Educar para o cuidado da casa comum: apropriação do ideário de Francisco de Assis – um debate necessário no meio educacional

 

Fabiano Batista Rodrigues[1]

https://orcid.org/0000-0002-9579-6886

 

Gilberto da Silva[2]

https://orcid.org/0000-0003-3357-5778

 

 

Resumo

Este artigo apresenta reflexões sobre a obra Francisco de Assis: um caminho para a educação (2002), de autoria do frei Orlando Bernardi (1933-2005), no escopo de identificar apropriações de ideários do movimento franciscano, especialmente as relações entre os seres vivos e o meio ambiente. O conceito de apropriação, segundo Certeau (2014) e Chartier (1990), é uma forma de consumo produtivo, de leituras que resultam em uma escrita, em um lugar de criação de outros textos relacionados ao contexto de cada época. Conclui que, ao longo da referida obra, frei Orlando empreende um processo de (re)significação dos princípios de Francisco de Assis em prol da educação do século XXI, ou seja, o percurso de apropriação resulta em uma proposta de educação ecológica.

 

Palavras-chave: Apropriação. História da leitura. Educação ecológica.

 

 

Educating for the care of our common home: appropriating the ideas of Francis of Assisi - a necessary debate in education

 
Abstract
This paper presents reflections on the work Francisco de Assis: um caminho para a educação (2002), written by friar Orlando Bernardi (1933-2005), with the aim of identifying appropriations of ideas from the Franciscan movement, especially the relationships between living beings and the environment. The concept of appropriation, according to Certeau (2014) and Chartier (1990), is a form of productive consumption, of readings that result in writing, in a place of creation of other texts related to the context of each time. It concludes that throughout the work mentioned, Friar Orlando undertakes a process of (re)signification of the principles by Francis of Assisi in favor of 21st century education, that is, the path of appropriation results in a proposal for ecological education.

 

Keywords: Appropriation. History of reading. Ecological education.

 


 

Introdução

 

“Ao se procurar entender e explicar a vida de uma pessoa, deve-se ficar atento a todos os seus aspectos, e não a um só deles, pois em uma vida todos esses se entrelaçam” (Borges, 2006, p. 225).

 

Orlando Antônio Bernardi nasceu na cidade de Marau (RS), em 14 de setembro de 1933. Foi o primeiro de quatorze irmãos. Em 1947, com 14 anos de idade, ingressou no Seminário da Ordem dos Frades Menores (OFM), na cidade de Luzerna (SC). Em 1955 foi admitido ao noviciado da Ordem na cidade de Rodeio (SC), recebendo o nome religioso de Epitácio, e voltou ao nome de batismo em 1963.

Após o noviciado, seguiu os estudos de filosofia e teologia nos institutos da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (PFICB) nas cidades de Curitiba (PR) e de Petrópolis (RJ). No dia 15 de dezembro de 1961, foi ordenado sacerdote. Entre 1962 e 1965, estudou na Pontifícia Universidade Antoniano (PUA), em Roma, doutorando-se em Teologia Sistemática. De 1965 a 1979, foi professor de Teologia nos institutos da PFICB, residindo nos conventos de Curitiba e Petrópolis.

A partir de 1979, frei Orlando dedicou-se ao trabalho pastoral em paróquias administradas pela Ordem, desenvolvendo atividades como as de pároco e de vigário paroquial. Desenvolveu seu ministério sacerdotal nas paróquias de Niterói (RJ), na cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Ipanema e na cidade de São Paulo, na paróquia Santo Antônio, no bairro do Pari.

Em 1989, retornou à Petrópolis com o encargo de ser diretor comercial da Editora Vozes, função que assumiu até 1992. A partir de 1992, passou a dedicar-se inteiramente à educação franciscana, pois nesse ano, assumiu a função de diretor do Instituto Franciscano de Antropologia (IFAN). Em 1995, foi transferido para Bragança Paulista (SP), fraternidade inserida na Universidade São Francisco (USF). Desde então até sua morte, em 2015, frei Orlando dedicou-se à educação e a pesquisas sobre as propostas de uma pedagogia franciscana, desenvolvendo atividades junto ao IFAN e ao Grupo Educacional Bom Jesus, alternando sua residência entre a fraternidade do Convento de Bragança Paulista (SP), na qual viviam os frades ligados à USF, e a fraternidade do Convento Bom Jesus Aldeia, em Campo Largo (PR), na qual viviam os frades ligados à administração do Grupo Educacional Bom Jesus.

