Narrativas da carroça: onde o campo habita a cidade
Angélica Cosenza[1]
https://orcid.org/0000-0001-5412-5894
Cristina de Menezes Schittini[2]
https://orcid.org/0000-0003-2642-7363
Gustavo Taranto Epprecht[3]
https://orcid.org/0000-0002-0161-199
Resumo
Dentre as comunidades tradicionais, os carroceiros vivem a cidade a partir do trabalho com as carroças e charretes e na convivência com os equídeos. A presente pesquisa investiga e discute narrativas em saberes, modos de vida e conflitos ambientais dessa comunidade, na cidade de Juiz de Fora, MG, fazendo uso de estratégias qualitativas. As análises posicionam quatro eixos interpretativos: 1) o perfil social; 2) as relações com o trabalho; 3) as relações com os animais; e 4) os conflitos com a proteção animal e a lei municipal que impede a circulação de veículos de tração animal. A comunidade carroceira nos convida a perceber existências potentes, saberes ambientais invisibilizados e injustiças ambientais que constituem lugares onde o campo habita a cidade.
Palavras-chave: Conflito ambiental. Comunidades tradicionais. Educação ambiental. Carroceiros.
Wagon narratives: where the countryside inhabits the city
Abstract
Among traditional communities, wagoners make a living in the city by working with wagons and interacting with horses. This research investigates and discusses narratives on knowledge, ways of life and environmental conflicts in this community in the city of Juiz de Fora, MG, using qualitative strategies. Analyzes position four interpretative axes: 1) social profile; 2) relations with work; 3) relations with animals; and 4) conflicts with animal protection and the municipal law that prevents the circulation of animal-powered vehicles. The wagoners community invites us to perceive powerful existences, invisible environmental knowledge and environmental injustices that constitute places where the countryside inhabits the city.
Keywords: Environmental conflict. Traditional communities. Environmental education. Cartwrights.
Introdução
As cidades modernas são marcadas por contradições, por presenças e ausências de grupos sociais que nelas vivem de formas diferentes, relativamente as suas posições culturais, sociais, ambientais e econômicas. Dentre as diversas comunidades tradicionalmente presentes no espaço urbano, os carroceiros constituem um grupo que vive a cidade a partir do trabalho com a carroça, com a charrete e na convivência com os equídeos. A atuação profissional no transporte de cargas e pessoas constrói a identidade desses sujeitos junto de seus animais, formando uma série de costumes, símbolos e modos de socialização próprios dos carroceiros. Assim, como apontam Oliveira e Almada (2019), os modos de vida tradicionais dos carroceiros distinguem-se de outros modos presentes na vida urbana.
Dentre as relações multiespécies, as que se desenvolvem entre seres humanos e equinos são milenares, constituíram-se pelas mais diversas formas em cada época e sociedade, caracterizam-se por relações de afetividade e significações do mundo através desse convívio (Almada; Venâncio, 2021). Os modos de vida carroceiros trazem saberes herdados dos antigos tropeiros, dos povos ciganos, indígenas e quilombolas, povos tradicionais que fazem parte da história das carroças e das charretes. Esses saberes estão em constante transformação, atravessados por conflitos e mudanças culturais, nas relações com o trabalho, com a urbanização, entre outros aspectos.
Portanto, carroceiros fazem parte de uma tradição viva e dinâmica, que responde e se adapta a desafios historicamente enfrentados. Da mesma forma, os cavalos, mulas e burros também participam de tais transformações, já que fazem parte da comunidade e são sujeitos da sociabilidade entre grupos de carroceiros, charreteiros, cavaleiros, entre grupos de identificação rural que interagem entre si. Essa rede de relações multiespécies constrói os modos carroceiros de se vestir, falar e perceber a cidade, através de palavras, termos e expressões próprias da vida com animais, currais, baias e carroças (Oliveira; Almada, 2019).
A comunidade carroceira, atualmente, está em via crescente de invisibilização, a partir de uma perspectiva moderno/colonial em que esses sujeitos não são mais interessantes a um certo tipo de cidade, onde não há espaço para animais de grande porte, como equídeos, e carroças. Os avanços da modernidade, para Mignolo (2017), são possibilitados pelo aprofundamento da colonialidade, da dominação e da opressão sobre determinados povos, sendo, então, partes que se retroalimentam dentro de um mesmo sistema. Quijano (2005) aponta que a colonialidade na América Latina apoia-se, inicialmente, na diferenciação racial para a subalternização dos povos oprimidos e seus saberes.
O domínio da subjetividade é o ponto comum entre a colonialidade do ser, que inferioriza pessoas; do saber, que subalterniza saberes; e do poder, que remete às relações de exploração, dominação e conflito; enquanto esferas de domínio da colonialidade que mantém a hegemonia capitalista (Maldonado-Torres, 2018; Walsh, 2012). Por fim, tais expressões da colonialidade fundem-se na colonialidade da natureza, para cuja compreensão, os conflitos ambientais são uma importante chave de leitura, já que revelam as disputas assimétricas em torno de bens naturais e territórios de vida, mas também os potenciais emancipatórios. Esses conflitos tornam mais visível o choque entre sociobiodiversidade, ou seja, diversidade de tradições, culturas e cosmovisões, e o projeto hegemônico. É nesse contexto que a Ecologia Política surge enquanto campo que tensiona as relações de poder que perpassam conflitos ambientais, propondo decolonizar o conhecimento e legitimar outros saberes (Leff, 2016).
