Internacionalização na Educação Superior: as percepções de estudantes universitários latino-americanos em mobilidade acadêmica virtual internacional[1]
Karen Graziela Weber Machado[2]
https://orcid.org/0000-0002-5115-8989
Adriana Justin Cerveira Kampff[3]
https://orcid.org/0000-0003-1581-1693
Resumo
O presente artigo investiga as percepções de estudantes universitários latino-americanos que realizaram mobilidade acadêmica virtual internacional (MAVI). A metodologia adotada é de caráter qualitativo. A coleta dos dados ocorreu por meio de um questionário on-line, contendo quatro questões abertas e uma fechada. Para tratamento das informações, foi utilizado o método de Análise Textual Discursiva. A análise originou duas categorias: Processo Pedagógico, aprendizagem e competências globais; e Qualificação da mobilidade acadêmica virtual internacional. Os resultados do estudo oferecem insights para qualificar os processos de internacionalização por meio da MAVI, contribuindo no contexto de internacionalização das Instituições de Educação Superior.
Palavras-chave: Internacionalização. Educação Superior. Mobilidade Acadêmica Virtual Internacional. Cidadania Global.
Internationalization in Higher Education: the perceptions of Latin American university students in international virtual academic mobility
Abstract
This article investigates the perceptions of Latin American university students who carried out international virtual academic mobility (IVAM). This study adopts a qualitative methodology. Data collection took place through an online questionnaire, containing four open and one closed questions. To process the information, the Discursive Textual Analysis method was used. The analysis resulted in two categories: Pedagogical Process, learning and global skills; and Qualification of international virtual academic mobility. The results of the study offer insights to qualify internationalization processes through IVAM, contributing to the context of internationalization of Higher Education Institutions.
Keywords: Internationalization. Higher Education. International Virtual Academic Mobility. Global Citizenship.
Introdução
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, 2015, 2022) destaca que, em um mundo globalizado, torna-se importante que a educação prepare indivíduos, desde cedo e por toda a vida, com conhecimentos, habilidades, atitudes e comportamentos de que necessitam para serem cidadãos informados, engajados e com empatia. Desse modo, com a interconectividade crescente, mediante as tecnologias da informação e comunicação (TIC) e redes sociais, as oportunidades para respostas de colaboração, cooperação, aprendizagem compartilhada e coletiva têm aumentado.
A Unesco (2021) também salienta que o papel desempenhado pelos professores é de suma importância na formação dos estudantes, a fim de contribuir para se tornarem cidadãos e profissionais preparados para enfrentar os desafios atuais. Ademais, a pedagogia deve promover as capacidades intelectuais, sociais e morais dos estudantes para poderem trabalhar juntos, com respeito, empatia e confiança, e assim melhorar o mundo (Unesco, 2022). Dessa maneira, cumpre à educação preparar estudantes com competências para lidar com o mundo dinâmico e interdependente do século XXI.
As mudanças sucedidas no mundo em que vivemos, como a globalização, as tecnologias digitais e as mudanças demográficas, têm contribuído para a ocorrência de modificações ao longo do tempo no campo profissional, transformando e gerando novos empregos, funções e atribuições, assim como alterações no funcionamento das sociedades e na maneira de interagir das pessoas. Dessa forma, o desenvolvimento de habilidades pode ser visto como uma tarefa complexa, que precisa ser considerada e realizada com eficiência no contexto da Educação superior.
Pensar em alternativas para favorecer a internacionalização da Educação superior, por meio das tecnologias digitais, torna-se relevante para qualificá-la na atualidade. Uma vez que as inovações tecnológicas estão acontecendo a todo o momento, cabe formar cidadãos que saibam atuar com responsabilidade neste contexto singular. Para isso, a formação superior precisa integrar as tecnologias digitais na sua concepção, e não de uma forma superficial. Junto com a adoção das tecnologias digitais, torna-se necessário associar metodologias de ensino coerente, mais ativas, diferentes do método tradicional transmissivo baseado em aulas expositivas e no uso de livros ou apostilas, para qualificar o trabalho do professor e as aprendizagens dos estudantes.
Para tanto, o docente há de se desenvolver continuamente, durante toda a sua carreira, para poder ressignificar a prática pedagógica, atuando como mediador do processo educativo, sabendo selecionar as ferramentas adequadas e utilizando-as para permitir que o desenvolvimento do conhecimento seja significativo, buscando formas de promover o engajamento dos estudantes com os temas trabalhados. Outrossim, a instituição educativa precisa investir em infraestrutura, disponibilizar e renovar, quando for necessário, os equipamentos e os recursos tecnológicos.
Portanto, promover a articulação das tecnologias digitais na educação superior pode favorecer que os processos de ensino e de aprendizagem se tornem mais eficientes, dinâmicos e pertinentes no contexto atual. Nesse cenário, dentre as atuais demandas da sociedade, destaca-se a necessidade de atualização do sistema educativo, devido às mudanças sociais e tecnológicas. Assim, é preciso que a educação se adapte a esta realidade para ter condições de atender às exigências da sociedade vigente.
De forma abrangente, a educação superior deve ofertar uma formação profissional que contemple novas habilidades e competências, considerando o desenvolvimento do trabalho em equipe, do diálogo entre pares, da reflexão, da interação, da criticidade e da criatividade; a adaptação a situações novas; a aplicação de conhecimentos e aprendizagens; a busca de soluções e de atualização de conhecimento de maneira contínua; a fluência em diversos idiomas; a compreensão e a utilização das diferentes tecnologias, visto que elas podem ampliar o acesso às informações, permitir a expansão do conhecimento e facilitar o processo de aprendizado ao longo da vida.
