Reavaliando a filosofia da linguagem bakhtiniana como visão de mundo para a etnografia virtual na educação em ciências[1]

 

Daniel Pigozzo[2]

https://orcid.org/0000-0001-6891-9660

 

Matheus Monteiro Nascimento[3]

https://orcid.org/0000-0001-8179-5391

 

 

Resumo

O presente artigo reexamina o contato dialógico entre etnografia virtual e o pensamento bakhtiniano. Contextualiza a metalinguística e sua relação com a educação em ciências e a antropologia para explorar conceitos e princípios da etnografia virtual desenvolvidos por Christine Hine para usá-los como fundamentação metodológica. Discute a diferença entre dialogicidade e diálogo para tratar da importância do trabalho de campo como ato responsável. Examina o reconhecimento de enunciados como artefatos culturais, da internet como mundo da cibercultura e de descrições etnográficos como interpretações metalinguísticas. Finaliza sintetizando reflexões em uma análise dos argumentos no debate público na plataforma X (Twitter) sobre as queimadas da Amazônia de 2019. Observa-se que pessoas no X buscavam não apenas enunciar opiniões, mas evidenciar algo que 280 caracteres não conseguiam comunicar, algo que foi mudando de natureza de enunciado para enunciado no passar dos dias. Porém, conclui-se que a divisão ideológica entre interlocutores críticos e apologistas do governo bolsonarista se manteve, mesmo as práticas discursivas de ambos sendo relativamente semelhantes.

 

Palavras-chave: Etnografia virtual. Metalinguística. Bakhtin. Educação em ciências.

 

 

 

Reevaluating Bakhtin’s philosophy as a worldview for virtual ethnography in science education

 

Abstract

This paper explores the dialogic contact between virtual ethnography and Bakhtinian thought. It contextualizes metalinguistics and its relationship with science education and anthropology to explore concepts and principles of virtual ethnography developed by Christine Hine to use them as a methodological framework. It discusses the differences between dialogism and dialogue to deal with the importance of fieldwork as a responsible act. It examines the recognition of statements as cultural artifacts on the internet as a world of cyberculture and ethnographic of descriptions as metalinguistic interpretations. It is concluded by synthesizing reflections in an analysis of the arguments in the public debate on X (formerly Twitter) regarding the 2019 Amazon fires. It is observed that people on X sought not only to express opinions, but also to highlight something that 280 characters could not convey, something that changed in nature from utterance to utterance over the course of days. However, it is concluded that the ideological division between interlocutors, critics and apologists of the Bolsonaro government, remained, even though the discursive practices of both were relatively similar.

 

Keywords: Virtual ethnography. Metalinguistics. Bakhtin. Science education.

 

 


 

Introdução

 

A etnografia é uma abordagem de pesquisa bem estabelecida no campo educacional. No Brasil, surgiu no fim da década de 1970, ampliou sua popularidade nos anos de 1980 e se consolidou na década de 1990, com revisões e críticas às concepções existentes (André, 1997). Na educação em ciências, apesar de níveis diferentes de popularidade, uma consolidação semelhante é perceptível (Santos; Greca, 2013).

Educação em ciências e etnografia costumam dialogar por formas tradicionais, isto é, situadas presencialmente em microcosmos culturais, comunidades ou grupos sociais que ocupam espaços físicos como escolas, salas de aula, museus etc.; diálogo conhecido como etnografia educacional (Yon, 2003). No Brasil, há indícios (Santos; Greca, 2013) de que críticas direcionadas à etnografia como metodologia na educação em ciências podem ter estagnado a sua popularidade, favorecendo outros tipos de pesquisas qualitativas.

A etnografia já superou diversas dificuldades historicamente impostas e não é mais vista como descrições neutras feitas por pessoas isentas (Hammersley, 2018; Peirano, 2014). Hoje, fazer etnografia é escrever cultura, é usar uma lógica de investigação, é descrever densa e poeticamente e é enunciar discursos políticos e sociais (Clifford, 2008; Green; Dixon; Zaharlick, 2005; Willis; Trondman, 2002). Ademais, suas noções de público, espaço e temporalidade mudaram muito (Escobar et al., 1994; Hine, 2000; Marcus, 1995), algo que se proliferou nas apropriações da etnografia por outras áreas, mas não se tornou regra. Na educação em ciências, ainda há formas de realizar etnografias relativamente despreocupadas com fundamentações teóricas (Agar, 2006; Hammersley, 2006).

Entre as mudanças nas noções existentes de etnografia, surgem novos referencias para fundamentar suas práticas. Destacamos a influência de teorias linguísticas, estudos culturais, concepções histórico-dialéticas e abordagens sociológicas. Mudanças também ocorreram na superação dos limites espaço-temporais graças às pesquisas que articulam diferentes noções de cultura e comunidade em espaços alternativos considerados imateriais, como a internet. Assim, a etnografia virtual tornou-se uma alternativa metodológica capaz de alcançar o nível de popularidade de outras formas de etnografia.

Porém, apesar do reconhecimento de que etnografia não é só um método ateórico, e etnografia virtual também não é (Cesarino, 2021; Máximo et al., 2012; Rifiotis, 2013; Segata, 2014), faltam discussões sobre referenciais que podem fundamentá-la. É nesse cenário que nos inserimos. Nosso objetivo, aqui, é promover a etnografia virtual como prática da pesquisa qualitativa online, defendendo o pensamento bakhtiniano como visão de mundo e ampliando debates recentes (Couto Jr., 2013; Couto Jr.; Oswald, 2016). Nossa questão de pesquisa é: quais são as aproximações e afastamentos entre o pensamento bakhtiniano e os princípios da etnografia virtual? Não propomos uma forma de ler descrições etnográficas a partir de Bakhtin, mas algo mais profundo: uma forma dialógica de construir descrições etnográficas bakhtinianas.

