humana para pensar, uma vez que se imagina protegida e consolada. Avanços à parte, em nosso país ainda estamos mergulhados em um populismo ascético. Acerca de toda a espécie de empreendimento para proteger e salvar, existe uma terapêutica do melhoramento humano. Contudo, segundo Nietzsche (2009, p. 135), “melhorar o homem implica domesticar, debilitar, desalentar”, e bastaria buscar na história contingências demonstrativas dessa realidade. Inclusive, nesse particular, parece que não existem muitas diferenças entre o Ocidente e o Oriente, e isso fica exposto, em parte, na terceira dissertação da Genealogia da moral, e mais do que isso, nos inúmeros eventos bélicos que estamos infelizmente assistindo em nosso tempo.
Estaria Nietzsche nos colocando diante do abismo sem qualquer saída? Já apontei anteriormente a tese enunciada por Sousa (2006), que afirma ver em Nietzsche um tipo asceta. Contudo, esclarece com todo detalhamento o que isso significa. Está em questão tomar a vida em sua abundância, em sua dimensão trágica, capaz de nos surpreender muitas outras vezes, não necessariamente como o evento da pandemia que vivenciamos recentemente, mas de diversas outras formas. Como não ficar anestesiado, esperando o caos? Como não se deixar envolver por ideais ascéticos incapazes de tomar a vida em sua abundância para viver aquilo que efetivamente temos por amor fati? Na Gaia ciência, esse amor ao destino fica explicitado:
Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim! (Nietzsche , 2001, p. 197-188).
O próprio filósofo reconhece que ainda quer aprender mais, livrar-se daquilo que nos engana e, nesse ponto, o amor fati conecta-se com o eterno retorno, enquanto um grande teste capaz de verificar se somos capazes de nos desvencilhar de tudo que nos afasta da vida. Trata-se de um exame moral, capaz de suportar a vida sem um ideal ascético, capaz de cultivar um amor ao devir, sem expectativas universais; de fato, um grande peso para aceitar a plenitude da imanência.
Aprender a dizer Sim implica tornar leve o mais pesado dos pesos, considerar a vida assim como ela se apresenta. É necessário discernimento para separar forças passivas, reativas e ativas, um procedimento ético para suportar o mundo tal como ele é, e ainda ser capaz de dizer: quero tudo mais uma vez e incontáveis vezes. Essa é a expressão do amor fati conectado com o eterno retorno.
Ser fiel à terra implica ser fiel à própria existência, amar nosso destino para encontrar beleza no necessário, o que não é conformismo, mas reconhecimento da vida como força capaz de nos impactar para que possamos nos apropriar daquilo que nos acontece, e ainda assim seguir adiante. Dor, medo, sofrimento e alegria são inerentes à vida, e todo esse legado nos faz ser aquilo que somos. A condição da espera de um mundo melhor não se justifica; podemos, sim, criar valores e sentidos muito singulares, pois esse exercício é amar a vida.
A ação é tudo
Para Nietzsche (2009), a ação é aquilo que nos caracteriza, e ela pode fazer florescer algo, aquilo que, afinal, doamos ao mundo. Segundo Viesenteiner e Apolinario (2023), o florescimento implica criar um terreno capaz de fazer nascer a prontidão para a ação que promove sempre o deslocamento, a regulação, a não apatia, também não a explosão. Podemos apostar em estados de florescimento com vistas a alargar os horizontes normativos que já existem, deflacionando a ideia de finalidade, pois toda forma de florescer é fluída, e cada chegada é outra vez um lugar de partida, considerando os sinais heurísticos e pedagógicos de nossos deslocamentos. Se a forma é fluida, muito mais os sentidos, por isso é necessário evocar a autossuperação, a fluidez moral. O uso moral de um valor não é rígido, pois o horizonte da perfectibilidade é fluido e se altera em função de nossos movimentos, em geral imprevisíveis.
