Práticas de Si a partir da Hermenêutica do Sujeito de Michel Foucault
David da Silva Pereira[1]
https://orcid.org/0000-0003-3946-7807
Fernando Henrique Ribeiro Lima[2]
http://orcid.org/000-0002-5756-5681
Leonardo Henrique Barbosa[3]
https://orcid.org/0000-0002-0250-5817
Resumo
Trata-se de um levantamento sobre os elementos das práticas de si no curso de Foucault (1982). Nesse contexto da cultura greco-romana, aborda duas ideias preciosas para pensar a formação: o cuidado de si e o dizer verdadeiro. O modo como descreve essas práticas de si permite tomar o currículo e o modo como ele é compreendido no processo de formação de si e de formação do outro. Nesse jogo, o formador ensina e é transformado pelas práticas que conformam a estética da existência e o domínio ou o governo de si e dos outros. Parte-se da leitura do curso para tomar o próprio discurso foucaultiano, gravado, transcrito, traduzido e integrado pelo editor. Assim, verifica-se o cuidado de si e o dizer verdadeiro como elementos que conformam a prática do cuidador autônomo e zeloso de si e dos outros.
Palavras-chave: Cuidado de si. Dizer verdadeiro. Governo. Estética da existência. Ética.
Les Pratiques de Soi depois L’Hermenéutique du Sujet de Michel Foucault
Résumé
Il s’agit d’une enquête sur les éléments des pratiques de soi dans le cours L’Herméneutique du Sujet de Michel Foucault (1982). Dans le contexte de ces études sur la culture gréco-romaine, Foucault remet en lumière deux idées précieuses pour penser la formation dans le présent : le souci de soi et le dire vrai. La manière dont il décrit ces pratiques de soi permet, entre autres actions, de prendre en considération le curriculum et la façon dont celui-ci est compris dans le processus de formation de soi-même et de formation de l’autre. Dans ce jeu, le formateur enseigne et est également transformé par les pratiques qui façonnent l’esthétique de l’existence et le domaine ou le gouvernement de soi et des autres. On part de la lecture du cours de 1982, publié au Brésil en 2001, pour prendre le discours foucaldien lui-même, enregistré, transcrit, traduit et intégré par l’éditeur. Ainsi, on constate que le souci de soi et le dire vrai constituent des éléments qui structurent la pratique du soignant autonome et attentif à lui-même et aux autres.
Mots-clés: Souci de soi. Dire vrai. Gouvernement. Esthétique de l’existence. Éthique.
Introdução
Trata-se de um levantamento dos elementos das práticas de si no curso A Hermenêutica do Sujeito de Michel Foucault (1982), proferido no Collège de France de Paris. No processo formativo docente, há muito investimento, tanto na formação inicial quanto na formação continuada. Em outros campos do Ensino isso também é verdadeiro, como na Medicina, na Enfermagem, nas Engenharias, dentre outros. Entretanto, nesses campos predomina o ensino prático, realizado a partir de profissionais tomados como práticos, como aqueles que atuam profissionalmente na produção do cuidado e no governo dessa produção do cuidado de si como cuidado do outro.
Metodologia
Parte-se da leitura do curso, publicado no Brasil em 2001, a partir de uma tradução da Editora Martins Fontes de São Paulo. Dessa forma, toma-se o próprio discurso foucaultiano, gravado, transcrito, traduzido, integrado e publicado por um editor, conforme consta das notas iniciais desses cursos publicados no Brasil e na França. É a palavra pronunciada que se torna, portanto, objeto de leitura atenta, interpretação e recontextualização no que diz respeito à extração do cuidado de si e do dizer verdadeiro nesse exercício hermenêutico.
No contexto desses estudos sobre a cultura greco-romana, Foucault resgata duas ideias preciosas para pensar a formação no presente: o cuidado de si e o dizer verdadeiro. O modo como descreve essas práticas de si possibilita, entre outras ações, tomar o currículo e o modo como é compreendido no processo de formação de si e de formação do outro.
Assim, este texto foi escrito coletivamente em um processo que pretendeu resgatar a centralidade do cuidado de si e do dizer verdadeiro no processo de construção dos sujeitos como profissionais de campos disciplinares, como formadores de si e de outros, como educadores em campos profissionais de atenção, de cuidado e de aprimoramento contínuo de si.
Os currículos desses itinerários formativos muitas vezes cindem teoria e prática. Em outros momentos, o envolvimento profissional desses formadores alicerça-se muito mais em um saber-fazer do que, propriamente, em teoria, ou por outro lado, dirige-se pela prática profissional dessa produção do cuidado e a teoria emerge em discussões reservadas aos que governam o processo.
Toda essa discussão vale-se principalmente das aulas ministradas por Michel Foucault no curso A Hermenêutica do Sujeito, no início de 1982, no Collège de France de Paris. É impressionante o modo como esse filósofo contemporâneo tece um resgate precioso das práticas de si da Antiguidade greco-latina para problematizar o modo como é constituída a subjetividade, a forma como o cuidado de si fica restrito às elites ou se populariza em cada época, mas por outro lado, toma formas que expandem essa compreensão de si - do governo à Dietética, da Ética à Terapêutica, do privado ao público.
Nessa narrativa foucaultiana, é central o papel de Sócrates, como o mestre do cuidado de si, mas são importantes, também, as formas outras que, para além do diálogo persuasivo, assumem feições desse cuidado, desse modo de relacionar-se consigo e com o outro.
