Quebrando barreiras de comunicação e informação: produção de um glossário em Libras das siglas de uma Universidade
Dalvane Althaus[1]
https://orcid.org/0000-0002-2985-9287
Mirélia Flausino Vogel[2]
https://orcid.org/0000-0001-7788-9774
Aline Brancalione[3]
https://orcid.org/0000-0002-9662-3418
Resumo
Este texto apresenta e discute alguns resultados de um Projeto de Ensino em andamento sobre a produção de um glossário lexical na Língua Brasileira de Sinais (Libras) das siglas dos principais setores de uma Universidade. A fundamentação teórica mobiliza a linguística de Libras, sobretudo a fonologia e seus parâmetros. A metodologia envolve levantamento das siglas no organograma, verificação de possível existência de sinais em Libras para os setores nos diversos campi da instituição, criação dos sinais segundo a linguística de Libras, com aprovação da comunidade surda da instituição e divulgação. O projeto está na primeira fase e já resultou em 32 sinais, visando à inclusão e acessibilidade da comunidade surda no acesso aos espaços da Universidade, bem como possibilitou aos professores surdos participantes entender melhor a função desses setores e, com isso, ter mais autonomia no exercício de suas atividades docentes.
Palavras-chave: Universidade. Inclusão. Acessibilidade. Libras. Siglas de setores.
Breaking communication and information barriers: production of a glossary in Libras of a University’s acronyms
Abstract
This text presents and discusses some results of an ongoing Teaching Project on the production of a lexical glossary in Brazilian Sign Language (Libras) of the acronyms of the main sectors of a university. The theoretical foundation mobilizes the linguistics of Libras, above all, phonology with its parameters. The methodology involves surveying the acronyms in the organizational chart, checking for possible existence of Libras signs for the sectors in the various campuses of the institution, creation of the signs according to the linguistics of Libras, with the approval of the deaf community of the institution, and dissemination. The project is in its first phase and has already resulted in 32 signs, aiming at the inclusion and accessibility of the deaf community in accessing University Spaces, as well as enabling participating deaf teachers to better understand the function of these sectors, and therefore, have more autonomy in carrying out their teaching activities.
Keywords: University. Inclusion. Accessibility. Libras. Sector acronyms.
Introdução
Este texto traz um relato de experiência sobre a produção de um glossário lexical em Libras dos principais setores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e as dimensões que emergiram deste trabalho. Essa produção está sendo realizada como um projeto de ensino, que na instituição executora se constitui em uma atividade de apoio ao ensino e visa à melhoria de processos de ensino e de aprendizagem.
A UTFPR é uma instituição de educação superior multicampi (Schallenberger, 2006) presente em treze cidades do Estado do Paraná, na região sul do Brasil: 1) Apucarana; 2) Campo Mourão; 3) Cornélio Procópio; 4) Curitiba; 5) Dois Vizinhos; 6) Francisco Beltrão; 7) Guarapuava; 8) Londrina; 9) Medianeira; 10) Pato Branco; 11) Ponta Grossa; 12) Santa Helena; e 13) Toledo. Esse trabalho foi idealizado por uma professora bilíngue de Libras e coordenado juntamente com uma professora surda, e está sendo realizado como projeto de ensino no campus Pato Branco, envolvendo os demais campi. Atualmente, o campus Pato Branco oferece Cursos de graduação em Licenciatura em Letras Português-Inglês, Licenciatura em Matemática, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Tecnologia em Manutenção Industrial, Engenharia em Agrimensura e Topografia, Engenharia em Agronomia, Engenharia Civil, Engenharia de Computação, Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Bacharelado em Administração, Bacharelado em Ciências Contábeis e Bacharelado em Química. Oferece, também, cursos de Pós-Graduação lato sensu e stricto sensu.
A UTFPR, assim como as demais Universidades Federais, segue um padrão legal de estrutura organizacional para identificar suas unidades de acordo com o nível de hierarquia, responsabilidade e funcionalidade (ENAP, 2019). Tal identificação é criada com uma denominação por extenso e uma sigla correspondente, por exemplo: Conselho Universitário (COUNI), Gabinete do Reitor (GABIR), Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (PROGRAD), Diretoria de Graduação e Educação Profissional (DIRGRAD), Departamento de Educação (DEPED), Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI), e assim sucessivamente até denominar todas as unidades organizacionais de seus treze campi (UTFPR, 2022).
Essas denominações de unidades organizacionais e suas siglas estão escritas em língua portuguesa, que para a comunidade surda e o povo surdo é considerada sua segunda língua (L2), o que muitas vezes inviabiliza a própria compreensão das diversas funções de cada setor por esse grupo linguístico.