Assim, nesse andar e deslocar-se, não existe espaço para uma finalidade, um telos fixo, por isso o valor da performance, uma contínua autossuperação que, instigada por inúmeras conexões, produz um movimento que ainda que não se fixa em uma finalidade; também não é o encontro com a decadência. Está em questão cultivar-se, tornar-se o que se é sem antecipadamente ter um desenho disso. Talvez verificar o que estamos doando ao mundo, o que precisa ser estancado, para não pertencer a um valor decadente que habita o mundo. Sem qualquer manual de conduta, Nietzsche nos convida a florescer, e o mais impactante, só é possível avaliar a ação depois de realizada. Na ação, aparece o que doamos ao mundo, nenhum de nós alcança os movimentos do mundo interior; ele está interditado, porque tudo é ação, e diante dela, algo de nós floresce ou mostra o que temos: nojo, raiva, medo, tristeza ou alegria. O juízo e a avaliação vêm sobre o que aparece, mas vêm de todos os lados, são relacionais e, portanto, minha ação faz acontecer outras, produzindo transformações. Assim, parece que precisamos avaliar o que foi doado ao mundo em tempos pandêmicos, pela ciência, pela política, pela educação e pela cultura. Apontamos, já, algumas nuances desse legado, e algumas reflexões ainda ficaram no horizonte.
Aqui há algo original para pensar Nietzsche, e descubro isso por meio da pesquisa em andamento do Professor Viesenteiner (2022): o pesquisador nos convida a refletir sobre emoções em Nietzsche, não aquelas do seu tempo, mas as emoções de nosso tempo, buscando fecundidade em procedimentos metodológicos do filósofo para conectar as demandas contemporâneas, considerando várias ciências, produzindo múltiplas conexões. Por exemplo, como a tecnologia, e refletir se ela inibe ou promove emoções, quais os efeitos da inteligência artificial nos processos formativos, se o espanto está ausente de nossas reflexões cotidianas.
Estamos em constante explosão ou apatia? Assim, Nietzsche está entre nós para pensar nosso tempo, nossas demandas para calibrar sua metodologia da suspeita em um tempo tão diverso do dele, mas que ainda nos oferece instrumentos sofisticados para pensar. Segundo Duarte (2020), ninguém escreveu de forma tão aguda sobre a arrogância da inteligência humana como Nietzsche, no século XIX, chamando nossa atenção sobre uma necessária revisão de entendimento sobre a própria natureza. Duarte (2020, p. 167) segue em sua reflexão afirmando:
Embora seja cedo para tirar lições da pandemia do novo coronavírus, arrisco que uma pode ser essa: o mundo não é nosso. Nós o habitamos, mas ele não nos pertence. Por mais que, pela técnica, tenhamos avançado sobre a natureza e a conhecido, não a domesticamos.
É necessário ter o direito de se pronunciar sem pressa, restabelecer ingredientes da beleza a saber, como pensar, ler, escrever e falar com a sutileza de quem reconhece cores, tonalidades, signos, expressões e espaços vazios para “abrir comportas, para ver a água jorrar com ímpeto” (Lispector, 2020, p. 15), talvez em momentos muito raros, mas mais significativos que o burburinho da multidão. “Deveríamos respeitar mais o pudor com que a natureza se esconde por meio de enigmas e de coloridas incertezas. Talvez a verdade seja mesmo uma mulher que tem razões para não deixar ver suas razões?” (Nietzsche, 2001, p. 15). Segundo Duarte (2020, p. 168), é preciso reconhecer que “sempre que interferimos no mundo natural, levando até ele o nosso mundo artificial, desencadeamos processos que não controlamos completamente”.
Certamente, além da presença dos ideais ascéticos, estamos cercados também de grandes pensadores que podem nos ajudar a escapar de algumas armadilhas. Eles nos animam a fazer experimentos para nos proteger e sobreviver nas múltiplas instituições e organizações que nos abrigam e capturam, para reinventar a própria a intensidade da vida. Inclusive na literatura vamos encontrar sintonia:
Vou te dizer uma coisa: não sei pintar nem melhor nem pior do que faço. Eu pinto um “isto”. E escrevo um “isto” – é tudo o que posso. Inquieta. Os litros de sangue que circulam nas veias. Os músculos se contraindo e retraindo. A aura do corpo em plenilúnio. Parambólica que sou. Não me posso resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo (Lispector, 1973, p. 88).
Eis um grito pela singularidade que parece ser um antídoto aos ideais ascéticos. Ainda que Nietzsche possa ser um tipo asceta, ele assim se faz para combater todo ascetismo que aprisiona, anestesia, para fazer lembrar a todos nós a intensidade da vida que, ao dançar diante do imprevisto, também se prepara para enfrentar o inusitado. Para Nietzsche (2009, p. 50), existe uma oficina onde se fabrica o ideal, e ela tem um “ar viciado, insuportável, cheira a mentira e embuste”. Para superar a culpa e os erros, inventaram que é necessário viver muito, “viver além da morte; é necessário a vida eterna para indenizar-se no Reino de Deus” (Nietzsche, 2009, p. 51), o que faz adoecer a vontade de poder, aquele que nos capacita a suportar o caos, a tragédia e a imprevisibilidade sem hipnotizar nossa condição de reflexão e ação.