Frei Orlando foi um enamorado do franciscanismo e dedicou-se profundamente a pesquisar e escrever sobre o tema, como atestam suas obras. Esse encantamento por Francisco de Assis e sua dedicação às pesquisas, promoção e divulgação do IFAN, fizeram dele um caçador de livros e textos que tratassem sobre elementos ligados ao Carisma franciscano. Nos anos em que esteve trabalhando no IFAN, percorreu os conventos da PFICB e províncias franciscanas de outros países, recolhendo exemplares raros de obras sobre Francisco de Assis e o franciscanismo. Sobre tal feito, o professor Alberto da Silva Moreira, aluno e colega de trabalho de frei Orlando junto ao IFAN, relata que o frei, “[…] ao longo dos anos montou uma biblioteca especializada em Franciscanismo que talvez não tenha similar no Brasil” (Moreira, 2015 apud Neotti, 2015, p. 314).

Foram muitos os artigos e livros elaborados por frei Orlando que tratam sobre elementos do franciscanismo e a educação. Seus artigos estão publicados em revistas de comunicação interna da Ordem dos Frades Menores, no site da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, e no boletim do Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da educação (CDAPH) da USF. Dos livros publicados, merecem destaque: Visão franciscana da vida e do mundo (1996); Francisco de Assis: um caminho para a educação (2002); O encanto da vida: elementos da espiritualidade franciscana (2005); e Do pensar e agir franciscanamente (2015).

Compreender o processo de apropriação que resulta em uma escrita está alinhado ao pensamento de Certeau, no que diz respeito a compreender aspectos do cotidiano e as práticas desses indivíduos por meio de seus escritos. Vale ressaltar que, em meio aos debates em torno da “fecundidade e limites” da biografia, conforme afirma Borges (2006, p. 203), no final do século XX, “historiadores optam por uma abordagem em que, por meio da história de vida do retratado, é possível visualizar traços característicos do período histórico em que o mesmo viveu” (Silva, 2009, p. 16). Outrossim, busca-se tomar certos cuidados na direção do alerta de Bourdieu (2006), em a ilusão biográfica, pois não se pretende identificar, na linearidade com que são tecidas as narrações, o percurso da vida de um indivíduo.

Nessa direção, este artigo está organizado em duas seções. A primeira seção discorre sobre o conceito de apropriação aqui mobilizado; e na segunda, nas palavras de Certeau (2014), realizamos uma operação de caça nos escritos do frei Orlando Bernardi sobre alguns aspectos da educação franciscana.

O conceito de apropriação à luz de Certeau e Chartier

 

“[...] os leitores são viajantes; circulam nas terras alheias, nômades caçando por conta própria através dos campos que não escreveram, arrebatando os bens do Egito para usufruí-los” (Certeau, 2014, p. 245).

 

A leitura é uma prática social, móvel em suas formas e sentidos, é uma invenção criativa que resulta de uma interpretação. Por intermédio de fragmentos de outros textos que frei Orlando cita ao longo de suas obras, pode-se localizar a produção de sentidos para uma mesma comunidade interpretativa ou comunidade de leitores, nos termos de Chartier (2001).

O conceito de apropriação é tomado de Chartier (2001, p. 233), que chama a atenção “para os usos diferenciados e opostos dos mesmos bens, dos mesmos textos e das mesmas ideias”.

A apropriação, segundo Chartier (1990, p. 26), “tem por objetivo uma história social das interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais, institucionais, culturais) e inscritas nas práticas específicas que as produzem”. Para Chartier (1994, p, 154), “[...] as sutilezas do fazer e de uma reapropriação do texto do outro; ele caça ilegalmente aí, ele é transportado, ele se faz plural como os barulhos do corpo [...], numa terra que não é a sua”.

Igualmente, para Certeau (2014), a leitura é um ato de consumir. Enquanto ocorre o consumo, também ocorre produção, ou seja, a leitura de um texto produz modificações nas pessoas que o consomem, e por meio desse consumo, abrem-se possibilidades de dar sentidos diferentes ao que é lido. Nessa perspectiva, a leitura feita e apropriada por frei Orlando “combina os seus fragmentos e cria algo não sabido no espaço organizado por sua capacidade de permitir uma pluralidade indefinida de significações” (Certeau, 2014, p. 241).

Para Chartier, a leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. A leitura é uma prática criadora inventiva. O leitor tem a possibilidade de atribuir variados significados ao texto, dependendo do momento histórico e do lugar social no qual se encontra.

A apropriação refere-se à forma como interpretamos um texto e os elementos que o compõe. O contexto social em que o leitor se encontra também deve ser levado em conta, pois cada indivíduo recriará os textos tendo por base as suas próprias expectativas de leitura e experiências sociais. Assim, as construções de sentidos efetuadas nas leituras estão interligadas aos processos históricos nos quais os leitores estão inseridos, e variam de acordo com o lugar, a cultura, o tempo, o espaço e os grupos sociais (Rodrigues, 2019).  Nessa perspectiva, tanto para Chartier quanto para Certeau, a leitura é uma das artes de fazer que fazem parte das ações humanas, e está repleta de gestos e de porquês, que vão se definindo em conformidade com as práticas do cotidiano.