Com essa perspectiva, a metodologia desenvolvida partiu da leitura e da releitura desse curso de 1982, com ênfase na terceira e quarta aulas desse curso, momentos em que as práticas de si e a relação com o outro são enfatizadas. Trata-se, portanto, de um estudo desse curso com o apontamento de contribuições possíveis para a problematização da formação de si e do outro. Um processo hermenêutico, cujo referencial teórico foi enriquecido a partir de leituras outras, como a investigação sobre o Currículo, sobre o discurso de Bakhtin e quanto ao modo como essas leituras, do Último Foucault (1978-1984), instigam e oferecem possibilidades de pensar a existência e a coexistência de outros modos.
As práticas de si
Nesse jogo das práticas de si, o formador ensina e é transformado, também, pelas práticas que conformam a estética da existência e o domínio ou o governo de si e dos outros.
Cuidado de si e dizer verdadeiro estão, portanto, profundamente associados ao papel daquele que ensina, à função do formador. Isso porque a confiança e a amizade são pressupostos dessa relação, dessa construção compartilhada de saberes, e governada pelo mestre do cuidado. Entre outras, destaca-se o cuidado de si que envolve o dizer verdadeiro sobre si entre os seus elementos.
O cuidado de si
Foucault anuncia, logo no início de sua primeira aula, em 1982, o seu ponto de partida: o cuidado de si. Apresenta essa noção grega como “bastante complexa e rica, também muito frequente, que perdurou longamente em toda a cultura grega” (Foucault, 2014, p. 4). Em seguida, ensaia alguns de seus significados: “o fato de ocupar-se consigo, de preocupar-se consigo, etc.” (Foucault, 2014, p. 4).
Contudo, o cuidado de si diz respeito a “uma atitude geral, um certo modo de encarar as coisas, de estar no mundo, de praticar ações, de ter relações com o outro” (Foucault, 2014, p. 12). Trata-se de “uma atitude - para contigo, para com os outros, para com o mundo” (Foucault, 2014, p. 12). Para além da atitude geral, “designa sempre algumas ações, ações exercidas de si para consigo, ações pelas quais nos assumimos, nos modificamos, nos purificamos, nos transformamos e nos transfiguramos” (Foucault, 2014, p. 12).
Contudo, é de Sócrates que esse pensador contemporâneo resgata o sentido original dessas práticas vinculadas ao governo, justamente no diálogo com o Alcibíades: que quer governar a cidade, mas Sócrates o alerta que, para tanto, ele precisará voltar-se sobre si (como conselho de prudência) para exercer o poder político sobre os outros (Foucault, 2014).
Quanto ao significado do si, Foucault (2014) responderá apenas na segunda aula de 1982. Em síntese, “o que é ‘si mesmo’, o que é ‘ocupar-se’?” (Foucault, 2014, p. 44). Algumas páginas à frente, o próprio Alcibíades formula, nas palavras de Foucault (2014, p. 50): “o que é o eu com que se deve ocupar?” - A resposta, segundo a tradição socrático-platônica, é da alma - “o único elemento que, efetivamente, se serve do corpo, das partes do corpo, dos órgãos do corpo e, por consequência, dos instrumentos, se servirá da linguagem” (Foucault, 2014, p. 52).
No início da aula de 20 de janeiro de 1982, é destacada a Idade de Ouro do cuidado de si - o período estoico que vai de Musonius Rufus até Marco Aurélio (Foucault, 2014). Em uma espécie de renascimento da cultura clássica, Foucault (2014) encontra o cuidado de si como noção e como instituição. Então, retoma o Alcibíades para afirmar:
Na realidade, é ao cabo de uma longa evolução, já perceptível no interior da obra de Platão, que essas diferentes condições do cuidado de si, expostas no Alcibíades, finalmente desapareceram. Essa evolução, já sensível em Platão, prossegue ao longo de toda a época helenística, tendo como elemento portador e, em grande parte sob o seu efeito, todas aquelas filosofias cínica, epicurista, estoica, que se apresentaram como artes do viver (Foucault, 2014, p. 76, grifos nossos).
Em seguida, Foucault (2014) pontua as transformações que destaca por marcarem essa nova etapa da cultura greco-romana):
- ocupar-se consigo tornou-se um princípio geral e incondicional;
- a razão dessa ocupação não é mais governar os outros, mas possui um fim em si;
- o eu (si) aparece como objeto do qual se cuida e finalidade em si (autofinalidade);
- não se restringe mais unicamente como conhecimento de si, mas adquire um conjunto de outros significados, como exercitar-se, treinar, um agir vigilante, contínuo, aplicado, regrado, voltar o olhar para si, examinar a si, converter o olhar a si, instalar-se em si como lugar de refúgio, encontrar em si uma cidadela fortificada e protegida por muralhas, tratar-se, curar-se, amputar-se, abrir seus próprios abscessos, reivindicar-se a si, liberar-se, desobrigar-se, cultuar-se, honrar-se, respeitar-se, envergonhar-se diante de si, ser mestre de si, sentir prazer consigo, ser feliz em presença de si, satisfazer-se consigo.
