História de Mulheres: professora Júlia Vasconcelos

 

Juliana Alice Costa Freire[1]

https://orcid.org/0000-0002-8198-4229

 

Jarles Lopes de Medeiros[2]

https://orcid.org/0000-0003-0942-6764

 

Gisafran Nazareno Mota Jucá[3]

http://orcid.org/0000-0002-6240-2262

 

 

Resumo

Este artigo discute o impacto da professora Júlia Vasconcelos no cenário educacional cearense, enfocando a mulher como sujeito ativo. O trabalho insere-se no campo de estudo da História de Mulheres. A pesquisa explora a desigualdade entre os gêneros, enraizada na ideologia patriarcal, com foco nos percursos educacionais trilhados pela referida professora. A abordagem metodológica adotada é qualitativa, com uso de pesquisa bibliográfica e base nos estudos históricos culturais. Os resultados apontam que, historicamente, as mulheres foram consideradas intelectualmente inferiores, mas que o seu envolvimento com a educação, como no caso de Júlia Vasconcelos, contribuiu para o seu reconhecimento como sujeitos sociais.

Palavras-chave: Júlia Vasconcelos. Escola Normal. História de Mulheres.

 

Women's History: Teacher Júlia Vasconcelos

 

Abstract

This article discusses the impact of teacher Júlia Vasconcelos on the educational landscape of Ceará, focusing on women as active subjects. The work is part of the field of women’s history studies. The research explores gender inequality, rooted in patriarchal ideology, with a focus on the educational paths followed by the aforementioned teacher. The adopted methodological approach is qualitative, using bibliographic research based on cultural historical studies. The results indicate that, historically, women were considered intellectually inferior, but their involvement in education, as in the case of Júlia Vasconcelos, contributed to their recognition as social subjects.

 

Keywords: Júlia Vasconcelos. Normal School. Women’s History.

 

 

 

Introdução

 

Objetivamos, neste artigo, refletir sobre a profissão docente e a condição da mulher na sociedade, direcionando nosso olhar para a reconstrução do passado representado por uma professora da Escola Normal do Ceará: Júlia Carneiro Leão de Vasconcelos. Analisamos a atuação dessa docente no contexto educacional do Ceará bem como seu impacto, destacando o seu papel como mulher e sujeito ativo na história da educação.

Este trabalho se insere em campo de estudo denominado História das Mulheres, tendo como enfoque a compreensão da mulher como sujeito ativo, em que o conhecimento construído interfere na percepção de mundo, na relação com o outro e no ato de educar. Trata-se de um recorte de uma pesquisa realizada para dissertação do curso de Mestrado em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Escrever sobre mulheres é um trabalho de continuação, porque não se encerra no que foi ou está escrito, é algo que vai fluindo e encontrando sujeitos que se identificam com o que a História das Mulheres representa para a sociedade, para além dos papéis que historicamente lhes foi destinado. Possibilita que o movimento de produção escrita e o empoderamento feminino circulem, porque a História das Mulheres é como uma cachoeira: quando vista, explode em beleza e encantamento, mas se forma ao longo dos séculos, como a ação da água corrente nas rochas. Assim se apresenta a ação de inúmeras mulheres que nos antecederam e outras que ainda estão por vir, encontrando estratégias de rompimento com as situações de subalternidade em que ainda se insiste em colocá-las.

As bases históricas da desigualdade entre homens e mulheres sustentam-se na ideologia patriarcal, que acentuou a superioridade do ser masculino em relação ao ser feminino, estabelecendo papéis bem definidos para ambos os gêneros. Conforme Santos e Medeiros (2022, p. 38), ancora-se na ideia de supremacia do homem sobre a mulher, marcada pela opressão do feminino, um movimento que “é caracterizado por relações de dominação e de subordinação que não são frutos da natureza, mas do processo de socialização”.

De acordo com Lins (2007, p. 29), “o patriarcado é uma organização social baseada no poder do pai, e a descendência e o parentesco seguem a linha masculina. As mulheres são consideradas inferiores aos homens, [...] subordinadas à sua dominação”. A dualidade faz-se presente com a instauração do patriarcado, em que o dominador é representado pelo homem e o dominado passa a ser representado pelas mulheres, tornando os gêneros masculino e feminino antagônicos. Essa relação de superioridade e inferioridade, presente ainda atualmente, apresenta-se nos espaços públicos e privados, no cotidiano e nas instituições. Dessa forma, concordamos com Sitko (2022, p. 2), quando destaca que, “ainda tendo grandes desafios a serem superados nesse sentido, a contribuição feminina ao longo da História da Ciência foi e é essencial para a construção do conhecimento científico”.

Além desta introdução, este artigo está estruturado em cinco seções. Em “Percursos metodológicos”, são apresentados os procedimentos metodológicos do estudo, que valorizam os sujeitos historicamente invisibilizados, como as mulheres, inserindo-se no campo da História de Mulheres. Em seguida, “Historiografia e reconstrução da História de Mulheres” discute a importância da reconstrução da História de Mulheres a partir de uma historiografia que as reconheça como protagonistas e sujeitos históricos. Logo após, “Reconstruindo o passado: professora Júlia Vasconcelos” apresenta a trajetória da referida docente como intelectual cearense pioneira na formação de professoras e na defesa de uma educação integral e humanizada.

