Definindo-se professor na contemporaneidade: a imagem de autor em videoaulas no YouTube e as imagens de professor nela inscritas[1]

 

Beatriz Amorim de Azevedo e Silva[2]

https://orcid.org/0000-0001-9472-3434

 

Sheila Vieira de Camargo Grillo[3]

https://orcid.org/0000-0003-0480-2660

 

 

Resumo

Este artigo visa analisar materializações da imagem de autor em um enunciado de videoaula, a fim de entrever nele imagens referentes ao professor como grupo social refratado pelo autor do enunciado. Para tanto, o corpus consiste em uma videoaula de língua portuguesa publicada no YouTube pelo canal “Professor Noslen”. A fundamentação teórica pauta-se pelos conceitos de imagem e de autoria nos textos de Bakhtin e do Círculo, bem como por suas inter-relações. Já na análise, levantam-se elementos verbivocovisuais do enunciado de videoaula que materializam a imagem de autor. Tal procedimento permitiu identificar uma imagem de autor com composição multifacetada, na qual se encontram refratadas a imagem de professor, com suas especificidades, e a de produtor de conteúdo.

 

Palavras-chave: Análise do discurso. Círculo de Bakhtin. Imagem. Professor. Videoaula.

 

 

Se définir en tant qu'enseignant à l'époque contemporaine: l'image de l'auteur dans des cours vidéo sur YouTube et les images d'enseignant qui y sont inscrites

 

Résumé

Cet article vise à analyser les matérialisations de l’image d’auteur dans un énoncé de cours vidéo, afin d’y repérer des images renvoyant à l’enseignant en tant que groupe sociale réfractée par l’auteur de l’énoncé. À cette fin, notre corpus se compose d’un cours vidéo en langue portugaise publié sur YouTube par la chaîne Professor Noslen. Notre méthodologie est basée sur les concepts d’image et d’auctorialité dans les textes de Bakhtine et le Cercle, ainsi que leurs interrelations. Dans l’analyse, nous avons collecté des éléments verbivocovisuels qui matérialisent l’image d’auteur dans cet énoncé. Cela nous a permis d’identifier une image d’auteur à la composition multiforme, dans laquelle se réfractent l’image d’un enseignant (avec ses spécificités) et celle d’un producteur de contenu.

 

Mots-Clés: Analyse du discours. Cercle de Bakhtine. Image. Enseignant. Cours vidéo.

 

 

 


 

Introdução

 

Em pesquisa anterior (Silva, 2023), verificamos que o gênero videoaula é extremamente relevante como locus para o estudo das configurações contemporâneas da relação professor-aluno. Isso porque a alteração do meio presencial do gênero aula para o meio digital da videoaula interfere fundamentalmente no cerne do processo de ensino-aprendizagem, definindo novas formas de constituir-se como aluno e como professor.

Em primeiro lugar, há a perda da hierarquia de autoridade anteriormente estabelecida entre professor e alunos; em vez disso, instaura-se um jogo dialógico de negociação e convencimento entre o que (e como) o professor, como autor, pretende comunicar e o que o aluno, como interlocutor, deseja aprender. Ainda, são tarefas atribuídas ao professor a construção de sua autoridade ao longo do enunciado e a conquista – e a manutenção – do interesse e da atenção dos alunos.

Além disso, a natureza heterogênea do meio digital, caracterizada por fronteiras imprecisas entre esferas, faz com que a videoaula apresente uma configuração particular de didaticidade (Moirand, 1993, 2002)[4]: a intenção de didaticidade está presente como objetivo discursivo, porém aliada a outros fins, entre os quais se sobressai a obtenção de engajamento, decorrente de interesses comerciais.

Considerando esse contexto do gênero videoaula, torna-se relevante investigar as maneiras como o professor, como autor, se apresenta em tais enunciados. Para tanto, o conceito de imagem de autor possibilita analisar os modos pelos quais o professor, na posição de autor, constrói a sua imagem nesses enunciados, sob os condicionamentos tanto das particularidades do gênero em questão quanto das avaliações sociais (Volóchinov, 2019b [1926]) referentes ao professor como grupo social que circulam em seu horizonte ideológico.

Assim sendo, neste artigo, o objetivo é analisar materializações da imagem de autor em um enunciado de videoaula, a fim de entrever nele imagens referentes ao professor como grupo social refratado pelo autor do enunciado.