A presente pesquisa, a partir de um projeto de iniciação científica do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental (GEA) da Universidade Federal de Juiz de Fora, busca investigar e discutir discursos sobre saberes, modos de vida carroceiros e o conflito ambiental que opõe grupos de proteção animal a carroceiros na cidade de Juiz de Fora, MG. Tal conflito vem ocorrendo principalmente a partir de 2019, quando a lei municipal 13.071/2014 foi efetivada, proibindo a circulação de Veículos de Tração Animal (VTA) pela área urbana da cidade. A lei institui a Política Municipal de Utilização Sustentável dos VTA para “Art. 1º: (...) estabelecer diretrizes para o exercício desta atividade, bem como assegurar a inclusão social e produtiva dos trabalhadores de VTA no âmbito do Município de Juiz de Fora” (Juiz de Fora, 2014). Contudo, a comunidade carroceira organizou-se em associação, em manifestações e em audiências públicas para exigir revisões na lei e contra a proibição de seus modos de vida, ressaltando o aspecto de exclusão social gerado pela lei, ao contrário da inclusão proposta.
Sendo assim, nós, integrantes do GEA, vimos investindo em projetos de pesquisa e de extensão que buscam formas diversas e diferentes de ler e conhecer o mundo, a fim de pensar possibilidades de enfrentamento à colonialidade que cerceia a vida de seres humanos e não humanos. Nesse percurso, identificamos os modos tradicionais de ser carroceiro em confluência de saberes entre o campo e a cidade. No sentido dado por Nêgo Bispo (Santos, 2023), essa confluência é uma força de compartilhamento de mundo, que rende, aumenta e se movimenta em direção ao reconhecimento e respeito da diversidade.
Nêgo Bispo dos Santos descreve as cidades enquanto estruturas colonialistas, apartadas da natureza, sendo um território artificializado, construído apenas para seres vivos humanos, excluindo outras formas de vida. Para o autor, “qualquer outra forma de vida que tenta existir é destruída. Se existe, é graças à força do orgânico" (Santos, 2023, p. 8). O orgânico, para ele, é o oposto do sintético, que se faz produto do descolamento dos seres humanos, que vivem uma racionalidade tecnoeconômica, capitalista urbano-industrial, em que a natureza se resume à matéria-prima e objeto a ser sintetizado pela humanidade. Esse objeto, fruto de um saber sintético, torna-se fundante para um desenvolvimento, hoje travestido de sustentável.
Pensamos com Santos (2023), que o saber orgânico é construído na/pela/para a vida, e a relação desse saber com a racionalidade ambiental existe enquanto modo de resistência e (re)existência frente à racionalidade hegemônica (Leff, 2021). A significância de um tempo que contempla a vida abre possibilidades para forjar um sistema de diferenças, diversidade e alteridade, baseado “nos princípios de sustentabilidade, autonomia, equidade e democracia, de diversidade, diferença e alteridade” (Leff, 2021, p. 58).
Esse saber orgânico ou saber ecológico está presente em comunidades quilombolas, originárias e movimentos sociais agroecológicos/orgânicos que lutam pelo direito à terra e à comida de verdade, também em comunidades tradicionais de carroceiros que fundaram cidades, ainda as habitam e com elas se formam. Tais saberes constituem modos de vida que afrontam a lógica e a racionalidade tecnoeconômica colonial, capitalista urbano-industrial. Afrontam as diversas formas de colonialidade que produzem discursos e práticas sociais que negligenciam, negam ou criminalizam sujeitos/comunidades/territórios. Pensar a partir de sujeitos subalternizados e valorizar seus modos de afrontar a colonialidade justifica-se quando entendemos que são possíveis os caminhos de quebrar paradigmas que nos encaminham à crise civilizatória, assim como à crise climática.
Segundo Miranda e Siman (2013), a cidade situa-se no âmbito das questões politicamente sensíveis e categoriza-se como espaço híbrido, atravessado dialeticamente entre a conservação e a transformação, entre as mudanças alavancadas pelo sistema capitalista moderno/colonial, mas também por várias outras formas de vida e trabalho que se fazem através de práticas sociais não hegemônicas.
Os avanços de uma determinada concepção de progresso, baseada no ideal de modernidade e na opressão colonial, resultam na expulsão simbólica das existências de práticas e modos de vida outros da cidade. Uma vez que os carroceiros são impedidos de circular no perímetro urbano, eles são apagados, invisibilizados, pressionados a se refazerem profissionalmente, culturalmente, de modo que se tornem palatáveis à nova norma cultural, estabelecida pela separação entre o rural e o urbano, o tradicional e o moderno, a sociedade e a natureza.
Para responder à questão que move esta investigação, inicialmente abordamos a metodologia com a qual compusemos esta pesquisa. Nas seções seguintes, discutimos os resultados advindos das análises discursivas, em temáticas analíticas, sendo elas: 1) Perfil Socioeconômico e Territorial dos Carroceiros; 2) Trabalho com a carroça na cidade; 3) Relações Multiespécie entre Carroceiros e animais; e 4) Conflitos com a Legislação e Proteção Animal. Por fim, em nossas considerações finais, aprofundamos o diálogo das nossas análises com o campo da Educação Ambiental em sua vertente crítica.
Metodologia
Ao longo da pesquisa qualitativa, que teve duração de 2021 a 2023, coletamos nossos dados a partir da observação participante e o total de 13 entrevistas com carroceiros ou pessoas ligadas à luta carroceira, contrárias a implementação da lei 13.071/2014. As entrevistas do tipo semiestruturadas buscaram preferencialmente, nos lugares de morada dos carroceiros, compreender narrativas de carroceiros sobre suas relações com memória, tradicionalidade, profissionalidade, conflitos ambientais, relações com animais e plantas, com a carroça, entre outros aspectos. O critério de inclusão para a seleção dos participantes da pesquisa ocorreu a partir da indicação da Associação Cultural dos Veículos de Tração Animal (ACOVETRA) e dos próprios entrevistados.
Em complemento às entrevistas, também divulgamos um questionário via Formulário Google em dois grupos de WhatsApp locais: Turma do Cavalo e Charretes e Carroças JF, ambos administrados por sujeitos pertencentes à ACOVETRA, e de referência à luta carroceira na cidade. O formulário foi organizado também em eixos temáticos, sendo o primeiro sobre o perfil socioeconômico, cultural e territorial dos sujeitos carroceiros; o segundo sobre a convivência com a carroça ou charrete e seus animais; e o terceiro sobre a relação com a lei 13.071 e com os grupos de proteção animal.