Na seção 2, apresentamos o pensamento bakhtiniano e seu contato com a antropologia e a educação em ciências. Na seção 3, exploramos questões terminológicas e demarcamos os termos utilizados. Na seção 4, discutimos o trabalho de campo da etnografia virtual. Nas seções de 5 a 7, reavaliamos aproximações e afastamentos entre etnografia virtual e pensamento bakhtiniano, passando pelas noções de dialogicidade, ato responsável, enunciado, mundo da cultura e interpretação metalinguística. Na seção 8, trazemos um exemplo, feito a partir da discussão das seções anteriores, sobre a experiência de acompanhar o debate público sobre as queimadas na Amazônia de 2019, analisando quais sujeitos se manifestaram com discursos de repercussão significativa e os diferentes modos pelos quais seus argumentos repercutiram. Ao final, sintetizamos o raciocínio construído no presente artigo, seguido pelas considerações finais.

 

Contextualização

 

Aqui, exploramos o potencial do olhar da antropologia digital e da etnografia virtual vinculado ao pensamento bakhtiniano na educação em ciências. Portanto, discutimos como usar a internet para desenvolver descrições etnográficas dialógicas.

O pensamento bakhtiniano é uma forma de interpretar e explorar a natureza de enunciados e gêneros discursivos através da correlação entre materiais linguísticos concretos (Bakhtin, 2016; Volóchinov, 2021). Uma das principais premissas da metalinguística é que “toda interpretação é o correlacionamento de dado texto com outros textos” (Bakhtin, 2017, p. 66), considerando que “o texto é um enunciado, o diálogo entre textos é um diálogo entre enunciados, e por trás do enunciado existe o falante, o sujeito dotado de consciência” (Bezerra, 2013, p. XVII). Toda interpretação depende de elementos que só o sujeito responsável por ela é capaz de articular, pois só ele é capaz de discursar a partir do lugar único que ocupa no mundo. Em outras palavras, todo sujeito manifesta um excedente de visão através de sua interpretação. Assim, a metalinguística busca ultrapassar, legitimamente, os limites da linguística, sem ignorar contribuições que ela tem a oferecer, mas considerando a realidade social em que atos comunicacionais ocorrem e, portanto, aproximando-se de áreas como a antropologia.

A relação entre antropologia e pensamento bakhtiniano surge da aproximação entre estudos culturais, literatura e linguística. Porém, a apropriação de Bakhtin pela antropologia é diferente da apropriação pela educação em ciências. A aproximação a partir dos estudos culturais, análises literárias e teorias linguísticas explora o conceito de cronotopo, a estilística, a estética e o reconhecimento da descrição etnográfica, como os romances da nossa era (Gershon, 2020; Kang; Rawlins, 2017), frequentemente referenciando O discurso no romance (Bakhtin, 2015) ou As formas do tempo e do cronotopo no romance (Bakhtin, 2018). A educação em ciências, por sua vez, referencia Os gêneros do discurso (Bakhtin, 2016) e Marxismo e filosofia da linguagem (Volóchinov, 2021) para analisar enunciados relacionados à educação e às ciências a partir do modo como refletem e refratam a realidade (Deconto; Ostermann, 2020).

Nosso trabalho está na interseção entre as duas apropriações de Bakhtin. Entretanto, estudos bakhtinianos relacionados à internet na educação em ciências mantêm uma inclinação ao modo de apropriação da própria educação em ciências. Portanto, focamo-nos nos textos Os gêneros do discurso (Bakhtin, 2016) e Marxismo e filosofia da linguagem (Volóchinov, 2021).

 

Terminologia e demarcações

 

Estudos etnográficos relacionados à internet apresentam diversas nomenclaturas. Etnografia de hashtags, etnografia da internet, etnografia mediada por computador, etnografia de mundos virtuais, etnografia online, etc. Algumas possuem significados específicos, mas muitas são sinônimos. Métodos digitais para a etnografia, por exemplo, aproximam-se da teoria ator-rede, de Callon, Latour e colaboradores (Caliandro, 2018). Em contrapartida, netnografia (Kozinets, 1998) é um amálgama entre estudos culturais, teorias críticas e pesquisas sobre consumo de áreas como administração, turismo, publicidade etc. que, apesar de popular, não é a melhor forma de descrever estudos essencialmente antropológicos por, entre muitos fatores, ecoar ideias ultrapassadas sobre comunicação mediada por computador (Máximo et al., 2012).

Na literatura, etnografia virtual e etnografia digital são os principais termos com adequação equivalente, pois surgem de concepções antropológicas compatíveis com noções atuais de etnografia (Máximo et al., 2012). Ambos surgem de contribuições individuais ou pequenos grupos colaborativos (etnografia virtual de Hine e etnografia digital de Pink e Horst) que apresentam grande popularidade. Etnografia virtual pode ser associada unicamente à Hine, e alguns autores (Jensen et al. 2022) destacam etnografia digital como o termo mais adequado, de acordo com livros didáticos e manuais. Porém, nos trabalhos baseados no pensamento bakhtiniano, há uma preferência por etnografia virtual (Couto Jr., 2013; Sniukaite, 2007; Souza; Ferreira, 2020), pois inclui diversas perspectivas. Mais recentemente, Hine (2015) usa sinônimos, como etnografia para a internet para indicar que a etnografia virtual não é um enquadramento fechado em si mesmo. Pink também diversificou seus objetos de estudo e os termos que utiliza (Pink et al., 2022; Pink, 2024). Assim, tanto etnografia virtual quanto etnografia digital são adequados, mas em consideração ao histórico de referências à Hine, priorizamos etnografia virtual.

Por fim, há os termos do campo de investigação: internet, web, ciberespaço, mundo digital, rede social etc. Pela natureza holística da etnografia virtual, termos como ciberespaço, cibercultura e internet são mais adequados. Porém, a escolha de nomenclatura do campo de investigação é mais estética do que conceitual, excetuando-se termos que delimitam ambientes ou plataformas específicas (rede social ou Facebook, por exemplo), muitos são sinônimos cujas diferenças não são consensos na literatura especializada.

 

Princípios gerais

 

Destacamos a obra Virtual ethnography (Hine, 2000) como referencial profícuo para diferentes estudos na internet e reconhecemos, no texto, um conjunto de princípios norteadores.