 

[...] a leitura de um texto pode escapar à passividade que tradicionalmente lhe foi atribuída. Ler, olhar ou escutar são efetivamente, uma série de atividades intelectuais que longe de submeterem ao consumidor [...], permitem na verdade a reapropriação, o desvio, a desconfiança ou resistência (Chartier, 1990, p. 59).

 

Inspirado nas leituras das Fontes Franciscanas e obras literárias sobre Francisco de Assis, frei Orlando apropriou-se de Escritos de mais de 800 anos, ou seja, das Fontes Franciscanas e Clarianas (Figura 1), coletânea composta pelos escritos de Francisco de Assis, por suas biografias e outros escritos sobre o primeiro século da Ordem Franciscana[3].

 

Figura 1 – capa dos Escritos de São Francisco de Assis (2004)

Fonte: Acervo de Fabiano Batista Rodrigues.

 

Além das Fontes Franciscanas, seus textos apresentam marcas de apropriações e leituras de outros autores e obras, pois como as práticas cotidianas não são autônomas, a apropriação acaba sendo uma forma de consumo produtivo. As leituras resultam em uma escrita, em um lugar de invenção de outros textos, conforme a próxima seção.

 

Francisco de Assis: um caminho para a educação

 

Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e com si mesmo (Francisco, 2015, p. 10).

 

Frei Orlando, impulsionado pelo Concílio do Vaticano II (1961-1965)[4], circulou pelas Fontes Franciscanas como nômade, caçando, apropriando-se e (re)significando episódios, características e valores de Francisco de Assis (1181-1226) para o campo educacional. No seu processo de leitura, produziu novos significados aos textos das Fontes Franciscanas, deturpando o sentido pretendido pelos autores, fazendo associações com o seu lugar e tempo social, e assim, pensou uma proposta pedagógica centrada nos valores do franciscanismo que resultou na produção da obra Francisco de Assis: um caminho para a educação (Figura 2).

 


 

Figura 2 – Capa da obra Francisco de Assis: um caminho para a educação (2002)

Fonte: Acervo de Fabiano Batista Rodrigues.

 

A obra apresenta o prefácio de Marcos Cesar Freitas, que em seu texto, indaga sobre o argumento central: a concepção franciscana de educação. O livro conta com introdução e quatro capítulos, além da conclusão. O primeiro aponta o ser humano como ponto de partida. O segundo, a criação como a grande mediação. O terceiro apresenta os articuladores de relações. O quarto, o Franciscanismo do futuro. Na conclusão, o autor propõe os valores de Francisco de Assis e do movimento franciscano como válidos para o ser humano contemporâneo. 

Segundo Chartier (1994, p, 154), “[...] as sutilezas do fazer e de uma reapropriação do texto do outro; ele caça ilegalmente aí, ele é transportado, ele se faz plural como os barulhos do corpo [...], numa terra que não é a sua”. Seguindo esse pensamento, frei Orlando apropriou-se de formas plurais das Fontes Franciscanas, em seu contexto de frade e de seu lugar social, como pesquisador e diretor do IFAN, e assim, atribuiu a esses textos significados diferenciados.

Francisco de Assis: um caminho para a educação foi publicado 2002 pela editora da universidade São Francisco (EDUSF) e reeditado em 2007 como parte da coleção de estudos franciscanos desenvolvidos pelo IFAN. Essa obra circulou entre os educadores da USF e entre os membros da OFM, principalmente entre os que trabalhavam diretamente na educação, seja nas instituições educacionais, seja nas casas de formação de novos frades, mantidas pela Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Por meio da obra de frei Orlando, Francisco de Assis passa a ser a representação ideal de um educador que se preocupa para além da formação acadêmica e dos conteúdos programáticos, mas se debruça sobre a formação humana, social e espiritual das pessoas.

Toda obra está centrada em Francisco de Assis, que é tomado como exemplo de educador e “exímio pedagogo” (Bernardi, 2002, p. 20). Apresenta uma proposta pedagógica franciscana como um caminho para a formação humana nas universidades. A concepção de uma educação fundamentada nos valores franciscanos extrapola o modelo educacional institucionalizado no sistema universitário, pois a proposta educativa inspirada em Francisco de Assis “não se contenta em transmitir conhecimentos” (Bernardi, 2015, p. 9). Dessa forma, suas ações vão além da formação de mão de obra para o mercado, trabalhando valores que propiciam vivências relacionadas à alteridade, na tentativa de levar o ser humano a um caminho de encontro e realização pessoal.