A seção “Memória Histórica da instituição – Escola Normal” destaca a contribuição de Júlia Vasconcelos na construção da Memória Histórica da Escola Normal do Ceará de 1920. Em “Contribuições de Júlia Vasconcelos na Memória Histórica da instituição”, são apresentadas as principais contribuições da professora na educação cearense. Por fim, as “Considerações finais” apresentam o desfecho da pesquisa, apontando para a necessidade de continuidade a partir de outros estudos.

 

Percursos metodológicos

 

Utilizamos neste trabalho uma abordagem qualitativa, que, segundo Minayo (2011), apresenta o desafio de compreender a realidade para além do dado empírico, uma vez que, ao lidarmos com história de vida, no caso da professora Júlia Vasconcelos, a pesquisa estabelece uma relação permeada de subjetividade durante a análise, buscando aproximações com o fenômeno a ser estudado, destacando o contexto histórico e social.

Adotamos como recurso metodológico a abordagem bibliográfica, o que nos permitiu fazer uma discussão teórica, de cunho histórico, acerca do impacto da professora Júlia Vasconcelos no cenário educacional cearense. Como fonte primária, foi utilizado o documento Memória Histórica (Vasconcelos, 1920). Dessa forma, o recorte temporal da pesquisa em questão é compreendido entre as duas primeiras décadas do século XX.

A perspectiva metodológica aqui abordada está inserida nos estudos históricos culturais (Burke, 2005). Conforme Medeiros e Jucá (2019), os estudos históricos culturais têm a História como fio condutor, debruçando-se sobre temas que vão além do limite da razão, discutindo assuntos silenciados na pesquisa histórica tradicional. Dessa forma, a “[...] abordagem permite a análise acerca de uma multiplicidade de temas e fenômenos a serem investigados, dedicando-se, principalmente, às diferenças e particularidades, sem homogeneizações” (Medeiros; Jucá, 2019, p. 66). Trata-se de uma perspectiva investigativa sem fronteiras.

Segundo Burke (2011), a história tradicional – baseando-se na objetividade utilizada nos documentos como fontes – relaciona-se essencialmente à política, conservando na sua essência a história ligada aos acontecimentos e aos grandes feitos protagonizados por homens, enquanto as demais pessoas assumem papéis secundarizados. Em contrapartida, a Nova História tem interesse por toda a História, pois acredita que em tudo existe história, considerando o social e o cultural como base na formação da realidade. Outros protagonistas surgem, e pessoas comuns assumem lugar central de fala, pois o foco não está mais em narrar os fatos, mas em analisar as estruturas. E assim passam a ser consideradas outros tipos de fontes.

E um dos principais pontos que a História vista de baixo apresenta, conforme explica Sharpe (2011), é o de proporcionar caminhos que contribuam para a construção da identidade de diversos grupos sociais, reintegrando ou descobrindo suas histórias por meio de estudos que passam a existir; e que considerem que diversos sujeitos foram responsáveis pela construção da sociedade. Sem o surgimento dessa forma de escrever a História e a possibilidade de considerá-la, não teríamos a oportunidade de conhecer uma história que seria esquecida e/ou jamais descoberta e que proporciona aos que escrevem e aos que leem um sentido de pertencimento.

Enfim, quando partimos da premissa de que tudo e todos que existem no mundo têm história e o direito de ela ser registrada, visitada, revisitada, representada e reconstruída, passamos a construir habilidades que não nos permitem olhar o tempo como algo estático e considerar construções históricas e culturais por um viés de naturalidade. Como explica Burke (2011, p. 11), com a Nova História, “o que era considerado imutável é agora encarado como uma ‘construção cultural’, sujeita a variações, tanto no tempo quanto no espaço”.

No surgimento dessas histórias diversificadas que anteriormente seriam desconsideradas ou simplesmente vistas como inexistentes, encontra-se, também, a História das Mulheres. De acordo com Scott (2011), essa história está inicialmente entrelaçada com a política feminista, que durante a década de 1960 reivindicava uma história que contemplasse as mulheres que atuaram ativamente na construção da sociedade, colocando em discussão a opressão imposta e as possíveis mudanças inspiradas em ideais igualitários.

Em meados da década de 1970, com a intensa produção acadêmica sobre o tema, entre outros fatores como as campanhas feministas e a própria ampliação dos limites da concepção de História, a História das Mulheres passa a existir também como um novo campo de estudo, que se vai consolidando no decorrer dos anos e que precisa ser compreendido “como um estudo dinâmico na política de produção do conhecimento’’ (Scott, 2011, p. 68).