Sendo assim, essas questões precisam ser consideradas pelas Instituições de Educação superior (IES), para favorecer inovações no currículo e ofertar uma educação de qualidade a todos os envolvidos no processo educacional. Diante das questões destacadas, este trabalho apresenta resultados de investigação, cujo tema central é a mobilidade acadêmica virtual internacional (MAVI). A pesquisa teve por objetivo compreender as percepções de estudantes universitários latino-americanos de mobilidade acadêmica virtual internacional, mediante suas experiências vivenciadas, no período de 2020 a 2021, que possibilitam qualificar o processo de mobilidade virtual internacional.
Referencial teórico sobre a mobilidade acadêmica virtual internacional
Segundo site do Instituto Internacional para la Educación Superior en América Latina y el Caribe (IESALC, 2021), a pandemia provocada pela COVID-19 causou grandes impactos no sistema educacional, afetando as dimensões do ensino, da aprendizagem, da pesquisa, e das diversas atividades de internacionalização das instituições educativas, especialmente no que diz respeito à mobilidade de estudantes e funcionários. Dentre os efeitos, pode-se destacar o fechamento de muitos campi universitários e a restrição das viagens internacionais.
As informações disponibilizadas no site do IESALC (2021) também destacam que uma resposta imediata se deu devido tanto ao aumento exponencial quanto ao interesse e às atividades relacionadas à mobilidade acadêmica virtual internacional (MAVI). A MAVI ocorre por meio do uso de tecnologia da informação e comunicação (TIC) e da colaboração transfronteiriça e tem por finalidade aprimorar a compreensão intercultural e a troca de conhecimento. Essas atividades podem ser desenvolvidas em um ambiente de suporte de TIC ou como uma maneira de complementar a mobilidade física.
Para Ruiz-Corbella, López-Gómez e Cacheiro-González (2021), a mobilidade virtual é desenvolvida como uma forma de aprendizagem apoiada por ferramentas tecnológicas digitais que facilitam a comunicação síncrona e assíncrona em ambientes virtuais de aprendizagem sem fronteiras. Além disso, esse tipo de mobilidade “é uma prática educacional que envolve o engajamento de grupos de alunos em longos períodos de interação intercultural on-line e colaboração com colegas internacionais, como parte integrante de seus programas educacionais e sob a orientação de educadores e/ou facilitadores” (Garcés; O’Dowd, 2021, p. 284). Já Vriens et al. (2010, p. 6695) definem a mobilidade virtual como:
[...] um conjunto de atividades apoiadas pelas TIC que realizam experiências transfronteiriças e colaborativas em um contexto de ensino e/ou aprendizagem. Essas atividades podem ocorrer em um ambiente de aprendizagem totalmente apoiado pelas TIC ou como um complemento à mobilidade física (antes, durante e depois). […] As atividades de mobilidade virtual podem cruzar fronteiras entre regiões, países, culturas e idiomas, mas também entre disciplinas. As atividades de mobilidade virtual permitem a aprendizagem colaborativa (ou seja, aprender uns com os outros) e são sempre voltadas para experiências interculturais.
Por fim, Satar (2021) explica que a mobilidade virtual se refere a uma oportunidade de estudo no exterior, possibilitando que estudantes e professores participem dos processos de ensino e de aprendizagem on-line em uma instituição estrangeira, sem precisar viajar para fora. Ademais, o documento European Cooperation in education through virtual mobility: a best-practice manual (Bijnens et al., 2006) ressalta quatro tipos principais de mobilidade virtual, conforme ilustrado no Quadro 1.
Quadro 1 - Tipos de mobilidade virtual
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Tipos |
Descrição |
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Um curso virtual (como parte de um programa) ou seminário (série) em uma instituição de educação superior |
Tem como foco o curso virtual como parte de um estudo completo em uma Instituição de Educação superior ou um seminário virtual, ou série de seminários, também em estrutura de uma IES. Os estudantes (ou cidadãos) apenas se envolvem em mobilidade virtual para um único curso ou seminário (série), e as demais atividades de aprendizagem ocorrem de forma tradicional. |
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Um programa completo em uma instituição de educação superior |
Trata-se de um programa de estudo virtual completo em uma IES, propiciando assim aos acadêmicos de diferentes países participarem de programa de estudo sem precisar se deslocar para o exterior durante o período letivo. |
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Estágios virtuais de estudantes |
Viabilizam uma preparação prática para novas formas de trabalho, em que a utilização de ferramentas, como videoconferência e espaços de trabalho colaborativos, é comum. As alocações de estudantes são organizadas entre uma instituição educativa e uma empresa em um país distinto. Estágios virtuais em empresas, especialmente, proporcionam aos acadêmicos uma experiência da vida real em um espaço corporativo através do trabalho colaborativo internacional em equipe e possibilitam à IES internacionalizar sua oferta de cursos e adaptá-la à dinâmica da economia atual. |
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Atividades virtuais de apoio a atividades presenciais |
Contribuem para melhor preparar e acompanhar os estudantes que participam num intercâmbio presencial, como o Erasmus. A seleção dos acadêmicos pode ser realizada por meios eletrônicos, como videoconferência ou webconferência, permitindo que o corpo docente visualize o candidato e verifique suas habilidades sociais e linguísticas. Posteriormente, um curso preparatório de língua e integração cultural poderia ser fornecido pela instituição anfitriã com o suporte das TIC. Ao final do intercâmbio presencial, os estudantes também podem manter contato com seus colegas, espalhados em diferentes partes do mundo, e finalizar seu projeto de pesquisa comum, ou relatório, por meios digitais. Os acadêmicos igualmente podem estabelecer uma organização denominada “Alunos Virtuais”, a fim de promover amizades e redes de relacionamentos para toda a vida. |
Fonte: Adaptado de Bijnens et al. (2006)
O manual elaborado por Bijnens et al. (2006) revela que a mobilidade virtual e presencial na educação superior pode beneficiar docentes e estudantes, em relação a questões linguísticas, culturais e educacionais, com a experiência de outros países e de seus campos acadêmicos de estudo. A mobilidade virtual pode permitir que intercâmbios sejam desenvolvidos em diversas regiões, oportunizando experiências valiosas aos sujeitos, incluindo aqueles que não poderiam se beneficiar dos programas de intercâmbio internacional presencial existentes, devido a razões sociais, econômicas, organizacionais ou outras.
