Letramento com o gênero discursivo fábula: a Língua Brasileira de Sinais na concepção dialógica de linguagem
Dinéia Ghizzo Neto Fellini[1]
https://orcid.org/0000-0002-9155-8370
Elsa Midori Shimazaki[2]
https://orcid.org/0000-0002-2225-5667
Resumo
O texto objetiva analisar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) no viés da dimensão axiológica de linguagem. Analisa-se a fábula O lobo e o Cordeiro, adaptada por Ruth Rocha (2010) da obra original de Esopo. Como pressuposto norteador, fundamenta-se no Dialogismo (Círculo de Bakhtin). As análises constituem-se por meio da tradução do texto em Libras, cuja exotopia foi o recurso adotado a fim de pontuar as diversas produções de sentido que se estabelecem em um enunciado concreto. Embora o trabalho com imagem ajude a ampliar a percepção dos surdos sobre os aspectos subentendidos no texto, neste estudo analisa-se apenas o discurso por meio do qual se trabalharam: i) os aspectos gestuais e visuais da Libras; ii) os aspectos axiológicos; iii) a abordagem das classes gramaticais (verbo, adjetivo e advérbios); e iv) a intertextualidade e o interdiscurso.
Palavras-chave: Dialogismo. Libras. Fábula.
Literacy with discursive genre fable: Brazilian Sign Language in dialogical conception of language
Abstract
The text aims to analyze the Brazilian Sign Language (Libras) from the axiological dimension of language. The fable The Wolf and the Lamb, adapted by Ruth Rocha (2010) from the original work by Aesop is analyzed. As a guiding assumption, it is based on Dialogism (Bakhtin’s Circle). The analyses are constituted from the translation of the text into Libras, whose exotopy was the resource adopted to punctuate the various productions of meaning that are established in a concrete enunciation. Although the work with image helps to broaden the perception of the deaf regarding the aspects implied in the text, in this study, only the discourse was analyzed. From it, it was possible to work: i) gestural and visual aspects of Libras; ii) axiological aspects; iii) approach of grammatical classes (verb, adjective and adverbs); and iv) intertextuality and interdiscourse.
Keywords: Dialogism. Libras. Fable.
Considerações iniciais
O materialismo histórico-dialético mostra que toda formação histórica e social humana é mediada pela linguagem, instrumento[3] intelectual criado pelo próprio homem, que a princípio tinha por finalidade a organização social do trabalho coletivo. Além da apropriação da cultura, os signos linguísticos e gestuais estabelecem relação entre a consciência do indivíduo e a interação social, sendo instrumento social e dialógico, constituído tanto de valor quanto de significação, apresentando-se repleto de sentidos (Fellini, 2022).
Indiferentemente do período em que nascemos ou das condições históricas, toda atividade é produto da cultura apropriada por meio da linguagem, dos costumes, das relações e posições assumidas; logo, não se trata de uma herança biológica de nossos antepassados (Sforni, 2004). Ademais, o ser humano possui a abstração imediata, característica que lhe permite refletir acerca das condições expostas pelo meio (Luria, 1991); isto é, a capacidade de refletir sobre um objeto ou conceito, mesmo que esteja isolado de sua realidade (Fellini, 2022). Portanto, diferentemente dos animais, o homem consegue assimilar o que foi acumulado historicamente pela humanidade (Luria, 1991), e essa capacidade de fixação e transmissão às gerações seguinte decorre de sua atividade criadora e produtiva, o trabalho (Leontiev, 2004).
Além disso, para o Dialogismo, a consciência subjetiva, assim como o discurso interior, resulta das trocas dialógicas que se estabelecem em interações face a face. Posto isso, toda enunciação depende de um contexto sócio-histórico e de um auditório, os quais auxiliam na produção dos valores ideológicos firmados socialmente. Outrossim, o crivo social se estabelece nessas interações, fomentando a contradição (Volóchinov, 2019), permitindo que outros valores sejam produzidos e partilhados entre os usuários de uma língua, comprovando que o homem é de natureza social, e que tudo o que tem de humano em si é proveniente dessa vida em sociedade (Leontiev, 2004), submetido às leis sócio-históricas. Com esses pressupostos, afirmamos que não é somente o trabalho social que desenvolve a atividade consciente do homem, mas a linguagem desempenha seu papel na função de analisar e classificar os objetos (Luria, 1991), permitindo a comunicação, a abstração e a generalização.
Nessa direção, para que os surdos tenham acesso à cultura material e intelectual, a escola representa o espaço apropriado de acesso ao conhecimento, e a Libras se constitui a língua mediadora. Desse modo, letrar nessa língua é o primeiro passo para avançar nos estudos de uma segunda língua, o português escrito.
A linguagem segundo a concepção dialógica
O Dialogismo não reconhece a linguagem como um sistema de signos autônomos; ao contrário, reconhece a influência de fatores externos em seu contexto de uso, e para Volóchinov (2019, p. 238), “todo fenômeno pode ser melhor compreendido [sic] e observado no processo do seu surgimento e desenvolvimento”. Logo, a linguagem surgiu no fenômeno da vida social, assim como surgiu a cultura material e técnico-econômica. Na visão de seus precursores, “é completamente compreensível que um homem, vivendo isolado, não só não criaria a linguagem, mas se quer uma cultura” (Volóchinov, 2019, p. 245), pois tanto uma quanto a outra resultam das interações sócio-histórico-verbo-ideológicas.
A partir disso, entende-se que a palavra não é neutra, tampouco é neutra a própria linguagem (Freitas, 1999), demonstrando que “não é a atividade mental que organiza a expressão, mas, ao contrário, é a expressão que organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientação” (Bakhtin; Volóchinov, 2006, p. 116), e essa orientação decorre da expressão semiótica que existe entre os organismos e o meio exterior. Assim, “o signo passa a ser entendido como o elemento material básico e pertencente ou ao meio social ou ao meio natural, que adquire um estatuto diferenciado quando realiza a função semiótica de representar algo, como um conceito ou um valor” (Freitas, 1999, p. 3-4). Isso confirma que os sentidos são construídos e as ideologias veiculadas via signo linguístico, da palavra, no caso da Libras, mediante os signos gestuais.