Entre eles, há a importância da manutenção de uma presença online contínua, um envolvimento intenso com o contexto estudado, observando e interagindo com seus elementos cotidianos. A etnografia virtual problematiza a internet e evidencia “[o] status da internet como um modo de comunicação, como um objeto na vida das pessoas e como um local onde formações como comunidades são concretizadas e sustentadas nas formas em que é usado, interpretado e reinterpretado” (Hine, 2000, p. 64, tradução nossa). Nesse sentido, Sniukaite (2007, p. 22, tradução nossa) afirma, em seu trabalho, que “o entendimento bakhtiniano sobre enunciado e dialogicidade, suas abordagens quanto a gênero e sua teoria do ato discursivo são especialmente úteis ao considerar a coerência e as dissonâncias de uma comunidade ativista online”. A filosofia bakhtiniana é útil para analisar discursos online porque é capaz de evidenciar o status da internet como signo – ou mundo de signos – e de descrever o uso da internet como processo de significação e ressignificação da realidade, ou seja, como reflexões e refrações dos pontos de vista de comunidades virtuais e dos modos de comunicação digital.

Novas formas digitais de comunicação desafiam conceitos tradicionais da antropologia, enquanto a delimitação da internet como campo de estudo continua em aberto. Assim, segundo Hine (2000, p. 64, tradução nossa), “o ciberespaço não deve ser pensado como um espaço separado de quaisquer conexões com a ‘vida real’ e interações frente-a-frente”. É um campo formado por conexões complexas que dependem de tecnologias que são usadas e interpretadas distintamente em diversos contextos, permitindo que etnografias tenham flexibilidade interpretativa e possibilitando a criação de problemas de pesquisa inéditos e o reconhecimento da internet tanto como cultura quanto artefato cultural.

Assim, a etnografia virtual é mais remota e móvel do que multissituada ou situada em local específico. É preciso se deslocar de forma tanto espacial quanto temporal pelo campo de estudo, usando diversos locais e plataformas em diferentes intervalos de tempo, síncrona ou assincronamente. A internet permite que novos registros textuais e audiovisuais sejam feitos a todo momento, ao lado de versões passadas de registros semelhantes e, com deslocamentos espaciais e temporais, é possível mapear esses registros e suas diferentes conexões com outras comunidades ou culturas. Tal princípio está em sintonia com a filosofia bakhtiniana e seu compromisso em nunca afastar o discurso do seu contexto imediato e extraverbal.

Na etnografia virtual, não se deve mobilizar conceitos como comunidade ou cultura a priori. Nas palavras de Hine (2000, p. 64, tradução nossa), “[o] objeto da pesquisa etnográfica pode ser mais bem reformulado ao focar em ritmo e conectividade do que em localidade e delimitação como o princípio organizador”. Apesar do foco no enunciado como unidade comunicacional, o cuidado com as palavras também existe no pensamento bakhtiniano, já que é a palavra que faz ligação entre sujeitos discursivos, e que “[n]a palavra, eu dou forma a mim mesmo do ponto de vista do outro e, por fim, da perspectiva da minha coletividade” (Volóchinov, 2021, p. 205). Assim, permitir que noções de comunidade e cultura sejam emergentes do próprio trabalho de campo garante que esse cuidado seja tomado.

Portanto, também não se deve decidir os limites da descrição etnográfica a priori. “O desafio da etnografia virtual é explorar a criação de limites e a criação de conexões” (Hine, 2000, p. 64) e, assim, o fim do trabalho de campo é uma decisão pragmática que depende de limitações espaciais, temporais e criativas da pessoa responsável pela pesquisa. Com o pensamento bakhtiniano, tal fim pode ser decidido a partir de fatores como exauribilidade semântico-objetal, intenção discursiva e gênero discursivo dos enunciados analisados.

Toda etnografia é descritiva, mas parcial. Como a maioria das metodologias e métodos de pesquisa, qualitativas ou não, etnografias têm intervalos de validade específicos. As possibilidades de deslocamento espacial e temporal na etnografia virtual são um bom exemplo do quão fundamentalmente contextual é a descrição do trabalho antropológico digital.

A descrição etnográfica virtual é, essencialmente, um texto materializado a partir do engajamento com vivências humanas experienciadas a partir do referencial de um, o sujeito responsável pela pesquisa, em relação a outro, uma comunidade ou cultura online; um reconhecimento alinhado ao pensamento bakhtiniano, ao considerar que “toda palavra serve de expressão ao ‘um’ em relação ao ‘outro’” (Volóchinov, 2021, p. 205). Assim, é importante registrar detalhes de forma a não ignorar que a etnografia virtual é realizada no e através do meio de imersão. Explicando de outro modo, inserimo-nos na internet para estudá-la e usamos suas próprias ferramentas – aplicativos, programas, celulares, computadores, tablets etc. – para descrevê-la. Esse engajamento com tecnologias através das próprias tecnologias também integra a etnografia virtual e, portanto, é preciso descrever sites, aplicativos ou plataformas e as empresas, instituições, redes de comunicação etc. que as sustentam. Também é importante atentar-se para a metáfora do olhar (Rifiotis, 2016) e como, através da etnografia, observamos e escrevemos sobre algo, construindo conhecimentos sobre isso ao mesmo tempo em que construímos um modo específico de observá-lo ao representá-lo e traduzi-lo através de narrativas. Na filosofia bakhtiniana, a metáfora do olhar pode ser comparada aos cuidados com as palavras ao reconhecê-las como veículos ideológicos capazes de refletir concepções de mundo e reforçar o status quo.

As tecnologias digitais também colocam em xeque o status dos indivíduos e das comunidades como informantes ou objetos de estudo. É possível que eles estejam ausentes do trabalho de campo, no sentido de não participarem diretamente, mesmo que estejam totalmente presentes e inseparáveis da descrição etnográfica. As inúmeras formas de comunicação possibilitadas pela internet devem ser usadas na etnografia, e não exigem sincronicidade espaço-temporal ou apenas comunicações diretas, como mensagens de texto, ligações telefônicas ou chamadas de vídeo. Em outras palavras, “[t]odas as formas de interação são etnograficamente válidas” (Hine, 2000, p. 65).

A etnografia virtual é holística. É importante adaptá-la a condições e objetivos que surgem no trabalho de campo, permitindo reflexões que emergem durante observações e registros. Assim, deve-se facilitar ações que ajudem na descrição das condições do campo de trabalho, permitindo que categorias surjam espontaneamente e que rupturas conceituais possam ser feitas. Descrições textuais influenciadas pelo fenômeno observado são importantes no trabalho antropológico, e a etnografia virtual deve possibilitar algo assim.