Dessa forma, a mobilidade virtual pode, portanto, ser vantajosa para atender à comunidade de maneira mais ampla. No Quadro 2, pode-se observar resumidamente algumas vantagens da mobilidade virtual para os alunos, os professores e as instituições educativas.
Quadro 2 - As vantagens da Mobilidade Virtual
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Atores |
Vantagens |
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Estudantes, estagiários e aprendizes ao longo da vida |
A mobilidade virtual pode apresentar vantagens pedagógicas e enriquecer as atividades de aprendizagem consideradas mais tradicionais. O processo de aprendizagem pode ser aprimorado mediante a aprendizagem interativa e colaborativa, o qual integra os estudantes em um ambiente de aprendizagem colaborativa, mantendo os benefícios de uma presença estruturada em um campus universitário. Este ambiente também se torna acessível para públicos novos, não tradicionais e/ou remotos, que não podem assistir às aulas no campus, estudantes ao longo da vida e estudantes internacionais. Regiões e sujeitos desfavorecidos são mais facilmente alcançados, aumentando assim a igualdade de oportunidades para todos. O crescente acesso a oportunidades de aprendizagem de alto nível para indivíduos que de outra forma não se beneficiariam delas favorece a democratização da experiência de aprendizagem. Os estudantes podem obter flexibilidade no processo de aprendizagem que não conheciam anteriormente. Há uma ampliação e uma melhoria quanto à oferta de aprendizagem do ponto de vista do estudante: esse, por sua vez, tem acesso a especialistas de outras instituições, cursos, materiais de aprendizagem e recursos (bibliotecas, laboratórios...), o que vai muito além de seu próprio campus ou área geográfica. Os estudantes têm uma oferta mais atrativa, estendendo seu próprio programa com cursos que apenas estão disponíveis em universidades parceiras. Isso incentiva a autonomia dos estudantes e lhe oportuniza ter uma escolha mais ampla sobre o que, como e quando aprender. |
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Professores, treinadores, gerentes de treinamento e desenvolvedores de currículo |
A mobilidade virtual pode oportunizar aos professores que colaborem na concepção e no desenvolvimento de cursos e, ainda, na elaboração de materiais educacionais e currículos baseados na web. Além disso, novos níveis de trabalho colaborativo entre equipes geograficamente diferentes são possíveis; os trabalhadores, de forma geral, têm a oportunidade de trabalhar de maneira colaborativa e próxima aos seus colegas. Pode auxiliar os docentes a reconsiderarem a sua prática rotineira e a acrescentarem elementos inovadores e de qualidade aos seus cursos para corresponder às solicitações de colaboração transnacional e de maior integração da atividade docente. Em síntese, trabalhar em cursos conjuntos propicia uma dimensão e uma riqueza internacional que apoia a globalização da educação e das demais áreas da sociedade. |
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Instituições de Educação superior |
As iniciativas de mobilidade virtual potencializam a colaboração entre as instituições educativas e, assim, favorecem a atratividade da oferta educativa, em geral. Trazem visibilidade institucional extra a excelentes conhecimentos e saber-fazer desenvolvidos em uma determinada Instituição de Educação superior. Uma colaboração sólida pode contribuir para aumentar a qualidade da educação dentro de cada instituição parceira. Pode incentivar as instituições a se adaptarem e desenvolverem de maneira aprimorada seus modelos pedagógicos para que se tornem mais adequados para o aprendizado digital e global. O trabalho em rede e as sinergias entre instituições podem qualificar os programas e cursos, tornando assim as IES mais relevantes. O trabalho em rede também pode contribuir para a qualidade da educação através da introdução e da operação organizada de sistemas de garantia de qualidade, proporcionando uma abordagem abrangente para acreditação e benchmarking. |
Fonte: Adaptado de Bijnens et al. (2006)
A partir do manual elaborado por Bijnens et al. (2006), foi possível compreender que a mobilidade virtual pode favorecer educadores, tutores e alunos, com diferentes visões de mundo, com a oportunidade de compartilhar ideias e aprender entre si, ampliando os conhecimentos mediante uma visão global de cada participante e sob outra perspectiva, referente a um assunto específico, bem como no que concerne ao mundo em geral. Trabalhar em equipes transfronteiriças pode contribuir para desenvolver um verdadeiro e significativo sentido de cidadania global.
Há inúmeras vantagens que podem ser oportunizadas pela MAVI, que se tornaram mais evidentes, quando houve o fechamento de fronteiras e dos campi universitários. No período de pandemia da COVID-19, muitas instituições de educação superior aumentaram sua oferta de mobilidade virtual. A MAVI tem um forte potencial para reduzir os custos associados a viagens internacionais, expandir o acesso e ser uma opção ambientalmente mais sustentável para os atores envolvidos no processo educativo (IESALC, 2021).
Por outro lado, também há desafios que precisam ser enfrentados em termos de equidade e acesso às tecnologias digitais, os quais são importantes para os agentes poderem se envolver totalmente na MAVI. Como há o risco de a MAVI ser vista como uma experiência inferior à mobilidade física, conhecida como tradicional (IESALC, 2021), para que ela não perca sua qualidade, é preciso que os estudantes e os colaboradores da universidade sejam efetivamente preparados, a fim de favorecer a aprendizagem intercultural, por meio da Internacionalização em Casa (Internationalization at Home - IaH), conforme apontado por Ganassin, Satar e Regan (2021). A IaH diz respeito à implementação de estratégias para internacionalização nas instituições, com alternativas curriculares – Internacionalização dos Currículos (Internationalization of the Curriculum - IoC) – e extracurriculares que possam ser vivenciadas a partir dos próprios locais onde estudantes, professores e técnicos se encontram.