Se todo signo linguístico é constituído de ideologia, consciência, pensamento e sujeitos, e não seria diferente com os signos gestuais, que nas interações discursivas, as significações recebem valores ideológicos sociais, não restando dúvidas que ideologia e linguagem são de caráter social, pois toda e qualquer criação ideológica surge na e para a sociedade e se apresenta interna e iminentemente sociológica, como infere Volóchinov (2019). Nas trocas dialógicas, esses valores são compreendidos, internalizados e avaliados pelos sujeitos, tornando-se parte de sua consciência. É a linguagem que orienta nosso comportamento, pois o discurso exterior de outrem (social) torna-se parte de nosso discurso interior (individual), constituindo parte de nossa consciência, determinando nosso pensar, agir, discursos e responsividade, comprovando que em contextos reais de uso, fundamenta-se nas relações sociais, na “[...] absoluta necessidade constitutiva do outro, do olhar do outro, da memória do outro” (Faraco, 2001, p. 48). Esse movimento, do eu para si, do eu para o outro e do outro para mim, movimento de participação do eu e de outros eus, em que a linguagem nos molda e nos coloca sempre em lutas simbólicas, é por meio de discursos que defendemos nossos pontos de vista, nossos posicionamentos a partir de orientações valorativas (Volóchinov, 2019).
Essas orientações se ajustam, dependendo dos aspectos axiológicos, elementos implícitos e subentendidos nos discursos, que correspondem aos juízos de valor, à entonação e à dimensão extraverbal; ou seja, a situação social e seu auditório no momento da enunciação (Volóchinov, 2019). Para o Dialogismo, o discurso verbal ou sinalizado não é autossuficiente, depende do contexto sócio-histórico, da situação, do auditório, da valoração, dos julgamentos de valor etc., visto que “[...] não é outra coisa a não ser a realização efetiva, na vida real, das diferentes formações ou variedades da comunicação social” (Volóchinov, 2019, p. 269). Isso confirma que toda enunciação possui uma orientação social, e as relações sociais apresentam-se como lugar central em toda e qualquer interação verbal ou sinalizada, apropriada quando desejamos conhecer a linguagem em suas diferentes facetas. Assim, é incoerente pensar no ensino de uma língua sem considerar seu uso, o contexto sócio-histórico no momento da enunciação, e os valores que nela e por ela são impressos nos signos linguísticos ou gestuais.
Metodologia
Os teóricos citados indicam que o conhecimento material e intelectual (instrumentos, cultura, entre outros) apropriados pelo homem decorre dos sistemas simbólicos que o próprio homem criou, destacando a linguagem. Ao representar mentalmente os objetivos de suas ações, o homem necessita da linguagem e dos valores criados socialmente (ética), da simbologia produzida (arte) e de toda propriedade do mundo real (ciência) (Saviani, 2008). Logo, em práticas de letramento, a linguagem precisa ser compartilhada, discutida em suas várias possibilidades de uso.
A maioria dos surdos no cotidiano utilizam-se da Libras e do português escrito. Desse modo, no letramento escolar, deve-se trabalhar as especificidades linguísticas e estruturais de ambas as línguas, tendo como premissa a constituição subjetiva do comportamento firmada na fronteira de tudo o que vemos, falamos e julgamos, e daquilo que os outros veem, falam e julgam, sendo uma relação condicionada pelo lugar que ocupamos no mundo. Assim, é no contexto real de uso de uma língua que temos esse excedente de visão, ou seja, a posição assumida por cada interlocutor. A exotopia é o recurso que permite analisar o discurso de quem enuncia (eu) sob a perspectiva de que avalia (outro). Logo, propomos analisar o discurso em Libras realizado por uma das pesquisadoras em uma atividade desenvolvida em sala de aula com alunos surdos.
O instrumento utilizado em sala foi o gênero discursivo fábula: O lobo e o cordeiro (Quadro 1), uma adaptação da obra original de Esopo, publicada por Ruth Rocha em 2010. As fábulas são narrativas alegóricas, de uso retórico e cunho moralista, além da linguagem direta, são diálogos travados entre animais com características humanas, e abordam um ensinamento moral ou tecem uma crítica social (Portella, 1983; Ribeiro; Santos, 2014).
Quadro 1 - Fábula O lobo e o Cordeiro
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Um lobo estava bebendo água num riacho. Um cordeirinho chegou também E começou a beber um pouco mais para baixo O lobo arrebanhou os dentes e disse ao cordeiro: - Como é que você tem a ousadia de vir sujar a água que eu estou bebendo? - Como sujar? - respondeu o cordeiro -à água corre daí pra cá, logo eu não posso estar sujando sua água. - Não me responda! -tornou o lobo furioso -há seis meses seu pai me fez a mesma coisa! - Há seis meses eu nem tinha nascido, como é que eu posso ter culpa disso? - respondeu o cordeiro - Mas você estragou todo o meu pasto - tornou o lobo. - Como é que eu posso ter estragado seu pasto se nem dentes eu tenho? O lobo, não tendo mais como culpar o cordeiro, não disse mais nada, pulou sobre ele e comeu. |
Fonte: Rocha (2010).
Quanto aos procedimentos, adotamos a tradução da obra escrita para Libras, aqui apresentada por meio de imagens. Nessa forma de expressão, nem sempre conseguimos verificar certas especificidades, e ressaltamos que esse efeito visual é para fins didáticos de descrição e análise dos signos gestuais. A cada excerto do texto escrito em português, apresentamos o enunciado em Libras, e sequencialmente, nossas análises relativas à língua escrita e à língua sinalizada, em uma proposta de observação paralela que permita aos surdos analisarem as semelhanças e diferenças entre as línguas.
Do texto escrito ao enunciado sinalizado
Consideramos componentes dos enunciados as muitas formas de utilização e emprego dos signos gestuais, pois necessitam de um contexto valorativo para adquirir sentido aos surdos, e na escrita, seguem a mesma unidade da língua nacional, o português. Como em qualquer enunciado, a fábula também procede de alguém (autor) e se destina a alguém (leitor). Além de completa, é carregada de significação e sentido, não estando o sentido preso ao indivíduo, nem as palavras aos interlocutores, isso porque toda enunciação é o efeito ocasionado pela interação entre quem produz o discurso e aquele que o recebe, constituída por signos linguísticos (Rechdan, 2003). Nesse caso, por signos gestuais mediados pela linguagem e pelos valores atribuídos por seus interlocutores.