Destaca-se que comunidade surda “não é só de sujeitos surdos; há também sujeitos ouvintes-membros de família, intérpretes, professores, amigos e outros que participam e compartilham interesses comuns em uma determinada localização” (Strobel, 2008, p. 38). Já povo surdo são considerados “os sujeitos surdos que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem, por um código ético de formação visual, independentemente do grau de evolução linguística, tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços” (Strobel, 2008, p. 38). Por sua vez, a cultura visual dos surdos é “o jeito de o surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das ‘almas’ das comunidades surdas” (Strobel, 2008, p. 29).
Segundo o Decreto nº 5.626 de 22 de dezembro de 2005, que regulamenta a Lei de Libras, Nº 10.436, de 24 de abril de 2002, em seu art. 2º, considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS - Brasil, 2005).
A Libras é definida pela Lei 10.436/2002, em seu art. 1º, Parágrafo único, como “a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil” (Brasil, 2002).
Diante disso, a Libras é considerada a primeira língua (L1) dos surdos brasileiros. Na UTFPR, a comunidade surda é composta por professores bilíngues, professores surdos, intérpretes de Libras, estudantes e visitantes surdos.
Essa comunidade de surdos foi se consolidando à medida que a Universidade passou a atender ao Decreto de Libras, Capítulo II, art. 3º, o qual rege que
A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios (Brasil, 2005).
No ano de 2010, a Disciplina de Libras começou a ser ministrada na UTFPR, campus Pato Branco, para o Curso de Licenciatura em Química (curso extinto), e posteriormente para os Cursos de Licenciatura em Letras Português-Inglês e Matemática como componente curricular obrigatório, e como optativo para os demais cursos. De forma semelhante, a Libras foi implementada também nos demais campi da instituição.
Para ministrar as aulas de Libras no campus Pato Branco, inicialmente foi contratada uma professora bilíngue, e na sequência, a UTFPR realizou a contratação para mais professores atuarem na área de Libras, chegando a vários campi, os professores surdos. Atualmente, o corpo docente da área de Libras da universidade é constituído por seis professores ouvintes e por dez professores surdos, todos aprovados em concurso público e com titulação de Mestres e Doutores.
No ano de 2015, foi instituída no Brasil a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), Nº 13.146 (Estatuto da Pessoas com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. A partir da LBI, em 2016 foi oficializada a Lei de Cotas Nº 13.409/2016, que dispõe sobre a reserva de vagas para pessoas com deficiência nos cursos técnico de nível médio e superior das instituições federais de ensino, o que tem contribuído para o aumento significativo da demanda de alunos com deficiência no âmbito da UTFPR, e dentre eles, muitos alunos surdos. Além disso, a UTFPR também se preocupa com o acesso às informações pela comunidade externa, que é um dever do órgão e um direito de todo cidadão (Brasil, 2011).
Diante disso e considerando que primeira língua (L1) de muitos surdos que frequentam tal Universidade é a Libras, propôs-se o desenvolvimento de um projeto de ensino denominado Glossário lexical em Libras dos principais setores que compõem o organograma da Universidade, a fim de contribuir para a acessibilidade e inclusão dos surdos aos diversos setores que compõem a universidade.
No desenvolvimento desse projeto, dimensões foram emergindo. Percebeu-se que mais que ter acesso à sigla por sinal em Libras, muitos professores surdos não tinham conhecimento da existência de diversas unidades organizacionais e suas respectivas funções, inclusive, com implicações à autonomia em suas atividades docentes. Portanto, para validar os sinais, também foi preciso um trabalho de explicação sobre as funções dos setores.
Para descrever essa experiência, na sequência, apresenta-se uma breve fundamentação teórica sobre a linguística que sustenta a criação de sinais em Libras, a metodologia de desenvolvimento do glossário, alguns resultados e análises e considerações finais.
Fundamentação teórica: aspectos linguísticos e estruturais da Libras
A fundamentação teórica para este trabalho ancora-se nas discussões linguísticas existentes, que não são muito vastas. Assim, neste texto, trazem-se aspectos linguísticos de Quadros e Karnopp (2004), Felipe (2004) e Brito (2010). Além disso, este artigo amplia os conceitos, que são tratados descrevendo de forma mais detalhada a constituição dos sinais e ilustrando com material produzido pelas próprias autoras professoras de Libras. Essa ampliação visa a contribuir com a fundamentação da Libras e a tornar o material mais acessível e compreensível para quem é iniciante na Língua Brasileira de Sinais ou leitores ouvintes.
A Libras, como as demais línguas de sinais faladas em outros países, é considerada língua natural, comparada às línguas orais, que se apresenta em uma modalidade diferente, por ser uma língua gestual-visual (ou espaço-visual). Em outras palavras, “a informação linguística é recebida pelos olhos e produzida pelas mãos” (Quadros; Karnopp, 2004, p. 47).
As autoras ainda afirmam que
Os seres humanos podem utilizar uma língua de acordo com a modalidade de percepção e produção desta: modalidade oral-auditiva (português, francês, inglês, etc.) ou modalidade visuoespacial (língua de sinais brasileira, língua de sinais americana, língua de sinais francesa, etc.) (Quadros; Karnopp, 2004, p. 24).