A construção de um conhecimento que não considera mais o homem como sujeito universal, detentor de tudo que é histórico, produzido, construído e idealizado, permite novas leituras sobre a História e a inclusão das mulheres como sujeitos de estudo. Trata-se de uma reestruturação na própria forma de pensar e fazer história, pois, como mostra Scott (2011), quando reivindicamos a importância da história das mulheres, estamos consequentemente rompendo com vários padrões estabelecidos que, por séculos, apenas consideraram a história dos homens.

Dessa forma, neste estudo, a partir da matriz teórico-metodológica dos estudos históricos culturais, foi possível articular fatos sociais que permitiram compreender sobre educação e educadoras, as ações diretas ou indiretas que contribuíram para o rompimento da inferioridade intelectual da mulher, os discursos que se eternizam e o curso que segue a emancipação feminina. O presente estudo permite perceber a relação clara entre o passado e o presente e a identificação com a História das Mulheres.

Ao discutir o impacto da professora Júlia Vasconcelos no cenário educacional, esta pesquisa se insere no campo dos estudos históricos culturais, e é nesse contexto epistemológico do fazer pesquisa que o tema deste artigo se insere no campo de estudo da História de Mulheres. Assim, a perspectiva histórico-cultural atravessa este estudo com uma matriz teórico-metodológica.

 

Historiografia e reconstrução da História das Mulheres

 

A visibilidade das mulheres, que ainda hoje construímos, para além da possibilidade de reparar os séculos de exclusão a que foram submetidas, reforça a necessidade de uma escrita histórica que as coloque como protagonistas, que oportunize a elas o reconhecimento de sua historicidade, a compreensão de que são sujeitos históricos, que vivenciam, percebem e modificam o mundo – e que nessa relação também se modificam como seres humanos. Reafirma-se, assim, um movimento que vem se consolidando há décadas, que incluiu as mulheres no campo historiográfico, que passa a reconhecer e afirmar que participam ativamente da construção da sociedade. E, como declara Muniz (2018, p. 148), “impõe-se assegurar a elas, como toda e qualquer pessoa, seu direito ao espaço da fala e lugar de sujeito na sociedade, no mundo”.

Partimos da perspectiva de compromisso com uma escrita que inclua os diversos protagonistas, ancorada em uma percepção que considera que as mulheres apresentam possibilidades de reflexão sobre educação, visões de mundo, projeção, consolidação e ampliação de espaços onde é possível estar, tecendo relações entre o individual e o coletivo. Como explica Rusen (2001, p. 54), “são as situações genéricas e elementares da vida prática dos homens (experiências e interpretações do tempo) que constituem o que conhecemos como consciência histórica”.

De acordo com Rusen, a consciência histórica é constituída pela narrativa que permite compreender o tempo como algo contínuo – e não necessariamente compartimentado em presente, passado e futuro. As lembranças, interpretações e experiências que passam a ser exigidas quando nos propomos a estudar o tempo passado não conseguem se manter exclusivamente dentro desse compartimento do que já aconteceu, por fazerem parte de sua essência, esse fluxo perfeito e contínuo que recai sobre o tempo presente e futuro, em uma relação de interdependência.

Partindo desse pressuposto, em que as lembranças do passado se articulam com as vivências do presente e contribuem para as expectativas de futuro, consideramos que histórias de mulheres envolvidas com a educação mostram caminhos para compreender o magistério e o lugar que a mulher professora ocupa na sociedade. Permitem, também, refletir sobre a luta que ainda estamos enfrentando pela emancipação feminina e pela profissionalização de uma profissão que continua sendo secundarizada, vista como uma extensão da maternidade ou trabalho de mulher. 

Seguimos refletindo sobre a constituição da História das Mulheres e as contribuições da historiografia nessa reconstrução. Dessa forma, ressaltamos as mudanças significativas ocorridas no campo historiográfico que se apresenta, principalmente com o surgimento da Escola de Annales[4], que introduziu uma nova forma de compreender a historiografia oficial. De acordo com Saviani (2013), a História vai ao encontro das ciências sociais, evidenciando as representações do tempo presentes nas diversas disciplinas.

E o que isso implica na nossa vida e compreensão de mundo? Modifica a nossa forma de observar o mundo e de nos entendermos como parte fundamental na construção da História. Passamos a compreender que a história de determinados homens não pode ser considerada mais importante que a história das mulheres. Rompe-se a ideia de centralidade e homogeneidade dos sujeitos que são mais importantes em detrimento de outros.

O século XX apresenta-se como o século das mulheres, como mostram Pink e Pedro (2018), devido a uma série de mudanças, direitos e oportunidades que elas puderam vivenciar, passando a conhecer outras possibilidades para além do casamento e da maternidade. As perspectivas educacionais, o direito ao voto, o acesso aos meios contraceptivos, o aumento da participação feminina no mercado de trabalho e até o direito de desfazer um casamento infeliz são transformações que modificaram a sociedade estruturalmente, sinalizando relações mais igualitárias entre homens e mulheres.