À medida em que desenvolve o pensamento de uma proposta pedagógica franciscana, frei Orlando tece críticas ao atual modelo educacional, que se preocupa apenas em formar mão de obra para atender o mercado. Segundo o frade, o modelo educacional vigente no início do século XX, nas Instituições de Ensino Superior, está centrado no capitalismo, a serviço do mercado, da globalização e do neoliberalismo. Suas práticas pedagógicas estão voltadas para o uso da técnica de forma utilitarista, para a busca da eficiência, para competitividade, para a cultura do descarte, o que gera, na sociedade, exclusões, sentimentos de fracasso e desempregos.

Diante de um sistema educacional preocupado em formar profissionais para atender o mercado, na lógica utilitarista do ser humano e da natureza e de tantos desafios impostos ao ser humano no sistema econômico capitalista, no qual o poder financeiro corroeu as relações pessoais e sociais, deixam-se em segundo plano as relações afetivas entre as pessoas e a natureza. Frei Orlando, por meio de uma releitura das Fontes Franciscanas, apresenta uma alternativa pedagógica a ser implementada no Ensino Superior. Sua proposta pedagógica tem, em sua essência, um novo modelo de organização social e educacional, no qual prevalecem o cuidado com o outro, a prática da solidariedade com os mais necessitados e excluídos e a preservação ambiental. Assim, a pedagogia humanista franciscana é apresentada por frei Orlando como possibilidade de oferecer mudanças sociais e de comportamento para mundo contemporâneo, colocando os ensinamentos de Francisco de Assis como exemplo de superação das negatividades da vida e de “desenvolvimento da criatividade geradora de beleza, de cortesia, de bondade e verdade” (Bernardi, 2002, p. 67). Esses elementos presentes no carisma franciscano favorecem a idealização e a formulação de uma proposta pedagógica humanista original para enfrentar os desafios do século XXI.

A proposta pedagógica desenvolvida por frei Orlando não é uma receita a ser seguida, ou um projeto a ser executado. Com a apresentação de elementos da vida de Francisco de Assis, a proposta indica direções e possibilidades para um modo de educar dentro de uma cultura baseada na fraternidade universal e em valores humanos que visam ao respeito e ao cuidado com todas as formas de vida. É a partir do modelo de educação estabelecido na contemporaneidade que Francisco de Assis é apresentado como um caminho a ser seguido, no qual as ações pedagógicas centram-se na formação de seres humanos altruístas, solidários, reflexivos e que buscam soluções para os problemas sociais e ambientais que assolam a humanidade.

Sendo assim, a pedagogia franciscana cunhada por frei Orlando sustenta-se na relação que Francisco de Assis estabeleceu com as pessoas, principalmente com aquelas que viviam nas periferias sociais e existenciais e com a natureza e todos os seres que a compõem, sejam eles dos reinos animal, vegetal ou mineral. Francisco de Assis é representado como homem feito relação, que ia ao encontro de todos com a mesma disposição e alegria, fossem eles ricos, pobres, Reis, Papas, Sultões, frades, pássaros, peixes, vermes, sol, lua, fogo, chamando todos os seres animados ou inanimados de irmãos. Francisco de Assis é representado como um homem atual, que com seus valores medievais de simplicidade, pobreza e autenticidade tem muito a ensinar ao ser humano do século XXI. Para isso, frei Orlando despe-o de sua aura de santidade e representa episódios e valores de sua vida na relação com a natureza e suas criaturas, e destaca que a pedagogia de Francisco de Assis consiste “em tratar a todos de maneira pessoal e diferenciada” (Bernardi, 2002, p. 20).

O modo de ser do franciscanismo está imbricado no cuidado, no estar junto com às criaturas, como parte integrante da natureza, da qual se sente na obrigação de cuidar e amar. O homem moderno, mesmo com todo o desenvolvimento da técnica e da tecnologia, vê-se fora da natureza, e esta é vista como algo a ser dominada e explorada em proveito próprio na geração de lucros, seja na exploração do trabalho humano, seja extraindo os recursos naturais. O homem moderno coloca-se acima da natureza, enquanto “a atitude de Francisco diante das realidades criadas é quase sagrada; por essa razão nunca está acima delas, mas sempre junto delas e com elas, como irmãos na mesma casa” (Bernardi, 2002, p. 42-43). Em outras palavras, o diferencial das relações de Francisco de Assis está modo estabelecido de convivência com tudo o que há na natureza, baseado no cuidado e não na posse. Diante de uma estrutura educacional limitada a questões conteudistas e técnicas, em que sua principal função é formar mão de obra para atender o mercado capitalista, frei Orlando propõe uma revolução antropológica no interior da educação universitária, para que haja espaço para a reflexão e a formação em valores humanos, tendo como modelo a vida e os ensinamentos de Francisco de Assis. Embora Francisco de Assis não tenha deixado elaborado nenhum sistema definido de educação, sua vida e ensinamentos foram, ao longo da história, ressignificados e amplamente difundidos em sistemas educativos, tendo como elementos essenciais o diálogo, a empatia e a alteridade.