Enquanto era a própria ideia de formação (defeituosa) do homem grego que estava em questão no Alcibíades, crítica de uma Pedagogia, portanto, como incapaz de assegurar a passagem da adolescência à idade adulta (Foucault, 2014), agora, tal prática de cuidado será tomada como uma obrigação permanente que deve durar a vida toda. Sobre isso, atestam Epicuro, Rufus, Sêneca, Epicteto e os oradores cínicos, como Díon de Prusa entre outros.
Um grupo conhecido como os terapeutas, segundo Foucault (2014), preocupados com os cuidados com a alma, tiveram um Filon de Alexandria, por exemplo, como alguém que pensava a antecipação da herança de seus descendentes ou destinada aos companheiros como um modo de concluírem sua vida mortal (ideia importante da terminalidade ou da preparação para ela) por meio de uma passagem da idade adulta à velhice, e essa última tomada como um processo intenso de cuidado de si.
Descentralização, portanto, do cuidado, do final da adolescência à velhice, para a maturidade ou para o final dessa que, para esse filósofo contemporâneo, traz algumas consequências, tais como (Foucault, 2014):
- acentuação da atividade crítica em face desse deslocamento de idade;
- papel corretivo ou curativo e menos formador, que permanece ligado à crítica de si, um trabalho para liberar-se de um mal interior (deformação);
- papel preparador do indivíduo, agora relacionado a formá-lo para suportar acidentes, infortúnios, desgraças e reveses que possam atingi-lo (armadura);
- tornar-se o que nunca foi por meio das práticas de si e por meio de um endireitar-se (Sêneca apud Foucault, 2014).
O que Foucault trabalha, nesse processo analítico, é uma ideia de desaprendizagem. É preciso, segundo ele, uma virtude essencial nos cínicos: “reforma de si que tem por critério uma natureza - mas uma natureza jamais dada, jamais manifestada como tal no indivíduo humano, de qualquer idade [...] um desbaste em relação ao ensino recebido, aos hábitos estabelecidos e ao meio (Foucault, 2014, p. 87).
É interessantíssimo perceber como esse deslocamento do cuidado de si para a velhice, aliado à antecipação da herança tomada como um desvencilhar-se dos bens e das preocupações rotineiras para centrar-se em si possibilita, no alvorecer da cultura greco-latina e com essa profundidade, que o cuidado de si, tomado por Michel Foucault, desse período estoico, dirige-se para “reverter inteiramente o sistema de valores veiculados e impostos pela família” (Foucault, 2014, p. 87-8), e ainda, quanto ao modelo pedagógico, cuida de tornar a prática filosófica não um, mas o modo de vida.
O conjunto dessas práticas foi bastante influenciado por um dizer verdadeiro, precedido da constituição dessa clareza sobre o si.
O dizer verdadeiro
O dire vrai sur soi même (dizer verdadeiro sobre si mesmo) foi empregado na Antiguidade como uma forma de compreensão de si, de trabalho de si sobre si, tanto do ponto de vista de uma hermenêutica quanto como estratégia para alcançar uma vida bela. Foucault revela toda uma cultura do cuidado associada a esse trabalho contínuo, que estabelece uma verdadeira cultura do cuidado. Desde as escolas filosóficas, com várias feições, essa arte de esculpir-se, de tomar a si mesmo como uma obra, teve variações, desde manifestações mais reservadas, como as estoicas, até práticas mais intensas e expansivas, como as dos cínicos.
Esse dizer verdadeiro sobre si requer um conjunto de exercícios que tem início por exercícios de conhecer a si, de perceber-se, de compreender-se, de buscar um equilíbrio, um controle, uma forma de deter as paixões e, para tanto, mobilizar a razão. É esse exercício de si sobre si, essa prática de liberdade que fascinou Michel Foucault, sobretudo a partir de suas viagens à Califórnia (Estados Unidos) no final dos anos 1970 e início dos 1980, como relata Leo Bersani em produção acerca desse intelectual (Caillat, 2014).
Uma cultura do cuidado
A constituição dessa cultura do cuidado na Antiguidade Clássica é bastante significativa nas investigações foucaultianas. Após realizar esse verdadeiro trabalho de escavação em textos clássicos e marginais, esse filósofo compreende como esse cuidado de si, essa produção de um conhecimento de si, foi apropriada pelos Pais da Igreja, no início da Era Cristã, em um processo que resultou em práticas de governo, de condução, de hierarquias entre um sujeito que fala e outro que ouve, que conduz, que orienta[4].
É impressionante perceber como essa sistemática, essa condução de condutas marca a experiência ocidental, não apenas no âmbito religioso ou doutrinário, mas nas experiências formativas. Essa relação mestre-discípulo, pautada na investigação do sujeito sobre si, em busca contínua e permanente de algo que vai nele, como a suposta voz de Sócrates, e que o alerta para os perigos, para o mal que vai em si.
O par Terapêutica-Dietética e a escrita de si conformam duas das possibilidades realizadas por essa Era de Ouro do cuidado de si nas aulas desse curso de 1982.
Terapêutica e Dietética
É o filósofo, como uma espécie de prático da restauração, como agente dessa correção profunda de si, que realiza um conjunto de ações que aproxima a sua arte da Medicina. Foucault descreve que o papel do educador e mestre é contribuir na reforma do indivíduo e na sua formação como sujeito, e pretende retirá-lo do estado de ignorância para o estado do saber. Mas o aluno não vem pronto para a aprendizagem, como um solo fértil que necessita apenas semeadura para germinar. Isso porque o mestre é aquele que promove a liberdade de ação do outro, é quem conduz o outro e ensina a autocondução, fazendo com que aquele se liberte dos vícios, da intranquilidade, do mal, da infelicidade e assuma pleno controle sobre sua vida, sobre si mesmo.