Para se constituir como língua, a Libras possui um sistema linguístico próprio e os mesmos níveis linguísticos das demais línguas orais, que são os níveis fonológico, morfológico, sintático e semântico. Neste texto, o foco recai sobre o nível fonológico, pois é a Fonologia que trata dos elementos mínimos para formar os sinais, chamados de fonemas. Assim,
[...] a primeira tarefa da fonologia para a Língua de Sinais é determinar quais são as unidades mínimas que formam os sinais. A segunda tarefa é estabelecer quais são os padrões possíveis de combinação entre essas unidades e as variações possíveis no ambiente fonológico (Quadros; Karnopp, 2004, p. 47).
Existem cinco (5) Parâmetros Fonológicos da Libras que envolvem a criação dos sinais: configuração de mão (CM); ponto de articulação (PA); movimento (M); orientação (O); e expressão não-manual/facial corporal (ENM). Na sequência, explica-se cada parâmetro com sinais já convencionados pelo povo surdo e ilustrado com material das próprias professoras de Libras.
Conforme destaca Felipe (2004, p. 22):
[...] os sinais são formados a partir da combinação do movimento das mãos com um determinado formato em um determinado lugar, podendo este lugar ser uma parte do corpo ou um espaço em frente ao corpo. Estas articulações podem ser comparadas aos fonemas e às vezes aos morfemas, são chamadas de parâmetros, portanto, nas línguas de sinais podem ser encontrados os seguintes parâmetros: configuração das mãos; ponto de articulação; movimento; orientação/direcionalidade; expressão facial e /ou corporal.
Configurações de Mão (CM) são as diversas formas que a(s) mão(s) toma(m) na realização do sinal (Brito, 2010). Quando o sinal é feito com duas mãos, pode ter a mesma configuração ou configurações diferentes, conforme figura 1.
Figura 1 ‒ Configuração de Mãos

A figura 1 apresenta 79 configurações de mão que servem de base para a criação de sinais. A escolha desse arquivo baseou-se na atualização do quadro de configurações de mão pelo (INES, 2018), bem como pela nitidez das imagens. A criação do sinal combina a configuração de mão com outros parâmetros, como o ponto de articulação, orientação, movimento e expressão facial. As próximas figuras 2 e 3 ilustram algumas configurações de mão e sinais formados e convencionados pela comunidade surda e povo surdo.
Figura 2 – Sinal de “ONTEM”

Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 2 ilustra a constituição do sinal “ONTEM”, que é formado usando apenas a mão predominante em formato da letra “L” do alfabeto manual (configuração de mão nº 24 da figura 1), com o ponto de articulação na cabeça, movimento semicircular, orientação para trás da cabeça e expressão facial neutra.
Figura 3 – Sinal de “LIBRAS”

Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 3 ilustra a constituição do sinal “LIBRAS”, que é formado usando as duas mãos com os dedos abertos (configuração de mão nº 5 da figura 1), com o ponto de articulação no espaço neutro, movimentos circulares alternados, orientação para frente e expressão facial neutra.
O Ponto de Articulação (PA) é o espaço em frente ao corpo ou uma região do próprio corpo onde os sinais são articulados. Os sinais articulados no espaço são de dois tipos: os que se articulam no espaço neutro diante do corpo e os que se aproximam de uma determinada região do corpo, como por exemplo, a cabeça, a cintura e os ombros (Brito, 2010). A seguir apresentam-se as ilustrações de dois sinais, “LARANJA” e “APRENDER”, em que se utiliza a mesma configuração de mão (CM), mas com pontos de articulação (PA) diferentes, que conforme Brito (2010, p. 38), “mostra que o ponto de articulação se constitui também em um traço distintivo”.
Figura 4 – Sinal de “LARANJA”
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 4 ilustra a constituição do sinal “LARANJA”, que é formado usando apenas a mão predominante (configuração de mão nº 12 da figura 1), com o ponto de articulação na boca, movimento abrindo e fechando a mão e expressão facial neutra.
Figura 5 – Sinal de “APRENDER”

Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 5 ilustra a constituição do sinal “APRENDER”, que é formado usando apenas a mão predominante (configuração de mão nº 12 da figura 1), com o ponto de articulação na testa, movimento abrindo e fechando a mão e expressão facial neutra.
O Movimento (M) é um parâmetro complexo que pode envolver uma vasta rede de formas e direções, desde os movimentos internos da mão, os movimentos do pulso, os movimentos direcionais no espaço, até conjuntos de movimentos no mesmo sinal.
O movimento em que as mãos descrevem pode ser em linhas retas, curvas, sinuosas, circulares, helicoidais etc., em várias direções e posições (Brito, 2010). Os sinais também podem ter ou não movimento. As figuras 6 e 7 ilustram diferentes movimentos com sinais já convencionados pela comunidade surda e povo surdo.