Na perspectiva e leitura de frei Orlando, o franciscanismo como síntese da vida de Francisco de Assis propõe vivências de valores e virtudes que libertem o ser humano das amarras impostas pela sociedade consumista e tecnicista em que a modernidade está mergulhada. A pedagogia humanista franciscana, idealizada e desenvolvida por frei Orlando, tem por objetivo propor que o centro do franciscanismo seja a pessoa humana e suas relações com o outro e com a natureza, englobando os seres animados e inanimados.

 

Talvez o Francisco tipicamente medieval tenha a acrescentar ao educador moderno a coragem de olhar o próprio avesso. A história da pedagogia pode não ter se ocupado até o presente momento com a tarefa de reconhecer em toda a criatura a mesma condição de mestre e aprendiz. Daí que um Francisco que se relacionou com o leproso, com o ladrão, com todos os marginalizados de seu tempo sem disparar prédicas civilizadoras contra os mesmos é uma inspiração concreta para todo aquele que está convencido de que o desafio de se fazer uma grande instituição de ensino superior transcende a realização técnica e mecânica de fórmulas de sucesso. Diz respeito, isso sim, a um ‘optar junto a quem estar ao lado’, para cuja profundidade a racionalidade do mundo atual, no qual estamos submersos, lamentavelmente tem pouco a dizer (Freitas, 2002, p. 7).

 

Da relação do cuidado com a natureza e suas criaturas surge a pedagogia ecológica franciscana. As Fontes Franciscanas são muito ricas nas descrições da relação de Francisco com as criaturas, “nelas sobressaem a simplicidade da comunicação com os seres inanimados com água e fogo; a intimidade que resplandecia ao cantar o sol, a lua e as estrelas; a fraternidade e o amor que cultivava com os animais e o cuidado natural que transmitia ao falar das plantas da horta” (Bernardi, 2002, p. 31). Essa representação de Francisco de Assis foi transmitida pela memória coletiva e tradição da Ordem Franciscana. Sendo assim, a iconografia representa-o rodeado por animais e elementos da natureza.

A relação de Francisco de Assis com a natureza deve ser entendida dentro de uma simbologia e fé religiosa, na qual “o ser humano encontra seu lugar no centro da criação: as criaturas existem para a alegria e o engrandecimento do homem e este foi criado, porém, para que, por meio das criaturas e por causa delas, louve o criador (Bernardi, 2002, p. 32). Essa relação encontra-se de maneira explícita no Cântico das Criaturas, elaborado por Francisco de Assis:

 

Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são os o louvor, a glória e a honra e toda benção (cf. Ap 4, 9.11).

Somente a ti, ó Altíssimo, eles convêm, e homem algum é digno de mencionar-te.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas (cf. Tb, 8,7), especialmente o senhor irmão sol, o qual é dia, e por ele nos ilumina.

E ele é belo e radiante com grande esplendor, de ti, Altíssimo, traz o significado.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas (cf. Sl 148,3), no céu as formaste claras e preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, e pelo ar e pelas nuvens e pelo sereno e por todo tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água (cf. Sl 148, 4.5), que é muito útil e humilde e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo (cf. Dn 3,66), pelo qual iluminas a noite (cf. Sl 77, 14), e ele é belo e agradável e robusto e forte.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a mãe terra (cf. Dn 3, 74), que nos sustenta e governa e produz diversos frutos com coloridas flores e ervas (cf. Sl 103, 13.14).

Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam (cf. Mt 6, 12) pelo teu amor, e suportam enfermidade e tribulação. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz porque por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar.

Ai daqueles que morrerem em pecado mortal: bem-aventurados os que ela encontrar na tua santíssima vontade, porque a morte segunda (cf. Ap 2,11; 20,6) não lhes fará mal.

Louvai e bendizei ao meu Senhor (cf. Dn 3, 85), e rendei-lhe graças e servi-o com grande humilde (Fontes [...], 2004, p. 104-105).

 

Nesse texto, reconhecido como a primeira obra literária em língua italiana, datado entre 1224 e 1225, Francisco de Assis reverencia os elementos da natureza, reconhecendo que é necessário utilizar a natureza para o desenvolvimento da vida humana, mas essa utilização tem que ocorrer dentro de um equilíbrio, sem gerar exploração, destruição, extermínio. A partir desse texto, Francisco de Assis passa a ser representado como o modelo de homem integrado à natureza, um exemplo a ser seguindo na modernidade pelo cuidado com todos os seres que compõem a vida no planeta Terra.