 

Dialogicidade não é diálogo

 

Expandindo as provocações de Cesarino (2021), que abordam como a antropologia digital não é apenas a etnografia virtual, exploramos uma incompreensão a ser superada: a concepção de dialogicidade como diálogo. Explicitado de outro modo, trata-se da noção de que a dialogicidade, ou dialogismo, é o mesmo que uma conversa, uma troca direta de palavras entre interlocures.

O que é dialogicidade, afinal? É aquilo que tem como função produzir significados e que está no âmago de como a linguagem é afetada pela existência de outras vozes e perspectivas (Ostermann et al., 2023, p. 010141-8). É “o ativismo do cognoscente e o ativismo do que se abre” (Bakhtin, 2017, p. 58), isto é, o ato (ativamente responsável e responsivo) do sujeito que enuncia e o ato do sujeito que interpreta, interpola, responde. Dialogicidade é a natureza da comunicação humana, a forma de descrever como sempre aprendemos e apreendemos discursos, sendo responsivos a enunciados. A filosofia bakhtiniana não trata apenas da comunicação verbalizada ou oralizada – a produção acadêmica sobre Libras a partir de Bakhtin é exemplo desse entendimento (Felipe, 2013; Lodi, 2005) – e, portanto, a concepção de dialogicidade, que é a essência da linguagem, não envolve apenas diálogos ou conversas.

Bakhtin nunca precisou se comunicar diretamente com Dostoiévski para considerarmos como dialógicas as suas análises da obra literária do autor. Portanto, no trabalho de campo antropológico, comunicação direta com participantes de uma comunidade ou interlocutores de uma cultura não é o mesmo que realizar uma etnografia dialógica. Evidentemente, o diálogo, no sentido de uma comunicação verbal direta, complementa a natureza dialógica do trabalho, mas não é sinônimo de dialogicidade.

Diversas possibilidades metodológicas envolvem observação sem contato direto com pessoas, isto é, observação não intrusiva, silenciosa e não participativa. Isso não significa que a descrição resultante é passiva ou monológica. De fato, interação e envolvimento intenso com aspectos cotidianos da internet são importantes, mas pesquisas acadêmicas online ocorrem em diversas plataformas com diferentes possibilidades (Giglietto; Rossi; Bennato, 2012), e nem todo contexto ou abordagem permite contato direto e conversacional. Hine, em Virtual ethnography (2000), realiza um trabalho de campo não-participativo e retroativo sobre o julgamento de Louise Woodward, em que analisa websites e, apesar de a pesquisadora não se identificar com a filosofia bakhtiniana, seria restritivo e inadequado afirmar que objetos de estudo ou contextos semelhantes não estariam no escopo da metalinguística.

Ademais, alguns contextos requerem atenção especial no uso de seus enunciados como objetos de pesquisa por causa do modo como o público associa a plataforma à privacidade, tanto de sua identidade quanto daquilo que enunciam (Norman Adams, 2022). Correr o risco de violar expectativas sobre privacidade ou reprodutibilidade das informações de uma comunidade online para se adequar a uma noção irrefletida de dialogicidade não é algo compatível com a filosofia bakhtiniana. Seria, na verdade, a antítese de um ato responsável, já que não há compreensão ou interpretação responsiva ao modo de ser da cultura estudada.

Tratar o trabalho de campo como ato responsável é evitar que domínios etnográficos da cibercultura sejam limitados por estruturas metodológicas pré-moldadas. Pesquisas devem representar culturas reais da internet através da combinação das características da mídia digital com os elementos da história (Underberg; Zorn, 2013). Descrições etnográficas dialógicas têm potencial para tanto porque não buscam apenas apresentar fatos, mas atrair o público leitor da etnografia e permitir que experimentem outra cultura através da descrição, pois usam recursos criativos e adaptáveis. Com o pensamento bakhtiniano, também são capazes de mapear formas de comunicação online. Logo, não é necessário realizar etnografias de grupos sociais específicos, pois é possível descrever padrões discursivos gerais de comunidades ou culturas através do reconhecimento de elementos comunicacionais cotidianos. Podem-se buscar descrições mais gerais, mas ainda densas, da cultura como um todo, e não de aspectos específicos.

Observações e descrições devem ser registradas das mais diversas formas (anotações, gravações de tela, áudios etc.) para, posteriormente, serem sistematizadas na descrição. Entretanto, devem ser feitas com atenção aos cuidados que exploramos na presente seção.

Como o contato da filosofia bakhtiniana com a etnografia precede seu contato com a etnografia virtual per se, encontramos ecos desse raciocínio em diversas pesquisas (Kang; Rawlins, 2017; Nelson, 1994; Sherman et al., 2021). Dentre elas, destacamos o estudo de Sherman et al. (2019) sobre a diversidade inerente às etnografias focando na promoção da meta-etnografia dialógica. A partir de tal estudo, pode-se questionar: como é possível defender que o trabalho de campo etnográfico mais autocentrado no(a) pesquisador(a) que existe – a meta-etnografia – é dialógica e não monológica? Sherman et al. (2021) defendem que o trabalho de meta-etnografia dialógica é a busca pela interação entre diferenças, uma busca não pela síntese, mas pela proliferação da diferença. A etnografia virtual bakhtiniana justifica-se do mesmo modo, sempre com a preocupação de se adequar às diferenças as quais quer proliferar e nas quais quer se inserir para produzir conhecimento.

 

Enunciados concretos e artefatos culturais

 

Analisar discursos na etnografia virtual exige unidades de análise que, na filosofia bakhtiniana, são os enunciados. Eles são objetos discursivos detentores de significados e materialidade cuja totalidade orgânica depende da possibilidade de existir diálogo entre interlocutores, e se concretiza de inúmeras maneiras: uma frase, uma palavra, um aceno, um sinal etc. Às formas relativamente estáveis de enunciados já consolidadas com características comuns e direcionamentos específicos, damos o nome de gêneros discursivos.

Todo enunciado é um ato comunicacional de produção do discurso. Todo discurso é um ato de produção cultural. Tanto na linguagem cotidiana quanto na literatura, expressa-se algo que é objetivado, que se materializa de alguém para outro alguém, contendo ideologias cotidianas, aquelas que são espontâneas, instáveis e casuais para interpretar o mundo a partir da socialização própria ao sujeito. Para Bakhtin, o mundo onde os atos comunicacionais de diferentes campos da atividade humana são objetivados é o mundo da cultura.