Segundo Sêneca (Carta 50 apud Foucault, 2014), sempre há meios de se corrigir e se endireitar e se tornar o que se poderia ser e nunca se foi. Para que tal transformação ocorra, a relação entre mestre e aluno vincula-se à therapeùein, definida como um ato médico que leva à cura e ao cuidado. Nesse sentido, admitindo-se tal processo, o aluno não viria à escola apenas para adquirir conhecimentos, mas também e sobretudo para se curar de deformações, erros e maus hábitos criados pela convivência familiar, de modo a promover-se uma restauração, uma correção-liberação associada ao saber-formação.
A escola assemelha-se a um grupo de terapeutas que se reúnem temporariamente dentro dos muros da instituição, podendo representar a distinção de um grupo, condição necessária para a prática do cuidado de si. Por outro lado, sabe-se que todos os indivíduos são capazes da prática do cuidado, em si, mas poucos são efetivamente capazes de exercer esse cuidado. As maiores barreiras seriam: a falta de coragem, de força, a resistência natural e a ignorância em perceber a importância desse cuidado. Portanto, o ensino da prática do cuidado de si, representando o cuidado da alma, deve ser realizado com insistência e constância.
A Terapêutica ensina, também, a obediência às ordens do mestre. Para que o aluno aprenda, é necessário que o mestre seja modelo de comportamento e exemplo a ser transmitido e respeitado. Por essa razão a formação profissional torna-se tão importante. Nesse processo de formação, deve-se praticar o cuidado de si para, com autoridade, ensinar-se tal cuidado ao outro. O mestre em formação deve adquirir saberes para criar caminhos para a autocondução. Infelizmente, essa prática não encontra bases em um currículo escolar, cada vez mais profissionalizante, docilizante e alienante.
A prática do therapeùein heauton leva uma associação da Medicina, da Filosofia e da Pedagogia, levando à formação de um indivíduo que cuida da alma, do corpo e do seu saber. Observa-se, assim, que o deslocamento observado astutamente por Michel Foucault, e que realizou o que denomina de Era de Ouro do cuidado foi justamente essa preocupação com a finitude, com o momento em que as forças do corpo não mais reagem, momento no qual é preciso cuidar desse processo de terminalidade da vida, de um conjunto de cuidados que dizem respeito a todos que o cercam, como um verdadeiro processo reeducativo e curativo, e não apenas ao paciente.
A Dietética, por sua vez, diz respeito ao regime, à prática de alimentação do corpo, e é descrita detalhadamente por meio das correspondências, mas também em espécies de anotações de si, em forma distinta de diários, posto que buscavam “captar o já dito - reunir o que se pôde ouvir ou ler” (Foucault, 2014, p. 145). Os diálogos de Marco Aurélio e Frontão, por exemplo, evidenciam isso (Foucault, 2014).
Frontão é o mestre de retórica do imperador Marco Aurélio (o imperador filósofo). A hipocrisia do poder é desvendada por uma série de exercícios, o que faz emergir novamente a importância do dizer verdadeiro (parrhesía) e do dizer verdadeiro a si. Em uma das cartas que marcam essa correspondência, precisa Foucault - a Carta 6, surge uma descrição de atos relacionados ao que se ingere, ao que se come, com quem se realiza tais ações que expressam uma preocupação com a saúde alimentar do corpo (Foucault, 2014). Como salienta esse filósofo contemporâneo, não se trata de uma relação de direção de consciência em vista de não ser Frontão um mestre de Filosofia, mas de Retórica. Portanto, em que pese a dificuldade hermenêutica própria a essa passagem, percebe-se uma feição que marca essa relação. Afeição, cuidado, afeto entre mestre e discípulo. Correspondida por uma série de relatos, como é o caso, detalhados acerca das práticas cotidianas e, nelas, uma preocupação acentuada com a manutenção do corpo, com uma Dietética. Detalhes sobre o regime, detalhes sobre a saúde, detalhes acerca das agitações e das medicações, Dietética e Terapêutica.
As leituras praticadas por Marco Aurélio, por outro lado, cultivam também a alma e valorizam elementos da existência. Ele lê o Da Agricultura, de Catão. Lê também o Econômico, de Xenofonte. Compreende os traços de uma vida agrícola muito mais relacional do homem com o meio, vida pela qual ele procurava compreender para se aproximar, também, das “necessidades elementares e fundamentais da existência” (Foucault, 2014, p. 145).
Completam o quadro descrito por Foucault uma série de exercícios físicos (não mais espirituais) que compõem esse mundo: prática da vindima, leitura, escrita, um trabalho realizado, de si sobre si. Um exercício, também, de preocupação com os que o cercam, relações familiares, relações com os serviçais, relações que se constituem como exercícios pessoais. Essa descrição chegou até o presente apenas pela escrita, pelo registro precioso desse discurso sobre si.