Para esse fim, o corpus selecionado é uma videoaula de língua portuguesa em circulação no YouTube intitulada “Período Composto por Coordenação (Orações coordenadas) Paródia ‘Morro do Dendê’ [Prof Noslen]”. A videoaula em questão foi publicada em 29 de agosto de 2016 e conta com 4,5 milhões de visualizações e 309 mil curtidas (conforme checagem realizada em 13 de janeiro de 2025). Por sua vez, o canal responsável pela videoaula chama-se Professor Noslen (https://www.youtube.com/@ProfessorNoslen), com 5,15 milhões de inscritos (também conforme checagem em 13 de janeiro de 2025). Na descrição do canal, constam as seguintes informações: “Canal voltado para o ensino de toda a Língua Portuguesa, com o intuito de facilitar a aprendizagem de maneira rápida e divertida! Maior canal de educação do Brasil e maior canal de ensino de LP do MUNDO!” (Professor Noslen, 2024).

Dessa maneira, justifica-se a escolha do canal pelo seu tamanho e pela sua popularidade em meio aos canais de videoaula, à qual se deve, em grande parte, à própria figura do professor, avaliado positivamente pelos alunos, conforme a análise ressaltará, de modo que a imagem de autor presente nesse enunciado se torna um objeto de estudo relevante. Já a escolha da videoaula específica ocorreu tanto pelo tema abordado – um tópico gramatical da área da sintaxe, ponto em que muitos alunos têm dificuldade e buscam videoaulas como reforço às aulas escolares – quanto pelo modo de abordagem, destacando-se a presença da paródia de uma música popular para reforçar o conteúdo tratado.

Para atingir o objetivo, pautaremos nossa investigação pelas proposições teórico-metodológicas de Mikhail Bakhtin e do Círculo, especificamente referentes aos conceitos de imagem e de autoria e, em seguida, ao de imagem de autor. Já na análise, levantaremos elementos tanto verbais (a partir de transcrições conversacionais do enunciado, conforme as normas do Projeto NURC disponíveis em Castilho, 2016) quanto vocovisuais[5] (a partir de printscreens e descrições das cenas), tendo em vista a concepção de verbivocovisualidade proposta por Paula e Luciano (2020), que expressem aspectos da imagem de autor materializada nesse enunciado.

 

Imagem e autoria na teoria bakhtiniana: traçando relações

 

Autoria e imagem[6] são conceitos importantes e complexos que perpassam toda a teoria bakhtiniana e que se interseccionam. Isso pois, por um lado, a noção de imagem está proximamente relacionada à refração da realidade a partir da posição avaliativa de quem fala e, por outro, a noção de autoria, na teoria bakhtiniana, corresponde a uma posição verbo-axiológica (Faraco, 2005) sobre a realidade.

A teoria apresenta pontos de encontro entre essas duas noções, seja ao tratar da ideia de imagem de autor (Bakhtin, 2023 [192-]), seja ao abordar as possibilidades de expressão da autoria por meio das imagens (Bakhtin, 2010b [1965]). Dessa maneira, a exploração desses conceitos e de suas intersecções na teoria bakhtiniana permite analisar como o autor constrói a si mesmo em seu enunciado, associando-se ou dissociando-se de determinados signos e posições sociais a partir de suas próprias avaliações e da consideração do interlocutor presumido.

Essa investigação é relevante na videoaula, haja vista o caráter multifacetado dos professores característico desse gênero. Conforme aponta Mussio (2017, p. 1861),

 

[...] o “eu-professor-apresentador” das videoaulas constitui-se através de diferentes formas: o professor que ensina (eu-professor), o que apresenta (“eu-professor-apresentador”), o que comercializa seus serviços e produtos (“eu-professor-apresentador-comerciante”), caracterizado através do desdobrar de vários “eus”, com marcas identitárias daquele que “ministra/apresenta/vende”. Nesse sentido, pode também constituir-se segundo as funções atreladas ao próprio conteúdo da aula que ministra sobre escrita/redação científica, assumindo também um ethos marcado, por exemplo, pelo “eu-professor-apresentador-cientista”.

 

Assim sendo, começamos abordando o conceito de imagem (em russo, образ [óbraz]), recorrente na teoria literária de Mikhail Bakhtin. Uma vez que a obra artística (verbal, principalmente) é um dos objetos de pesquisa frequentes de Bakhtin e do Círculo, compreende-se que a noção esteja presente e seja abordada em diversos de seus textos, com graus variados de definição, bem como associada a diferentes objetos de estudo, inclusive para além da esfera artística.