Entretanto, em trabalhos antropológicos, não é suficiente afirmar que atos comunicacionais são artefatos culturais apenas porque são objetivados por sujeitos discursivos. É necessário contextualizá-los em um grupo social ou em uma comunidade e entender como expressam uma subjetividade e uma experiência única de ser-existir. A filosofia bakhtiniana reconhece que o enunciado concreto existe nessa intersecção entre o objetivo e o subjetivo e, portanto, deve ser considerado um ato cultural objetivado; logo, um artefato cultural. Na internet, todo ato de enunciação está atrelado a representações textuais ou audiovisuais, assim como a literatura está normalmente atrelada à imprensa. Um enunciado no X pode ser um tweet ou um fio de tweets. No Instagram, pode ser foto, vídeo ou uma sequência de ambos. O meio pelo qual se enuncia muda, mas o fato de que o enunciado é um ato concretizado, não.

No pensamento bakhtiniano, o ato é a unidade integral e singular, de ocorrência irrepetível, constituído de orientações sociais, de dimensões éticas, possibilidades de ser responsável e normalizar comportamentos gerais, e de dimensões fenomenológicas, por considerar o existir-como-evento. O ato é realizado no mundo da vida, mas se materializa, em termos teóricos e estéticos, no que chamamos anteriormente de mundo da cultura. Assim, cultura pode ser considerada tanto processo quanto produto da existência humana performada em atos.

Ao reconhecer a materialidade da internet, tendo em vista as suas especificidades, é importante diferenciar o mundo em que os atos nela performados se materializam. O mundo da cultura da internet é um mundo onde tudo aquilo que experienciamos, aprendemos e ensinamos é intermediado por tecnologias digitais. É um mundo em que nossa memória e percepção direta do mundo é modificada porque todo um universo de conhecimentos – já explorados ou não – está constantemente ao nosso alcance, bastando apenas alguns cliques. Esse é o mundo de uma cultura especialmente hipermidiática: a cibercultura (Levy, 1999).

 

Descrições etnográficas e interpretações metalinguísticas

 

Quais características aproximam uma descrição etnográfica virtual do pensamento bakhtiniano?

A determinação do enunciado como objeto da análise é uma delas. Postagens, comentários, arquivos, imagens, fotos, vídeos etc., praticamente toda forma de expressão online se encaixa na concretude de um enunciado.

A caracterização do contexto imediato (autoria e tema) do enunciado e a exploração do contexto extraverbal (contexto sociocultural por trás das palavras) favorecem a construção de descrições etnográficas bakhtinianas. Ademais, a exploração do gênero discursivo facilita a caracterização e a comparação com diversos outros gêneros, tais como o gênero jornalístico, científico, etc.

Por causa da centralidade do texto na etnografia virtual, a análise da estrutura e do conteúdo dos enunciados evidencia padrões nas intenções discursivas dos sujeitos ou grupos sociais estudados. Pode-se, portanto, analisar como o conteúdo temático pode mudar de natureza de enunciado para enunciado durante a observação de uma linha do tempo.

Identificar intenções discursivas, orientações sociais e responsividades do enunciado –porque e para quem foi direcionado – ao explorar o gênero discursivo, pode indicar quais outros enunciados são referenciados e ajudar a entender o seu estilo – características semânticas, lexicais e sintáticas; elementos discursivos que devem ser contextualizados, considerando que há diversidade significativa entre as formas de comunicação na internet, especialmente em redes como o X. É possível enunciar algo pessoal e cotidiano com a expectativa de que só um círculo próximo de mutuals (pessoas que você acompanha e que te acompanham reciprocamente) reajam, sejam poucas ou muitas. Porém, também é possível enunciar algo de interesse a um grupo maior de pessoas com a expectativa de que sua voz se projete ao máximo. A natureza dialógica da comunicação humana faz com que todo enunciado seja direcionado e, portanto, há sempre uma expectativa de resposta, mesmo que seja apenas a atenção.

A análise da orientação social e responsividade combinada à descrição da estrutura e conteúdo dos enunciados pode evidenciar a existência de um gênero discursivo primário próprio à comunidade estudada. Pode-se, assim, identificar um conjunto de atos comunicacionais exclusivos ao modo como se comunicam os sujeitos que escolhem experienciar aquele espaço virtual. Atos que, em grande parte das esferas comunicacionais das redes sociais, são de natureza cotidiana, espontânea e informal.

 

 

Fires in Brazil

 

Como exemplo, aprofundamos análises anteriores (Pigozzo; Nascimento, 2023) sobre um momento conturbado do debate público sobre questões sociocientíficas no Brasil: as queimadas na região amazônica em 2019. Escolhemos as interações e vivências experienciadas no X (Twitter) como escopo do trabalho de campo. Não fazemos uma análise de redes sociais (Scott, 2011), mas descrevemos etnograficamente ambientes virtuais de modo diferente de exemplos comuns na pesquisa qualitativa online brasileira. Também não há a intenção de substituir uma forma de descrição etnográfica dialógica síncrona e conversacional por uma forma assíncrona e não (diretamente) interativa; o objetivo é expor o potencial de alternativas metodológicas.

Buscamos algo como a etnografia de hashtag (Bonilla; Rosa, 2015) ou o estudo de caso do julgamento de Louise Woodward (Hine, 2000). A questão a responder é: como argumentos e informações científicas foram enunciados por participantes de debates no X durante o episódio das queimadas na Amazônia de 2019?

Por fim, é importante destacar que as ideias do presente artigo fazem parte de um trabalho maior (Pigozzo, 2025) de intersecção entre antropologia digital e educação em ciências. Portanto, a presente seção não é um exemplo definitivo do que deve ser uma descrição etnográfica bakhtiniana, apenas uma breve demonstração que utiliza os mesmos recursos teórico-metodológicos da pesquisa na qual se insere.

 

Metodologia

 

Usamos uma abordagem criativa e adaptável para lidar com a natureza complexa e dinâmica do X. O objetivo foi mapear as formas de comunicação presentes na plataforma. Não descrevemos grupos sociais específicos, mas analisamos elementos comunicacionais cotidianos relacionados a aspectos científicos. Não simplesmente apresentamos fatos, mas descrevemos diferentes modos de comunicação. Assim, fundamentamo-nos em Bakhtin para dar densidade à descrição etnográfica, priorizando noções de enunciado, dialogicidade e gêneros do discurso.