Considerações finais
Na Gaia ciência, Nietzsche (2001, p. 202_2001, p. 202) nos instiga a pensar sobre como enfrentar o inusitado:
De que meios dispomos para tornar as coisas belas, atraentes, desejáveis para nós, quando elas não o são? – e eu acho que em si elas nunca o são! Aí temos algo a aprender dos médicos, quando eles, por exemplo, diluem o que é amargo ou acrescentam açúcar e vinho à mistura: ainda mais os artistas, porém, que permanentemente se dedicam a tais invenções e artifícios. Afastarmo-nos das coisas até que não mais vejamos muita coisa delas e nosso olhar tenha de lhes juntar muita coisa para vê-las ainda – ou ver as coisas de soslaio e como que em recorte – ou dispô-las de forma que elas encubram parcialmente umas às outras e permitam somente vislumbres em perspectivas – ou contemplá-las por um vidro colorido ou à luz do poente – ou dotá-las de pele e superfície que não seja transparente: tudo isso devemos aprender com os artistas, e no restante ser mais sábios do que eles. Pois neles esta sutil capacidade termina, normalmente, onde termina a arte e começa a vida; nós, no entanto, queremos ser os poetas-autores de nossas vidas, principiando pelas coisas mínimas e cotidianas.
Queremos ser poetas-autores de nossa vida? Se isso de fato nos mobiliza, precisamos resistir a esse cardápio múltiplo de oferta, considerando os ideais ascéticos. O sentido da nossa existência não é nos submetermos a projetos dados como universais, por vezes até salvacionistas. Se a pandemia passou, e em alguma medida buscamos proteção, talvez seja necessário aprender a ver, pensar de outro modo, não para nos afastar das multidões e dos conflitos, mas para afirmar um direito singular de estar entre tantos outros. Não se trata de um mundo sem moral, mas o reconhecimento que toda moral e seus valores decorrentes implicam um jogo de forças que funda a própria vida, o que torna a ideia de uma moral única um tipo de força contrária à vida.
Duas questões mobilizaram o texto: O que a pandemia mostrou sobre nossa forma de viver e como impactou nossa vida. Também, em que medida o acontecimento fez adoecer nossa vontade de poder, fragilizando nossa resistência às intempéries e tragédias da vida, exatamente por sermos obsessivos por consolo e tutela.
Cachopo (2020, p. 42), em seu artigo, mostra como a “pandemia não revela apenas as desigualdades que atravessam o mundo, mas também o modo como naturalizamos essas desigualdades e evidencia a necessidade e a dificuldade de uma consciência global”. Compartilho com o autor sua síntese que, em parte, também reflete o que este texto pretendeu:
O vírus não mudou a humanidade. Tão pouco revelou a sua essência. Não derrubou o capitalismo. Não salvou o planeta. Já o modo como entendemos o mundo e nos reconhecemos nele sofreu um abalo como há muito não se via. A pandemia não mudou o que somos mas como somos. O modo como vivemos, pensamos, desejamos, imaginamos e agimos está a sofrer uma metamorfose. É no meio e diante desta metamorfose que importa tomar posição (Cachopo, 2020, p. 42).
Tomar Nietzsche para pensar possíveis tomadas de decisão diante de crises implica questionar um universal, o que não indica uma posição anti-humanista, antiprocedimentos sanitários; pelo contrário, ao admitir que necessitamos de políticas públicas de proteção à vida, o fenômeno em si não pode ser uma armadilha para reunir adeptos em direção a ideais ascéticos próprios de segmentos incapazes de suportar a divergência e a diferença.
Esta ainda parece ser uma aprendizagem necessária, e para isso não desejamos outra pandemia, mas cultivar em nós mesmos o direito de florescer de múltiplas formas, deixando de ser rebanho nas mãos de tantos propagadores de promessas e de outros mundos que não existem. Marchando menos como nos alerta o Murakami (2019) para, enfim, ser fiéis à terra e a nós mesmos, nossa única morada.