É de fundamental importância que as IES considerem a dimensão de internacionalização nas variadas atividades acadêmico-profissionais, de modo a permitir o compartilhamento de saberes sob uma perspectiva global, intercultural e interdisciplinar. As Instituições de Ensino Superior podem aproveitar as possibilidades apresentadas pelos ambientes virtuais para enriquecer as aprendizagens dos estudantes. Por diversas razões, incluindo o período de pandemia ou não, a mobilidade acadêmica virtual internacional pode se tornar uma alternativa interessante para as pessoas que pretendem valorizar o currículo e aumentar a chance de ingressar e de se manter no mundo do trabalho em cenários globais.
A mobilidade acadêmica virtual internacional possibilita aos estudantes universitários cursarem disciplinas ou cursos on-line em IES estrangeiras, de maneira concomitante com seus estudos nas suas IES de origem, oferecendo uma oportunidade para praticar outro idioma, contactar com novas culturas e internacionalizar o currículo, sem despesas com viagens. Nessa modalidade, em geral, as IES estabelecem convênios entre si, que preveem reciprocidade para mobilidade de estudantes, isentando taxas escolares na instituição de destino e validando os estudos realizados na instituição de origem do estudante.
Metodologia
A pesquisa tem abordagem qualitativa, pois visa compreender as percepções de estudantes universitários latino-americanos de mobilidade acadêmica virtual internacional, mediante experiências vivenciadas no período de 2020 a 2021.
Participaram do estudo 81 estudantes de graduação e de pós-graduação (mestrado e doutorado), vinculados a uma IES brasileira, em uma amostra composta por estudantes brasileiros em MAVI no exterior e de estudantes de outras nacionalidades latino-americanas em MAVI na IES brasileira, oriundos de 22 IES estrangeiras, da Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru.
A maioria dos participantes do estudo tem idade entre 19 e 29 anos (83,95%), com idade média de 25,42 anos. Tem o espanhol como idioma nativo (81,48%) e desenvolve o processo de mobilidade virtual por meio do idioma português (75,29%). Os estudantes participantes da pesquisa são indicados por meio da letra “E”, seguida de numeração sequencial, objetivando garantir o anonimato dos sujeitos, os quais constituíram a amostra do estudo. Para apresentar as narrativas dos sujeitos referidos, na análise desenvolvida na seção a seguir, utiliza-se o texto grifado em itálico, a fim de diferenciá-las em relação às citações de autores.
Para tratamento das informações coletadas, optou-se por utilizar o método de Análise Textual Discursiva (ATD). Segundo Moraes e Galiazzi (2014), a ATD, uma metodologia de análise de informações de natureza qualitativa intenciona produzir novas compreensões referentes aos fenômenos e aos discursos, em um movimento interpretativo de caráter hermenêutico. Em suma, Moraes e Galiazzi (2014) abordam que a ATD se caracteriza por um processo auto-organizado de construção de compreensão sobre determinado fenômeno, envolvendo quatro componentes: a unitarização; a categorização; a elaboração de metatextos e a comunicação.
Como instrumento de coleta de dados, foram propostas aos sujeitos da investigação as seguintes questões:
1) Cite a atividade mais relevante que foi desenvolvida nas aulas, na sua percepção.
2) Assinale as habilidades desenvolvidas neste processo de internacionalização por meio da mobilidade virtual (múltipla escolha):
· Pensamento crítico
· Solidariedade
· Resolução de conflitos
· Aptidão para networking (amizades)
· Interação com pessoas de diferentes contextos, origens, culturas e perspectivas
· Língua estrangeira (leitura, fala, audição, compreensão)
· Compreensão, respeito e empatia por pessoas com diferentes nacionalidades, questões culturais, sociais, religiosas e étnicas
· Criatividade
· Tomadas de decisão para agir de maneira colaborativa e responsável
· Lidar com desafios
· Raciocínio
· Resolução de problemas.
· Outras – Descreva.
3) Em sua concepção, quais foram as aprendizagens mais significativas que você adquiriu durante a realização de disciplina/curso através desta mobilidade virtual? Justifique.
4) Há mais alguma reflexão que gostaria de apresentar sobre a mobilidade virtual que está realizando/que realizou? Caso tenha, registre seus apontamentos.
5) Que sugestões você daria para um melhor aproveitamento de mobilidade virtual, visando contemplar as necessidades, os interesses e a construção de conhecimentos?
As declarações dos estudantes, ao serem submetidas à análise, originaram duas categorias: Processo pedagógico: aprendizagem e competências globais; Qualificação da mobilidade acadêmica virtual internacional. A seguir são apresentados os metatextos produzidos, contemplando as descrições e as interpretações desenvolvidas em cada categoria gerada no processo de análise.
Categoria 1 – Processo pedagógico: aprendizagem e competências globais
Segundo Machado e Kampff (2020), é importante que as IES desenvolvam práticas e iniciativas relacionadas à internacionalização ‒ mobilidade acadêmica internacional; interação com pesquisadores internacionais; participação e apresentação de estudos científicos em eventos internacionais; desenvolvimento de pesquisas comparativas, a partir de problemas globais; entre outras ‒, ao longo da educação superior, para oportunizar, assim, a todos os acadêmicos um currículo internacionalizado e prepará-los para atuar e viver em um mundo globalizado. Em sendo assim, as IES ampliarão a visão de mundo dos seus alunos e a interação como cidadãos e futuros profissionais em um ambiente internacional e globalizado.