Figura 6 – Sinal de “ALTO”

Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 6 ilustra a constituição do sinal “ALTO”, que pode ser formado usando as duas mãos, sendo a mão ativa na configuração nº 49 da figura 1, cujo braço usa como base a mão passiva na configuração nº 01 da figura 1, com o ponto de articulação no espaço neutro, mão ativa com movimentos helicoidais, orientação para cima e expressão facial neutra.
Figura 7 – Sinal de “FELIZ”
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 7 ilustra a constituição do sinal “FELIZ”, que é formado usando as duas mãos com configurações iguais (configuração de mão nº 20 da figura 1), ponto de articulação no espaço neutro, movimentos sinuosos, orientação para baixo e expressão facial de felicidade.
A Orientação da(s) Mão(s) (O) é a direção durante o sinal: voltada para cima, para baixo, para o corpo, para frente, para a esquerda ou para a direita. Pode haver mudança na orientação durante a execução do Movimento (Brito, 2010). As figuras 8 e 9 ilustram diferentes orientações com sinais já existentes e convencionados pela comunidade surda e povo surdo.
Figura 8 – Sinal de “AVISAR”
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 8 ilustra a constituição do sinal “AVISAR”, formado pela configuração da mão predominante na letra “Y” do alfabeto manual (configuração nº 64 da figura 1), com o ponto de articulação no queixo, movimento retilíneo, direção para a frente e expressão facial de neutra. Já o sinal “AVISAR-ME” tem o movimento inverso.
Figura 9 – Sinal de “AVISAR-ME”
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 9 ilustra a constituição do sinal “AVISAR-ME”, formado pela configuração da mão predominante na letra “Y” do alfabeto manual (configuração nº 64 da figura 1), com o ponto de articulação no espaço neutro, movimento retilíneo, com a mão configurada em “Y” virada em direção ao peito e expressão facial de neutra.
As expressões não-manuais (ENM), conforme Quadros e karnopp (2004), correspondem a movimentos da face, dos olhos, da cabeça e do tronco, e prestam-se a dois papeis nas línguas de sinais: marcação de construções sintáticas e diferenciação de itens lexical. Logo, podem expressar as diferenças entre sentenças afirmativas, interrogativas, exclamativas e negativas. As figuras 10 e 11 ilustram a expressão facial em sinais já existentes.
Figura 10 – Sinal de “BRAVO”
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 10 ilustra a constituição do sinal “BRAVO”, que é formado usando apenas a mão predominante (configuração de mão nº 13 da figura 1), com o ponto de articulação em frente ao rosto, movimento retilíneo, direção para baixo e expressão facial de braveza.
Figura 11 – Sinal de “TRISTE”
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 11 ilustra a constituição do sinal “TRISTE”, que é formado usando apenas a mão predominante (configuração de mão nº 64 da figura 1), com o ponto de articulação no queixo e expressão facial de tristeza.
Tendo apresentado, demonstrado e explicado os aspectos linguísticos e estruturais para a criação de sinais, passa-se para a explicitação do caminho metodológico seguido na experiência relatada.
Metodologia: caminhos percorridos no desenvolvimento do trabalho
A partir da percepção da professora bilíngue do campus Pato Branco da UTFPR sobre a necessidade de criar um glossário com sinais para as siglas dos principais setores da referida universidade, visando à quebra de barreiras no acesso à informação, à comunicação e ao conhecimento da comunidade surda sobre a instituição, foi proposto um projeto de ensino para atender essa demanda.
Na Língua Portuguesa, as palavras novas são oficializadas por meio da Academia Brasileira de Letras. Em Libras, os sinais novos precisam ser aprovados pela comunidade surda e pelo povo surdo. Assim, para a constituição desse grupo, foi convidada uma discente surda do Curso de Administração para participar voluntariamente, e professores de Libras da UTFPR.
A partir da aprovação do projeto, iniciou-se o desenvolvimento do Glossário em Libras das Siglas dos principais setores que constituem o organograma da UTFPR. A primeira fase do projeto ocorreu no período de maio de 2023 a julho de 2024, e percorreu sete etapas.
Na primeira etapa, as professoras de Libras proponentes do projeto e a discente participante estudaram o organograma da UTFPR. Esse estudo foi necessário para elas conhecerem as siglas e as funções e atribuições de cada setor.
Na segunda, realizou-se uma pesquisa junto aos professores surdos de Libras de todos os campi da UTFPR, com a finalidade de verificar se havia setores que já possuíam sinais em Libras. Constatou-se que a realidade dos campi era bem distinta: a) alguns professores desconheciam a existência de certos setores; b) alguns professores conheciam determinados setores e respectivos sinais; c) alguns professores não conheciam os sinais dos setores; d) havia sinais diferentes para os mesmos setores, nos diferentes campi; e) muitos setores não tinham sinais.