Nas próximas seções, tratamos dos dados mais relevantes para a discussão do presente trabalho, utilizando a Análise de Conteúdo (Bardin, 2011). De acordo com o método proposto por Bardin (2011, p. 37), “a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações”, em que a descrição analítica se estabelece a partir de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. No entanto, segundo a autora, tal análise não se limita ao conteúdo, podendo ser uma análise dos significados (análise temática), como também uma análise dos significantes (análise lexical, análise dos procedimentos). Nesse sentido, é necessário que se estabeleça a finalidade da análise, uma vez que sua intenção é “a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou, eventualmente, de recepção), inferência esta que recorre a indicadores (quantitativos ou não)” (Bardin, 2011, p. 44).
Conforme o método proposto, a análise temática permitiu a organização dos resultados do estudo a partir do corpus composto por 13 entrevistas com carroceiros e 22 respostas de carroceiros ao questionário. Tal análise amparou-se em três momentos: 1°) organização da análise, momento em que são expostas as ideias, estabelecendo os objetivos, meios e procedimentos utilizados para análise; 2°) a codificação, que consiste em um processo de sistematização dos dados, com base nas suas características; e 3°) categorização, na qual é feita uma classificação dos elementos por diferenciação, instituindo agrupamentos.
As análises das narrativas partem do contexto social de produção discursiva da cidade de Juiz de Fora, compilam enunciações dos sujeitos via entrevistas e via questionários, e foram construídas em torno de quatro eixos analíticos: 1) do perfil social dos carroceiros; 2) do trabalho com a carroça na cidade; 3) da relação dos carroceiros com os animais; e 4) dos Conflitos com a lei 13.071 e a Proteção Animal. A seguir, fazemos nossas análises tendo os nomes dos sujeitos preservados e substituídos por substantivos relacionados aos seus modos de vida.
Discussão e análises
Perfil socioeconômico e territorial dos carroceiros
O perfil socioeconômico, cultural e territorial dos sujeitos carroceiros compila dados como idade, escolaridade, região da cidade onde moram, até o seu envolvimento com a ACOVETRA e a ação política da comunidade carroceira como um todo. Neste eixo, buscamos discutir as especificidades socioeconômicas, culturais e territoriais da comunidade carroceira de Juiz de Fora, advindos dos questionários via formulário Google. Compreendemos que existem modos de vida carroceiros que se constroem e se transformam em relação dinâmica com o entorno, as relações sociais, históricas e ambientais de cada território.
O primeiro dado que nos chama atenção é a faixa etária dos carroceiros, que varia de menos de 30 anos (19%) até a faixa entre 56 e 60 anos (4,8%), sendo a faixa entre 51 e 55 anos a de maior porcentagem (23,8%). O número considerável de jovens demonstra a relevância cultural e profissional dos modos de vida carroceiros, também a hereditariedade/ancestralidade, uma característica marcante na construção dos saberes tradicionais, segundo Loureiro (2019).
Quanto à cor da pele, 36,3% autodeclararam-se pardos; 27,2% brancos; 18,2% morenos; 9,1% claros; e 9,1% negros. Outro dado que chama atenção por diferir de levantamentos sobre carroceiros já realizados em outras cidades brasileiras (Barbosa; Ribeiro, 2020; Oliveira et al., 2007; Ribeiro et al., 2020) é sobre a formação acadêmica dos sujeitos: a maioria (40,9%) possui o Ensino Médio completo. Contudo, a segunda maior porcentagem (36,4%) possui o Ensino Fundamental incompleto, então há uma discrepância marcante na escolaridade da comunidade carroceira. Também devemos observar que o meio de circulação do formulário, via internet, impacta esse dado, já que o acesso é dificultado por questões como escolaridade, renda e conhecimentos técnicos básicos de informática.
Atualmente, 50% dos sujeitos identificam-se mais como charreteiros, 18,2% identificam-se mais como carroceiros, e 27,3% identificam-se como os dois. É importante ressaltar que a circulação de charretes chama menos atenção da fiscalização por estar associada ao lazer, e frequentemente ser realizada em rotas pouco movimentadas que levam até as áreas rurais do município.
Todas as pessoas que responderam ao formulário e realizaram as entrevistas moram em bairros da área urbana de Juiz de Fora, que possuem características rurais. Os territórios habitados pelos carroceiros urbanos frequentemente refletem a identificação rural desses sujeitos, fenômeno chamado de rurbanização por Froehlich, Monteiro e dos Santos Ericeira (2017), onde se estabelecem relações híbridas entre as culturas da cidade e a camponesa.
A convivência dos carroceiros em seus quintais com plantas medicinais, hortas, capineiras, galinhas, cavalos e outros bichos, mostra que há uma comunidade biocultural, uma rede multiespécie que constitui as relações sociais da comunidade carroceira (Oliveira; Almada, 2019).
A ACOVETRA assume protagonismo na luta dos carroceiros, principalmente ao fim dos 5 anos de transição da Lei supramencionada, organizando mobilizações e audiências públicas. A Associação organiza-se principalmente através de reuniões, assembleias e meios virtuais. Os grupos de WhatsApp, nos quais nosso formulário foi veiculado, são moderados por figuras centrais da ACOVETRA, que sempre demonstram interesse e disponibilidade nas ações desenvolvidas pelo projeto. Assim, metade (50%) das pessoas que responderam o formulário fazem parte da ACOVETRA, mas não são da diretoria; 36,4% não fazem parte; e 13,6% são da diretoria.