Na Libras, o enunciado constitui-se dentro do espaço de sinalização, possuindo significado (Assis, 2015), porque realiza a conexão entre os elementos linguísticos, permitindo que sentidos sejam formados (Quadros; Karnopp, 2004). No discurso em Libras, assumimos posições, ora como narrador, ora como personagens. Na narração, possuímos, ante determinadas cenas, a capacidade de visualizá-las, é a configuração não-marcada das posições de visualização (Silva, 2014) que nos permitem, segundo Langacker (2008 apud Silva, 2014), descrever situações sob a perspectiva de outras entidades. Nela, nosso corpo e olhar voltam-se para o interlocutor, e na posição dos personagens, assumimos a visualização desse personagem na cena (Silva, 2014). Outros aspectos também são observados, como postura de quem fala, direção do olhar, expressões, características dos personagens, entonação, etc.: elementos que compõem o processo da enunciação. É possível obter pistas, como descrições, demonstrações ou indicações que sirvam de identificação dessa posição de visualização que narrador e personagens assumem (Silva, 2014), aspectos que podem ser verificados ao longo dos excertos da fábula selecionada.
No primeiro excerto, nossa posição é de narrador; desse modo, nosso olhar e corpo voltam-se ao interlocutor.
Quadro 2 – Parágrafo 1 da fábula: Um lobo estava bebendo água num riacho

Fonte: Autores.
Na Libras, o enunciado segue a ordem objeto-sujeito-verbo (OSV), por apresentar o uso da concordância e topicalização, pela elevação das sobrancelhas no signo gestual ÁGUA (RIO-PEQUENO), fenômeno sintático que eleva o objeto para a posição pré-verbal. Ocorre também uma pequena pausa entre o elemento topicalizado e o restante da sentença (Quadros; Pizzio; Rezende, 2008). Nas línguas de sinais, a produção de sentido está no uso de marcadores não manuais, que são os movimentos dos olhos, do corpo, as expressões faciais, etc. (Almeida; Almeida, 2013), características que ultrapassam a posição de língua, desnudando os aspectos axiológicos. Nem sempre é possível seguir a ordem sujeito-verbo-objeto (SVO), embora seja uma ordem básica gramatical, mesmo contendo ou não uma marcação não manual (Quadros; Pizzio; Rezende, 2008). Ordenações como a do excerto ou com sujeito-objeto-verbo (SOV) são permissíveis, desde que haja a concordância e os marcadores não manuais; outrossim, são consideradas agramaticais por conterem argumentos reversíveis. Ordenações consideradas gramaticais, conforme destacam Quadros, Pizzio e Rezende (2008), ocorrem pelo uso de elementos não manuais associados a elas, variabilidade ligada tanto à presença de concordância quanto da topicalização, e de construções com foco associados sempre ao uso de marcações não manuais específicas.
Moraes (2013) enuncia que o verbo de concordância com marcas não manuais permite maior flexibilidade durante a sinalização, e pode ocorrer alterações na ordem dos constituintes sem que a informação relativa às funções dos termos se perca. Todo enunciado possui um acabamento decorrente do auditório, de seu nível cultural e da relação social entre os interlocutores, além do contexto sócio-histórico, o que nos permite analisar a Libras para além da língua, já que os elementos axiológicos dessas condições de produção são levados em conta, mais que a organização sintática dos signos. Cada enunciação, além de seu auditório, possui um repertório de pequenos gêneros cotidianos, que inseridos em determinadas vias de comunicação social, refletem ideologicamente tipo, estrutura, composição social e objetivo (Volóchinov, 2019), e na Libras não seria diferente.
Nem todos os termos do português possuem um signo gestual na Libras que os especifiquem, é o caso de RIACHO, local onde a narrativa se delimita. Nesse caso, utilizamos signos gestuais que permitam ao interlocutor compreender o sentido do enunciado, isto é, ÁGUA + CAMINHO = RIO-PEQUENOclassificador. A compreensão de riacho e não de rio ocorre pelo uso do classificador (CL) de pequeno, que na sinalização de CAMINHO se estabelece pela aproximação das mãos e dos cotovelos, além dos olhos ficarem entreabertos e as sobrancelhas arqueadas para baixo, produzindo o significado de pequeno/estreito. Afirma Vygotski (1984) que qualquer nova reação condicionada só pode ser estabelecida a partir de uma base anteriormente existente, suscitada de um reflexo suficientemente estável, desenvolvida por uma experiência anterior, e isso deriva de conhecimentos e relações anteriores estabelecidas. Assim, a abstração e generalização de conceitos concretiza-se pela base conceitual anterior já apropriada, ou seja, rio, estreito, lago, pequeno, etc. Outros riachos poderiam ser sinalizados aqui, dependendo do valor atribuído pelo enunciador, das expressões faciais e corporais utilizadas.
Na Libras, os elementos são distribuídos em um cenário (espaço de sinalização) que é tridimensional, evocando a representação delimitada daquilo que se deseja expressar, na maioria das vezes, icônica (Lessa-de-Oliveira, 2012). No caso do riacho, inicia-se o sinal rente ao corpo, em um determinado ponto do espaço, finalizando-o em outro, cuja organização espacial permite compreender o sentido. O riacho poderia ser sinalizado em outras direções, mas aqui, seu declínio lateral tem um objetivo intrínseco, demonstrar a direção da água, permitindo que conceitos como nascente e desague se formalizem. Após RIACHO, sinalizamos o verbo TER, a fim de afirmar a presença do lobo, o numeral UM, especificando a quantidade, e o signo gestual de LOBO. Nas línguas de sinais, não há flexões verbais, apenas o uso de locativos temporais de passado, presente e futuro quando houver necessidade. Na narrativa, o lobo está bebendo água, e embora exista um signo gestual para BEBER, não podemos aplicá-lo nesse caso, pois o sujeito é um animal e não um ser humano.