Para conhecer a opinião dos acadêmicos, acerca da experiência deles, ao vivenciarem o MAVI, foi-lhes solicitado que respondessem a quatro questões. Para a primeira questão ‒ “Cite a atividade mais relevante que foi desenvolvida nas aulas, na sua percepção” ‒ as respostas dos participantes revelaram que eles consideraram importantes as atividades que envolveram: a) metodologias ativas diversificadas, tais como jogos, desafios, estudo de casos, projetos em grupo, proposta de intervenção, desenvolvimento de diferentes formas de texto – de ensaios a artigos científicos – individuais ou em grupo; b) materiais em formato multimídia, incluindo textos, livros, áudios, vídeos, mapas mentais e infográficos, acessados e também produzidos pelos próprios estudantes; c) desenvolvimento cultural e linguístico, por meio de discussões em salas de videoconferência com colegas e professores, webinars de professores internacionais, apresentações sobre questões culturais individuais ou em grupo, entre outros.
As atividades destacadas de forma mais recorrente pelos respondentes denotam a importância de os docentes realizarem práticas pedagógicas capazes de favorecer que os universitários tenham um papel ativo. Isso pode acontecer, especialmente, quando o sujeito participa das atividades de maneira motivada, engajada, interativa e colaborativa no contexto de aprendizado. Diante disso, Cerigatto (2018) indica que é fundamental que os professores utilizem metodologias mais abertas e colaborativas, no ambiente de ensino e aprendizagem digital, para que todos possam aprender juntos e de forma cooperativa.
Sob esse viés, Machado e Kampff (2020) abordam que a educação superior pode realizar atividades, que viabilizem o compartilhamento de saberes e experiências com pessoas de distintas regiões do mundo, possibilitando-lhes refletir a partir de múltiplas perspectivas; que construam conhecimentos científicos e culturais; que desenvolvam a autonomia, a criatividade, a inovação e o pensamento crítico; que ampliem a rede de contatos, entre outras. Para tanto, cumpre às Instituições de Ensino Superior encontrar meios para integrar as tecnologias aos procedimentos metodológicos adequados, desenvolvendo experiências de ensino e de aprendizagens significativas, por meio da Internacionalização do Currículo, que favoreçam a educação para a cidadania global.
A segunda questão solicitava aos estudantes que destacassem as habilidades desenvolvidas por eles no processo de mobilidade acadêmica virtual internacional. As respostas apresentadas pelos acadêmicos podem ser visualizadas no Gráfico 1.
Gráfico 1 - Habilidades desenvolvidas pelos estudantes na mobilidade acadêmica virtual internacional

Fonte: Elaborado pelos autores (2024)
O Gráfico 1 mostra que os estudantes ressaltaram inúmeras habilidades desenvolvidas durante o estágio, a disciplina ou o curso realizado. Identificou-se que, entre essas, as seis mais citadas pelos participantes de MAVI correspondem a: Aprendizagem de Língua estrangeira – leitura, fala, audição, compreensão – (86,42%); Interação com pessoas de diferentes contextos, origens, culturas e perspectivas (77,78%); Desenvolvimento de Pensamento crítico (64,20%); Compreensão, respeito e empatia por pessoas com diferentes nacionalidades, questões culturais, sociais, religiosas e étnicas (62,96%); Criatividade (56,79%); Aptidão para networking – amizades (51,85%).
Em vista disso, entende-se que o processo de mobilidade acadêmica virtual internacional facultou aos estudantes desenvolverem diversas habilidades, imprescindíveis para viver e trabalhar num mundo cada vez mais interconectado, dentre elas se podem destacar: as habilidades cognitivas, as habilidades socioemocionais e as habilidades atitudinais.
Conforme indicado pela Unesco (2015), as habilidades cognitivas se referem a pensar de maneira crítica, sistêmica e criativa, envolvendo a adoção de uma abordagem de múltiplas perspectivas, capaz de reconhecer diferentes dimensões, perspectivas e ângulos de questões, tais como: as habilidades de raciocínio e de resoluções de problemas. As habilidades socioemocionais englobam as habilidades sociais, como empatia e resolução de conflitos e as habilidades comunicacionais, como aptidões para networking e para a interação com sujeitos de diferentes contextos, origens, culturas e perspectivas, assim como a empatia global e o sentimento de solidariedade. E as habilidades atitudinais correspondem ao agir de modo colaborativo e responsável, tendo o intuito de encontrar soluções para os desafios globais, em prol do bem coletivo, contemplando o sentimento de compromisso e as tomadas de decisão.
Para a terceira pergunta ‒ “Em sua concepção, quais foram as aprendizagens mais significativas que você adquiriu durante a realização de disciplina/curso, através desta mobilidade virtual? Justifique” ‒ somente 4 estudantes (E34, E61, E63 e E68) não a responderam, contando, então, com 77 respondentes. As aprendizagens consideradas mais significativas por eles correspondem a: ampliar os conhecimentos acerca de um tema específico, percebendo similaridades e diferenças relativas aos aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais de diferentes países; desenvolver habilidades digitais, comunicacionais, comportamentais, atitudinais, linguísticas fundamentais (ouvir, falar, ler, escrever), em relação a uma língua estrangeira e à resolução de problemas; conhecer um modelo diferente de educação, com novas metodologias de aprendizagem, novas pessoas e dialogar com elas, além de diversas culturas, pensadores latino-americanos e seus aportes teóricos relacionados a um determinado campo de conhecimento; desenvolver o contato com variadas culturas, o raciocínio crítico, a responsabilidade, a atitude, a adaptabilidade.
De acordo com Moran (2018), a aprendizagem pode ocorrer de forma ativa e significativa, quando os sujeitos avançam em espiral, dos níveis mais simples para os mais complexos de conhecimento e competência nas variadas dimensões da vida. Esses avanços se desenvolvem por inúmeras trilhas com movimentos, tempos e desenhos diversificados, que se constituem como mosaicos dinâmicos, com diferentes ênfases, cores e sínteses, oriundas das interações pessoais, sociais e culturais em que as pessoas estão inseridas.
Ademais, Moran (2015) salienta que a aprendizagem pode se desenvolver significativamente a partir do momento em que os estudantes se encontram motivados e as atividades propostas fazem sentido para eles. Portanto, torna-se fundamental que os professores busquem conhecer as suas motivações e engajá-los em projetos criativos e socialmente relevantes.