Em O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária (Bakhtin, 2010a [1924]), encontra-se uma primeira acepção de imagem fortemente relacionada à esfera artística, dado o objeto tratado no texto – a teoria e a metodologia dos estudos literários vigentes à época. Nesse ensaio, o conceito de imagem aparece vinculado ao de conteúdo do objeto estético (isto é, da obra de arte), o qual é definido como

 

[...] a realidade do conhecimento e do ato estético, que entra com sua identificação e avaliação no objeto estético e é submetida a uma unificação concreta, intuitiva, a uma individualização, a uma concretização, a um isolamento e a um acabamento, ou seja, a uma formalização multiforme com a ajuda de um material determinado (Bakhtin, 2010a [1924], p. 35).

 

Portanto, a realidade, dotada de identificações e avaliações que precedem o ato estético, adentra o objeto estético (a obra de arte) e é, então, submetida a uma unificação, a uma individualização e a um acabamento operados por meio de uma forma esteticamente significativa, que representa a posição axiológica tomada pelo autor-artista e sua tarefa artística frente ao mundo do conhecimento e do ato.

Com isso, o objeto estético forma a unidade de um acontecimento que é axiologicamente significativo, esteticamente formalizado e acabado; logo, ele não mais coincide com seu equivalente empírico. Esse objeto estético passa a ser formado por componentes estéticos – as imagens. Segundo Bakhtin (2010a [1924], p. 53, grifos [sublinhados] nossos):

 

[...] o componente estético, que por ora chamaremos de imagem, não é nem um conceito nem uma palavra, nem uma representação visual, mas uma formação estético-singular realizada na poesia com a ajuda da palavra, nas artes figurativas com a ajuda de um material visualmente perceptível, mas que não coincide em nenhum lugar nem com o material nem com uma combinação material qualquer [...].

 

Dessa definição, podemos depreender que, para Bakhtin (2010a [1924]), a imagem é uma construção (“formação”) de caráter irrepetível (“singular”), formada pelo material, mas que não coincide nem se reduz a ele. Além disso, ao compor o conteúdo estético, as imagens também representam a posição axiológica do autor em relação à realidade do conhecimento e do ato.

Na sequência, passamos a abordar um texto elaborado em um ano não tão distante do anterior, porém por outro autor do Círculo: Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem, de V. Volóchinov (2021 [1929]). O texto volta-se a um objeto e a um objetivo de pesquisa distintos do anterior: a filosofia da linguagem e seus problemas específicos. Essa mudança de enfoque faz com que Volóchinov (2021 [1929]) apresente uma perspectiva distinta sobre o conceito de imagem, ao vinculá-lo ao signo ideológico:

 

[...] qualquer corpo físico pode ser percebido como a imagem de algo; [...]. Essa imagem artístico-simbólica de um objeto físico já é um produto ideológico. O objeto físico é transformado em um signo. Sem deixar de ser uma parte da realidade material, esse objeto, em certa medida, passa a refratar e a refletir outra realidade (Volóchinov, 2021 [1929], p. 92, grifos nossos).

 

Conforme esse trecho demonstra, em Volóchinov (2021 [1929]) qualquer objeto da realidade pode se tornar uma imagem de outro objeto, de modo que a imagem está presente não apenas na esfera artística, mas também em quaisquer enunciados. Além disso, ao afirmar que a imagem se materializa em um corpo físico ou material, definido adiante como um fragmento da realidade material (sons articulados, sinais gráficos, desenhos etc.), Volóchinov (2021 [1929]) confere a esse conceito uma dimensão material, em contraste com Bakhtin (2010a [1924]), cujo foco está na desrealização da imagem em relação ao objeto concreto ao qual ela está atrelada.

Além desse aspecto material, para Volóchinov (2021 [1929]) a imagem é sobretudo social e ideológica, pois representa um determinado reflexo e refração da realidade material. Aqui, similarmente a Bakhtin (2010a [1924]), o objeto concreto, por si só, nada significa; a imagem é produzida como contraparte desse objeto, à qual o autor pode atribuir um sentido ideológico, materializando uma determinada tomada de posição.

A imagem surge, ainda, no processo de interação social entre consciências individuais, o que a submete à orientação social[7] do signo. Consequentemente, ela materializa um cruzamento de ênfases multidirecionadas relacionadas tanto ao contexto imediato da interação quanto ao estado da organização social dos indivíduos.

Por fim, abordamos a obra A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (Bakhtin, 2010b [1965]). Segundo Grillo e Américo ([2025?]), o termo “imagem” é um dos mais frequentes no livro (mencionado mais de 1.500 vezes, de acordo com as autoras). No entanto, Bakhtin não explicita o que entende por esse conceito. Desse modo, é necessário entrever, nos usos feitos pelo autor, aspectos de seu ponto de vista.