Essas especificidades da língua precisam ser abordadas em sala, pois alguns surdos possuem dificuldades em estabelecer relações entre conceitos e seus signos gestuais, principalmente quando há ambiguidade lexical. Desse modo, para que a compreensão de ordem semântica, de natureza estrutural ou morfossintática seja estabelecida, fazem-se necessárias as expressões não manuais e movimentos no espaço de sinalização (Bidarra; Martins, 2012). Esse aspecto é aplicado pelo uso de CL de corpo, já que “[...] o classificador carrega uma carga semântica de características da entidade à qual se refere, que são imputadas ao item lexical ao qual ele se afixa, determinando uma classe” (Finau; Mazzuchetti, 2015, p. 72). Normalmente, os CL são incorporados aos adjetivos, na função de nome, adjetivo, advérbio de modo ou locativo (Ferreira-Brito, 2010); aqui, incorpora-se ao verbo. No texto, independentemente de quem está bebendo e como está executando a ação, o verbo continua igual, sofrendo apenas flexão verbal de tempo. Na Libras, essa ação verbal depende do sujeito, objeto e contexto; logo, por se tratar de um lobo, a mão assume a função da língua do animal.
No segundo parágrafo, ocorrem duas orações em conjunto.
Quadro 3 – Parágrafo 2 da fábula: Um cordeirinho chegou também. E começou a beber um pouco mais para baixo

Fonte: Autores.
Em ambas as línguas, a frase é iniciada com o quantificador um para o sujeito, e apresenta-se esse sujeito, que se trata de um cordeiro. Devido à inexistência de um signo gestual para o termo cordeiro, buscamos o significado para sinalizar, isto é, o signo gestual de OVELHA é usado juntamente com FILHO-PEQUENO. Na prática pedagógica, além da sinalização, pode-se usar a datilologia (C-O-R-D-E-I-R-O) para apresentar o termo. Ademais, importa explicar o porquê de PEQUENO após a sinalização de FILHO, para que o interlocutor compreenda que cordeirinho[4] remete à cria mais nova da ovelha, com até um ano de vida. Se ao invés de FILHO-PEQUENO usássemos apenas o signo gestual de OVELHA, toda a narrativa ficaria descontextualizada, porque a palavra cordeirinho remete a um animal inofensivo, dócil e frágil, ao contrário da ovelha, que possui seus mecanismos de defesa. Isso vem ao encontro as ideias de Volóchinov (2019), para quem toda palavra se origina da situação cotidiana extraverbal, e só adquire sentido a partir da própria vida. Assim, fora dela, perderia seu sentido, demonstrando que a palavra é compreendida como signo linguístico de excelência (simbólico), material semiótico que reflete e refrata no discurso, as condições sócias-históricas de produção.
Após, inserimos o signo gestual TAMBÉM e o verbo CHEGAR. O advérbio apresenta dois significados, um de similitude e outro de inclusão; ambos são aceitáveis, mas precisam ser expostos aos surdos, permitindo, assim, a compreensão de seus sentidos. A conjunção e, que liga as duas orações, não é referenciada na Libras, pois não imprime aos surdos seu real sentido. Por isso as orações tornam-se uma só, e ao invés da conjunção, utiliza-se uma pausa, a fim terminar uma oração e iniciar outra. Quanto aos verbos “COMEÇAR” e “ÁGUA-BEBER”, ambos são situados no enunciado, mas o CL de corpo é aplicado ao segundo. Diferente dos lobos, os cordeiros bebem água por sucção; logo, a configuração de mão (CM) sofre alteração, assim como o movimento (M) e a direção. O uso correto dos parâmetros[5] nos enunciados auxilia na construção dos sentidos, exemplo disso apresenta-se nas ações de beber água de ambos os animais. Aliás, o M realizado pela boca corrobora para que o discurso tenha acabamento, auxiliando na descrição das características, trejeitos e valores socioculturais, traços comumente presentes nos objetos e sujeitos.
Bakhtin (1997) assevera que o objeto está penetrado por ideias gerais, pontos de vista e entonações de seus interlocutores. O discurso está sempre orientado para o seu objeto, mas também entrelaçado pelos discursos e julgamentos alheios. Nesse cruzamento, os discursos são penetrados por estratos semânticos e influenciados pelo aspecto estilístico. A palavra cordeirinho tem certa entonação, e na Libras, a entonação está impressa na EF e no M para PEQUENO, cujos cotovelos ficam rentes ao corpo.
A entonação permite que o juízo de valor atribuído na enunciação seja compreendido, não pelo signo gestual em si, mas pelos aspectos associados a ele, permitindo caracterizá-lo. A final da sentença, a posição do cordeirinho em relação ao lobo ocorre pela disposição dos personagens no espaço. Em outras palavras, ao sinalizar o riacho e a posição do lobo na narrativa, não há necessidade de maiores especificações, apenas a posição do cordeiro no riacho é suficiente para tal compreensão.
No terceiro excerto, o enunciador assume a posição de narrador e depois de personagem. Importa destacar dois aspectos: 1) na expressão arrebanhou os dentes, convém esclarecer o significado aos surdos, o mesmo que cerrar os dentes, juntá-los em uma demonstração de poucos amigos; 2) inicia-se um diálogo e, portanto, a pontuação deve ser destacada.
Quadro 4 - Parágrafos 3 e 4 da fábula: O lobo arrebanhou os dentes e disse ao cordeiro: - Como é que você tem a ousadia de vir sujar a água que eu estou bebendo?

Fonte: Autores.
No início de diálogo, posiciona-se os personagens no espaço de sinalização, e sinaliza-se o signo gestual de cada um. Posteriormente, a direcionalidade do corpo e do olhar alinhado para baixo permite reconhecer o lobo como enunciador, bem como imprime a ideia de que o cordeiro está na parte mais baixa do riacho. O adjetivo empregado ao lobo formaliza-se, na Libras, pela caracterização do personagem; e a CM, a direção e o M permitem caracterizar as patas do animal e o seu andar, dimensão e caracterização que ganham significação no campo de percepção visual dos interlocutores. Em diálogos assim, aplicamos o processo anafórico, ou seja, o deslocamento do corpo do enunciador em diagonal. A autora foi sucinta ao descrever o lobo, mas na Libras, os conhecimentos prévios sobre o animal permitiram empregar expressões e o modo de andar do animal, supondo uma distância entre caça e caçador. No enunciado, como afirma Bakhtin (2010), posições são assumidas pelos interlocutores, e as relações sociais determinam essas posições; logo, a palavra assumida por cada um é carregada de juízos de valor.