É necessário lembrar um dos marcos legais que apresentam essa igualdade. De acordo com Scott (2018, p. 25), “a Constituição de 1988 significou conquistas relevantes para as brasileiras, defendendo, entre outros, os princípios de isonomia entre homens e mulheres”. Embora as constituições que a antecederam contemplem de alguma forma alguns direitos femininos, é na Constituição de 1988 (Brasil, 2022) que se estabelece que homens e mulheres devem ter direitos e obrigações iguais, incluindo o âmbito civil, profissional e familiar, pelo menos perante a lei. Inclusive, ressaltamos a importância da organização das mulheres brasileiras na campanha Mulher e Constituinte[5], em que o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) reuniu mulheres de diversos setores para dialogar sobre os direitos que poderiam ser contemplados na Constituição.

São inúmeras as conquistas femininas, consequência de um trabalho árduo e coletivo que possibilita ainda hoje uma forma mais igualitária de existência. Mas será que podemos afirmar que a igualdade entre homens e mulheres se apresenta na sua plenitude? Será que realmente elas são respeitadas como cidadãs? Será que ainda estão lutando para terem o direito de viver com dignidade? São perguntas que ecoam ao percebermos as relações que se apresentam no cotidiano.

A agressão que inúmeras mulheres vivenciam não é uma característica do momento atual. Perrot (2007) mostra que a violência contra a mulher está presente em séculos passados, de diferentes formas, e que as agressões físicas fazem parte da História, em que o homem, considerado chefe da família e o senhor da sua casa, tinha liberdade para agredir a esposa e os filhos, desde que não ultrapassasse os limites convenientes para a sociedade, ou seja, essa violência era aceita e, podemos assim dizer, considerada normal.

Acreditamos que, dessas raízes, vem o ditado popular “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, discurso que, na atualidade, vem se tornando cada dia menos aceito, inclusive por meio de campanhas de enfrentamento à agressão contra a mulher. Contudo, os altos índices de violência não deixam de existir no mesmo ritmo com que o discurso se propaga. Tais questões nos fazem refletir sobre a importância de discutir a História das Mulheres, contribuindo para a compreensão de que elas são seres humanos autônomos, que não podem ser consideradas propriedades de homens que se acham no direito de decidir a hora em que elas vivem ou morrem.

Por mais que pensemos que o discurso de igualdade entre homens e mulheres seja algo antigo e já superado, os números de feminicídio[6] mostram o contrário: que temos que discutir sobre as questões de gênero[7] que perpassam pela sociedade em que vivemos. A título de ilustração, no Brasil, no ano de 2024, foram registrados mais de 4 mil casos de feminicídio, o que representa quase o dobro de casos do ano anterior, conforme dados divulgados pelo Monitor de Feminicídios no Brasil[8].

As bases históricas da desigualdade entre homens e mulheres sustentam-se na ideologia patriarcal, que acentuou a superioridade do ser masculino em relação ao ser feminino, estabelecendo papéis bem definidos para ambos os gêneros.

 

Reconstruindo o passado: professora Júlia Vasconcelos

 

Júlia Vasconcelos foi uma professora, geógrafa, literata e poliglota que teve sua história profissional ligada à formação de professoras primárias da Escola Normal do Ceará. Traz na sua origem familiar uma base sólida para desenvolver-se como mulher letrada: seu pai, o Sr. Antônio Augusto de Vasconcelos, fez parte da fundação do Instituto do Ceará – Histórico, Geográfico e Antropológico, em 1887.

As ideias republicanas e a nova maneira de pensar sobre educação – compreendida como o único meio responsável de libertar a população da miséria e do ciclo de poder exercido por pequenos grupos – consideravam a perspectiva de democratizar a escola, tendo como realidade a maioria da população analfabeta. De acordo com Cambi (1999), o cenário educacional brasileiro se modificou a partir de 1920, com a Escola Nova, que preconizava um ensino obrigatório e gratuito, contudo sem defender mudanças radicais sobre a educação feminina.

Uma das intelectuais que defendiam inovações na educação cearense era a professora Júlia Vasconcelos. Apresenta um discurso bem firme na defesa de questões que orientavam a sua prática pedagógica, um ensino da geografia que superasse a superficialidade e explorasse uma formação humana integral. Foi influenciada por Rousseau (1712-1778), Pestalozzi (1756-1827) e Fröbel (1782-1852) e fundamentou teoricamente a sua prática pedagógica em Gustavo Le Bom (1841-1931) e Manuel Bomfim (1868-1932) (Olinda, 2005).

A sua representação feminina não se limitou ao espaço escolar. Júlia Vasconcelos tornou-se referência em assuntos ligados a geografia e história e foi a primeira mulher a fazer parte do Instituto Histórico do Ceará. O discurso pronunciado pelo Dr. Álvaro Bomílcar para dar as boas-vindas à professora revela o modo como, por meio da lente do orador, a docente se apresentava para a sociedade.

Bomílcar (1931) apresentou Júlia Vasconcelos como uma mulher culta, especialista em geografia e história, que escolheu um caminho muito valoroso, que é estar presente na instrução pública, provendo o magistério com sua dignidade e inteligência. De uma cultura ímpar – e sendo uma mulher literata –, não almejava fazer das suas produções apenas um comércio, mas sua própria condição de existir, vivenciando a sua intelectualidade para além da fama; e acreditava que o meio a que pertencia ainda não tinha conseguido lhe dar a devida atenção que merecia.