A partir das análises de Bakhtin sobre o sistema de imagens rabelaisianas, inferimos que a imagem empregada em uma obra está em direta relação com a cultura corrente em seu contexto de produção:

 

[...] as imagens referentes ao princípio material e corporal em Rabelais (e nos demais autores do Renascimento) são a herança (um pouco modificada, para dizer a verdade) da cultura cômica popular, de um tipo peculiar de imagens e, mais amplamente, de uma concepção estética da vida prática que caracteriza essa cultura [...]. Vamos dar a essa concepção o nome convencional de realismo grotesco (Bakhtin, 2010b [1965], p. 16-17, grifos [sublinhados] nossos).

 

Ao longo do texto, o autor discorre sobre as mudanças na forma como o sentido das imagens grotescas é percebido e interpretado, de acordo com o contexto de produção das obras e as concepções de mundo dominantes. Dessa maneira, as imagens assumem um caráter histórico em Bakhtin (2010b [1965]), uma vez que os sentidos a elas atribuídos evoluem conforme diferentes vivências histórico-sociais.

Consequentemente, verificamos em Bakhtin (2010b [1965]), que a imagem remete a um conteúdo objetivo ao qual se pode atribuir um sentido, a partir de valores e ideias do autor em interação dialógica com o contexto socioideológico do enunciado. As imagens captam, portanto, a realidade e refratam-na como uma apreensão artística dessa realidade, de modo mais ou menos fiel. Nelas, encontram-se tanto a referência a um aspecto concreto e empírico quanto uma camada de interpretação do autor e de suas concepções de mundo.

Identificamos, ainda, no texto, termos como “língua das imagens” e “sistema das imagens”, conforme o trecho a seguir:

 

O sistema das imagens da festa popular formou-se efetivamente e viveu durante milênios. [...] esse sistema cresceu, enriqueceu-se com um sentido novo, filtrando as esperanças e ideias populares novas, e modificou-se no crisol da experiência popular. A língua das imagens, ganhando novos matizes, refinou-se. É graças a ela que as imagens da festa popular puderam tornar-se uma arma poderosa na apreensão artística da realidade [...]. Elas ajudam a captar a realidade não de uma maneira naturalista, instantânea, oca, desprovida de sentido e fragmentária, mas no seu processo de devir com o sentido e a orientação que ele adquire (Bakhtin, 2010b [1965], p. 183-184, grifos [sublinhados] nossos).

 

O “sistema de imagens” ou a “língua das imagens” apontam para o caráter organizado e interconectado das imagens integrantes da festa popular e para sua função de atribuir sentidos à realidade. Esses dois aspectos revelam o processo histórico de apreensão criativa da realidade pelas sociedades humanas, processo dinâmico e orientado para um devir. Em outros termos, a imagem seria algo passível de ser acumulado histórica e socialmente e compartilhado por uma dada coletividade social, como um verdadeiro repertório imagético com uma organização interna.

 

Aspectos do conceito de autoria na teoria bakhtiniana

 

O conceito de autoria está presente em praticamente todos os textos de Mikhail Bakhtin e do Círculo, sendo abordado principalmente por um viés filosófico, orientado à construção de uma estética geral (Faraco, 2005). A sua centralidade na teoria bakhtiniana está relacionada à singularidade do ser humano e à sua relação com a realidade em que está inserido: ao tornar-se autor, ele assume uma posição ativa, ideologicamente avaliativa e responsiva ao seu entorno, a partir da qual pode criar e inovar utilizando-se da linguagem.

Faraco (2005) destaca a concepção de autor na teoria bakhtiniana como um constituinte do objeto estético que sustenta e centraliza a unidade do todo esteticamente consumado. Tal percepção está materializada em trechos como:

 

O homem definido é o centro axiológico concreto da arquitetônica do objeto estético, em torno do qual se realiza a unicidade de cada objeto, sua diversidade concreta e integral (casualmente fatídica do ponto de vista do sentido), e todos os objetos e elementos no conjunto semântico temporal e espacial do acontecimento concluído da vida. [...]. Cada valor concreto de uma obra de arte é interpretado em dois contextos axiológicos: no contexto do herói – contexto ético-cognitivo, vital – e no contexto concludente do autor – contexto ético-cognitivo e estético-formal –, sendo que esses dois contextos axiológicos interpenetram-se, mas o contexto do autor se empenha em envolver e fechar o contexto do herói (Bakhtin, 2023 [192-], p. 43, grifos nossos).