Em virtude disso, percebe-se que a aprendizagem significativa se refere ao avanço dos conhecimentos adquiridos pelo aprendiz em relação aos seus conhecimentos prévios. Para isso se concretizar, é importante a adoção de materiais, de estratégias dinâmicas e criativas, assim como o desenvolvimento de ações pedagógicas eficazes pelos docentes, de modo a facilitar a predisposição para aprender, interagir socialmente, atribuir novos significados, ampliar e atualizar os conhecimentos dos estudantes.
Em síntese, Camargo e Daros (2021) afirmam que, no ambiente de educação digital, a aprendizagem pode se tornar significativa e efetiva, quando a experiência de aprendizagem possibilita, tanto aos professores quanto aos estudantes, o avanço de suas potencialidades, bem como o desenvolvimento de competências e habilidades a fim de atender às demandas da sociedade.
Em relação à quarta pergunta ‒ “Há mais alguma reflexão que gostaria de apresentar sobre a mobilidade virtual que está realizando/que realizou? Caso tenha, registre seus apontamentos” ‒, as reflexões apresentadas pelos estudantes a respeito da mobilidade acadêmica virtual internacional revelaram tanto contribuições/benefícios, quanto limitações/melhorias em relação aos seus processos formativos. As contribuições/benefícios se referem a: compreender que a mobilidade virtual pode ter sido impulsionada pela realidade mundial enfrentada, ou seja, devido à pandemia causada pelo Coronavírus (COVID-19), mas que se apresenta como modalidade potente no cenário global; ter vontade de continuar estudando por meio dessa modalidade educativa e também de realizar mobilidade acadêmica presencial, quando possível, para conhecer e participar de aula física em uma IES estrangeira; aprender sobre culturas, línguas, países diferentes e um novo tema; promover o desenvolvimento social a partir de uma compreensão intercultural mais ampla; contactar e conhecer outras pessoas, ampliando o networking; participar e fazer parte de uma universidade estrangeira, de excelência acadêmica; desenvolver-se e compartilhar experiências com pessoas de distintas regiões; não ter despesas adicionais com taxas escolares.
Quanto às limitações/melhorias relativas ao processo de mobilidade acadêmica virtual internacional, os estudantes ponderaram: a falta de uma experiência de mobilidade acadêmica física para conhecer presencialmente o campus universitário e as pessoas de outro país, e os problemas com a conectividade.
A falta de uma experiência de mobilidade acadêmica física para conhecer o campus universitário e as pessoas de outro país se configura como uma questão que merece ser refletida e discutida pelas IES para verificar a possibilidade de desenvolver mobilidades híbridas, com alguma atividade presencial. O fato de viajar para outros países pode contribuir para os acadêmicos terem a oportunidade de conviver com pessoas de diferentes culturas e línguas, desenvolver as habilidades linguísticas ao longo do dia, conhecer lugares, entre outros, complementando o processo de formação dos estudantes.
Já os problemas com a conectividade podem ser considerados um desafio a ser superado pelos professores e estudantes nesse tipo de modalidade educativa, visto que é primordial haver recursos tecnológicos que possibilitem acessar à internet com facilidade, a fim de ter condições satisfatórias para acompanhar as aulas.
Para Knight (2020), a internacionalização precisa se adaptar aos principais problemas e eventos mundiais, dentre esses, aqueles que trazem riscos à saúde, tal como a COVID-19. Assim, é preciso a educação superior buscar alternativas para enfrentar os desafios, como exemplo, proporcionar uma educação on-line/virtual em termos de alcance e escala, desenvolver modelos alternativos de financiamento, elaborar novas políticas de acreditação e garantir a qualidade dos serviços educativos.
Em suma, percebe-se que o impacto da mobilidade acadêmica virtual internacional foi positiva para a vida da maioria dos estudantes, o que demonstra convergência com o ponto de vista de Garcés e O’Dowd (2021, p. 4) em relação ao intercâmbio virtual, ou seja, essa prática educativa “provou ter um grande potencial para fazer parte das políticas de IoC das universidades, pois os projetos colaborativos interculturais on-line que fazem parte do aprendizado formal dos alunos são ideais para incorporar elementos interculturais e globais no currículo”.
Portanto, essa modalidade de educação se caracteriza como uma oportunidade significativa para o desenvolvimento dos universitários, a qual pode ser complementada pela mobilidade acadêmica internacional física. Sendo assim, com o intuito de aprofundar o estudo, na próxima categoria são discutidas as alternativas que podem favorecer a qualificação do processo de mobilidade acadêmica virtual internacional.
Categoria 2 – Qualificação da mobilidade acadêmica virtual internacional
A mobilidade acadêmica virtual internacional se refere ao processo que oportuniza aos estudantes, matriculados em uma universidade, estudar também em outra Instituição de Educação Superior, sendo essa estrangeira, por intermédio de ferramentas tecnológicas digitais que facilitam a comunicação (síncrona e assíncrona) entre as pessoas e a construção de conhecimentos em Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA). Assim, posteriormente ao término de uma disciplina, de um curso ou de um estágio na IES de destino, na qual realizou o intercâmbio, o acadêmico poderá obter um comprovante de conclusão e o aproveitamento de disciplinas em sua instituição de origem.
Esse tipo de mobilidade tem por finalidade possibilitar aos aprendizes o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da sua formação, de modo a adquirir novas experiências mediante a interação com pessoas de diferentes países e culturas. Por meio dessa vivência, os acadêmicos poderão desenvolver competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) em alguma instituição universitária estrangeira, oportunizando uma experiência acadêmica diferenciada a eles.
Nesse contexto, conforme abordado por Ruiz-Corbella, López-Gómez e Cacheiro-González (2021), a mobilidade virtual tem o papel de facilitar uma experiência intercultural e/ou internacional que se dá por meio de um plano de estudos produzido por outra universidade e pela participação on-line, o que propicia a vivência em diferentes cenários de aprendizagem típicos do século XXI.