O mundo intelectual de que Júlia fazia parte ainda duvidava que as mulheres fossem capazes de ocupar o espaço da intelectualidade cearense, tanto que a sua presença no Instituto Histórico não foi aceita de uma forma tão acolhedora quanto o discurso pronunciado pelo senhor Álvaro Bomílcar. Mesmo ocupando a vaga deixada por seu pai no Instituto, enfrentou o preconceito de ser mulher e vivenciar esse espaço público. Aliás, o conhecimento e o espaço público estão interligados com a História de Mulheres como mundos que não devem ser acessados pelo gênero feminino, o que não ocorre quando pensamos na vida de Júlia Vasconcelos e de outras mulheres que, por meio da educação, puderam se perceber como sujeitos pensantes.

Camurça (1968), em seu discurso de posse como sócio-membro efetivo do Instituto do Ceará, faz ecoar o que a professora pioneira vivenciou para se fazer presente nesse espaço, em que Antônio Theodorico da Costa (1861-1939), também membro do Instituto, reafirma o seu modo de pensar contrário à presença feminina nesses centros de cultura. Da mesma forma, a professora, com sua intelectualidade, elegância e educação, faz-se presente no Instituto, não mais pela presença física, mas pelas ideias, pelos escritos e pelas publicações na revista da instituição.

 

Memória Histórica da instituição – Escola Normal

 

Retomando o envolvimento da professora com a Escola Normal, e direcionando o olhar para os regulamentos da instituição, merece destaque o Regulamento de 1911, que se refere à obrigatoriedade da Memória Histórica da instituição. Por meio desse documento, é possível perceber a relevância de Júlia Vasconcelos nesse espaço e conhecer o que pensam essas educadoras e esses educadores que trabalhavam com a formação das professoras do ensino primário, em que uma mulher foi escolhida para escrever um documento extremamente relevante.

A Memória Histórica é um documento institucional da Escola Normal que registra os principais acontecimentos da escola. Quem se responsabilizava por escrever o documento era um professor, de acordo com a indicação dos demais. A Memória Histórica de 1912 foi escrita pelo Dr. João Hippolyto de Azevedo Sá; e a seguinte, de 1920, pela professora Júlia Vasconcelos. Acreditamos que o fato de Júlia ter sido escolhida para escrever o documento já traz uma representatividade significativa e, conforme apresenta o Regulamento da Escola Normal de 1919, o professor escolhido não poderia recusar o convite para escrever a memória, assim como deveriam constar os principais acontecimentos do ano escolar – e, assim, a autora pôde registrar as suas observações sobre a melhoria dos estudos.

Os acontecimentos foram relatados à luz do que pensava Júlia Vasconcelos, e isso nos dá um suporte para compreendê-la, a fim de relacionar a sua prática pedagógica na instituição. Vasconcelos (1920) inicia sua escrita registrando que não tem o intuito de identificar problemas e apresentar soluções, tampouco trazer teorias e palavras que poderiam contribuir mais para confundir do que esclarecer. Prefere estabelecer uma forma de pensar permeada por simplicidade e conclusões que possam ser aproveitadas na prática – e assim se define com um espírito prático. O que move a professora é “[...] trabalhar pela elevação da Escola Normal à altura dos seus nobres destinos” (Vasconcelos, 1920, p. 4).

Ressalta a importância que têm os avanços ocorridos nos direitos das mulheres, o que possibilitou vivências e vantagens anteriormente desconhecidas, inclusive no campo do conhecimento. A professora traz nas primeiras páginas da Memória Histórica uma discussão bem interessante acerca dos avanços da posição da mulher na sociedade, essa possibilidade que as mulheres estavam tendo de, por meio da educação, ocupar espaços e se fazer presentes sem serem sufocadas pelo sexo masculino.

Considerava que a superioridade feminina está intrinsecamente ligada à educação, base do desenvolvimento, e expunha a sua posição abertamente sobre o papel da mulher na sociedade, em que a igualdade deve existir entre homens e mulheres, ambos vistos como complementares. De acordo com Vasconcelos (1920, p. 6), “ali, um inicia, o outro conclui. Se o homem é a sentinela avançada de quaisquer arrojados empreendimentos, a mulher é-lhe imediata sucessora, quando não chefia ou traça o plano geral da campanha a encetar”.

A professora Júlia apresenta em seu texto o processo de feminização do magistério. Inicia citando cidades americanas que se apresentavam no cenário como locais extremamente cultos e em que a predominância das mulheres nas escolas já era uma realidade – assim como em outros países, como Inglaterra, Alemanha, Suíça, Dinamarca e Suécia, tidos como mais esclarecidos sobre os assuntos pedagógicos e onde a figura feminina era uma constante. Discute a própria organização do ensino, chamado de Gramar School ou Kindergarten, em que “organizando exposições de flores e plantas [...] cultivadas com esmero pelos pequenos discípulos, promove ao mesmo tempo o crescimento espontâneo e a expansão natural dessas raízes tenras que serão os sustentáculos das sociedades futuras” (Vasconcelos, 1920, p. 7).