Oliveira e Almada (2019) identificam, no contexto da Associação dos Carroceiros e Carroceiras Unidos (as) de Belo Horizonte e Região Metropolitana (ACCBM), que o associativismo leva à exposição pública em situações de conflito, possivelmente constrangedoras, com grupos de proteção animal. A participação de pessoas não associadas em audiências públicas, por exemplo, é afetada por essa constante ameaça de violência simbólica praticada contra os carroceiros. A frequência das pessoas que responderam ao formulário nas ações da ACOVETRA pode refletir tal receio: 54,5% participam de manifestações e audiências públicas chamadas pela associação, enquanto 31,8% não participam das ações da ACOVETRA, e o restante já frequentou apenas reuniões. Mesmo assim, os números são positivos para uma Associação que pretende organizar uma comunidade espalhada pela cidade, em uma reação imediata após a proibição da circulação dos VTA.
Terra (2014), Pereira (2018) e Gomes (2020) apontam para uma compreensão dos carroceiros enquanto sujeitos históricos e políticos, o que contextualiza as disputas de poder vividas por eles como parte de um processo de longa duração de modernização das cidades. Os autores tratam das lutas organizadas por carroceiros no Rio de Janeiro, RJ, Manaus, AM e Recife, PE, respectivamente, entre o final do século XIX e início do XX, quando o avanço da modernização dessas capitais, através de políticas públicas e atuação do setor privado de transporte, ameaçou os modos de vida desses sujeitos. Esse período é descrito como momento crucial da implementação dos valores políticos e culturais da modernidade no Brasil e no mundo, sobretudo nos grandes centros urbanos (Oliven, 2001). Assim, percebemos que a luta política dos carroceiros é historicamente construída contra um projeto de desenvolvimento e progresso que continua seguindo, até hoje, a lógica de exclusão moderno/colonial. Em Gomes (2020), por exemplo, é demonstrado que os carroceiros em Recife do século XIX eram indesejados por setores da população ao projeto de modernização da cidade. A visão de que carroceiros são sujeitos bárbaros, insensíveis e indisciplinados perdura até hoje, segundo Oliveira e Almada (2019), por exemplo, nos grupos de proteção animal que buscam criminalizar os modos de vida carroceiros.
Trabalho com a carroça na cidade
Os modos de vida carroceiros tradicionalmente constituem-se a partir do trabalho com os equídeos de tração nas carroças. Entre os entrevistados, os serviços mais frequentemente apontados foram o transporte de fretes, de materiais de construção e capim para a alimentação de animais, além do uso da carroça ou charrete para locomoção própria. O serviço de carroças para transporte de pequenas mudanças ainda é relevante para populações pobres, pelo seu baixo custo e praticidade para transitar, principalmente em bairros periféricos onde moram carroceiros.
Alguns carroceiros localizaram a importância social do trabalho na carroça, como Prancha, que mesmo depois da proibição da circulação de VTA, foi chamado por uma senhora para retirar uma pequena quantidade de entulho de sua casa, já que ela não tinha condições financeiras de contratar uma camionete. Em suas palavras: “Eu fiquei com tanta pena da dona, que eu falei… eu vou arriscar, vou botar o burro na carroça e vou lá tirar o entulho dela”. O carroceiro, que hoje trabalha como ajudante de caminhão, ainda relata que diversos conhecidos do bairro falam com ele que “tinha que ter um jeito de você voltar com a carroça para a praça”.
Em concordância com essa experiência, Correia, que no momento da entrevista era presidente da ACOVETRA, afirma que o serviço de carreto oferecido pelas carroças é o mais barato, e por isso é procurado, mesmo depois da aplicação da Lei 13.071, por camadas mais pobres da população. Isso demonstra a relevância dos carroceiros para alguns bairros periféricos de Juiz de Fora, indo na contramão de afirmações que posicionam esse ofício enquanto anacrônico e ultrapassado, consideração que também coaduna com os estudos de Oliveira e Almada (2019).
A atividade profissional dos carroceiros envolve saberes específicos sobre o trato com os animais, condução no trânsito, reconhecimento de trajetos adequados, saberes compartilhados entre as famílias e grupos de carroceiros (Oliveira; Almada, 2019). A vida nas carroças e charretes constituiu-se enquanto tradição familiar, e se mantém viva para seus filhos e neto: “Eu criei esses moleque meu tudo em cima dela [...] Ela mesmo, aí, depende da charrete pra buscar esse moleque lá no Linhares. Ela é charreteira, uai, e esse aí vai ser charreteiro, né, fio”? Assim, a hereditariedade/ancestralidade, de acordo com Loureiro (2019), mostram-se fundamentais na construção dos modos de vida carroceiros, característica comum dos saberes tradicionais. Cavaleiro, que trabalhou a vida inteira como carroceiro e construtor de carroças, conta: “Comecei a andar com meu pai pra lá e pra cá, entendeu. Nós foi criado tudo em cima da carroça, só gostava de mexer com os cavalos, só. (...) Meu pai fazia muito carreto de carroça, né? Tem quantos anos isso? Mais de 40 anos. Eu tenho 65. Vida inteira mexendo com carroça”.
Outros entrevistados ressaltaram a importância de amigos e carroceiros mais velhos para o aprendizado, como Registro, “a turma de carroceiro, lá, que às vezes deixava a gente até fazer um carreto sozinho, a gente ia aprendendo a mexer”. O convívio nas praças com carroceiros e seus filhos, além de seus animais, servia como importante espaço de educabilidade, citado frequentemente nas entrevistas. Assim como Registro, Ferradura aprendeu a ser carroceiro nas praças: “com meus 12, 13 anos, eu não tinha profissão, tava estudando. Aí trabalhava na praça de carroceiro, ficava até umas horas e depois ia estudar, e foi essa rotina direto, até meus 16 anos”.