A proposta de uma pedagogia franciscana que englobe a relação ser humano/natureza é extremamente atual e tem por objetivo despertar, nas relações humanas, entre homens e mulheres contemporâneos, o fascínio e o cuidado para com a natureza. Assim, a atitude de Francisco, que se dizia irmão de todas as criaturas, é (re)significada para um problema da modernidade, que é a crise ecológica, ou seja, a degradação do meio ambiente, o desequilíbrio ambiental em que estamos imersos.

Nesse sentido, a espiritualidade franciscana convida a humanidade a contemplar a natureza fundamentada em dois passos: “o primeiro passo consiste descobrir o Criador através das criaturas, o segundo vai um pouco além e tenta encontrá-lo nas coisas criadas. Conhecer Deus através das criaturas significa buscar um Deus longínquo, enquanto reconhecê-lo nelas é descobri-lo presente” (Bernardi, 2002, p. 39). Por meio do exemplo de vida, Francisco de Assis, com sua simplicidade da comunicação, propõe a fraternidade universal, o respeito a todas as formas de vida e a tudo aquilo que compõe o planeta que o ser humano habita. Francisco é aquele que se solidariza com a natureza e trata todos os seres com a mesma dignidade.

 

A espiritualidade franciscana possui forças capazes de ajudar a descobrir a vida como sacramento e como graça, a existência como fraternidade e o mundo como morada, uma vez que seu fundador viveu sua existência como gratuidade e por isso se comunicava com todas as criaturas, mantendo com elas relações de fraternidade e sororidade (Bernardi, 2002, p. 72).

 

Francisco de Assis “nada sabia de ecologia, bem como de cosmologia, mas muito entendia de comunhão e de fraternidade cósmicas” (Bernardi, 2002, p. 42), mas segundo frei Orlando, foi ele que inaugurou a questão ecológica, por meio de suas atitudes em admirar e respeitar todas as formas de vida. O mundo habitado por Francisco de Assis é personalizado, e tudo o que há no mundo é possuidor de vida. Animais e pessoas, para Francisco de Assis, não apenas vivem no mundo, mas convivem com a natureza e com tudo o que há nela: “de fato, ele se vê apenas como um irmão entre irmãos” (Bernardi, 2002, p. 35). O fazer-se irmão, ou sentir-se parte da natureza, juntamente com tudo que a envolve, está ligado ao voto de pobreza professado, ao despojamento vivido na radicalidade e instituído na Regra de Vida da Ordem, para ser seguido por todos os frades.[5] Para Francisco, a pobreza é a capacidade de se doar, de se despojar dos próprios interesses, e assim, compreender a grandeza do universo com ternura.

Para complementar a ligação da espiritualidade franciscana com a preocupação ecológica, frei Orlando relembra que, em 1979, o Papa João Paulo II proclamou São Francisco de Assis o patrono dos ecologistas. O Santo de Assis e a pedagogia humanista franciscana vão além do cenário religioso e, como ponte, buscam estabelecer uma relação harmoniosa de amor e a não dominação de situações ou pessoas. Nessa lógica, o humanismo franciscano também tem caráter político, que visa ao bem comum e às boas relações dos seres criados, procurando refletir a defesa, a proteção e a promoção da dignidade e da liberdade dos seres humanos e da criação.

 

Entre os muitos santos e homens ilustres que apreciaram a natureza como um dom maravilhoso de Deus ao gênero humano encontra-se S. Francisco que soube compreender, de maneira particular, toda a criação e inflamando pelo espírito divino a cantou em seu Cântico, atribuindo assim ao onipotente e bom Senhor todo o louvor, glória, honra e toda a benção (Bernardi, 2002, p. 42).

 

Merece atenção especial esse patrocínio de um homem medieval para cumprir um problema comum da modernidade. Os ecologistas perceberam, no modo de vida e de relação de Francisco de Assis com a natureza, um modelo de solidariedade, de bem-querer, de proteção, de cuidado.

Na modernidade, Francisco de Assis passa a ser um contraponto para a crise ambiental em que estamos inseridos. Enquanto no capitalismo o ser humano e a natureza são explorados na busca de lucros, geração de riqueza que infelizmente fica nas mãos de poucos, na espiritualidade franciscana, toda a criação está interligada, a natureza e todas as formas de vida merecem ser respeitadas e cuidadas. O ser humano é parte integrante da natureza. Francisco de Assis é apresentado como o protótipo da fraternidade universal pelo seu modo de viver, “a comunhão e a fraternidade são o suporte para esse modo de estar no mundo. Nele não há lugar para divisões ou estratificações, pois o que prevalece é uma visão unitária de toda a criação, porque toda ela é vista, sentida e vivida dentro da ótica do sagrado” (Bernardi, 2002, p. 32).