Como no texto a coesão e a coerência devem ser priorizadas nos discursos em Libras, isso demanda uma organização interna no espaço de sinalização. Tanto o verbo flexionado disse quanto o sinal de CORDEIRO não precisam ser sinalizados, pois o posicionamento inicial dos personagens permite tal entendimento. Na Libras, para evitar redundâncias, duplos sentidos ou compreensões equivocadas, aplicam-se incorporações ou exclusões. A segunda sentença trata-se de uma interrogação, e as palavras utilizadas pela autora realçam o padrão entoacional visto: i) pelo autoritarismo do lobo no modo que indaga; ii) pela postura de superioridade e poder sobre o riacho, pelo uso da expressão tem ousadia e da palavra suja”. A entonação também é observada na Libras pela EFC empregada nos signos gestuais de COMO, CORAGEM e EU-BEBER. O signo gestual de COMO é uma expressão interrogativa relativa a argumentos; refere-se à intenção do enunciador em obter informações, mas depende tanto da situação quanto do auditório. A indignação do lobo torna-se nítida pela EFC utilizada, que em nível fonológico, como declara Felipe (2013), a articulação da boca permite observar a imagem visual da palavra com base em sua pronúncia, mas não representa, de fato, a sua prolação. Além disso, os cotovelos rentes ao corpo geram intensidade e rapidez na sinalização, além do verbo TER, que reforçam a prepotência do lobo em afirmar algo, visando às explicações do cordeiro, cujo único objetivo era devorá-lo.
A sinalização mais contida denota o falar baixo, e o inverso, a sinalização mais expandida, alude ao falar alto, dependendo do grau de formalidade do discurso (Faria-do-Nascimento, 2009). Aqui, a sinalização de CORAGEM visa a substituir o termo ousadia, que não possui um signo gestual que o especifique. O M rápido e curto, assim como o braço distante do corpo, carrega entonação e o sentido de atrevimento. Se o M fosse mais alongado e demorado, com arqueamento dos ombros para trás, o sentido seria de corajoso e não de atrevido. Embora ousadia e coragem sejam sinônimos, podem ter valores ideológicos diferenciados. Para o Dialogismo, a entonação encontra-se no limite entre o dito e o não dito. Nessa constante, não é possível conceber uma expressão sem valoração, tampouco sem entonação, porque sua existência deriva do simples fato de ser expressada (Bakhtin, 2010).
O teor do discurso é de intimidação, e não de questionamento, observando. na EFC do lobo, cara fechada e brava, que permanece durante todo o enunciado. Utilizamos os signos gestuais de SUJAR e ÁGUA, além do pronome pessoal EU, apontado para o peito, com teor impositivo. Para finalizar o enunciado, aplicamos o CL para BEBER, ação do lobo citada anteriormente. Na Libras, os dêiticos são importantes, além dos pronomes pessoais e demonstrativos, dos verbos indicadores, eles designam também partes do corpo (nariz, olhos, etc.), porque servem para indicar, mostrar e apontar.
No quarto excerto, a resposta do cordeiro, com teor de dúvida e indagação, exacerba-se pelos termos como e sujar. O uso da pontuação como traço linguístico e visual que determina o discurso e a resposta do cordeiro são complementados por uma justificativa baseada na negação com o uso de não posso. Tal justificativa fundamenta-se na localização do cordeiro e na direção que corre a água.
Quadro 5 – Parágrafo 5 da fábula: - Como sujar? - respondeu o cordeiro - à água corre daí pra cá, logo eu não posso estar sujando sua água

Fonte: Autores.
Na posição do cordeiro, nosso juízo de valor é expressado pelo uso da EF, também pelo recuo do corpo para trás, demonstrando um animal frágil e amedrontado. A posição de fala se altera; nosso corpo e olhos voltam-se para o lobo. A direção do olhar, mais para o alto, reafirma a posição do cordeiro em relação ao lobo e ao riacho. A sinalização retida no COMO e a mão esquerda aberta para cima durante a sinalização de SUJAR desnudam a incredulidade do cordeiro frente à pergunta do lobo. Na sequência, o olhar voltado ao enunciador demonstra nossa posição na narração. Acrescentamos a sinalização RESPONDER CORDEIRO, assumindo, no espaço de sinalização, a posição desse personagem. Na Libras, os verbos devem concordar com o sujeito e o objeto; nesse caso, o ponto inicial (sujeito) está direcionando à sinalização para o ponto final, e o objeto (alvo), aqui, trata-se do lobo. Ao nos direcionarmos para o lobo, alteramos o enunciado. Ao invés de sinalizarmos a água corre daí pra cá, retomamos a sinalização de RIO-PEQUENOclassificador, a fim de relembrar onde nasce o riacho e onde ele desagua. Em seguida, localizamos o cordeiro pelo uso dos signos gestuais EU ESTAR AQUI. No signo gestual AQUI, observa-se a marca gramático-discursiva de nível morfológico, caracterizada pelo morfema dêitico, cuja direcionalidade do olhar e da cabeça, simultaneamente ao signo gestual pronominal ou locativo, “[...] marca uma referência espacial específica para os referentes indicados através de apontações” (Felipe, 2013, p. 80). Ambos, EU e AQUI, ganham entonação; o primeiro pela força atribuída no dedo indicador contra o peito, além da afirmação expressa pelo queixo abaixado, e o segundo pela posição do dedo indicador para baixo, e o olhar fixo do enunciador para o local determinado, não deixando dúvidas da sua posição no espaço.