Diante disso, na terceira etapa, focou-se na padronização dos sinais já existentes referentes aos setores nos 13 campi da UTFPR. Verificou-se que não haver padronização pode acarretar barreiras nas comunicações e na informação (Brasil, 2015) para a comunidade surda, principalmente no âmbito dos campi da UTFPR, como também fere a condição de igualdade, já que para a comunidade ouvinte, as siglas dos setores nos campi da UTFPR são padronizadas. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Brasil, 2015) prevê, em seu art. 4º, que “toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação”. A falta de padronização dos sinais dos setores pode gerar confusão para os surdos, dificultando o acesso ao conhecimento dos setores e suas funções, o que evolve sua autonomia no ambiente da universidade.
Na quarta, realizaram-se reuniões com os professores surdos de Libras de todos os campi da UTFPR, em que as proponentes do projeto apresentaram os principais setores do organograma, e a professora bilíngue esclareceu as funções desenvolvidas em cada um. Essas reuniões foram realizadas virtualmente, tendo em vista a distância entre os campi. No total, foram seis reuniões.
Na quinta etapa foram criados sinais para os principais setores do organograma da UTFPR que ainda não os possuíam, bem como sua padronização para todos os campi. Após a quarta etapa, que envolveu o estudo sobre os setores, os surdos faziam sugestões sobre a composição das partes dos sinais, discutiam os prós e os contras e validavam o sinal mais representativo para o setor. Nessa etapa, os usuários de Libras, professores surdos da instituição e discente surda usuária da Libras, voluntariamente discutiram e aprovaram os novos sinais, criados de acordo com os aspectos linguísticos e estruturais apresentados na fundamentação teórica deste trabalho.
Para a criação da maioria dos sinais dos setores, foram utilizadas duas configurações de mão base: a configuração de mão nº 21 (apresentada na figura 1), que corresponde à letra U do Alfabeto Manual/datilologia, pelo fato de essa configuração fazer parte do sinal em Libras da universidade UTFPR; e/ou a configuração de mão nº 68 (apresentada na figura 1), pelo fato de essa configuração fazer parte de vários sinais já utilizados no contexto da universidade, como exemplo: DIRETOR, REITOR. Por fim, quando possível, na criação dos sinais, foram acrescidos os demais parâmetros apresentados na fundamentação teórica.
Na sexta etapa, foi realizada a edição dos sinais e eles foram registrados em fotos e filmagens. A edição foi gravada sob a responsabilidade das coordenadoras, uma professora de Libras bilíngue e uma professora de Libras surda, que orientaram a discente participante para sinalizar as siglas dos setores. Para as gravações, foi criado um estúdio com fundo verde e o uso de blusa preta. Os trabalhos para as gravações foram realizados por três participantes: 1) a professora bilíngue participou da edição e acompanhou a gravação, orientando e intervindo quando necessário; 2) a professora surda participou atrás da câmera sinalizando para a discente surda reproduzir o sinal; 3) a discente surda participou sinalizando as siglas dos setores para a gravação, conforme aparece nas figuras 12 e 13.
Figura 12 – Professora Bilíngue orientando
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
Figura 13 – Professora Surda ensinado os sinais

Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
As figuras 12 e 13 mostram os bastidores da gravação nos momentos de fotos e filmagens com a discente surda, voluntária no projeto.
A sétima etapa refere-se à disseminação e divulgação do material produzido a toda a comunidade surda e ouvinte da UTFPR. Para tanto, as professoras proponentes estão buscando compartilhar a produção de diferentes maneiras e por diferentes meios. Por exemplo, o glossário está em fase de organização para ser disponibilizado em uma plataforma institucional, na qual são oferecidos cursos virtuais, a denominada plataforma SOPHIA[4]. Além disso, esta publicação também visa a compartilhar os resultados da experiência, tema da próxima seção.
Resultados
A produção de sinais do Glossário em Libras dos principais setores da UTFPR realizou-se a partir do conhecimento da existência e das funções dos referidos setores que constituem o organograma da UTFPR, e seguindo os parâmetros linguísticos da Libras apresentados na fundamentação teórica.
Em um ano de trabalho, a equipe de professores surdos que atuou no projeto discutiu e validou 32 sinais, resultando em 23 sinais criados, 8 sinais existentes mantidos e padronizados para todos os campi e 1 sinal, que estava com duplicidade, foi unificado. Desses, 24 são do organograma da UTFPR, 3 de instituições vinculadas à UTFPR, e os demais são de lugares dentro do espaço universitário não explicitados no organograma, mas de uso comum a todos.