Mesmo depois de mais 800 anos, com muitas transformações sociais, culturais e econômicas pelas quais o mundo passou, Francisco de Assis continua a inspirar a relação homem/natureza. A Carta Encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da casa comum (2015), do Papa Francisco inspirou-se na relação de Francisco de Assis para tratar da

 

[...] relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta de um novo estilo de vida (Francisco, 2015, p. 15-16).

 

Mesmo depois de mais de 800 anos, o comportamento de Francisco de Assis faz eco e se mostra atual diante de um cenário de crise ambiental. Para o Papa Francisco, tudo está interligado: “O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras” (Francisco, 2015, p. 71).

Diante do cenário atual em que vivemos, a pedagogia ecológica proposta por frei Orlando faz todo sentido. Na Carta Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco convoca todas as pessoas de boa vontade a uma conversão ecológica; em 2019 foi realizado o sínodo da Amazônia; o Instituto Franciscano de Teologia em Petrópolis - RJ lançou um grupo de estudos sobre ecoteologia. A campanha da fraternidade de 2025 traz como temática a ser discutida e difundida Fraternidade e Ecologia Integral, inspirando-se na relação de Francisco de Assis com o cosmo, no cuidado com a natureza, no respeito pela individualidade de cada ser vivo, diante do colapso climático que está sendo perceptível em todos os cantos do globo terrestre.

 

A educação ambiental tem ampliado os seus objetivos. Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na conscientização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos “mitos” da modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior com si mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus (Francisco, 2015, p. 168).

 

Assim como a pedagogia ecológica proposta pelo frei Orlando, todas essas iniciativas levam ao cuidado da casa comum, inspiradas na vida de Francisco de Assis. Relações estabelecidas no século XIII nos ajudam a mudar relações no século XXI.

 

Considerações finais

 

A pedagogia humanista franciscana, cunhada no início do século XXI, tem por característica despertar, nas relações humanas, entre homens e mulheres contemporâneos, o fascínio e o cuidado para com a nossa casa comum. Assim, (re)significa-se uma atitude de Francisco de Assis, que se dizia irmão de todas as criaturas, para um problema da modernidade que é a crise ecológica, ou seja, a degradação do meio ambiente.

Frei Orlando Bernardi é representativo dessa corrente pedagógica franciscana. Dedicou-se quase que exclusivamente ao trabalho educativo e a pesquisas sobre os textos das Fontes Franciscanas. A obra aqui apresentada é representativa da proposta de uma pedagogia humanista franciscana e fruto de um tempo histórico de organização da Rede de Colégios franciscanos de São Paulo, de expansão do Grupo Educacional Bom Jesus e de consolidação da Universidade São Francisco.

No cenário de crise ambiental, a proposta da pedagogia franciscana quer ser uma alternativa na construção de novos valores sociais. Francisco de Assis não apresenta nada de extraordinário, apenas se percebe parte da natureza e que a vida humana depende do equilíbrio ecológico para sua sobrevivência. A linguagem de Francisco, ao falar da e com a natureza, é simbólica e carregada de sentido. Francisco tem uma visão holística, pois destruindo a natureza, o homem se autodestrói, uma vez que o ser humano é parte integrante da natureza. Para frei Orlando, “o que São Francisco tem a acrescentar ao educador é uma nova forma de encarar o educando e o compromisso de educar” (Bernardi, 2002, p. 8), e esse compromisso de educar deve ter, como horizonte, a formação humana, ética e espiritual de todos os que fazem parte da comunidade acadêmica.

O processo de apropriação das Fontes Franciscanas e de literaturas sobre o franciscanismo, por meio da leitura, tornou esse frade produtor de uma “proposta pedagógica, que propõe uma harmonia entre o Transcendente, o meio ambiente e o ser humano, centrada em virtudes e valores humanos, inspirados em Francisco de Assis” (Rodrigues, 2019, p. 128).

Para frei Orlando, Francisco de Assis inaugura a questão ecológica no campo educacional, pois por meio de suas atitudes, ensina o ser humano a admirar e respeitar todas as formas de vida. O mundo habitado por Francisco é personalizado e tudo o que há no mundo é possuidor de vida. Nesse sentido, o frade ressignifica os relatos das Fontes Franciscanas que narram Francisco de Assis e suas relações com o meio ambiente, animais e pessoas, e conclui que Francisco de Assis não apenas vive no mundo, mas convive com a natureza e com tudo o que há nela: “de fato, ele se vê apenas como um irmão entre irmãos” (Bernardi, 2002, p. 35). O fazer-se irmão, ou sentir-se parte da natureza, juntamente com tudo que a envolve, está ligado ao voto de pobreza professado e vivido com radicalidade por Francisco de Assis e instituído na Regra de Vida da Ordem para ser seguido por todos os frades.