A cidade, segundo Certeau (1994), é um espaço contraditório, sujeito às mudanças impostas pelo capitalismo, mas ao mesmo tempo ocupada por práticas que não se enquadram nos ideais de produtividade modernos. A comunidade carroceira atravessava a cidade ressaltando esse caráter contraditório, deixando marcas da identidade rural, e sendo também marcada pela vida urbana. A presença dos carroceiros, cavalos e burros nas praças e nas ruas da cidade representavam uma diversidade sociobiocultural que foi apagada pela proibição da circulação dos VTA (Oliveira; Almada, 2019).
A invisibilização e a inviabilização dos modos de vida carroceiros, intimamente ligados com o trabalho, também gera o apagamento de saberes tradicionais, no que Walsh (2012) chama de colonialidade do saber. O entrevistado Placa nos aponta que a proibição da circulação das carroças tira o serviço de outros ofícios tradicionais relacionados, como ferrador, breganhista, catireiro construtor de carroças, retireiro, entre outros[4]. Tais ofícios também carregam saberes tradicionais construídos ao longo de gerações, como mostra mais uma vez Cavaleiro:
Eu trabalhava fazendo carroça. Fazia uns carretos, voltava e pegava de novo. Eu aprendi com meu pai, meu pai era carpinteiro, uai. Meu pai era carpinteiro, era carroceiro, era pedreiro, fazia de tudo. Fazia carro de boi, canga, meu pai fazia tudo. [...] Eu e meu irmão continuou viagem, mas agora ta devagar. [...] Mas toda vida nós trabalhamos com esse negócio de carroça, aí, fazendo carroça, entendeu.
Junto da importância de defender os saberes carroceiros, Retireiro ressalta que “a importância é que é um trabalho digno, honesto, decente, entendeu? E muitas famílias foi sustentada e era sustentada através de tração animal”, demonstrando que o direito ao trabalho é uma pauta central da luta carroceira. Quando a Lei 13.071 estava sendo promulgada, em 2014, foi anunciado que haveria cursos de capacitação oferecidos aos carroceiros, para reinseri-los no mercado de trabalho. No entanto, todos os entrevistados afirmaram que esses cursos nunca aconteceram, e que a mudança de profissão não foi facilitada de forma alguma. “Quem fez essa lei não quis saber se a gente come, se bebe, se tem família, porque todo mundo tem seus deveres, todo mundo tem seus compromissos”, diz Retireiro, e complementa: “nosso sustento era tirado do nosso trabalho, do suor do nosso trabalho. Por sinal um trabalho digno, decente”.
As análises de Oliveira e Almada (2019) mostram que a profissionalidade liga-se a outros aspectos para compor os modos de vida carroceiros, tais como os aspectos sociais, culturais e ambientais. Assim, há um desejo de continuar sendo carroceiro, mesmo com outras opções profissionais, seja pela atividade estar associada ao lazer, tradição familiar, memória afetiva, entre outras motivações. O trabalho em VTA, por muitos autores, é entendido como a única opção para esses sujeitos devido a dificuldades materiais, baixa escolaridade, entre outros fatores (Barbosa et al., 2011; Barbosa; Ribeiro, 2020; Leme et al., 2014; Ribeiro et al., 2020). Exemplo disso pode ser observado quando diversos entrevistados relataram que, se pudessem, voltariam imediatamente ao trabalho nas carroças, como conta Correia: “mas se não fosse a lei, a gente tava fazendo carretinho na carroça ainda, tava movimentando ainda, pela tradição, pelo prazer mesmo da gente tocar uma carroça”.
A Ecologia Política ajuda a compreender tais narrativas, na medida em que aborda as lutas sociais e as estratégias de poder comunitárias para reapropriação da natureza e dos territórios. A perspectiva Latinoamericana mobilizará, também, os direitos culturais, as demandas por decolonização do saber/ser/poder/gênero/natureza, soberania, dignidade, pelo direito de reinventar suas identidades, de definir o modo de ser no mundo e de construir o território de vida (Leff, 2021). Dessa forma, os excertos sinalizam que carroceiros fazem parte de uma tradição viva e dinâmica de rurbanização, constituiu-se enquanto tradição familiar, e se mantém viva para seus filhos e netos.
Relações multiespécie entre carroceiros e animais
Uma dificuldade frequentemente relatada nas entrevistas foi a de continuar tratando dos animais com qualidade, depois da aplicação da Lei 13.071. A carroça era utilizada para buscar a alimentação dos animais, composta principalmente de capim, cereais e/ou ração. Alguns carroceiros não possuem veículos motorizados ou sequer habilitação, dependendo exclusivamente dos VTA para cumprir essa função, ou da contratação de fretes, o que aumenta consideravelmente os gastos com a alimentação dos animais. É o caso de Rédea, que depende da carroça para cuidar da sua égua e sua pequena criação de vacas. Segundo ele:
Pra mim tratar das 6 vacas que eu tinha aqui, eu pegava a carroça na mão e ia em Santos Dumont buscar capim, porque eu tinha que tratar delas. Porque tava na época da seca, não tinha pasto direito e tinha que tratar. Então todo dia eu tinha que buscar capim e buscava na mão.
No questionário respondido por membros dos dois grupos de WhatsApp que acompanhamos, 95,2% dos sujeitos ainda criam equídeos, entre cavalos, mulas e burros, mesmo com as dificuldades materiais impostas pela Lei 13.071. Quando perguntados sobre o papel dos animais em suas vidas, esses mesmos sujeitos consideram-nos parte da família e companheiros. Como pontua Retireiro, “ele acaba se tornando um membro, como se fosse um membro da família da gente, entendeu”? Isso demonstra a profundidade das relações afetivas que a convivência multiespécie das comunidades carroceiras constrói. Essas relações dizem de um modo de viver a natureza próximo da tradicionalidade, quando as relações ambientais são construídas e transformadas no cotidiano (Loureiro, 2019). “Viver sem o cavalo, eu não consigo mais não, é o meu amor verdadeiro”, informou Amazona, que entrou na ACOVETRA mesmo sem ser carroceira ou charreteira. Ela é amazona, ou cavaleira, e considera que a Lei 13.071 pode abrir espaço para a proibição posterior da circulação dos cavaleiros e cavaleiras, acabando de vez com a presença dos equídeos e seus donos na área urbana da cidade.