 

Ao falar, portanto, um ser humano assume a posição estético-formal de autor, que representa o centro axiológico orientador de toda a construção do enunciado: desde o seu conteúdo, constituído pelo reflexo e pela refração de um objeto a partir das posições axiológicas do autor, até as escolhas composicionais e estilísticas. Em sua teoria, Bakhtin (2023 [192-]) distingue o autor em sua vivência pessoal do autor como componente de um enunciado:

 

Negamos apenas o enfoque sem nenhum princípio, puramente factual desse tema, que hoje domina sozinho e se funda na confusão do autor-criador, elemento da obra, com o autor-pessoa, elemento do acontecimento ético e social da vida, e na incompreensão do princípio criador da relação do autor com a personagem; daí resultam a incompreensão e a deformação – no melhor dos casos a transmissão de fatos pobres – da personalidade ética, biográfica do autor, por um lado, e a incompreensão do conjunto da obra e da personagem, por outro (Bakhtin, 2023 [192-], p. 52, grifos nossos).

 

Desse modo, o autor-criador é um elemento integrante da obra artística, distinto do autor-pessoa, “participante do acontecimento ético e social da vida”. Além disso, como elemento do enunciado, o autor-criador não apenas refrata, mas é também resultado de uma refração. Isso porque, se por um lado o autor-criador assume um viés valorativo ou uma posição axiológica a partir da qual a vida é transposta para a arte; por outro lado, ele próprio é uma construção estético-formal, que materializa os vieses valorativos que compõem a consciência do autor-pessoa.

Tal perspectiva também está presente no método sociológico de Volóchinov (2021 [1929]). O autor ressalta, por um lado, a importância das inter-relações sociais na formação da personalidade do falante e, consequentemente, do autor, uma vez que este fala a partir da situação de produção específica daquele enunciado e, por outro, a orientação do enunciado para a situação social mais próxima e para seus interlocutores.

Assim, ao assumir a posição de autor de um enunciado, o falante exprime sua avaliação social (Volóchinov, 2019b [1926]) em relação a um determinado conteúdo semântico-objetal, a partir das inter-relações sociais que formam sua vivência interior. Isso inclui as relações dialógicas estabelecidas com os enunciados que o antecedem na cadeia de comunicação discursiva, de modo a definir seu posicionamento dentro da coletividade social de que participa.

Presente no texto A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica (Volóchinov, 2019b [1926]), a avaliação social é um dos elementos do contexto extraverbal do enunciado, ao lado do horizonte espacial comum dos falantes e do conhecimento e compreensão da situação comum a ambos. A inclusão do termo “social” no conceito refere-se ao fato de que a avaliação não pode ser subjetivo-individual, mas sim partilhada entre os membros de um mesmo grupo social ou, até mesmo, de uma mesma época. Ela modula a percepção de um conteúdo semântico-objetal e, ao mesmo tempo, determina a escolha da palavra e a forma do todo verbal.

Ao mesmo tempo, Volóchinov (2021 [1929]) ressalta a importância do interlocutor como uma contraposição ao autor que, simultaneamente, o completa, uma vez que entre ambos se estabelece a dialogicidade necessária à linguagem. Essa proposição relaciona-se ao conceito de orientação social da fala (Volóchinov, 2019a [1930]), dado que a consideração da posição socio-hierárquica dos interlocutores e de suas posições responsivas ativas influencia diretamente o autor e suas escolhas.

Por fim, já no final de sua produção bibliográfica, em Fragmentos dos anos 1970-1971, Bakhtin (2017 [1970-1971]) aborda a questão do autor no enunciado a partir do conceito de forma de autoria:

 

A forma de autoria depende do gênero do enunciado. Por sua vez, o gênero é determinado pelo objeto, pelo fim e pela situação do enunciado. As formas de autoria e o lugar (posição) ocupado na hierarquia pelo falante [...]. A posição hierárquica correlativa do destinatário do enunciado [...]. Quem fala e a quem se fala. Tudo isso determina o gênero, o tom e o estilo do enunciado: [...]. É isso o que determina a forma da autoria. A mesma pessoa real pode manifestar-se em diversas formas autorais (Bakhtin, 2017 [1970-1971], p. 53).

 

Nesse trecho, encontram-se algumas das questões já tratadas anteriormente. Em primeiro lugar, a desvinculação entre o autor-pessoa e o autor-criador, ao afirmar que “[...] a mesma pessoa real pode manifestar-se em diversas formas autorais”. Em segundo lugar, similarmente a Volóchinov (2021 [1929]), encontramos a dependência entre a forma de autoria manifesta por um autor e a posição hierárquico-social que ele ocupa em relação ao interlocutor. Ao mesmo tempo, Bakhtin (2017 [1970-1971]) acrescenta que a forma de autoria depende do gênero do enunciado, aspecto ao qual estão relacionados também o objeto do qual se fala, a situação da fala e o objetivo discursivo que motiva a fala.