No seu processo de leitura, apropriação e criação, frei Orlando dedicou-se a pensar e estruturar uma proposta pedagógica baseada nos valores franciscanos e que pudesse ser desenvolvida no processo formativo nas Instituições de Ensino Superior mantidas pela Província da Imaculada Conceição do Brasil, e que servisse de inspiração para a educação brasileira.

A pesquisa sobre a educação franciscana no Brasil ainda tem muito a ser explorada, pois, vários frades ressignificaram a vida de Francisco de Assis para a educação, especialmente por meio de uma releitura da vida de Francisco de Assis adaptada para a educação e por meio da estética franciscana.

 

Referências

 

BERNARDI. O. (Frei). Visão franciscana da vida e do mundo. Bragança Paulista: Cadernos do IFAN, 1996.

 

BERNARDI. O. (Frei). Francisco de Assis: um caminho para a educação. Bragança Paulista: Edusf, 2002.

 

BERNARDI. O. (Frei). O encanto da vida: elementos da espiritualidade franciscana. Bragança Paulista: Cadernos do IFAN, 2005.

 

BERNARDI. O. (Frei). Do pensar e agir franciscanamente. Curitiba: Bom Jesus, 2015.

 

BORGES, V. P. Grandezas e misérias da biografia. In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes históricas. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006, p. 203-233.

 

CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. 7ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

 

CHARTIER, R. A História Cultural: entre práticas e representações. Tradução: Maria Manuela Galhardo. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

 

CHARTIER, R. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: UnB, 1994.

 

CHARTIER, R. Textos, Impressão, Leituras. In: HUNT, L. A nova história cultural. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 211-238.

 

FRANCISCO (Papa). Carta Encíclica Laudato Sí. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

 

FREITAS, M.C. Uma concepção franciscana de educação. In: Francisco de Assis: um caminho para a educação. Bragança Paulista: Edusf, 2002.

 

FONTES Franciscanas e Clarianas. Tradução Celso Márcio Teixeira et al. Petrópolis: Vozes, 2004.

 

NEOTTI, C. Frei Orlando Antônio Bernardi, OFM. Vida Franciscana. Dez-2015, n. 89, p. 298-318.

 

RODRIGUES, F. B. Da educação em escritos dos freis Agostinho Piccolo e Orlando Bernardi: leituras e apropriações das fontes franciscanas. (Dissertação de Mestrado). Florianópolis: UFSC, 2019.

SILVA, K. V. Biografias. In: PINSKY, C. B. (Org.). Novos temas nas aulas de história. São Paulo: Contexto, 2009, p. 13-28.

 

 

Submetido: 07/12/24

Aprovado: 11/06/25



[1] Secretaria Municipal de Educação de Biguaçu, Biguaçu: fabianorodriguesctba@gmail.com.

[2] Instituto Teológico Franciscano, Petrópolis: gilberto.silva@itf.edu.br.

[3] Faz-se importante notar que, à medida que o estudo acadêmico da Bíblia se desenvolveu, a partir de 1900, o pastor protestante Paul Sabatier, um historiador francês, também promoveu a pesquisa histórica sobre Francisco de Assis com maior ênfase. A intenção do pesquisador era descobrir, por meio de textos hagiográficos, qual imagem correspondia fielmente a Francisco de Assis. Esse estudo passou a ser denominado a questão franciscana. O estudo conclui que, para compreender Francisco de Assis, qualquer estudioso precisaria estudar seus escritos, que estão organizados da seguinte forma: Cartas, exortações, orações, textos de uso litúrgico, Regra de Vida e testamento.

[4] Desde o Concílio Vaticano II, a Ordem dos Frades Menores tenta regressar às fontes do carisma franciscano. Esse movimento é chamado de renovação porque conseguiu chegar aos primórdios do franciscanismo e voltar ao presente com algumas novidades. Entre as muitas mudanças está o estudo dos textos de Francisco de Assis e das suas biografias. Um trabalho digno de nota foi o agrupamento dos textos em um só livro, e sobretudo traduzi-lo em diferentes idiomas para os franciscanos poderem ter acesso e aprofundar o seu carisma. Nesse contexto se insere Fr. Orlando, que estudava em Roma quando começou o processo de renovação da OFM; ele é fruto desse contexto e assim tornou-se caçador, coletor e estudioso de Francisco de Assis no Brasil.

[5] Frei Orlando define que, “por pobreza não se entende a falta de bens que causam a desigualdade imensa e prejudicial na vida das sociedades humanas. Por pobreza, no entanto, entende-se aquele cuidadoso e misericordioso olhar para o que é pequeno, para o que não chama a atenção, para o que é rejeitado e marginalizado” (Bernardi, 2002, p. 36).