Os 23 sinais novos são: 1) Conselho Universitário (COUNI); 2) Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (PROGRAD); 3) Diretoria Geral (DIRGE); 4) Ouvidoria; 5) Coordenação de Tecnologia na Educação (COTED); 6) Assessoria de Comunicação (ASCOM); 7) Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI); 8) Coordenadoria de Gestão de Tecnologia da Informação (COGETI); 9) Divisão de Manutenção e Suporte ao Usuário (DIMASU); 10) Diretoria de Graduação e Educação Profissional (DIRGRAD); 11) Secretaria de Bacharelados e Licenciaturas (SELIB); 12) Departamento de Educação (DEPED); 13) Núcleo de Ensino (NUENS); 14) Secretaria de Gestão Acadêmica (SEGEA); 15) Departamento de Registros Acadêmicos (DERAC); 16) Diretoria de Pesquisa e Pós-Graduação (DIRPPG); 17) Diretoria de Relações Empresariais e Comunitárias (DIREC); 18) Departamento de Extensão (DEPEX); 19) Departamento de Estágios e Cursos de Qualificação Profissional (DEPEC); 20) Diretoria de Planejamento e Administração (DIRPLAD); 21) Departamento de Serviços Gerais (DESEG); 22) Associação de Servidores da UTFPR (ASSUTEF); 23) Fundação de Apoio à Educação, Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico da UTFPR (FUNTEF-PR).
Os setores e lugares que já possuíam sinais nos campi, e que foram mantidos e padronizados os mesmos sinais, são oito: 1) Coordenadoria de Gestão de Recursos Humanos (COGERH); 2) Departamento de Biblioteca (DEBIB); 3) Anfiteatro; 4) Guarita; 5) Posto de Fotocópia (XEROX); 6) Restaurante Universitário (RU); 7) Banheiro; 8) Banco[5].
No caso do setor Núcleo de Acompanhamento Psicopedagógico e Assistência Estudantil (NUAPE), havia dois sinais diferentes: um foi extinto e o outro mantido como padrão para todos os campi, conforme ilustrado a seguir.
Figura 14 – Sinal 1 “NUAPE” extinto
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Fonte: Material didático autoral elaborado pelas professoras de Libras da UTFPR, campus Pato Branco.
A figura 14 ilustra a constituição do sinal “NUAPE” que existia e foi extinto. Esse sinal era constituído usando as duas mãos, sendo a mão ativa na configuração nº 21 da figura 1, e a mão passiva na configuração nº 69 da figura 1, com o ponto de articulação no espaço neutro, mão ativa tocando duas vezes a mão passiva e expressão facial neutra.
Figura 15 – Sinal 2 “NUAPE” mantido
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A figura 15 ilustra a constituição do outro sinal “NUAPE” existente, que foi mantido e padronizado. Esse segundo sinal é constituído usando as duas mãos, sendo a mão ativa na configuração nº 21 da figura 1, e a mão passiva na configuração nº 69 da figura 1, com o ponto de articulação no espaço neutro, mão ativa tocando a mão passiva, e expressão facial neutra.
É importante salientar que, para a criação de cada sinal, foi essencial considerar os cinco Parâmetros da Libras explicados na fundamentação teórica: Configuração de Mão (CM), Ponto de Articulação (PA), Movimento (M), Orientação da Mão/Direcionalidade e Expressão Facial e/ou corporal, bem como a cultura visual dos surdos.
Como informado no item metodologia, após cada sinal validado pela comunidade surda, foram realizadas as sessões de fotos e filmagem desses sinais, que contou voluntariamente com a imagem de uma discente surda. A seguir estão ilustrados quatro desses sinais criados: COUNI, ASCOM, DIRPLAD e DEPED.
O Conselho Universitário (COUNI) da UTFPR é o “órgão máximo, normativo, deliberativo e de planejamento nas dimensões acadêmica, administrativa, financeira, patrimonial e disciplinar [...]” (UTFPR, 2018, p. 41).
Figura 16 – Sinal de “COUNI”
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Fonte: Material didático autoral do Projeto de Ensino Produção de um Glossário Lexical em imagens e vídeos na Língua Brasileira de Sinais (Libras) das siglas dos principais setores que compõem o organograma da UTFPR.
A figura 16 ilustra a constituição do sinal “COUNI”, que foi criado usando as duas mãos, sendo a mão ativa na configuração nº 68 da figura 1, e a mão passiva na configuração nº 12 da figura 1, com o ponto de articulação no espaço neutro, mão ativa com movimentos semicirculares, orientação para cima e para baixo e expressão facial neutra.
A Assessoria de Comunicação nos campi (ASCOM) é o “órgão responsável pela definição, planejamento, execução, acompanhamento, registro e avaliação dos processos relacionados à comunicação interna e externa do Câmpus” (UTFPR, 2018, p. 114).
Figura 17 - Sinal de “ASCOM”
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Fonte: Material didático autoral do Projeto de Ensino Produção de um Glossário Lexical em imagens e vídeos na Língua Brasileira de Sinais (Libras) das siglas dos principais setores que compõem o organograma da UTFPR.
A figura 17 ilustra a constituição do sinal “ASCOM”, que foi criado usando as duas mãos, sendo a mão ativa na configuração nº 64 da figura 1, e a mão passiva na configuração nº 25 da figura 1, com o ponto de articulação no espaço neutro, mão ativa com movimentos semicirculares repetitivos, orientação para cima e expressão facial neutra.