Nossa metodologia envolve, primeiramente, delimitar o que é tratado como enunciado. Aqui, a identificação é direta: todo tweet ou fio de tweets, mesmo sem curtidas, encaixa-se perfeitamente na concretude de um enunciado. Descrevemos seus contextos imediatos, isto é, a autoria e o tema. Depois, exploramos condições extraverbais e relações com enunciados parecidos. Delimitamos gêneros discursivos para facilitar a caracterização e comparação com outros enunciados. Por fim, exploramos a orientação social dos enunciados, ou seja, para quem os discursos foram direcionados. Nosso referencial espaço-temporal é assíncrono e retroativo: acompanhamos postagens no X sobre queimadas na Amazônia a partir da publicação da notícia Dia vira 'noite' em SP com frente fria e fumaça vinda de queimadas na região da Amazônia (G1 SP, 2019), em 19 de agosto de 2019. Acompanhamos postagens com o termo queimadas por sete dias, de 19 a 26 de agosto das 19h às 20h. Usamos o pacote academictwitteR do ambiente de programação R para resgatar os tweets. Todo trabalho antropológico relacionado ao X precisa se conformar com a irreprodutibilidade da seleção de seu corpus, pois toda linha do tempo é feita algoritmicamente sob medida para uma experiência única, irreproduzível. Por isso, não temos receio de caracterizar nossa seleção de tweets como linha do tempo ou universo amostral.

Experienciar o X é, em essência, observar sequências de textos curtos, links e imagens. Rolar pela linha do tempo (altamente influenciada por algoritmos que privilegiam os conteúdos mais recentes e polêmicos) é a principal forma de interação das pessoas com o X. Portanto, o número de informações novas que circulam em dado momento pode ser elevadíssimo, e noutro, haver apenas tweets já visualizados. Ademais, selecionamos para leitura aprofundada apenas postagens com grande número de retweets, para reproduzir momentos de pico de acesso, pois simbolizam o que boa parte de pessoas ativas no X experienciou. Observações e transcrições necessárias foram registradas em caderno de campo e sistematizadas para a presente descrição.

 

Descrição

 

A notícia publicada no G1 em 19 de agosto de 2019 chama a atenção para a possibilidade de o céu escuro da tarde de São Paulo ser resultado de queimadas em outros estados. A repercussão foi massiva e imediata, isto é, a notícia foi um enunciado que permitiu inúmeros atos responsíveis. As postagens selecionadas nesse dia são bastante coesas discursivamente. Foram muitos enunciados cujo conteúdo temático é o espanto com a situação e de associação direta com a controversa política ambiental conduzida pelo então presidente Jair Bolsonaro e seu Ministro do Meio-Ambiente Ricardo Salles. Porém, é curioso que, nessa situação, o debate público conseguiu ser influenciado por pessoas que se enunciaram de forma engajante e apelativa, reconhecendo automaticamente a culpa como sendo do governo, mesmo ainda sem terem sido noticiados, até aquele ponto, explicações aprofundadas sobre a fumaça que escureceu o céu.

Por exemplo, um tweet enuncia: “O primeiro trabalho bem-feito do Bolsonaro e do ministro Salles. Ao incentivarem o desmatamento e queimadas, usando o pensamento anticiência, conseguiram transformar o dia em noite no Centro Oeste e Sudeste” (Emerson Luis, 2019). As referências e acusações sobre a existência de um modo de pensamento anticiência são, em essência, resposta ao episódio da demissão de Ricardo Galvão, um indivíduo de formação tradicionalmente científica em engenharia e física, do comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), semanas antes por ter divulgado dados sobre o desmatamento da Amazônia. Causada pelo ex-presidente Bolsonaro, essa atitude foi considerada extremamente preocupante porque indicava uma forma controversa de lidar com instituições científicas.

Além de enunciados associando as queimadas ao governo através de diagnósticos epistemológicos sobre a validade das ações de Bolsonaro, uma única postagem dentro da nossa amostra foi ponto de contato de argumentos e informações científicas com dados recentes sobre a área territorial queimada. O perfil @fiscaldoibama publicou um vídeo curto de imagens aéreas da cidade de Pimenta Bueno, em Rondônia, que demonstra que a área queimada para uso como pastagem de gado é maior do que a cidade de 40 mil habitantes (Figura 1). Porém, algo é omitido: a legalidade, ou não, da queimada no local mencionado. A relevância da omissão reside no fato de que, apesar de as queimadas serem proibidas no Brasil, o Código Florestal (Lei 12.651/2012 – Brasil, 2012) e o Decreto 2.661/1998 (Brasil, 1998) apresentam exceções, como casos de controle em práticas agropastoris e florestais, em planos de manejo de unidades de conservação e em pesquisa científica.

 

 

 

 

 

Figura 1 ‒ Postagem no X

Interface gráfica do usuário, Aplicativo

Descrição gerada automaticamente

Fonte: @fiscaldoibama.

 

O segundo dia, 20 de agosto de 2019, segue com manifestações de comoção e preocupação com a situação. Notamos tweets que relatam veículos de imprensa internacionais noticiando o caso, e que surgiu uma hashtag popular, #PrayforAmazonia. Nesse dia, vimos mais enunciados em diálogo com o gênero discursivo científico, usando dados empíricos para indicar que a questionável política ambiental do governo Bolsonaro resultou no aumento do desmatamento e das queimadas. Os tweets “E a Amazônia? Segundo os números do Inpe, o bioma mais afetado pelas queimadas é o da Amazônia, com 51,9% dos casos. Já são 16 dias de fogo contínuo que escureceram até os céus paulistanos. #PrayforAmazonia” (Comissão Pró-Índio de São Paulo, 2019); e “Entre janeiro e agosto, queimadas no Brasil aumentam 82% em relação a 2018 (Inpe) [...]” (Fórum 21, 2019) exemplificam o modo como dados empíricos são mobilizados para sustentar argumentos negativos à gestão ambiental do governo. Paralelamente, surgiu um movimento mais enfático de defesa do governo, com alegações de que o céu escuro de São Paulo, no dia anterior, não seria decorrente de queimadas da Amazônia.