 

Imagem de autor, autoria em imagens

 

A partir da exploração dos dois conceitos separadamente, verificamos inter-relações entre ambos. Considerando a imagem como uma contraparte sígnica de um elemento da realidade concreta, refletido e refratado pelo viés das avaliações ideológicas do autor, podemos concluir que não há imagem sem autoria. Isso porque o que separa o objeto concreto e empírico de sua versão imagética é justamente a sua refração pela percepção de uma consciência (inter)individual; assim, a imagem não pode coincidir com o objeto concreto de que parte, pois manifesta avaliações que só podem originar-se de uma posição autoral. Tal conclusão assemelha-se aos achados de Bakhtin (2010b [1965]), em cuja análise das imagens presentes na obra do escritor francês François Rabelais verifica-se a materialização de uma “consciência artística”, isto é, uma posição autoral.

É necessário considerar, ainda, a distinção presente na teoria entre autor-pessoa e autor-criador, ou posição estético-verbal, encontrada no conceito de forma de autoria de Bakhtin (2017 [1970-1971]). Unindo essas ideias, o autor-pessoa (o falante), ao tornar-se autor-criador (ao enunciar), constrói, em seu enunciado, uma determinada imagem de si, ou seja, uma contraparte linguageira de si que materializa sua avaliação (Bakhtin, 1993 [1918-1924]), suas posições axiológicas (Bakhtin, 2010a [1924]) e/ou suas avaliações sociais (Volóchinov, 2019b [1926]) sobre si mesmo. É essa camada que reveste o autor que entendemos como forma de autoria ou imagem de autor.

Portanto, é como se o autor-pessoa ocupasse a posição de objeto da realidade concreta de que a imagem trata. Ao mesmo tempo, ao construir seu enunciado, ele se torna o autor-criador, ocupando a posição de centro axiológico e avaliativo do enunciado e, consequentemente, das imagens nele presentes. Dá-se, então, a duplicidade da posição autoral apontada por Faraco (2005): o autor é, simultaneamente, construtor e construto e, ao tomar a si mesmo como objeto, pode infundir em uma imagem sua avaliação social sobre si.

Aproximamo-nos então das considerações sobre imagem de autor encontradas em O autor e a personagem na atividade estética (Bakhtin, 2023 [192-]). Esse texto consiste em um manuscrito inacabado no qual Bakhtin elege como foco as figuras de autor e personagem[8] e as relações entre elas. Dentro desse tema, um dos aspectos analisados é o da imagem externa, definida como o “[...] conjunto de todos os elementos expressivos e falantes do corpo humano” (Bakhtin, 2023 [192-], p. 72), o qual deve ser capaz de expressar o todo da diretriz volitivo-emocional e ético-cognitiva de um indivíduo no mundo.

A imagem externa conta a “história do homem exterior” (Bakhtin, 2023 [192-], p. 83), ao consistir na união de fragmentos aleatórios que se unem e formam uma continuidade, um todo acabado a partir de um enfoque axiológico único que, segundo Bakhtin (2023 [192-]), só pode vir do olhar do outro.

 

Nesse sentido pode-se dizer que o homem tem uma necessidade estética absoluta do outro, do seu ativismo que vê, lembra-se, reúne e unifica, e que é o único capaz de criar para ele uma personalidade externamente acabada; tal personalidade não existe se o outro não a cria; a memória estética é produtiva e cria pela primeira vez o homem exterior em um novo plano da existência (Bakhtin, 2023 [192-], p. 83).

 

Segundo o autor, isso se dá devido à extralocalização do outro, que lhe confere um excedente de visão. Dessa maneira, a imagem externa de uma pessoa nunca está disponível para ela mesma como está para os outros; isto é, há uma diferença entre a autossensação interna e a imagem externamente expressa. Conforme Bakhtin (2023 [192-], p. 77, grifos [sublinhados] nossos):

 

Entre a minha autossensação interna – função da minha visão vazia – e a minha imagem externamente expressa há uma espécie de tela transparente, de tela da possível reação volitivo-emocional do outro na minha manifestação externa – de possível êxtase, amor, surpresa, piedade, etc. do outro por mim; e olhando através dessa tela da alma do outro, reduzida a meio, eu vivifico e incorporo a minha imagem externa ao mundo plástico-pictural.