Torna-se visível um dos aspectos do pensamento educativo de Fröbel: a organização dos Jardins de Infância (Kindergarten). De acordo com Cambi (1999), são locais que recebem crianças e desenvolvem uma proposta pedagógica vinculada com seus interesses, utilizando o canto, jogos e brincadeiras no seu método para promover a aprendizagem.

Inicialmente, é preciso compreender que a visão de educação de Fröbel está relacionada com Deus, homem e natureza, todos intrinsecamente ligados. Cambi explica que Fröbel é considerado o pedagogo do romantismo, por ter uma visão de mundo que compreende o indivíduo juntamente com a natureza e Deus, ou seja, não é possível olhar para um indivíduo sem ver, harmonicamente, Deus e a natureza. A organização dos Jardins de Infância é um dos aspectos do pensamento educativo do autor. Acrescentamos a ele a própria concepção de infância e a didática para a primeira infância, que, de acordo com Cambi (1999, p. 425), “constitui o ‘coração’ do método frobeliano e que tanta difusão teve na práxis escolar do século XIX”.

A infância é compreendida como um período fértil para que essa relação harmoniosa entre a tríade (Deus, homem e natureza) aconteça e no qual a criança é vista como um sujeito espiritual, naturalmente boa, uma representação pura da divindade na Terra, o que não significa dizer que ela não encontre caminhos que possam prejudicar a sua boa índole. Então, é necessário conhecer essa criança para que seja possível educá-la, e esse conhecimento parte da manipulação de objetos e da relação com a natureza, permitindo a exteriorização do pensamento e possibilitando que a criança se compreenda (autoconhecimento) e que o educador a conheça (Cambi, 1999).

A pedagogia de Fröbel apresenta alguns elementos para a compreensão da visão do envolvimento da mulher com o magistério, principalmente quando mostra o papel da família na educação das crianças, tema que ainda discutimos na contemporaneidade. Fröbel acreditava em uma educação que não estava dissociada do espaço familiar, compreendendo a família como primeiro núcleo que educa a criança.

Arce (2001) explica que, com os Jardins de Infância, o termo “jardineira” surge para designar mulheres que trabalhavam com a primeira infância, auxiliando as mães na educação das crianças, inclusive com manuais para esse fim. Um deles, intitulado Cantos e conversas de mãe, era destinado para ambas – profissionais e mães – e “começa a definir esta mulher não como uma profissional mas como uma ‘meia mãe’, que entende dos interesses e necessidades da criança, mas possui essencialmente um ‘coração de mãe’ a nortear sua conduta” (Arce, 2001, p. 172).

Um dos textos mais importantes de Fröbel – intitulado “De como Lina aprendeu a escrever e a ler: uma história para crianças que gostam de estar ocupadas” – auxilia na compreensão dos papéis destinados à mulher. Arce (2002) mostra que Fröbel apresenta Lina como o ideal de criança perfeita, que estava em plena harmonia com o seu desenvolvimento, era bastante ativa e criativa, gostando de estar constantemente ocupada. De acordo com Arce (2002), Lina morava com os seus pais, e a sua mãe aparece como “a própria imagem do papel social e educativo atribuído à mulher na pedagogia de Fröbel”.

A mãe é apresentada com um papel importantíssimo no ambiente familiar, promovendo os valores necessários para favorecer a harmonia do ambiente doméstico, tornando-o repleto de amor e religiosidade. Mostra características do ideal de mulher da época, dedicada apenas aos afazeres domésticos, ao lar, ao esposo e à educação de Lina. Com as experiências do dia a dia da criança, inicia o processo de alfabetização, mediado, prioritariamente, por ela, pela figura materna, até que chega o momento de Lina ir para a escola, vista como uma continuidade da educação familiar (Arce, 2002).

Quando Fröbel cita a família e a educação da criança, está se referindo especificamente à mulher, que é a principal responsável por essa educação e considerada guardiã dessa candura e pureza infantil. Como mostra Heiland (2010, p. 46), “a relação da criança com a mãe a vida familiar é o ‘modelo’ a orientar a pedagogia escolar [...]”. 

De acordo com Heiland, Fröbel teve influência direta de Pestalozzi, que tinha elaborado um programa educacional que colocava, mesmo que timidamente, o amor materno como um dos pontos na inserção da criança em idade pré-escolar ao ambiente; e utilizou o Livro das mães de Pestalozzi como ponto central dos seus estudos. O amor materno visto como princípio motor do conhecimento infantil e as próprias produções escritas contribuíram culturalmente para reforçar a presença da mulher como pertencente aos espaços destinados à educação de crianças.