Em 21 de agosto de 2019, os discursos no X em torno do assunto continuavam notáveis. O então presidente Bolsonaro afirmou que ONGs atuantes no Norte do país poderiam estar por trás das queimadas para chamar atenção contra o governo (G1, 2019). Inúmeras postagens são responsíveis de forma reacionária e crítica a essa manifestação. Afinal, Bolsonaro fez uma acusação grave e, como vimos nas matérias publicadas, não há evidências que corroborem isso.  Contudo, esse não foi o principal debate no X. A agência espacial norte-americana (NASA) divulgou imagens atualizadas da região amazônica, registrando muitos focos de incêndio e informações relevantes sobre as queimadas (Dauphin; Voiland, 2019).

A agência compartilhou dados que sugerem que a atividade de queimadas na região amazônica está próxima da média. Porém, apesar da região amazônica ser extensa e cobrir territórios em outros países, a média das queimadas nos estados do Amazonas e Pará estava, sim, acima da média. Logo, o acompanhamento da NASA e da Global Fire Emissions Database indica que as queimadas no Brasil podem ser consideradas decorrência de uma ineficiente gestão do meio-ambiente, do ponto de vista da conservação e manutenção dos biomas. Contudo, o mais importante foi a repercussão da publicação da NASA no X. Grande parte das postagens compartilham o que acabamos de descrever, que aparentemente há mais queimadas no Brasil desde que o novo governo assumiu: “Satélites da Nasa registram fumaça das maiores queimadas dos últimos 7 anos” (Brasil 247, 2019) serve como exemplo. Entretanto, a NASA afirmar que a atividade de queimadas está aparentemente na média na região amazônica serviu de argumento para pessoas que defenderam a gestão de Bolsonaro. @MarleneFFL comentou o seguinte: “Relatório da Nasa desmente mídia brasileira sobre as queimadas no mês de agosto [...] In the Amazon rainforest, fire season has arrived” (MFFL RJ, 2019). Esse dia foi bem marcante. Pudemos presenciar virtualmente a produção da verdade tão discutida desde Foucault (2010). Os mesmos dados publicados pela NASA foram usados como elementos discursivos para defender verdades completamente distintas, ecoando em variadas vozes com diferentes projetos de fala. A noite se encerrou prometendo repercussões.

O quarto dia, 22 de agosto de 2019, não trouxe novos debates em torno de informações científicas sobre o caso. Notamos que um enunciado jornalístico monopolizou as atenções dos usuários. O presidente francês Emmanuel Macron, convocando participantes da reunião do G7 a discutir as queimadas, postou: “Our house is burning. Literally. The Amazon rain forest - the lungs which produces 20% of our planet’s oxygen - is on fire. It is an international crisis. Members of the G7 Summit, let's discuss this emergency first order in two days! #ActForTheAmazon” (Macron, 2019). Assim, tweets de pessoas críticas ao governo afirmaram que o caso brasileiro se tornou efetivamente uma crise internacional.

Vemos que o tweet do mandatário picardo é emblemática, justificando uma extensa repercussão. Macron chama a atenção para a importância da Amazônia para o mundo, responsável por 20% da produção do oxigênio. A ênfase na discussão com membros do G7 sem referências ao governo nacional é evidência significativa de como a gestão de Bolsonaro é percebida por parte da comunidade internacional, e de como países do Norte global ainda se enxergam como proprietários, de certo modo, do território de nações do Sul. Nesse ínterim, as postagens em defesa do atual presidente não se propagaram tanto quanto a repercussão do tweet de Macron. Concluindo, nesse dia, houve a adição de boas pitadas de herbes de provence ao caldeirão de polêmicas brasileiro.

O quinto dia acompanhando as discussões ainda foi movimentado. Ainda houve reações ao tweet do dia anterior feito por Macron, mas as postagens mais propagadas tiveram conteúdo e temática de apoio ao presidente Bolsonaro. O que notamos, em muitos tweets desse dia, foi o surgimento de uma nova prática discursiva, apoiada em uma visão epistemológica empirista na qual as observações neutras realizadas pelo indivíduo revelam um determinado estado da natureza.

Para exemplificar, destacamos @custitica, que postou: “Morei 9 anos na Região Amazônica. Em todos os 9 anos tivemos queimadas em julho, agosto e, por vezes, em setembro. Em todos 9 anos, no período de cheias dos rios, período esses q chegam às chuvas, o verde voltou a floresta. Chega de mentiras. #MacronLies” (CusTitica, 2019).

A argumentação, aqui, sustenta a ideia de que a região amazônica não está queimando mais do que de costume e ancora-se em nove anos de observação, de uma experiência direta, acompanhando o ciclo de queimadas e chuvas locais. Em outras palavras, o autor usa sua experiência sensorial imediata como base científica para se enunciar. Desde o século XX que o empirismo-indutivismo não ressona no gênero discursivo científico como postura epistemológica aceita, mas em outras esferas sociais e gêneros discursivos parece ainda ser relevante.

Durante o sexto dia, a polêmica sobre as queimadas pareceu perder força. Com isso, tweets mais próximos do gênero discursivo científico deram lugar a postagens quase exclusivamente direcionadas ao campo político. Anteriormente, houve muitos exemplos de manifestações ancoradas em aspectos científicos, como dados sobre as queimadas, relatórios de institutos de pesquisa, ou ainda entrevistas com especialistas. Aqui, tentamos evidenciar que essas manifestações mobilizaram elementos semelhantes, mas foram enunciadas por vozes distintas. Isso significa que não identificamos práticas discursivas próprias de grupos específicos, em termos de estrutura. Porém, pessoas que se enunciaram para defender o então presidente Bolsonaro tenderam a associar, nos seus discursos, mais argumentos político-econômicos do que o grupo crítico ao mandatário. Esse sexto dia de acompanhamento evidenciou esse fenômeno. Os defensores do presidente seguiram atacando o presidente francês pela sua manifestação alguns dias atrás, através de um projeto de fala que associa o posicionamento de Macron em defesa da Amazônia a interesses puramente econômicos. As postagens, nesse sentido, trouxeram aspectos científicos para corroborar que a Região Amazônica não estava queimando mais do que a média, e ao mesmo tempo, mencionaram o presidente francês. A hashtag #Macronliar, por exemplo, começou a ser associada com uma tabela de queimadas publicada pelo INPE.