 

Aqui, a imagem é a maneira como uma pessoa aparece para os outros e como ela é percebida e interpretada pelos demais, a partir não só daquilo que ela escolhe mostrar de si, como também das percepções e posições avaliativas dos outros em relação ao que veem. Tal noção permite, então, entrever o modo como o falante percebe a si mesmo e o modo como ele deseja ser percebido pelos seus interlocutores, a partir da maneira como seleciona, recorta e apresenta a sua própria “história do homem exterior”. Trata-se de como constrói para si uma narrativa que o explique e o defina, dando-lhe o acabamento necessário para que outros interlocutores possam interpretá-lo e respondê-lo.

Assim, tendo explorado as noções de imagem e autoria, bem como suas possíveis inter-relações, concluímos que, ao construir um enunciado, o falante assume uma determinada forma de autoria ou imagem de autor, isto é, uma contraparte linguageira de sua existência concreta, a qual é refletida e refratada pelas avaliações sociais (Volóchinov, 2019b [1926]) que o autor tem de si mesmo e que deseja que o outro tenha dele, conforme a orientação social do enunciado (Volóchinov, 2019a [1930]) e o gênero do enunciado (Bakhtin, 2017 [1970-1971]). É essa imagem de autor que guiará a construção do enunciado em todos os seus níveis e, em contrapartida, elementos de todos os níveis de composição de um enunciado materializam, de maneira conjunta, a imagem do autor, seja implícita ou explicitamente.

 

O professor de videoaula e as materializações da imagem de autor no corpus

 

Ao adentrarmos nosso corpus, deparamo-nos com a complexidade adicionada pelo YouTube ao estudo proposto, dada a posição central que a atitude responsiva dos interlocutores assume na plataforma, seja em forma de curtidas, visualizações, inscrições no canal, comentários, compartilhamentos ou, simplesmente, pela continuidade da exibição do vídeo. O fato de o engajamento e a retenção de espectadores serem utilizados como medida de sucesso (e, inclusive, de retorno financeiro) de um vídeo faz com que a manifestação da atitude responsiva dos interlocutores seja ativamente buscada pelos produtores de conteúdo como um objetivo discursivo, influenciando diretamente o próprio processo de construção dos enunciados (Silva, 2023).

Portanto, o autor de um enunciado que circula no YouTube deve considerar seus interlocutores presumidos, a reação que espera deles e a melhor maneira de elicitá-la. Nesse sentido, as manifestações responsivas dos interlocutores sobre o autor do enunciado que serão analisadas fornecem uma primeira visão de quem ele é, qual a imagem que ele constrói para si e como ele é percebido pelos demais. Para tanto, examinamos a seção de comentários da videoaula selecionada, da qual destacamos registros relevantes à identificação da imagem de autor manifestada[9]:

 

(1)   Minha missão acabou, achei o professor mais carismatico que ja exsistiu nesse planeta, agora ja posso voltar para minha terra natal

<3

(2)   Vou sequestrar o professor Noslen para dar aula na minha escola. É verdade esse bilhete.

(3)   o professor Noslen é resumido em: uma voz de ASMR, zuera total, ótimo cantor e ELE É PARECIDO COM O HOMER MISTURADO COM UM ROCKEIRO DE 40 ANOS QUE ANDA DE MOTOCICLETA COM UMA JAQUETA DA SUA BANDA FAVORITA

(4)   o cara explica e descontrai ao mesmo tempo otimas aulas

(5)   KKKKK Que professor loucasso mano!!! Mlr professor uahsuahsuhaau

(6)   o cara é simplesmente o melhor professor e achou que ninguém ia perceber

(7)   POR MAIS PROFESSORES ASSIM NA ESCOLA SÉRIO DÁ ATÉ VONTADE DE ESTUDAR

(8)   ESSE CARA É FODA, CONSEGUE RESUMIR VARIAS PAGINAS DE APOSTILAS EM 12 MIN

(9)   man pq se n vira meu professor ? ;-; se é mó animado dá e alegria estudar com vc

(10) Cara, esse professor é maravilhoso!!!!! Parabéns!!!!! Com esse professor da vontade de estudar, porque a felicidade dele em ensinar é enorme e a vontade que ele da as aulas é muito boa. [...] E eu entendo mil vezes português com você do que com a minha professora. Tirei nota boa no primeiro trimestre por causa das suas aulas, agora estou estudando para o segundo trimestre. Obrigada!!!!

(11) Noslen, deus da Língua Portuguesa, sempre ajudando seus dévotos alunos, órfãos de professores!