Na sentença logo eu não posso estar sujando sua água, excluímos o substantivo logo e o pronome pessoal eu. Substituímos NÃO-PODER por NÃO-CONSEGUIR, tratando-se de uma negação incorporada à raiz verbal; ou seja, o movimento da cabeça em concomitância ao signo gestual expressa a negação da ação. Essa mudança ocorre por dois motivos: a) NÃO-PODER carrega certa audácia e não humildade; e b) pelo medo e fragilidade do cordeiro, NÃO-CONSEGUIR tem sentido de apaziguador. O pronome possessivo SUA, complementado pelos signos gestuais de ÁGUA e SUJAR, reforçam o ar de poder e presunção do lobo, e embora pareça imprópria, essa expressão corresponde à compreensão responsiva ativa do cordeiro frente ao discurso do lobo e à posição de dominância por ele assumida. Segundo Cabral (2006, p. 10), “à medida que o indivíduo internaliza os signos produzidos culturalmente, a sua consciência sobre a realidade se transforma, os processos mentais mudam, sua capacidade crítica se constrói e sua ação é orientada”. No caso, a ação de utilizar esse ou aquele signo gestual origina-se da internalização da cultura socialmente mediada pela linguagem.
O lobo retruca mais autoritário que antes, avaliação preliminar observada nos traços linguísticos e visuais. Aliás, a autora reutiliza o hífen para separar as frases explicativas a fim de não perder o foco do enunciado; em seguida, furioso é o adjetivo empregado por ela.
Quadro 6 – Parágrafo 6 da fábula: - Não me responda! -tornou o lobo furioso - há seis meses seu pai me fez a mesma coisa!

Fonte: Autores.
O furioso é determinado pela EF, que nitidamente justifica o adjetivo. A pausa entre a primeira e última sentença, ignorando a segunda, justifica-se pela posição e direção do enunciador. O uso do advérbio de negação é reforçado pelo movimento com a cabeça, e o verbo RESPONDER sofre a flexão na raiz-M, tomando a direção contrária, a quem o lobo se reporta, ambos com entonação, intensidade no movimento, único e rápido. Após, justificamos a nova acusação do lobo usando a medida de tempo SEIS-MESES, que se constitui pela incorporação do morfema de numeral afixado a outro morfema, que é mês, regra aplicada somente até o numeral quatro, cuja CM adquire a forma do número respectivo em consonância ao morfema que expressa o conceito. Além disso, devido à exclusão do verbo flexionado há, acrescentamos o locativo temporal de PASSADO para caracterizar o tempo ao qual o lobo se refere.
Como no texto, mantivemos o pronome possessivo SEU e incluímos o signo gestual de PAI e FAZER, mas por não haver um signo gestual aplicável aos termos mesma coisa, substituímos pelo signo gestual de IGUAL. De acordo com Araújo e Carvalho (2017), embora tais substituições sejam comuns nas línguas de sinais, são muitos desafiadores a escolha e o uso de sinônimos ou termos que equivalem em sentido nas línguas fonte e alvo, particularmente porque, em um enunciado concreto, o signo gestual apresenta-se carregado de ideologia e tende a influenciar a compreensão, o que denota que a língua só adquire sentido em seu uso real e concreto.
Duas sentenças constituem o próximo excerto. A variável posição do corpo, segundo Felipe (2013), apresenta-se como expressão gramático-discursiva, pois tanto a postura quanto o movimento do corpo podem alterar o sentido do enunciado, de modo a demonstrar hierarquia social, força ilocucionária para aproximação ou distanciamento dos interlocutores, temporalidade, entre tantas outras intencionalidades possíveis. Por se tratar da resposta do cordeiro, nossa posição no espaço nos permite a exclusão da segunda sentença, demonstrando que, em um contexto real de uso, a linguagem apresenta-se flexível.
Quadro 7 - Parágrafo 7 da fábula: - Há seis meses eu nem tinha nascido, como é que eu posso ter culpa disso? - respondeu o cordeiro

Fonte: Autores.
No texto consta o verbo flexionado há, e na Libras é desnecessário, de modo que iniciamos o enunciado com a repetição do signo gestual de SEIS-MESES, seguindo com o locativo temporal de PASSADO, aplicando em concomitância a EF de surpresa. Utilizamos a primeira pessoa do singular carregada de entonação, com pressão exercida no peito, além da inclinação do corpo para trás. Na expressão nem tinha nascido, priorizamos o signo gestual de AINDA-NÃO NASCER.
O uso do signo gestual AINDA está relacionado à temporalidade, mas ao incorporar o M para os lados com a cabeça, torna-se um advérbio de negação, cujo uso se justifica quando acrescentamos o signo gestual de nascer, alterando o verbo e comprovando a ausência de culpa do cordeiro. Essa justificativa formaliza-se com o signo gestual de POR ISSO, empregado a fim de indicar o motivo pelo qual ele se isenta da culpa. Embora não tenha sido utilizado pela autora, na Libras, essa locução adverbial com EF reforça a justificativa.
A negação verbal NÃO-TER, junto ao substantivo CULPA, aprimora o sentido real da enunciação. O signo gestual de CULPA, mesmo sendo abstrato, está intrinsicamente relacionado ao pensamento, à preocupação, por isso o PA fica em um dos hemisférios do crânio, relacionando ao sentido real do termo. Outros signos gestuais possuem locações associadas a campos semânticos concretos, como o signo gestual de OVELHA-FILHO-PEQUENO, cujo PA é nas têmporas, onde se localizam os chifres dos carneiros, demonstrando que os signos gestuais carregam uma carga semântica concreta, seja de sentimentos ou características do objeto, animal, sujeito, etc. a que se referem.
Dois modos distintos de significação que pela linguagem são combinados: o semiótico, cujo signo decorre do reconhecimento de seu significante por membros da comunidade linguística; o outro, semântico, “[...] engendrado pelo discurso, porque a linguagem, como produtora de mensagem, toma a seu encargo um conjunto de referentes” (Santana et al., 2008, p. 298). Assim, a linguagem configura-se no único sistema capaz de articular essas duas dimensões, enquanto os demais sistemas têm significância unidimensional; isto é, gestos de cortesias (semiótica) ou expressões artísticas (semântica), sem semiótica (Santana et al., 2008).
Na sequência, outro argumento é apresentado pelo lobo, visando a encurralar o cordeiro.
Quadro 8 – Parágrafo 8 da fábula: - Mas você estragou todo o meu pasto - tornou o lobo.

Fonte: Autores.