A tabela em questão apresenta a série histórica do número de focos de incêndio no Brasil para o mês de agosto, ressaltando quem era presidente em cada ano, e Bolsonaro aparece em último lugar. Qual a ideia sendo passada? O Brasil queimou menos com atual presidente do que com os outros. Porém, o que a tabela informa é que, no governo Bolsonaro, até o mês de agosto, houve o menor número de focos de incêndio na série histórica. Nada é deduzível sobre os outros meses ou sobre a média anual, o que significa que a comparação não é razoável. A postagem assemelha-se ao exemplo citado no dia 21 sobre o uso do relatório da NASA, em que apenas parte do enunciado foi utilizada para sustentar um posicionamento político. Essa forma de enunciado gera o que se convencionou chamar de fake news. Na conclusão desse dia, o tipo de postagens mais populares sobre a polêmica das queimadas mudou, saindo de uma mobilização de argumentos científicos e partindo para um debate mais político.

O sétimo e último dia acabou confirmando a tendência que se desenhava, de diminuição da presença e relevância das queimadas como pauta do debate público virtual. Os enunciados que tentavam se basear em características mais comuns ao gênero discursivo científico deram lugar a manifestações bastante dispersas, sem estruturas ou intenções bem definidas, com conteúdos aleatórios. Também houve a confirmação de que as postagens se tornaram majoritariamente de apoiadores de Bolsonaro. Logo, com o passar dos dias e com o resfriamento da polêmica, um determinado grupo passou a dominar a rede social, o que pode resultar no fortalecimento de sua narrativa em específico, ou como diria Foucault, na produção de verdades.

 

Síntese

 

Antes de sintetizar, cabe apontar como divergimos de formas tradicionais de etnografia. Onde estão as comunidades ou grupos sociais? Onde está a interação direta, comunicações verbais com sujeitos imersos em contextos culturais? Esperamos ter evidenciado como a etnografia virtual bakhtiniana redefine profundamente como e o que é descrito. Em termos teóricos, focamos em elementos constitutivos de enunciados que compõem o mundo da cibercultura, um mundo de atos objetivados em registros disponibilizados em plataformas digitais e de natureza fragmentada e dispersa, especialmente em redes sociais como o X, onde é mais comum a exposição a cadeias de enunciados tratando de um mesmo tema do que a exposição a comunidades específicas, como no Reddit, por exemplo.

Buscamos demonstrar a importância de um referencial que fundamente a etnografia virtual. Comentários sobre o contexto extraverbal são feitos em inúmeros tipos de análises, mas nas interpretações metalinguísticas, eles são parte inalienável do percurso teórico-metodológico. Por isso, destacamos tanto o contexto de polarização político-ideológica do Brasil durante a década de 2010 e que continua até hoje.

Entre os aspectos teórico-metodológicos das pesquisas de educação em ciências fundamentada na filosofia bakhtiniana, a análise da estrutura e o conteúdo dos enunciados é essencial. É por isso que realizamos tanto descrições diretas dos tweets mencionados quanto menções ao tema e contexto do enunciado, porque é isso que, no fundo, caracteriza, pelo menos em parte, o pensamento bakhtiniano.

 

Conclusão

 

No presente artigo, exploramos a relação entre filosofia bakhtiniana e etnografia virtual. A partir de conceitos já debatidos, como a ideia de a antropologia digital não ser reduzida à etnografia virtual, discutimos incompreensões comuns sobre a natureza dialógica da linguagem nas quais ela é tratada apenas como diálogo, destacando que a noção de dialogicidade, central ao pensamento bakhtiniano, não pode ser reduzida apenas a comunicações conversacionais, ao tratar o trabalho de campo etnográfico como ato responsável. Ademais, caracterizamos enunciados como artefatos culturais, considerando que todo discurso é um ato de produção cultural que, na etnografia virtual, se objetiva no mundo da cibercultura.

Para demonstrar o potencial de descrições etnográficas como interpretações metalinguísticas, apresentamos um estudo sobre a experiência de revisitar o debate público durante as queimadas na Amazônia de 2019, no qual destacamos como conteúdos temáticos e intenções discursivas dos enunciados de maior repercussão mudaram durante a semana após a publicação de uma notícia emblemática. Porém, houve um padrão que não destacamos antes: postagens repercutindo notícias, imagens e enunciados de natureza jornalística, com anexos ao corpo da postagem, formaram grande parte do nosso corpus. Isto significa que pessoas no X buscavam não apenas enunciar opiniões, mas também evidenciar algo com suas postagens, algo que 280 caracteres não conseguiam comunicar. Esse algo foi mudando de natureza de enunciado para enunciado no passar dos dias. No começo, diversos dados e imagens próprias ao gênero científico circulavam. Porém, no fim, enunciados mais próximos ao campo político, como a postagem do presidente francês, se tornaram mais comuns.

O que não mudou no passar dos dias foi a divisão ideológica. Entre o público brasileiro do X, a divisão era entre críticos a Bolsonaro e apologistas a ele. Talvez nosso resultado empírico mais importante tenha sido o reconhecimento de que, apesar da divisão entre lados, as práticas discursivas de ambos são relativamente semelhantes, como o ato de compartilhar postagens de políticos ou especialistas. O que os diferenciou especificamente foi no que preferiram focar a partir das postagens compartilhadas.

Por fim, destacamos que, assim como outras avaliações do potencial do vínculo entre a metalinguística e a etnografia virtual, não encerramos a discussão nem preenchemos todas as lacunas de conhecimento. Buscamos, na verdade, expor nosso excedente de visão sobre os caminhos já trilhados pela literatura especializada. Entre as possibilidades para estudos que se interessam pelo mundo da cibercultura, destacamos a abertura para estudos comparativos (com outros períodos de queimadas, por exemplo) mais extensos, que possam complementar os elementos dialógicos que exploramos no presente artigo.

 

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Submetido: 16.10.2024.

Aprovado: 02.09. 2025.

 



[1] O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

[2] Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: danielpigozzo@protonmail.com.

[3] Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: matheus.monteiro@ufrgs.br.