Escrita de si e discurso sobre si
Uma das práticas desenvolvidas nessa cultura de si foi justamente a escrita de si. Tal atividade se realizou, na narrativa foucaultiana, por meio das anotações diárias e de uma correspondência vasta, da qual Sêneca é mais uma vez o exemplo. Ele era o interlocutor, aquele que recebia os sintomas descritos e aconselhava por meio de epístolas. Esse conjunto de agentes ficou conhecido como hupomnêmatas. Sobre isso, em um dos últimos textos publicados em vida, Foucault tratou das artes de si. Em suas palavras: “a estética da existência e o domínio de si e dos outros na cultura greco-romana, nos dois primeiros séculos do Império”, em um texto publicado sob o título de A Escrita de Si (Foucault, 2017 [1983]).
A atividade de reflexão sobre si, nos variados contextos, requer a compreensão da profundidade com que se realiza o movimento. Mover-se, como já considerou o movimento futurista italiano, é uma condição de não permanecer estático, ou seja, é um ato “singular, transcendente, do sujeito em relação ao que o rodeia, aos objetos que dispõe, como também aos outros com os quais se relaciona, ao seu próprio corpo e, enfim, a ele mesmo” (Foucault, 2014, p. 50). A essa ideia de movimento liga-se a intensidade da ação em relação ao objeto e a si.
A intensidade do conhecimento precisa influenciar a intensidade da ação a fim de que o discurso não seja vazio e as diferentes reflexões sejam construídas em um ambiente harmônico de ideias. Sobre essa realidade, Bakhtin e Volóchinov (1992 [1929]) consideraram que a atividade mental, enquanto discurso, oscila entre o eu e o nós, ou seja, todo discurso está direcionado ao individual e ao coletivo e, exatamente por isso, precisa considerar as especificidades de ambos os contextos como auditórios definidos para o ato social.
Essa reflexão faz sentido quando é percebida no esforço de superar a si e a própria ignorância, primeiramente, para, então, estender o cuidado ao outro. Isso pensado no currículo e na constituição da escola permite entender que o ato coletivo requer um cuidado de si semelhante ao ato individual, e a profundidade, com a qual se pensa a própria realidade, é semelhante com a qual se deve pensar a realidade do outro. Nessa direção, Bakhtin (2011) considera que o ato cognoscível é complexo, pois compreende a capacidade de conhecer e de exprimir. Esse autor pontua, também, que o ato envolve a complexa dialética do interior e do exterior, e nele encontram-se e se combinam duas consciências (a do eu e a do outro).
Postas essas ideias, permite-se olhar para a constituição da escola, do currículo e da formação enquanto espaços institucionais. Nas perspectivas teóricas pontuadas, situa-se o papel da instituição como uma voz capaz de direcionar os atos individuais e coletivos. Ocorre que, quando se pensa no ato individual e no cuidado de si na perspectiva de Foucault, percebe-se que, diante da voz da instituição está sempre o humano como mecanismo de desejo, dotado de vontades, identidades e percepções estéticas que, insistentemente, contrapõem-se à voz da instituição, que por sua vez insiste em reduzir a intensidade dos sujeitos.
Quando um cenário busca reduzir a intensidade do pensamento e da ação do outro, surge uma relação de poder. As relações de poder são, em si, uma renhida luta de classes (Saviani, 2003) na qual as instituições se encontram para forjar os seus discursos. Assim que o discurso toma corpo, passa a existir a necessidade da dialética, pois toda ação precisa considerar o contraponto de si mesma. Na formação do professor, na escola e no currículo, por exemplo, a dialética constante é a única garantia de um senso de democracia e de participação, contrária, portanto, à hegemonização do pensamento institucional.
O mal que se percebe é a sobreposição de um discurso ao outro. Quando se fala em sobreposição, exclui-se a possibilidade do cuidado de si e um sujeito passa a cuidar do outro, deixando a si próprio e esvaziando o seu próprio discurso. Uma escola que deixa de olhar para a realidade social dos sujeitos que nela convivem passa a cuidar dos interesses daqueles que não têm nada a ver com a escola. Um currículo que caminha para a perpetuação dos interesses de outrem se distancia daqueles que deveriam se beneficiar da mudança que ele pressuporia. Uma formação que conduz o profissional a um caminho que lhe seja estranho afasta a possibilidade desse profissional olhar para a sua comunidade. Nessa direção, a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) intensifica uma formação para o mercado de trabalho e deixa de lado a formação do ser, do cidadão, do homem comprometido com o presente.
Somado à ideia de cuidado de si e de discurso, o conceito de alteridade possibilita, também, pensar essa conjuntura. A legitimação das diferentes vozes sociais enquanto discursos que compõem a instituição passa pelo que se compreende como alteridade. Segundo Bakhtin (2011) e Bakhtin e Volóchinov (1992 [1929]), alteridade é o espelhamento do discurso de si nas próprias ações, possibilitando a construção da própria identidade. Quando se materializa um discurso e se dá a ele o corpo social de sua existência (que é a prática efetiva do discurso), ocorre um movimento de refração. Em tese, a palavra dita constitui o sujeito, ressoa na sociedade e na comunidade e volta-se a ele carregada dos sentidos que colheu.
Os pensamentos de Bakhtin e de Foucault direcionam uma reflexão sobre o direito de dizer, a partir do lugar social que o sujeito ocupa. Tais movimentos são importantes nas Ciências Humanas porque, ao mesmo tempo em que se atribui uma responsabilidade ao ato de dizer, abre-se espaço para que o discurso transite entre as diferentes instâncias sociais.