ALCÂNTARA, W. Escola e cultura escolar durante e pós-pandemia. Prometeica - Revista de Filosofia y Ciencias, n. 24, 2022. DOI: https://doi.org/10.34024/prometeica.2020.20.10177
CACHOPO, J. P. Dialéctica viral. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 29, n. 46, p. 30-43, jan.-jun. 2020. DOI: https://doi.org/10.32334/oqnfp.2020n46a747
CONSTÂNCIO, J. Arte e niilismo. Nietzsche e o enigma do mundo. Rio de Janeiro: Tinta-da-China, 2013.
CORRÊA, S. F. M. O niilismo e os ideais ascéticos na terceira dissertação da Genealogia da moral. Saberes, Natal-RN, v. 1, n. 13, p. 120-133, mar. 2016. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/saberes/article/view/8597. Acesso em 14 fev. 2025.
DUARTE, P. O vírus e a redescoberta da natureza. 2020. Disponível em: https://oquenosfazpensar.fil.puc-rio.br/oqnfp/article/view/744/640. Acesso em: 14 fev. 2025.
GIACÓIA JUNIOR, O. Arte e filosofia: para uma crítica dos ideais ascéticos. Philósophos, Goiânia, v. 21, n. 2, p. 197-218, jul.-dez. 2016. DOI: https://doi.org/10.5216/phi.v21i2.43624
LISPECTOR, C. Água viva. São Paulo: Círculo do Livro, 1973.
LISPECTOR, C. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.
MOISÉS, J. A.; MORAES, D. Apresentação. Revista USP, São Paulo, n. 131, p. 7-12, 2021. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.i131p7-12
MURAKAMI, H. O trabalho de um romancista é sonhar acordado. Entrevista concedida a El Pais, 26/01/2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/21/ eps/1548073413_533993.html#. Acesso em: 24 jan. 2024.
NEVES GAMARRA, T. P. das. Comunicação das incertezas científicas: estratégias para a pandemia de COVID-19. Vittalle – Revista de Ciências da Saúde, v. 33, n. 2, p. 9-11, 2021. DOI: https://doi.org/10.14295/vittalle.v33i2.13039
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
NIETZSCHE, F. A genealogia da moral. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
RENOVATO, J. Editorial. Revista USP, São Paulo, n. 131, p. 5, 2021. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.i131p5
ROCCO, M. Entrevista a Adrianne Pedrosa. Em Discussão. Universidade Federal de Ouro Preto, 2021. Disponível em: https://ufop.br/noticias/em-discussao/arte-e-pandemia-adaptacao-uma-nova-realidade. Acesso em: 24 jan. 2024.
Serrano, C. Covid: 'Políticos favorecem ciência que se alinha com suas próprias preferências'. BBC News Brasil, 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56936098. Acesso em: 14 fev. 2025.
SOUSA, M. A. Nietzsche: um tipo asceta. Revista de Estudos de Religião, n. 2, 2006. Disponível em: https://www.pucsp.br/rever/rv2_2006/p_sousa.pdf. Acesso em: 15 nov. 2023.
VIESENTEINER, J. L. Aprender a ver, aprender a pensar, aprender a falar e escrever: condições integrantes do conceito de Bildung no Crepúsculo dos Ídolos de Nietzsche. In: DIEZ, C. L. (org.). Instigar a pensar e a questionar: o sentido do ensino da filosofia. São Paulo: Mercado de Letras, 2012. v. 1. p. 13-35.
VIESENTEINER, J. L.; APOLINÁRIO, V. F. Nietzsche e Prinz: uma hipótese compatibilista das abordagens cognitivas e não cognitivas na filosofia das emoções. Veritas, Porto Alegre, v. 68, n. 1, p. 1-19, jan.-dez. 2023. DOI: https://doi.org/10.15448/1984-6746.2023.1.43798
WEGNER, R. Covid-19: o olhar dos historiadores da Fiocruz. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/covid-19-historiador-discute-producao-de-consensos-na-ciencia. Acesso em: 11 fev. 2025.
Submetido em: 26.08.2024.
Aprovado em: 19.02.2025.
[1]Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis: luciashardt@gmail.com.
[2] O historiador Robert Wegner, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), discute essa e outras questões relacionadas à pandemia em um vídeo da série especial Covid-19: o olhar dos historiadores da Fiocruz.