A Diretoria de Planejamento e Administração (DIRPLAD) nos campi é o “órgão de coordenação do planejamento, responsável pela elaboração, controle e execução orçamentária, financeira e patrimonial do Câmpus” (UTFPR, 2018, p. 46).
Figura 18 - Sinal de “DIRPLAD”
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Fonte: Material didático autoral do Projeto de Ensino Produção de um Glossário Lexical em imagens e vídeos na Língua Brasileira de Sinais (Libras) das siglas dos principais setores que compõem o organograma da UTFPR.
A figura 18 ilustra a constituição do sinal “DIRPLAD”, que foi criado usando as duas mãos, sendo a mão ativa na configuração nº 39 da figura 1, e a mão passiva na configuração nº 68 da figura 1, com o ponto de articulação no espaço neutro, mão ativa com dedos polegar e indicador realizando movimentos de flexão repetidamente, orientação para baixo e expressão facial neutra.
O Departamento de Educação DEPED é o setor responsável por desenvolver atividades que implementam melhorias para os processos de ensino e de aprendizagem a partir do acompanhamento de desempenho de docentes e discentes (UTFPR, 2018).
Figura 19 - Sinal “DEPED”
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Fonte: Material didático autoral do Projeto de Ensino Produção de um Glossário Lexical em imagens e vídeos na Língua Brasileira de Sinais (Libras) das siglas dos principais setores que compõem o organograma da UTFPR.
A figura 19 ilustra a constituição do sinal “DEPED”, que foi criado usando as duas mãos, com configurações iguais. Partindo da configuração nº 68 (figura 1), as mãos se abrem para a configuração nº 6 (figura 1), com o ponto de articulação no espaço neutro em frente ao corpo, realizando movimentos retilíneos repetidamente, orientação para frente e expressão facial neutra.
Para além da produção do glossário em Libras das siglas dos setores da UTFPR, que já conta com 32 sinais, há outros resultados propiciados pelo projeto para a comunidade surda da UTFPR. A exemplo disso, pode-se citar a contribuição para os professores surdos e para a discente surda participantes do projeto.
Em relação aos professores surdos, no desenvolvimento do projeto, constatou-se que deles não conheciam alguns setores e, portanto, não sabiam qual era a função deles. Ter esse conhecimento sobre o ambiente de trabalho é essencial para a autonomia profissional, também para quebra de barreiras na comunicação e informação (acessibilidade linguística), e inclusão de surdo no Ensino Superior.
No Brasil, a Lei Nº 10.098, de dezembro de 2000, rege normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida (Brasil, 2000). A lei objetiva a eliminação de barreiras urbanísticas, arquitetônicas, nos transportes e nas comunicações, a fim de garantir segurança e autonomia a esses grupos. A Lei define como barreiras nas comunicações e na informação: “qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações por intermédio de sistemas de comunicação e de tecnologia da informação” (Brasil, 2000).
Corroborando com essa questão, Paiva e Melo (2021), ao tratarem sobre Políticas Linguísticas e de inclusão de surdos, afirmam que:
[...] as universidades, assim como as demais instituições de ensino, devem, portanto, implementar medidas que assegurem o acesso à comunicação, à informação e à educação (Decreto no 5.626/2005). Esse movimento social, político e legal -atuando em território hierarquizado e com fronteiras epistemológicas demarcadas - revela a necessidade de que as instituições educacionais reconheçam a existência de um outro sujeito em contexto de diferença. Essa dinâmica proporciona o acolhimento do jeito surdo de ser, retirando os surdos da condição de sujeitos idênticos e amorfos (Han, 2018). Pode-se dizer que, no momento que se manifesta na educação de surdos a diferença cultural e valorativa pertencente à comunidade surda, dá-se a oportunidade do entendimento de que “o outro, em sua irrupção, é infinitamente outro” (Skliar, 2003, p. 148, Apud Paiva; Melo, 2021, p. 91-92).
Assim, ter as siglas dos setores em Libras, por meio da produção do glossário, além de respeitar a identidade linguística da comunidade surda, viabiliza a quebra de barreiras, contribuindo para a acessibilidade linguística e a inclusão de surdos no âmbito da UTFPR.
De forma semelhante, a discente surda também teve possibilidade de entender melhor sobre os setores da instituição em que estuda e, principalmente, a oportunidade de se inserir em um grupo de trabalho de criação de sinais em Libras. Isso traz contribuições, tanto para a comunicação dela quanto para seu aprendizado e desenvolvimento.
Além disso, os surdos em geral que precisarem acessar algum(uns) setores da universidade, não enfrentarão a barreira linguística.
Considera-se que essa primeira fase do projeto foi bem-sucedida e possibilitou a sistematização metodológica da organização do glossário. Há, ainda, muitas siglas sem sinais e, por isso, o projeto terá continuidade, tanto para divulgar os sinais que já compõem o glossário quanto para a criação ou padronização dos sinais de outros setores.