Objetivamente, essa preocupação com o discurso, com a identidade e com o cuidado de si é importante para a escola, para o currículo e para a formação do professor porque lhes possibilita existir com responsabilidade e exercer a sua atividade natural. Todo ataque à alteridade fere o direito de existência de uma ideia (ou de um discurso) e é a condição primeira para a imposição. Portanto, o cuidado de si é, antes de tudo, um conjunto de atos responsáveis consigo e com o outro.
Formação como cuidado de si e do outro
Ao discursar no seu curso A Hermenêutica do Sujeito sobre o cuidado de si, Foucault (2014) tematizou a construção do sujeito e o dizer verdadeiro desde a Antiguidade greco-romana até o Cristianismo do segundo século. Foucault (2014) fez um estudo genealógico analisando diferentes formas do cuidado de si e como o indivíduo se forma sujeito.
Foucault (2014) deu ênfase à relação entre o cuidado de si e a formação. O ponto de partida, o primeiro sentido para a realização desse cuidado é encontrado em Sócrates, dedicado a cumprir seu dever, atribuído pelos deuses, de incitar os outros a cuidarem de si. Sócrates aparece nas aulas de Foucault (2014) pelas palavras de Platão, no conselho a Alcibíades: o cuidado de si para governar. Um conhecer-se para, assim, exercer o poder por direito. Conhecer-se para saber de seus limites e, então, utilizar das práticas de si para alcançar a possibilidade de competir pelo governo de Atenas, visto que Alcibíades procurava Sócrates, pois não havia sido suficientemente educado, e seus concorrentes (persas e espartanos) tinham recebido muito mais condições de governo do que ele. Sócrates tornou evidente que esse cuidado não era destinado ao corpo ou aos bens, mas à alma, mesmo quando ainda se é jovem por uma formação para o eu.
Foucault (2014) indicou a inserção do sujeito no cuidado de si em suas aulas e relata tal inserção a partir das cartas como prática de correção da formação, no caso dos estoicos e dos epicuristas. Cartas de Sêneca, por exemplo, são uma espécie de formação filosófica. Cartas de direção a Lucílio, ou em outro caso, as cartas de Marco Aurélio, como espécie de diálogos e confissões entre mestre e aluno que contemplavam reflexões e compartilhavam ideias.
De acordo com Foucault (2014), diferente da ênfase dada por Sócrates à alma, tendo influenciado os epicuristas e os estoicos que por sua vez também se ocuparam do cuidado com o corpo, dando devida importância a essas práticas. O jovem Marco Aurélio costumava trocar cartas com Frontão (seu mestre de Retórica), como Foucault resgatou em suas aulas. Cartas que abordavam todos os aspectos de sua existência, como uma espécie de relato nos quais descrevia os cuidados com o corpo, com a dieta, com a castidade, com os relacionamentos familiares e com a sua formação intelectual ao seu mestre, e mais, Marco Aurélio relata a sua vida no campo. Um jovem destinado a governar um império, vivendo a vida de um camponês, em um processo de formação de, como relata Foucault (2014), um ócio cultivado que ocorre por meio do contato com a vida camponesa, com exercícios físicos da colheita das uvas (vindima), como o visto acima. Retorna, assim e por meio desses exercícios, ao modelo de estágio camponês de Xenofonte ou de Catão, no qual as práticas diárias faziam parte do processo de formação do sujeito, que consistia em um trabalho feito sobre si.
Outro grupo que Foucault (2014) resgata em suas aulas foram os terapeutas. Esse grupo era formado por sujeitos que acreditavam ter cumprido seu compromisso com a vida mortal, deixavam seus bens com seus familiares ou amigos e partiam para destinar sua concentração ao cuidado de si. Os terapeutas reuniam-se em jardins próximos à cidade de Alexandria para se curarem dos problemas advindos dos prazeres da stultitia ou da ausência do cuidado de si. O principal objetivo desse grupo era a epiméleia tés psykhés (ter cuidados com a alma). Contudo, por essa atitude de abandonar os bens e ter foco na alma, visto já compreendida e cumprida sua vida terrena, Foucault (2014) apontou uma mudança de objetivo do cuidado de si. Mais uma vez, nos terapeutas, o cuidado de si concentrou-se na velhice ou na maturidade, como o discutido acima, principalmente em Sêneca.
A formação acontecia por meio do cuidado diário com a alma, por meio de estudos religiosos e filosóficos, e como Foucault aponta, o principal objetivo desse grupo era referente ao saber, era aprender a ver de forma clara. Esse era um grupo especificamente religioso, e o ver claro seria a competência de poder contemplar a Deus. Entretanto, para pensar nos processos de formação contemporâneos, tornava-se necessária uma visão mais ampla e difundida do conceito. Eis, então, o deslocamento do foco, do governo da cidade para o ocupar-se consigo. “[...] ocupar-se consigo tornou-se um princípio geral e incondicional, um imperativo que se impõe a todos, durante todo o tempo e sem condição de status” (Foucault, 2014, p. 103).
Para pensar uma atuação formadora na contemporaneidade, pode-se eleger a prática docente. O docente é responsável pela formação dos sujeitos, desde os anos iniciais da Educação Básica até o nível Superior do ensino nacional - independentemente da área de atuação. Nesse processo de formação, a prática de si deve circundar a atuação do docente para uma reflexão sobre suas práticas, conhecer a si para, assim, aperfeiçoar-se e cuidar de si para incitar o outro sujeito em formação a cuidar de si. “[...] o cuidado de si tem como forma principal, senão exclusiva o conhecimento de si: ocupar-se consigo é conhecer-se” (Foucault, 2014, p. 102).