Retomando as reflexões sobre a predominância das mulheres na educação primária, do âmbito mundial para o nacional, Vasconcelos (1920, p. 8) explica que “o Brasil, por sua vez, também abriu as portas à invasão feminina que monopolizou, por assim dizer, as posições no magistério, hoje quase todo confiado aos seus cuidados”. A autora utiliza dois termos – “invasão” e “monopólio” – que possibilitam pensar que a feminização do magistério brasileiro não pode ser compreendida apenas como uma condição dada às mulheres, mas como uma conquista, uma tomada de posse.

Tais termos trazem na própria essência a ideia de que as mulheres professoras tiveram uma parcela de contribuição nesse envolvimento com a profissão, que está atrelado a questões econômicas, sociais e culturais. E que ainda causa inúmeras reflexões, naturalizações e discordâncias sobre a presença feminina nos espaços de ensino. Especificamente sobre o estado do Ceará, a professora continua suas considerações: “Aqui – refiro-me ao Ceará – a mulher entra sorridente na arena de combate e passa a olhar pelo campo de acção, sem medir a grandeza do círculo que a envolve e que vae muito além das fronteiras de seu horizonte visual” (Vasconcelos, 1920, p. 8).

É necessário reforçar que em relação à situação feminina, à época em que a Memória Histórica escrita ainda era extremamente desigual, não era possível criar ilusões de que as mulheres vivenciavam o trabalho e as suas vidas com total autonomia. Por sinal, nem direito ao voto as mulheres tinham conquistado – o que só ocorreu em 1932. Soihet (1989) mostra que a sociedade brasileira, principalmente autoridades e políticos, era forte opositora aos direitos das mulheres, pois se embasava na ciência da época, que atribuía à mulher uma menor inteligência e uma fragilidade que a classificavam como incapaz de vivenciar atividades públicas. Expõe também que a educação feminina sempre foi defendida pelo movimento feminista no decorrer da História e é considerada essencial para a emancipação das mulheres.

Outra questão que emerge na Memória Histórica é a defesa que faz a professora Júlia da reforma dos processos de ensino, pois afirma que a escola primária trabalha conteúdos desnecessários com as crianças, que existem apenas para enfraquecer a inteligência e mutilar seus corpos. Vasconcelos (2020) defende método, tempo e, principalmente, um sistema educativo sólido, que promova o desenvolvimento infantil, pois os ensinos primário e secundário estão interligados, interferindo na qualidade educacional um do outro. Mas era necessário reconhecer a necessidade de se aperfeiçoar na ciência de ensinar, que tinha como componente indispensável a colaboração dos alunos, utilizando como referência os educadores paulistas, que iniciaram o processo de reorganização educacional.

O discurso está em sintonia com as mudanças educacionais que estavam ocorrendo em São Paulo e o posicionamento de que também era necessário trazer para o Ceará o que fosse possível para que pudéssemos continuar o nosso processo de desenvolvimento educacional, o que posteriormente iria culminar na Reforma Educacional de 1922. Isso porque, como explica a pesquisadora Cavalcante (2000, p. 75), no Ceará já existia “a circulação de ideias e anseios modernizantes no meio educacional local, no início dos anos de 1920”. Tais ideias e anseios podem ser constatados na própria Memória Histórica, que apresenta que onde estiver o segredo da cultura para que as mulheres possam se desenvolver intelectualmente é necessário obter esse conhecimento, registrando uma das contribuições da professora em defesa da implementação das ideias escolanovistas no Ceará.

 

Contribuições de Júlia Vasconcelos na Memória Histórica da instituição

 

Diante do exposto, podemos destacar as contribuições de Júlia Vasconcelos na Memória Histórica da instituição e na educação no Ceará em pelo menos seis frentes: representatividade e protagonismo feminino; registro de uma perspectiva feminina crítica e engajada; reflexões pedagógicas e defesa de uma educação transformadora; enraizamento das ideias pedagógicas de Fröbel; enfrentamento da naturalização da feminização do magistério; e contribuição para a modernização da educação no Ceará. Discorremos sobre cada um desses aspectos a seguir.

Representatividade e protagonismo feminino: a Memória Histórica da Escola Normal de 1920 é, por si só, um marco significativo. Em um contexto histórico de desigualdade de gênero, a nomeação de Júlia não apenas reflete a confiança da instituição em sua capacidade intelectual, mas também simboliza um avanço na representatividade das mulheres nos espaços de produção do conhecimento.

Registro de uma perspectiva feminina crítica e engajada: ao redigir a memória da instituição, Júlia adotou uma abordagem prática e crítica, refletindo sobre os avanços da mulher na sociedade e defendendo a igualdade entre os gêneros. Ela reconhece a importância da educação como base para a emancipação feminina e denuncia a exclusão histórica das mulheres nos espaços públicos e educacionais.

Reflexões pedagógicas e defesa de uma educação transformadora: a professora se destaca por criticar o ensino primário vigente, por considerar seus conteúdos inadequados e prejudiciais ao desenvolvimento infantil. Além disso, defende uma educação mais sólida e eficaz, alinhada às ideias da Escola Nova e às reformas educacionais que estavam em curso, especialmente inspiradas no movimento paulista. Ressalta a interdependência entre ensino primário e secundário, evidenciando sua compreensão sistêmica da educação.