Para Rufino, Camargo e Sánchez (2020), são essas relações ecológicas que constituem a existência dessas comunidades, no que chamam de condição eco-ontológica. Então, extinguir seus modos de vida é destruir a comunidade. Tal mecanismo de destruição de comunidades é uma estratégia colonial praticada desde o início do colonialismo europeu na América Latina, e frequente até hoje, com a permanência da colonialidade (Quijano, 2005). A convivência dos carroceiros em seus quintais com plantas medicinais, hortas, capineiras, galinhas, cavalos e outros bichos mostra que há, segundo Oliveira e Almada (2019), uma comunidade biocultural, uma rede multiespécie que forma as relações sociais da comunidade carroceira.
A identificação com o meio rural surgiu nas entrevistas enquanto ponto forte para a construção de laços com animais, sejam equídeos ou outras criações. “Eu venho da roça, né [...] e ali eu cresci até 14 anos, e sempre apaixonado por cavalo. Foi lá que eu comecei a gostar, né, está na minha raiz”, conta Tração, que sente orgulho de sua origem rural e traz práticas familiares tradicionais, como a criação de animais, para sua vida na cidade. Os laços afetivos que unem as famílias e seus animais foram citados, na maioria das entrevistas, como um sentimento transgeracional. Assentado conta que sua paixão pelos cavalos veio de seu pai: “que passou pro meu irmão, que passou pra mim, meus sobrinhos todos gostam, e acho que vai ficar de geração em geração”.
Almada e Venâncio (2021) defendem que as diferentes espécies se educam na convivência, em uma troca de saberes multiespécies que abrange diversos campos do conhecimento humano, ambiental, cultural, social, político, histórico, entre outros. Portanto, uma Educação Ambiental multiespécies coloca a centralidade das outras espécies no processo educativo, através do cultivo de atentividades e afetos.
Eixo, que é amansador de equídeos, demonstra o olhar atento que se deve ter para aprender como o animal comunica suas necessidades e sentimentos: “você tem que ter uma união, entre você e o cavalo”. Essa relação de confiança se constrói com a convivência ao longo do tempo, “não é de uma hora pra outra, não. Tem animal que leva uns 3, 4 meses, tem animal que leva até mais. [...] A gente vai pegando o ritmo dele e ele vai pegando o da gente”. A relação de comunicação, a troca e a confiança que se estabelecem entre carroceiros e seus animais vêm de laços afetivos construídos no cotidiano, que constituem os modos de vida carroceiros.
Assim, os carroceiros que são obrigados pelas condições materiais a venderem ou doarem seus cavalos, fazem isso com sofrimento, e em última instância, estão sendo destituídos de um convívio que constrói suas identidades. Problemas como falta de espaço e dificuldade de manter a qualidade da alimentação do animal são os mais comuns entre esses casos, como o de Retireiro:
Eu tinha um, mas eu falei, eu vou ficar com o cavalo aqui, como é que eu vou tratar dele, como é que eu vou sustentar ele, Sem eu ta mais trabalhando? Então eu tive que, eu fui obrigado a vender, porque pra onde eu vendi ele, eu tenho certeza que ele ta sendo muito bem tratado, ele ta num lugar excelente. Por que como é que eu ia ficar com ele, sem poder trabalhar? Aí não tinha nem como eu tratar mais dele, entendeu? Do jeito que ele era acostumado a ser tratado.
É inevitável que as dificuldades econômicas enfrentadas pelos carroceiros afetem a qualidade de vida de seus animais, sendo essa uma das principais críticas aos argumentos de grupos de Proteção Animal que defendem a Lei 13.071, enquanto um mecanismo para evitar maus-tratos aos equídeos. A ACOVETRA, assim como outros carroceiros não associados que entramos em contato, afirma que o número de cavalos abandonados aumentou consideravelmente após 2019, como conta Ferradura: “depois que essa lei saiu, tá cheio de animal jogado na rua [...] que quem não tem lugar pra colocar solta pra rua”.
A própria comunidade carroceira mobiliza-se para evitar esses problemas, criando uma rede para avisar de animais que fugiram ou encaminhar os abandonados para quem tenha condições de criar. “Se eu pudesse, acolhia todos”, afirma Retireiro, mas sem o apoio dos órgãos públicos, é um problema difícil de ser resolvido. Os próprios carroceiros se reconhecem enquanto protetores de seus animais, como mostra Eixo, ao ressaltar a prioridade do bem-estar dos cavalos na vida dos colegas: “se ele tiver dinheiro pra comprar um quilo de carne e um quilo de ração pro cavalo, ele fica sem comer a carne, mas compra a ração pro cavalo. Eu conheço carroceiro desse jeito”.
Os modos de vida carroceiros foram compreendidos como formas que surgem e se moldam a partir do saber orgânico em confluência com os animais, segundo Nêgo Bispo nos ensina. Entendemos que podem ser pensados como não-hegemônicos, uma vez que são modos de vida que se mantêm com e nesse saber. A leitura de mundo desses sujeitos, e como constroem o mundo a partir de suas práticas, nos sugere formas de enfrentamento à fratura colonial/ambiental citada por Ferdinand (2022, p. 24), sendo “a oposição dualista que separa a natureza e cultura, meio ambiente e sociedade, estabelecendo uma escala vertical de valores que coloca ‘o Homem’ acima da natureza”.