A possibilidade de tal experiência ser diferenciada pode emergir a partir do momento em que o universitário, principalmente, percebe que houve crescimento significativo nas variadas dimensões da sua vida (acadêmica, pessoal e profissional), mediante a ampliação intelectual, social, cultural, científica e tecnológica. Todavia, caso a mobilidade acadêmica virtual internacional não consiga atingir esse propósito, é essencial que as pessoas envolvidas nesse processo pensem em estratégias que possam melhorar a qualidade dessa modalidade de educação, intencionando promover uma formação estudantil altamente qualificada, preparando os estudantes para enfrentar os desafios apresentados no mundo em que se vive.
Daí a relevância de as IES adotarem medidas efetivas que transcendam o fato de verificar se o processo de mobilidade acadêmica virtual internacional atende às expectativas dos estudantes, bem como às suas necessidades e aos seus interesses. Em vista disso, pressupõe-se que é de fundamental importância apresentar alternativas que possibilitem qualificar esse processo.
A pergunta: “Que sugestões você daria para um melhor aproveitamento de mobilidade virtual, visando contemplar as necessidades, os interesses e a construção de conhecimentos?”, respondida por 47 participantes (58,03%), viabilizou perceber que essa experiência, embora desenvolvida conforme o esperado pelos estudantes respondentes, de modo a atender às necessidades e aos interesses deles, poderia ser aprimorada com várias sugestões indicadas por eles.
Por exemplo, a fim de qualificar o processo de mobilidade virtual em que participaram, muitos apontaram: criar grupo de comunicação instantânea (WhatsApp) ou algo similar para os alunos poderem se contactar de forma ágil e se sentirem mais seguros.
Um grupo de estudantes que participou de aulas de línguas estrangeiras sugeriu que essas fossem sempre de forma síncrona, com tarefas que incluíssem jogos de palavras e o uso de áudio para melhorar o domínio da língua e as avaliações, com o intuito de mensurar o que foi aprendido nas aulas. Também recomendaram: incluir atividades práticas e orais, com grupos de estudo, e outras dinâmicas que viabilizem a ampliação do vocabulário para aprender uma língua estrangeira; ter um maior acompanhamento por parte do professor, profissional fluente em um idioma específico para tirar dúvidas, pessoas para auxiliar na orientação e na prática. Isso desvela a necessidade de dar atenção aos alunos que ainda não têm a fluência em um idioma específico; proporcionar plataformas que permitam praticar a escrita em sala de aula; ofertar um nível mais avançado da disciplina ou curso realizado para continuar aprofundando os conhecimentos.
Nessa conjuntura, é importante possibilitar a participação nas aulas, inclusive no período noturno, pois há muitos estudantes que trabalham. Assim como novos meios para os estudantes estrangeiros se tornarem fluentes em determinado idioma para terem condições suficientes de acompanhar, realizar as atividades solicitadas e formar grupos com alunos de diferentes nacionalidades; manter e facilitar a comunicação, o contato, a conexão, as interações entre os envolvidos ao longo do processo educativo, a fim de melhorar o aprendizado. Da mesma maneira, manter o acesso aos documentos finais no portal do estudante, à informação aos docentes e à IES, acerca das disciplinas solicitadas para aproveitamento; aumentar o número de horas e dias de aulas semanais para contactar e praticar mais a língua estrangeira, o período destinado aos estudos de um curso e/ou uma disciplina. Ainda, apresentar com exatidão as datas e os horários das disciplinas, mais vídeos ou gráficos 3D, maneiras de baixar os vídeos para mantê-los na nuvem; ampliar o número de participantes, a motivação e o engajamento dos estudantes.
Além das várias sugestões indicadas pelos estudantes, há ainda outras alternativas que podem colaborar para qualificar o processo de mobilidade acadêmica virtual internacional, isto é: desenvolver grupos de pesquisa, fomentando a construção de estudos científicos sobre temáticas internacionais e globais; promover eventos científicos com a participação e as apresentações de pesquisas realizadas por grupos de estudantes; proporcionar visita à universidade de destino (estrangeira); assegurar a certificação de conclusão de curso, de estágio e de disciplina, bem como o reconhecimento de seus estudos realizados na sua instituição universitária de origem; ampliar o número de convênios de mobilidade acadêmica virtual internacional que ofereçam oportunidades de estudo para os universitários que pretendam estudar em alguma Instituição de Ensino Superior do exterior durante um semestre letivo, contemplando idiomas variados; ofertar atividades de monitoria e tutoria para dirimir dúvidas e aprofundar estudos; elaborar instrumentos de acompanhamento e avaliação dos resultados do processo de mobilidade, como indicadores de qualidade e questionários, para ter uma visão mais realista e abrangente dos resultados advindos do desempenho das atividades efetuadas.
Em relação aos instrumentos referidos, Morosini e Dalla Corte (2021) abordam diversos indicadores de qualidade de internacionalização, dentre eles se destacam: a existência de aspectos internacionais no conteúdo e nos métodos de ensino; a oferta do aprendizado de idiomas estrangeiros em todas as áreas de conhecimento; a facilitação de oportunidades para a realização de estágios/práticas profissionais em empresas internacionais; a utilização de novas tecnologias digitais; a elaboração de bancos de dados acerca das oportunidades de estudo no estrangeiro; a organização de programas para receber os acadêmicos estrangeiros integrando-os aos programas regulares; e a existência de uma casa internacional para estudantes locais e estrangeiros em mobilidade presencial.
Ruiz-Corbella, López-Gómez e Cacheiro-González (2021) recomendam que seja elaborado e aplicado aos alunos ao final da permanência no programa de mobilidade virtual um questionário, a fim de coletar, principalmente, informações acerca do planejamento e da organização dessa iniciativa, identificando elementos que podem ser mantidos e aqueles que precisam ser aprimorados para integrá-los de maneira mais alinhada em edições futuras.