Duas dimensões abrangem um enunciado, a verbal, constituída pelo signo linguístico; e a extraverbal, representada pela situação e o auditório (Volóchinov, 2019). Na narrativa, observa-se a prepotência do lobo, considerando o riacho e o pasto como sua propriedade. A conjunção mas foi utilizada como semântica de oposição. Além de ligar as orações com as mesmas propriedades sintáticas, é usada para introduzir frases que justifiquem oposição. Há outra conjunção, o signo gestual de MAS, utilizada como advertência, de modo a interpretá-la como conjunção subordinativa concessiva, que pode ser equivalente às conjunções embora ou apesar de em português (Silva, 2019).
Quanto ao pronome pessoal você, na Libras ele é deslocado para o final do enunciado, onde ganha melhor sentido. O foco é apresentar o objeto ao qual o lobo se refere, ou seja, a grama, por isso usamos o pronome possessivo MINHA, seguido pelo signo gestual de GRAMA substituindo o termo pasto. O signo gestual MINHA, assim como MAS, carregam valor entoacional, justificado pela intensidade aplicada ao M, EF e pelo contexto situacional estabelecido entre os personagens em relação ao riacho e ao pasto.
O verbo flexionado estragou permite conceber que o cordeiro o tenha pastado, ou ainda, pisoteado. Na Libras, não existe um signo gestual que remeta a esse termo, mas há signos gestuais para QUEBRAR e DESMANCHAR, inapropriados ao contexto. Importa pontuar essas suposições e comparações aos surdos, assim como ressaltar porque determinados signos gestuais não são sinalizados ou substituídos, como no caso de todo, não traduzido para Libras, pois o próprio classificador de COMER, realizado para várias direções, carrega em si o sentido de todo, mas nada impede seu uso. Após, empregamos o pronome pessoal VOCÊ e sinalizamos o verbo COMER por meio do CL de corpo. Aqui, as mãos do enunciador adquirem o formato da mandíbula e do maxilar, que realizando um M contrário, simbolizam a mastigação do alimento, e ao mesmo tempo, realiza-se o movimento com os lábios, representando a ação.
No penúltimo excerto, uma nova tentativa de defesa do cordeiro. Iniciamos o enunciado com a expressão interrogativa referente a argumentos, mantendo a sinalização contida, demonstrando novamente a incredulidade do cordeiro sobre o que está sendo julgado. A pausa após a sinalização reforça sua posição.
Quadro 9 – Parágrafo 9 da fábula: - Como é que eu posso ter estragado seu pasto se nem dentes eu tenho?

Fonte: Autores.
Na sentença, o uso dos termos como é que eu posso, se interpretado literalmente COMO EU PODER, apresentar-se-ia inadequado na Libras, produzindo um sentido oposto ao proposto na narrativa. Embora a autora tenha preconizado a argumentação ao invés da negação, na Libras, empregamos o signo gestual NÃO-CONSEGUIR, que se trata da negação incorporada à raiz verbal, complementada pelo balanço negativo com a cabeça. O uso desse verbo permite ao surdo compreender o sentido e a justificativa posterior. Outrossim, o adjetivo estragado foi substituído pelo verbo COMERclassificador. Aqui, percebemos que a substituição se adequa ao contexto, com base na resposta do cordeiro, de não possuir dentes. Novamente, retomamos o CL de corpo para esse verbo, demonstrando como um cordeiro se alimenta.
Dois outros termos foram excluídos na sinalização, seu pasto, porque na sinalização anterior, o pronome possessivo MINHA e o objeto GRAMA deixam marcado sobre o que estão discutindo. Nesse caso, repeti-los seria inadequado, até porque o uso do verbo COMER permite a retomada do assunto. Todavia, utilizamos o signo gestual de PORQUE, como no texto, que se faz necessário à sentença, pois vem explicar, justificar o motivo de não ser o cordeiro o culpado da ação.
O uso do pronome pessoal EU, logo após a conjunção, permite ao interlocutor perceber que a justificativa do cordeiro seria em sua própria defesa, complementado pelo advérbio AINDA, garantindo o sentido de que, naquele momento, ele não possuía dentes para tal feito. A entonação nas sinalizações de COMO, EU e AINDA justifica-se pelas EFC atribuídas durante a sinalização: a primeira demonstrando indagação; a segunda pela afirmação do sujeito; e a terceira justificando a incoerência de tal acusação.
A apropriação do conceito de cordeiro, estabelecido no início da narrativa, permite ao aluno, nesse ponto da narrativa, compreender a resposta e generalizá-la. Para tanto, a internalização refere-se ao processo de compreensão e apropriação dos conceitos. Ao dominar a palavra, de acordo com Luria (1991), o homem passa a dominar o complexo sistema de associações e relações que se estabelecem em torno de dado objeto, e a capacidade de analisá-lo, distinguindo suas propriedades essenciais, relacionando-o a determinadas categorias. Na estrutura da palavra, é fácil observar duas funções básicas: a discriminação do traço essencial do objeto e a relação desse objeto a certa categoria. Assim, verifica-se a abstração e a generalização, ambas sendo possíveis pela cultura produzida pelo homem, resultado do desenvolvimento das gerações humanas (Leontiev, 2004). Somente pela sua apropriação é que o homem adquire propriedades e faculdades verdadeiramente humanas.
Para finalizar, utilizamos a negação incorporada à raiz verbal, o signo gestual NÃO-TER, que associado ao substantivo DENTES, permite a conclusão do enunciado. Diante das justificativas plausíveis do cordeiro e sem sucesso frente a suas acusações, o autor termina a fábula, descrevendo a má atitude do lobo em relação ao cordeiro, ou seja, atacando-o sem dó.
Quadro 10: Parágrafo 10: O lobo, não tendo mais como culpar o cordeiro, não disse mais nada, pulou sobre ele e comeu

Fonte: Autores.
No Quadro 10, retomamos a posição de narrador, e nosso corpo e olhar voltam-se aos interlocutores. Priorizamos quatro substituições em relação ao texto, que consideramos apropriadas. A primeira, a substituição da negação não tendo pela negação NÃO-SABER, muito mais plausível ao contexto da narrativa. A segunda, a troca do verbo culpar por ACUSAR. Embora exista o signo gestual de CULPA, ele não se trata de um verbo, mas de um substantivo, e nesse caso, seu uso seria indevido ante a negação proposta anteriormente, o que alteraria o sentido da narrativa.