Ferdinand (2022) faz uma leitura ecopolítica, a partir do Caribe, e aponta uma dupla fratura, colonial e ambiental, como cerne da crise ecológica. O autor assegura que a fratura colonial adensa uma certa forma de habitar o mundo enquanto o habitat colonial, sendo um modo violento de habitar a Terra, dada a partir da colonização europeia das Américas. Nesse habitat, toma forma hegemonicamente o homem branco europeu (e/ou seus descendentes), e os Outros, sujeitos considerados não humanos pela colonialidade, que têm seus direitos de existir negados. O habitat colonial é um habitat-sem-o-outro e fruto da dupla fratura. O habitat colonial isola sujeitos da natureza e aparta as relações multiespécies.
A dupla fratura criticada por Ferdinand (2022) criou e fomentou opressões em múltiplas colonialidades (do saber, do ser, do poder, da natureza e de gênero). Enquanto a fratura ambiental surge na modernidade, do divórcio entre cultura e natureza, estabelecendo uma escala vertical de valores antropocêntricos eurocentrados, a fratura colonial é formada pelas formas de opressão provenientes da colonialidade. Ambas as fraturas foram, na modernidade, exacerbadas pelo modo de produção capitalista.
Conflitos com a legislação e proteção animal
Os sujeitos entrevistados criticaram a ineficácia da Lei 13.071, tanto para a regularização da utilização de VTA, quanto para a defesa dos equídeos de tração. Essa afirmação reflete-se nas respostas ao Formulário Google, em que 85,7% dos sujeitos consideram que a Lei não impediu os maus-tratos aos equídeos de tração. Os carroceiros argumentam que não houve consulta à comunidade para a elaboração da Lei, o que ocasionou prejuízos desnecessários, tanto para os animais quanto para seus tutores.
Ainda no formulário, em continuidade sobre o que deveria ser feito da lei, a maioria (73,7%) afirma que ela deveria ser revista para dar mais segurança aos carroceiros e animais. Em outras palavras, esses sujeitos enxergam as políticas públicas como boas soluções para os problemas vividos por carroceiros e seus animais. Mais uma vez, fica evidente que não houve consulta à comunidade carroceira de Juiz de Fora quando da elaboração da Lei 13.071. Carroceiros e charreteiros demonstram interesse em ajudar na construção de uma Lei que tenha base na realidade material vivida pelos trabalhadores em VTA e os equídeos de tração, e para isso, é preciso “ouvir a opinião de quem realmente está na lida”.
Uma das soluções propostas pelos entrevistados é o retorno da circulação de VTA nos bairros periféricos, onde mora a maioria dos carroceiros. Esses bairros, por mais que sejam parte da área urbana de Juiz de Fora, possuem forte identificação rural e condições de trânsito que possibilitam a circulação de VTA.
Cela nos conta que a ACOVETRA tem dois papéis principais: “a luta pra resgatar a carroça e a charrete nos bairros, e o papel da ACOVETRA em contar a história de Juiz de Fora através das pessoas que viveram da carroça”. O que é defendido é uma regulamentação dos trajetos e horários permitidos, de modo a adequar as charretes e carroças ao trânsito de cada bairro. Chassi defende que “a lei foi malvista, mal interpretada [e] mal editada. Eu acho que nos bairros ainda poderia liberar”. Também, Rédea conta que, “dentro do centro da cidade, hoje, é impossível andar de carroça porque o trânsito aumentou muito e é muito fluxo de carro, e a carroça é lenta”. Para isso, segundo os entrevistados, seria necessário melhoria na fiscalização, tanto das normas de trânsito quanto ao trato dado aos animais.
A discriminação sofrida pelos carroceiros foi citada diversas vezes durante as entrevistas, e apontada enquanto motivação para a construção da Lei 13.071 dessa forma opressiva. Retireiro conta que, mesmo antes da proibição, ele e alguns colegas deixaram de transitar por certos locais centrais, para evitar conflitos:
Cada dia que passava, tava ficando mais contundente essa marcação em cima da tração animal. Aí a gente parou de conduzir, trafegar pela Avenida Rio Branco. Porque tipo assim, se uma carroça parar ali, poxa, todo mundo vai pegar, tirar foto, vai filmar. Mas se parar um carrão lá e obstruir o trânsito, ninguém vai filmar. Entendeu como é que é?
Tração também conta que um dos motivos que o levaram a trocar de profissão, ainda antes da Lei 13.071, foi que “a gente também não é bem-visto pela sociedade, pessoal acha que carroceiro ta marginalizado, e não tem nada a ver uma coisa com a outra. É isso que me levou a parar, a não querer mais”. Ele ainda conta que:
[...] uma senhora, uma vez, assim que eu comecei, ela falou assim: ‘ah, você é jovem, tão bonito, trabalhando de carroceiro? Você merece arrumar outra coisa’. Eu falei: ‘minha senhora, é o que eu gosto de fazer’, e realmente era o que eu gostava de fazer, entendeu?
Em audiência pública conquistada pela comunidade carroceira de Juiz de Fora, em fevereiro de 2020, após carroceata contra a Lei 13.071/2014, realizada em dezembro de 2019, carroceiros e charreteiros denunciaram violência simbólica praticada contra eles por parlamentares e ativistas da proteção animal, tratando-os como vagabundos, bárbaros, selvagens, traficantes, cruéis, dentre outros termos. Tal abuso é praticado também em outras cidades, como Oliveira e Almada (2019) demonstram, em Belo Horizonte, onde defensores dos direitos animais encaram os carroceiros como pobres de espírito, escravizadores, atrasados e, portanto, afirmam que as carroças devem ser extintas.
Os entrevistados reclamam que todos os carroceiros “são colocados no mesmo saco”, mas como afirma Eixo, a maioria cuida bem de seus animais, e uns poucos colocam-lhes em situações de trabalho inadequadas, como peso excessivo e falta de água e alimento. Retireiro conta que, nos anos que trabalhou na carroça, “quando a gente via que pessoas tava deixando a desejar, não tava tratando bem, a gente mesmo chegava, a gente mesmo ficava encarregado de, tipo assim, policiar”. Mais uma vez, fica demonstrado o interesse da própria comunidade de manter uma relação saudável com os animais. Por isso, defendem a dignidade de seus modos de vida tradicionais, construídos ao longo de gerações de convivência com os equídeos e carroças.