Considerações
Compartilhou-se, neste texto, a experiência de um projeto de ensino sobre a produção de sinais para compor um glossário lexical em Libras dos principais setores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
Na introdução, apresentaram-se elementos importantes, tais como os conceitos de comunidade surda, povo surdo e cultura surda; a legislação que embasa o campo da Libras; o contexto e o histórico em que o projeto foi desenvolvido.
Na fundamentação teórica, partiu-se da discussão de aspectos linguísticos e estruturais da Libras já consolidados para a constituição de novos sinais. Para além disso, trouxe uma contribuição com materiais de produção própria das professoras de Libras, coordenadoras do projeto, bem como uma ampliação, elaborada pelas autoras deste artigo, no modo de descrever os sinais.
Na metodologia, descreveram-se as etapas percorridas para a produção do glossário. Destaca-se que essa metodologia precisou ser sistematizada e, dessa maneira, também é uma contribuição para o campo da Libras. O registro e a publicação desse caminho neste relato de experiência permitem que outras comunidades surdas possam segui-lo.
A primeira fase do projeto alcançou o objetivo de produção de sinais para comporem o glossário das siglas dos principais setores da UTFPR, com a criação e padronização de 32 sinais. O glossário será disponibilizado em uma plataforma da própria instituição. As proponentes do projeto vislumbram, nas próximas fases, tanto a divulgação dos sinais já criados e padronizados e a realização de oficinas para ensinar os sinais aos usuários dos setores, quanto a continuidade para ampliação de todo o organograma da instituição.
Além dos resultados com o glossário, ressalta-se que, no desenvolvimento desse projeto, dimensões foram emergindo. Percebeu-se que mais que ter acesso à sigla por sinal em Libras, muitos professores surdos não tinham conhecimento da existência de diversas unidades organizacionais e suas respectivas funções, inclusive com implicações para a autonomia de suas atividades docentes, direitos e deveres como servidores. Salienta-se, ainda, que envolver uma discente surda trouxe contribuições para formação cidadã dela.
Diante disso, a produção de um glossário em Libras dos setores da UTFPR possibilita a quebra em barreiras de comunicação, de informação e de conhecimento, promovendo acessibilidade linguística e inclusão.
Ressalta-se que esse trabalho se encontra em andamento e, portanto, haverá a continuidade de criação de sinais para os demais setores, bem como a realização de pesquisas sobre o desenvolvimento desse trabalho e seus resultados.
Referências
BRASIL. Lei n° 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2000. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l10098.htm. Acesso em: 16 set. 2025.
BRASIL. Lei nº 10436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras. Brasília, DF: Presidência da República, 2002. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm?=undefined#:~:text=Disp%C3%B5e%20sobre%20a%20L%C3%ADngua%20Brasileira,Art. Acesso em: 23 ago. 2024.
BRASIL. Decreto nº 5626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras. Brasília, DF: Presidência da República, 2005. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 23 ago. 2024.
BRASIL. Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011. Regula o acesso a informações [...] e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2011. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12527.htm. Acesso em: 23 ago. 2024.
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm?msclkid=e03ca915a93011eca55b7de3600188ab. Acesso em: 23 ago. 2024.
BRASIL. Lei nº 13.409, de 28 de dezembro de 2016. Dispõe sobre a reserva de vagas para pessoas com deficiência nos cursos técnico de nível médio e superior das instituições federais de ensino. Brasília, DF: Presidência da República, 2016. Disponível em: https://planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13409.htm. Acesso em: 06 out. 2025.
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AGRADECIMENTOS
Agradecemos aos professores surdos que participaram voluntariamente da criação e validação dos sinais: Débora Gonçalves Ribeiro Dias, da UTFPR-CP; Daniele Miki Fujikawa Bózoli, da UTFPR-AP; Renan de Bastos Andrade, da UTFPR-DV; Vanderleia Castoldi, da UTFPR-FB; e Vilmar Fernando Carvalho, da UTFPR-GP; e a Discente Surda Nathani Maria Cechonel, que cedeu sua imagem para gravação dos sinais.
Submetido: 29.08.2024.
Aprovado: 13.10.2025.
[1] Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco: dalvane@utfpr.edu.br.
[2] Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco: mirelia@utfpr.edu.br.
[3] Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco: alineb@utfpr.edu.br.
[4] Trata-se de um portal desenvolvido pela Coordenação de Tecnologia na Educação do Campus Curitiba (COTED-CT), que tem como objetivo democratizar o acesso à educação de qualidade, oferecendo cursos abertos, on-line e gratuitos em diversas áreas do conhecimento. Mais informações em https://sophia.ct.utfpr.edu.br/.
[5] Em alguns campi da UTFPR há Posto de Atendimento do Banco do Brasil e/ou da Caixa Econômica Federal.