Em suma, que a mobilidade acadêmica virtual internacional pode ser renovada, de modo a melhorar a qualidade da educação, com base na realização de investigações e debates realizados pelas IES, visando repensar sobre as concepções, as estratégias e as práticas educacionais desenvolvidas, considerando as expectativas do público estudantil e as demandas apresentadas pela sociedade.
Considerações finais
O presente artigo visou apresentar uma investigação realizada sobre temática da Mobilidade Acadêmica Virtual Internacional, buscando responder à seguinte indagação: “Quais as percepções dos estudantes universitários latino-americanos envolvidos em mobilidade acadêmica virtual internacional acerca de suas experiências, que possibilitam qualificar o processo de MAVI?”.
Os sujeitos de pesquisa totalizaram 81 estudantes de graduação e de pós-graduação (mestrado e doutorado), do Brasil, da Argentina, do Chile, da Colômbia, do Equador, do México e do Peru, de 23 IES latino-americanas diferentes, que, nos anos letivos de 2020 e de 2021, realizaram disciplinas por meio da mobilidade acadêmica virtual internacional. A coleta dos dados foi desenvolvida por meio de um questionário on-line, contendo questões abertas (4) e fechada (1). Para tratamento das informações, foi utilizado o método de Análise Textual Discursiva (ATD).
Com relação à sistematização das contribuições e dos benefícios da mobilidade virtual internacional para a formação dos estudantes, foram identificadas seis habilidades mais citadas pela maioria dos participantes de mobilidade virtual internacional, quais sejam: Aprendizagem de Língua estrangeira – leitura, fala, audição, compreensão (86,42%); Interação com pessoas de diferentes contextos, origens, culturas e perspectivas (77,78%); Desenvolvimento de Pensamento crítico (64,20%); Compreensão, respeito e empatia por pessoas com diferentes nacionalidades, questões culturais, sociais, religiosas e étnicas (62,96%); Criatividade (56,79%); Aptidão para networking – amizades (51,85%).
As reflexões apresentadas pelos estudantes, a respeito da mobilidade acadêmica virtual internacional, desvelam contribuições e benefícios em relação aos seus processos formativos, dos quais se sobressaem as aprendizagens culturais e linguísticas, a ampliação da compreensão de temas globais a partir das discussões com pessoas de distintas regiões e a identificação de que as experiências internacionais agregam valor à formação acadêmica e facilitam a inserção posterior no mundo de trabalho globalizado.
No que concerne ao objetivo de colher alternativas que possibilitem qualificar o processo de mobilidade virtual internacional, a despeito de os estudantes afirmarem que a MAVI atendeu às suas necessidades e aos seus interesses, a maior parte deles sugeriu qualificar o processo de mobilidade virtual de que participaram. As recomendações centraram-se em ampliar a comunicação em tempo real entre os envolvidos no processo educativo, facilitar o uso de recursos digitais e o acesso a diversos materiais e ao desenvolvimento de tarefas variadas.
Além das sugestões indicadas pelos estudantes, ainda há outras que podem colaborar para qualificar o processo de mobilidade acadêmica virtual internacional, tais como: fomentar a construção de estudos científicos sobre temáticas internacionais e globais; promover eventos científicos com a participação e as apresentações de pesquisas realizadas por grupos de estudantes internacionais; oferecer atividades de monitoria e tutoria para dirimir dúvidas e aprofundar estudos; ampliar as opções (áreas e IES) para MAVI e aplicar instrumentos para acompanhar e avaliar os resultados do processo de mobilidade, como indicadores de qualidade, para ter uma visão mais realista e abrangente dos resultados advindos do desempenho das atividades efetuadas.
Em um mundo complexo e em permanente transformação – e também desigual do ponto de vista de oportunidades formativas que exigem investimentos financeiros de diversas ordens –, a mobilidade acadêmica virtual internacional apresenta-se como uma alternativa que contribui para as experiências de internacionalização nas IES, visando formar estudantes em uma perspectiva de cidadania global. A oferta de MAVI deve ser constantemente avaliada, de modo a aprimorar a qualidade educacional das propostas desenvolvidas, a partir da realização de investigações e debates realizados pelas IES, objetivando repensar as concepções, as estratégias e as práticas educacionais utilizadas, considerando as expectativas do público estudantil e as demandas apresentadas pela sociedade.
Com este estudo, foi possível constatar que, na atualidade, há inúmeras ações que podem ser adotadas pelas Instituições de Educação Superior, tendo o propósito de qualificar os serviços prestados a partir das vantagens e da facilitação do acesso das tecnologias digitais, bem como promover práticas de internacionalização em casa, fundamentais para o desenvolvimento das aprendizagens dos seus estudantes, o que pode ocorrer, até mesmo, em períodos de dificuldades, como os vivenciados durante a pandemia de COVID-19.
Uma vez que foi observado um número reduzido de estudos acerca da temática aqui explorada, principalmente no Brasil, espera-se que mais trabalhos possam ser desenvolvidos para inspirar as Instituições de Educação Superior a refletirem e discutirem acerca dos desafios a serem enfrentados no planejamento das ações envolvidas no processo de mobilidade acadêmica virtual internacional; para aprofundar o conhecimento e possibilitar a disseminação de novas compreensões a respeito do assunto referido; para motivar profissionais da educação envolvidos nesse processo a (re)pensarem e discutirem sobre estratégias que podem propiciar a melhoria da qualidade da mobilidade acadêmica virtual internacional, promovendo uma formação estudantil altamente qualificada e preparando os universitários para enfrentar os desafios inerentes o mundo em que se vive.
Referências
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Submetido: 29.10.2024.
Aprovado: 15.06.2025.
[1] Este texto é fruto de tese (Machado, 2023) realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
[2] Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: karen.machado@edu.pucrs.br.
[3] Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: adriana.kampff@pucrs.br.