As narrativas aqui tratadas indicam que campo ou cidade não podem ser lidos de forma homogênea. Os lugares apontados, mesmo estando em território urbano, possuem suas características próprias, onde há possibilidades diversas de habitar. Essas possibilidades afrontam a colonialidade do poder capitalista urbano-industrial, que impõe uma única forma de existir nos territórios.
Os sujeitos carroceiros participantes da pesquisa compreendem, em suas narrativas, a necessidade de uma relação ética com o animal, mas questionam a forma homogênea, criminalizante de compreender o modo de ser carroceiro, principalmente pelas forças dos grupos de proteção animal, que lhes acusam de maus tratos e escravização de animais. Essa forma pode ser compreendida como derivada da colonialidade do ser. O conflito ambiental instaurado na cidade em torno da Lei que lhes tirou a condição de ecoexistência, a leitura das diversidades e diferenças, e a articulação política em movimento coletivo contribuem no enfrentamento da fratura colonial, consequentemente, ao habitat colonial que investe em construir um mundo sem o Outro.
O habitat colonial tem, como um dos seus princípios, um lugar geográfico subordinado a outro. “O habitat colonial é pensado como subordinado a outro habitar, o habitat metropolitano, ele mesmo pensado como o habitat verdadeiro” (Ferdinand, 2022, p. 49). Os sujeitos carroceiros, ao questionarem a Lei, nos dão pistas para entender como ela contribui no fortalecimento e manutenção do habitat colonial.
Considerações finais
A comunidade carroceira de Juiz de Fora, invisibilizada e apagada pela Lei 13.071, luta sobretudo pela preservação da sua memória e continuidade da construção de novas memórias, na constante transformação feita no cotidiano dos modos de vida tradicionais. A luta dos carroceiros está inserida no contexto das lutas dos povos tradicionais e povos oprimidos, pela permanência de modos de vida que não interessam ao projeto moderno/colonial. Esses povos e comunidades enfrentam a colonialidade de seus seres, saberes e poderes, que em última instância, levaria à destruição da sua condição eco-ontológica, como nos apontam Rufino, Camargo e Sánchez (2020). A perda das relações ambientais que definem povos é, ainda segundo esses autores, o seu desencanto, a sua morte em vida. O desencanto também opera no esquecimento, já que a memória, segundo Rufino (2019), é o que dá a força vital para a experiência da comunidade.
Carroceiros que entrevistamos durante o projeto sempre manifestaram o desejo de serem ouvidos, lembrados e vistos. Isso envolve o acesso à cidade, da forma em que tradicionalmente vivem e atravessam as ruas e praças. A luta em defesa dos modos de vida carroceiros é a luta pela existência dessa comunidade. A cidade, em sua transformação, opera lembranças e esquecimentos, a consolidação de certas memórias e o apagamento de outras. Tais operações, como destacam Miranda e Siman (2013), são passíveis de problematização e investigação, já que a cidade também diz do que nela foi esquecido, e não apenas do que nela foi guardado.
Identificamos que a Educação Ambiental Crítica pode contribuir para a compreensão do conflito vivido pelos carroceiros, justamente por articular suas ações partindo de uma análise material da realidade, nas especificidades vividas em cada território e nas relações de poder que impactam os modos diversos de viver a natureza (Loureiro, 2019). Isso, ao contrário de uma prática conservadora de Educação Ambiental que, ao anunciar soluções individualizadas para os problemas ambientais, busca adequar o indivíduo a padrões de comportamento interessantes à hegemonia capitalista. Brügger (1994) usa o termo Adestramento Ambiental para se opor a essas práticas, e denuncia que essa abordagem é apolítica, dada de forma vertical, e deslegitima os saberes populares e tradicionais.
Essa forma de tomar o sujeito das ações educativas enquanto objeto é fruto de modos coloniais de praticar o saber e, portanto, parte de uma lógica de opressão racista, como aponta Quijano (2005), ao falar que o racismo é a principal ferramenta de manutenção da hegemonia capitalista na América Latina. Portanto, pensamos que uma Educação Ambiental que atue junto da comunidade carroceira, como sujeito prioritário da ação educativa, deve escutar o que essas pessoas têm a dizer sobre seus modos de vida e legitimar os saberes produzidos e transformados no cotidiano com seus animais, charretes e carroças.
Por fim, defendemos uma Educação Ambiental que luta pela legitimidade dos conhecimentos produzidos pelos povos oprimidos, em defesa da vida, contra a colonialidade da natureza e o apagamento da sociobiodiversidade nas cidades. A comunidade carroceira convida nosso olhar a perceber existências invisibilizadas que constituem a cidade e seus arredores. Convida para a ação defendida por Sato e Passos (2009), de perceber o ambiente não apenas pelo olhar da tragédia, mas também pela beleza revolucionária dessas relações multiespécies que vão para além do capital.
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Submissão: 18.10.2024.
Aprovação: 13.05.2025.
[1] Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora: ar_cosenza@hotmail.com.
[2] Universidade Federal de Juiz de Fora, Simão Pereira: cris.schittini@gmail.com.
[3] Universidade Federal de Juiz de Fora, juiz de Fora: g.te@hotmail.com.
[4] Catireiro, Breganhista são termos usados por carroceiros para se referir a comercialização de equídeos e de vestimentas e acessórios tanto para carroceiros, quanto para os equídeos. Já Retireiro, no modo de vida carroceiro, designa alguém que alguém que cuida dos cavalos, que pode envolver atividades como alimentação, limpeza, cuidados básicos de saúde e, possivelmente, treino ou manejo.