O termo cordeiro fora substituído por ELE. Essa troca visa a ampliar as possiblidades de uso no discurso e na escrita, evitando possíveis redundâncias. Importa explicar essa substituição aos surdos. Quanta à última substituição de termos, trocamos não disse mais nada por CALADO. Nesse caso, poderíamos ter sinalizado NÃO FALAR NADA, mas o sentido de calado é mais apropriado, reverberando o interesse real do lobo em atacar a presa.
Por fim, aplicamos o CL de corpo na ação do lobo em atacar o cordeiro, e a EFC que imprime o desejo de devorá-lo, bem como o M de mastigação, suficiente para demonstrar que está se alimentando, como em um banquete. Ao compreendermos que é a valoração que organiza o enunciado, entendemos por que usar o CL e não a sinalização de COMER, assim também ocorre nas expressões uma EF fechada, que demonstraria ordem. Se a EF fosse de suspense ou medo, demonstraria perigo, já sem o emprego da EF, permite-nos conceber a ideia de que nada mais foi dito. Assim como os signos, as emoções também refletem e refratam o mundo, permitindo-nos observar valores (Bakhtin, 2010), e esses valores sociais, não costumam se anunciar. As emoções simplesmente existem, originárias da vida circundante, constituídas nas relações sociais do cotidiano.
Na prática pedagógica, em que duas línguas distintas devem ser abordadas em conjunto, respeitando suas singularidades, é necessário sempre, no caso da Libras, considerar a relação semântica, de modo que elementos linguísticos precisam ser incorporados à sinalização (M, EFC, CL etc.), permitindo que a axiologia seja percebida. É nessas trocas que observamos as subjetividades, cujos valores são incorporados à linguagem, o que confirma que uma palavra isolada não pode servir de exemplo, ela precisa estar inserida no fluxo da interação do qual o discurso ocorre. Ao considerarmos que somente por meio de enunciados concretos é que podemos observar valores e posições assumidas, entendemos que a Libras não é apenas uma língua, mas que ela também possui traços específicos da linguagem, como a axiologia.
Conclusão
Apresentamos, aqui, a dimensão axiológica da Libras, que por se tratar de um fenômeno social, as análises se constituem a partir do contexto de uso da língua, no âmbito do ato comunicativo. Como destaca Volóchinov (2019), a língua é parte da vida social, movimentando-se progressivamente e de forma ininterrupta no processo de comunicação social, que se constitui discursivo-valorativo.
Todo enunciado em Libras efetiva-se em um espaço tridimensional de sinalização. Nele, dispomos os personagens e objetos da narrativa, suas características, descrevemos local, ações, fatos e posições de fala, assim como expressamos valores ou os avaliamos. Essa tridimensionalidade trata-se de uma característica observada desde a constituição do signo gestual, cuja representação não pode ser aplicada à escrita, porque seu suporte material, em suas diversas manifestações, impressas e virtuais, não possui três dimensões. A tridimensionalidade deve ser trabalhada em sala de aula, porque caracteriza a Libras como língua gestual-visual, e é por meio desse espaço que o interlocutor avalia o sentido valorativo expresso pelo enunciador, abrangente na produção de sentidos.
Toda produção ocorre pela valoração empregada em determinada enunciação. Por exemplo, ao sinalizar RIO-PEQUENOclassificador, dependendo do valor ideológico empregado, o interlocutor pode constatar um córrego, uma nascente, um rio, etc. Ademais, outros sentidos também vão sendo produzidos a partir daquele valor empregado ao signo gestual. A Libras possui traços da estrutura linguística e gramatical que não podem ser observados, por exemplo, na Língua Portuguesa (LP) escrita, como apontamentos, CL, EFC etc., indispensáveis à compreensão e atitude responsiva ativa. Embora sua produção enunciativa se efetive no espaço de sinalização, não linearmente como a LP escrita, um dos aspectos que devem ser abordados em sala de aula é a sua gramaticalização quanto à ordenação frasal, que pode se apresentar pela sistematização SVO ou suas derivações, como OSV, SOV e VOS, consideradas gramaticais quando incluídos elementos não manuais, como a topicalização e construções com foco. Ao sinalizar, não empregamos a desinência ou flexão para os verbos, como ocorre com a LP escrita e oralizada, mas a flexão precisa concordar com o sujeito ou o objeto, assim como o uso do marcador temporal de passado, presente e futuro se efetiva por meio dos locativos temporais, quando necessário.
Não obstante, atentamos para a função dos adjetivos nos enunciados, cujo uso correto dos parâmetros permite que o sentido seja produzido. Escolhas equivocadas durante uma sinalização podem alterar todo o enunciado, especialmente quando se usam sinônimos ou outros signos gestuais para complementar o discurso. Diante da complexidade da Libras, é necessário ter conhecimento da língua e da cultura surda, pois qualquer substituição indevida produz sentidos diferentes. Logo, deve-se considerar o contexto extraverbal no momento da enunciação.
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Submetido: 06.01.2025.
Aprovado: 31.07.2025.
[1] Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Foz do Iguaçu: dineia.fellini@unila.edu.br.
[2] Universidade Estadual de Maringá, Maringá: emshimazaki@uem.br.
[3] Na obra A construção do pensamento e da linguagem (Vygotski, 2009), o termo instrumento é utilizado para referenciar à linguagem.
[4] Em celebrações religiosas, utiliza-se a expressão Cordeiro de Deus, conhecida em latim por Agnus Dei, cuja simbologia remete a Jesus Cristo, filho de Deus. Tanto em textos escritos quanto nos enunciados verbais, esse termo adquire significação a partir do contexto de uso, da situação e do auditório. Na Libras, como nem sempre os surdos se apropriam da cultura ouvinte e das simbologias que são atribuídas, a referência para o animal cordeiro e para o cordeiro de Deus precisa ser evidenciada de forma diferenciada. Sendo assim, para o animal, utilizamos o signo gestual OVELHA-FILHO-PEQUENOclassificador, e para as celebrações religiosas é necessário mencionar JESUS-CRISTO FILHO DEUS.
[5] A Libras é constituída de cinco parâmetros: Configuração de mão (CM), Ponto de Articulação (PA), Movimento (M), Expressões faciais e corporais (EFC), e Orientação da Palma da Mão (OR).