Enraizamento das ideias pedagógicas de Fröbel: Júlia demonstra conhecimento aprofundado acerca da pedagogia de Fröbel, valorizando os Jardins de Infância e o papel da natureza, do jogo e do canto no desenvolvimento infantil. Ela articula essas ideias com a realidade do magistério feminino, reforçando o papel da mulher educadora e a importância da infância como base para a formação humana.

Enfrentamento da naturalização da feminização do magistério: ao utilizar termos como “invasão” e “monopólio” para descrever a entrada das mulheres no magistério, Júlia ressignifica a presença feminina na docência, não como um dom natural, mas como uma conquista histórica, revelando consciência crítica sobre os processos sociais e culturais que moldaram essa realidade.

Contribuição para a modernização da educação no Ceará: Júlia Vasconcelos antecipa e defende ideias que mais tarde fariam parte da Reforma Educacional de 1922 (Cavalcante, 2000). Sua Memória Histórica, portanto, expressa anseios modernizantes e inovadores, colaborando com a construção de um novo projeto educacional para o estado do Ceará.

Em resumo, a contribuição de Júlia Vasconcelos para a Memória Histórica da Escola Normal transcende o simples relato de acontecimentos. Ela utiliza o espaço para registrar reflexões pedagógicas, políticas e sociais, posicionando-se como uma intelectual comprometida com a transformação da educação e com a valorização da mulher na sociedade. Sua escrita configura-se um importante documento de crítica e proposição dentro do campo educacional cearense.

 

Considerações finais

 

Por séculos, as mulheres foram impedidas de estudar, excluídas do mundo letrado e consideradas inaptas ao desenvolvimento cognitivo.  Desse modo, foi naturalizado que a mulher era intelectualmente inferior, o que ampliou a questão da desigualdade e da injustiça às quais foi submetida historicamente, tornando a subordinação intelectual da mulher em relação ao homem própria da natureza humana.

O envolvimento das mulheres com a educação estabeleceu uma relação que auxiliou a mulher a ser vista como sujeito, passando a existir socialmente. Mesmo com as inúmeras limitações impostas, as supostas qualidades naturais passaram a ser consideradas para que fosse possível justificar o trabalho para além, exclusivamente, do espaço doméstico.

Consideramos que visibilizar uma educadora cearense contribuiu para esse processo de (re)construção da História das Mulheres, articulando fatos sociais que permitiram compreender sobre educação, profissão docente e condição da mulher na sociedade. Dessa forma, a pesquisa é de suma importância para os estudos sobre História de Mulheres. A professora Júlia Vasconcelos, primeira mulher a fazer parte do Instituto Histórico e autora de uma das memórias históricas da Escola Normal, registrou os avanços ocorridos nos direitos das mulheres, o que possibilitou vivências e vantagens anteriormente desconhecidas, inclusive no campo do conhecimento. Defendeu a reforma nos processos de ensino, pois afirmou que a escola primária trabalhava conteúdos desnecessários com as crianças, que existiam apenas para enfraquecer a inteligência e mutilar seus corpos.

Também foi possível refletir sobre o envolvimento da mulher com o magistério, o modo como o ser feminino se apresentava no cotidiano e nos documentos, os discursos que se eternizam e o curso que segue a emancipação feminina. O presente artigo permite perceber a relação clara entre o passado e o presente e a identificação com a História das Mulheres que se eternizam: uma história de uma mulher professora, nossa História de Mulheres.

Embora esta pesquisa tenha destacado a importância de Júlia Vasconcelos na educação cearense, ainda há muito a ser explorado. Dessa forma, sugerimos que outras pesquisas a serem realizadas aprofundem sua produção intelectual, atuação no Instituto Histórico, contribuições às reformas educacionais e seu impacto nas práticas pedagógicas. Essas investigações podem enriquecer e reafirmar a compreensão acerca do seu legado e ampliar o debate sobre o papel das mulheres na História da Educação no Brasil.


 

Referências

 

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Submetido: 30.12.2024.

Aprovado: 08.05.2025.



[1] Secretaria de Educação de Fortaleza, Fortaleza: julianaalicecostafreire@gmail.com.

[2] Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza: jarles.lopes@uece.br.

[3] Universidade Federal do Ceará, Fortaleza: gisafranjuca@gmail.com.

[4] Movimento historiográfico que amplia a concepção de documento histórico, passando a considerar diferentes tipos de fontes históricas.

[5] Esclarecimentos sobre a Constituição de 1988 e os avanços nos direitos das mulheres podem ser lidos em Modelli (2018).

[6] Feminicídio está relacionado aos homicídios praticados contra mulheres, pelo fato de serem mulheres.

[7] De acordo com Bourdieu (2014), as relações de gênero podem ser compreendidas como uma estrutura de dominação simbólica, em que o princípio masculino é tomado como referência, um parâmetro que deve nortear as relações sociais estabelecidas, assim como as relações de classe e raça.

[8] Disponível em: https://sites.uel.br/lesfem/monitor-brasil/  Acesso em: 10 mar. 2025.