O objetivo fulcral do formador, mestre do cuidado de si, seria incitar o sujeito à superação da stultitia, compreendida como liberdade absoluta dos desejos e dos pensamentos. O caminho que conduz a essa soberania sobre as vontades e o total domínio de si passa pelo conhecer a si mesmo, e consequentemente, pelo cuidado de si mesmo. Contudo, é preciso tomar cuidado para compreender o termo conduzir como uma conduta permanente que deságua no poder pastoral.
Foucault (2014) não propôs uma metodologia para essa prática docente e formação de sujeitos. Ele não assumiu esse papel de criar uma Pedagogia, nem mesmo se ocupou em oferecer sugestões de soluções para possíveis problemas que possam afligir a formação. Segundo Veiga-Neto (2007), Foucault não assumiu um papel messiânico, mas apontou críticas que não possuem respostas definidas. Todavia, por meio da análise de suas obras, pode-se chegar a possíveis respostas e a problematizações novas. Por outro lado, esse cuidado deve agir para promover o autocuidado, a emancipação, a autonomia do sujeito. Mais do que uma prática do outro sobre si, o cuidado de si requer um comprometimento do sujeito consigo e, por último, assumir a responsabilidade e pagar o preço da emancipação (Foucault, 2018). Nessa direção, Foucault (2018), junta-se aos frankfurtianos como mais do que um crítico do nosso tempo, um hipercrítico.
O cuidado de si e a formação aproximam-se quando analisados como uma autoformação, que ocorre por meio do conhecer a si mesmo e concentrar o cuidado em si mesmo. Essa formação abrange desde a Dietética do sujeito até seus modos de agir, um processo que adentra o indivíduo em todos os aspectos de sua existência, resultando em um processo de subjetivação.
No período helenístico-romano, pontua Foucault (2014), o cuidado de si é vinculado à formação, mas não necessariamente na formação para a política e o exercício do governo, como em Alcibíades. Nem mesmo para aprender um ofício ou uma profissão, não é uma formação técnica, mas uma formação do indivíduo para lidar com as eventualidades da vida, uma preparação para lidar com a própria vida e seus infortúnios:
Essa formação, esta armadura se quisermos, armadura protetora em relação ao resto do mundo, a todos os acidentes ou acontecimentos que possam produzir-se, é o que os gregos chamavam de paraskheué, aproximadamente traduzida por Sêneca como instructio (Foucault, 2014, p. 115).
Além de formadora, a prática de si deve ser percebida como uma prática que corrige também o ser. Corrige de maus hábitos que podem levar à stultitia, ou seja, uma inércia, uma não formação. A stultitia é apresentada por Foucault aos seus ouvintes na Carta 52, de Sêneca a Lucílio, e Foucault define o stultus como “aquele que não tem cuidado consigo mesmo” (Foucault, 2014, p. 162). Em suas próprias palavras e com maior minúcia:
… o stultus é, antes do mais, aquele que está à mercê de todos os ventos, aberto ao mundo exterior, ou seja, aquele que deixa entrar no seu espírito todas as representações que o mundo exterior lhe pode oferecer. Ele aceita essas representações sem as examinar, sem saber analisar o que elas representam. O stultus está aberto ao mundo exterior na medida em que deixa essas representações de certo modo misturar-se no interior de seu próprio espírito - com suas paixões, seus desejos, sua ambição, seus hábitos de pensamento, suas ilusões, etc. (Foucault, 2014, p. 162).
Foucault analisa o cuidado de si helenístico-romano para relatar a importância que tinha a velhice e todo o preparo para esse momento (paraskheué), que era destinado a essa etapa da vida que muitos esperavam, não necessariamente desejando-a, mas dando a devida importância à experiência e à honraria que se encontra na sabedoria adquirida. Foucault (2014) aponta para a paraskheué como uma formação para a velhice, um preparo que ocorre durante a juventude para a velhice. Essa formação foi influente tanto nos epicuristas quanto nos estoicos. De acordo com Foucault (2014), essa prática filosófica diz respeito ao cerne do cuidado de si, dado que se constitui como forma de se armar, equipar-se para a existência (compor e utilizar uma armadura em relação às distrações cotidianas).
Por conseguinte, percebe-se o porquê da stultitia ser tão indesejada. Um sujeito stultus não destina esforços às práticas de si, porque a prática de si toma o sujeito por completo, desde o seu corpo até a sua alma. O stultus é aquele alguém despreocupado, rendido aos desejos, que não cuida de si, não cultiva a si mesmo, não se preocupa com a sua preparação para a velhice. Sintetiza o filósofo: “Portanto, a prática de si tem por objetivo a preparação para a velhice que, por sua vez, aparece como um momento privilegiado da existência ou, mais ainda, como o ponto ideal da completude do sujeito. Para ser sujeito é preciso ser velho” (Foucault, 2014, p. 156). Assim, o stultus é justamente o oposto do cuidador.
Esse estado no qual se encontra o stultus é preocupante e indesejado por aquele que pratica do cuidado de si, pois segundo Foucault (2014), a stultitia é o antônimo de sapientia, um descuidado de si e descuidado com sua formação[5]. Uma indiferença em relação ao mundo e um não querer verdadeiro. Para superar esse estado de indiferença, conforme Foucault (2014), é necessário um mestre, um guia para impulsionar o início da prática de si, pois a vontade do stultus, que é uma vontade que nunca é perene, pode mudar em relação às eventualidades da vida. Se a stultitia é essa inércia e indiferença frente ao ocupar-se consigo e com a formação, o cuidado de si leva a “tornarmo-nos o que nunca fomos, esse é, penso eu, um dos mais fundamentais elementos ou temas dessa prática de si” (Foucault, 2014, p. 116).
Contudo, mais uma vez, é preciso atentar para uma formação que autonomize, que emancipe, que ensine a assumir a responsabilidade e pagar o preço pela maioridade (Foucault, 2018).
Considerações finais
Constata-se que o cuidado de si (epiméleia heautoû) e o dizer verdadeiro (parrhesía) são elementos que conformam a prática do cuidador autônomo e zeloso de si e dos outros nos processos formativos.
Esse cuidado de si é fundamental na relação de ensino-aprendizagem, tomada por Michel Foucault (2014) como relação mestre-discípulo. Contudo, no âmbito da formação inicial e continuada dos profissionais do magistério nacional, referida frequentemente como relação professor-aluno, constitui-se como momentos de construção e de manutenção desse fazer com o outro, desse estar com o outro, acompanhar e compartilhar que se constituem, que se tecem, como marcas importantes de um itinerário formativo construído por cada sujeito, mas do qual participam os formadores.
Nessa perspectiva, currículo e discursos sobre o currículo, modos de fazer em âmbito formativo e, sobretudo, o modo como se escolhe estar com esse outro do Ensino, dos processos educativos, é que faz toda a diferença nos processos formativos ao longo da vida.
Mais do que uma sequência de conteúdos ou um roteiro a ser cumprido de forma alienada por esses sujeitos, é preciso construir um currículo no cotidiano de cada escola, que contribua para a autonomia, que promova o cuidado em sentido amplo, que não apenas esteja na escola da Educação Básica, mas também nos cursos de Graduação e de Pós-Graduação, até naqueles que tomam o cuidado como sua arte fundamental - como são os casos da Medicina e dos cursos da área da Saúde, mas sobretudo que se constitua como um discurso intencional, coerente e fundamentado em uma prática contínua sobre si.
É interessante o modo como Foucault (2014) tece uma narrativa que, apesar de se pautar no si, depende do outro. Isso é essencial no Ensino e em Educação. É o outro a razão de ser da formação. É o outro que completa esse exercício contínuo de si sobre si, esse esculpir-se que anima a vida e (re)coloca a Filosofia como campo de práticas essencial à existência e à coexistência (Foucault, 2014).
Como um hipercrítico, Foucault é um leitor e investigador atento dos Antigos com vistas à elucidação do presente e à construção de um modo de existência outro, uma coexistência outra.
Referências
BAKHTIN, M. M.; VOLÓCHINOV, M. M. Marxismo e Filosofia da Linguagem, 6. ed. São Paulo: Hucitec, 1992 [1929].
BAKHTIN, M. M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
FOUCAULT, M. A Hermenêutica do Sujeito, 3. ed., 3. tir. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
FOUCAULT, M. “Aula de 5 de janeiro de 1983 - 1a. hora e 2a. horas”. In: FOUCAULT, M. O Governo de Si e dos Outros, 1. ed., 4. tir. São Paulo: Martins Fontes, 2018, p. 4-39.
FOUCAULT, M. “A Escrita de Si”. In: MOTTA, M. B. (Org.). Foucault - Ética, Sexualidade, Política. 3. ed. Rio de Janeiro: GEN/Forense Universitária, 2017 [1983], p. 141-57 (Ditos & Escritos, V).
FOUCAULT CONTRA FOUCAULT. Produção: François Caillat, 2014. Duração 53’19”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=a0wOMHBEWs0. Acesso em 02 set. 2024.
SAVIANI, D. Escola e Democracia: polêmica do novo tempo. 9. ed. Campinas: Autores Associados, 2003.
VEIGA-NETO, A. Foucault & a Educação, 2. ed., 1. reimpr. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
Submetido: 02.01.2025.
Aprovado: 17.10.2025.
[1] Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Cornélio Procópio, e Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente: davidpereira@utfpr.edu.br.
[2] Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente: fh.lima@unesp.br.
[3] Escola Municipal de Ensino Fundamental Vereador Edson de Oliveira Garcia, Narandiba e Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente: leonardo.h.barbosa@unesp.br.
[4] A última aula do último curso, de 1984 - A Coragem da Verdade - encerra esse ciclo e promove um retorno aos primeiros séculos da Igreja. Foucault tratou desse processo de apropriação de uma cultura de si para um governo do outro nos cursos de 1978 (Segurança, Território, População), de 1980 (Do Governo dos Vivos), de 1981 (Subjetividade e Verdade), de forma intensa e detalhada, justamente nessa ordem. O volume IV da História da Sexualidade, lançado em Paris - incompleto - em fevereiro de 2018, diz respeito a essa investigação contínua, sobre o mal que vai em si e que precisa ser externalizado a um diretor de consciência.
[5] No presente, existe um processo de adoecimento denominado como Síndrome do cuidador descuidado (Síndrome de Burnout).