 

Partindo desses comentários, elaboramos o esquema da Figura 1, a seguir, com alguns dos termos encontrados (alguns mais de uma vez) para se referir ao enunciado e ao seu autor[10]  – o Professor Noslen.

Figura 1 – Esquema de palavras relacionadas ao autor do enunciado

 

Diagrama

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Fonte: Elaboração própria.

 

Esse esquema representa algumas das linhas principais de percepção e avaliação dos interlocutores com relação ao enunciado da videoaula, as quais podem ser organizadas em dois eixos: por um lado, a avaliação positiva do autor como um bom professor, capaz de fazer o aluno compreender a matéria; por outro, a avaliação positiva da descontração, da informalidade e das brincadeiras, aspectos característicos de suas aulas. Ainda, como mostram os comentários (4), (7), (9) e (10), esses dois eixos atribuídos à imagem do autor são complementares, de modo que sua combinação é o que leva a aula a ser bem avaliada pelos interlocutores.

Os comentários ao vídeo sinalizam, portanto, a avaliação social (Volóchinov, 2019b [1926]) dos interlocutores em relação à imagem de professor que eles esperam encontrar em uma videoaula. Ainda, o YouTube fornece a possibilidade de o autor do vídeo interagir com os comentários de seus interlocutores, levando a um jogo dialógico de coconstrução do enunciado e da imagem do autor. As imagens da Figura 2, a seguir, ilustram isso.

 

 

Figura 2Printscreens de comentários à videoaula analisada com as respectivas reações do autor

Fonte: Imagens extraídas de comentários a Período Composto [...] (2016).      

 

Nessas imagens, verificamos, de um lado, as reações responsivas dos interlocutores como coparticipantes da construção da imagem do autor, as quais manifestam uma valoração positiva de um professor que não só consiga explicar, como também o faça de forma descontraída e brincalhona, pautando-se pela informalidade no seu direcionamento aos alunos; e, de outro, o próprio autor que, ao manifestar sua concordância com esses enunciados responsivos, começa a construir uma imagem de si no seu enunciado, ao dar os primeiros indícios de sua própria avaliação social, a qual refrata a imagem de professor à qual ele se associa.

Comecemos, então, a analisar a construção da imagem de autor feita pelo próprio autor (ou autores) do enunciado. Para tanto, é necessário observarmos que ela não se inicia na videoaula em si: como o canal leva seu nome (“Professor Noslen”), a imagem associada ao autor-pessoa começa a ser construída antes do próprio enunciado da videoaula. Isso a complexifica, uma vez que essa imagem de autor passa a incluir imagens referentes não só à profissão de professor, como também à de produtor de conteúdo, o que é materializado por diversos elementos da construção do enunciado.

Inicialmente, analisando a sua construção composicional[11], identificamos uma estrutura tipicamente associada a vídeos de YouTube. O enunciado começa com uma introdução, na qual o autor (nas transcrições, PN, ou Professor Noslen) aborda diretamente o interlocutor e estabelece o objetivo e a organização do enunciado, sem adentrar o tópico principal da discussão:

 

(12) 00:00 – 00:38

PN - e AÍ:: MOÇADA:: beleza beleza estamos aqui de novo SIM EU professor nosLEN aqui:: junto com voCÊS::... moçadinha moçadinha olha SÓ... ceis perceberam que minha voz não tá muito boa hoje né... me deu u::ma inflamação na garganta meio forte aí fiquei uns dois três dias meio afônico... to QUA::se cem por cento tão não liga não que a voz vai dar umas ((oscilação de voz em tom alto)) hoje... ta... mas ((risos)) normal normal... BELEZA pessoas? aula de HOJE... orações coordenadas começamos a falar de período comPOSsto hoje... estávamos falando até p/ até agora pouco né... nas últimas aulas de período SIMples... análise sintática período simples... HOJE entramos em período composto... período composto começamos falando das... COORdenadas... beleza? vamo lá?

 

Em seguida, há uma vinheta de abertura (Figura 3), que se repete nos vídeos e funciona como identidade visual do canal.

 

Figura 3 – Frame da vinheta de abertura da videoaula analisada

Fonte: Extraída de Período Composto [...] (2016, 43 s).

 

O conteúdo em si — no caso, a aula — começa apenas após a vinheta. Por fim, há um encerramento do vídeo em que o autor se direciona novamente ao interlocutor, agora com chamados à ação, isto é, indicações de como ele pode interagir com o vídeo e com o canal para apoiar o autor na produção de mais conteúdos como esse.

 

(13) 12:02 - 12:26

PN - HÉ::... e não deixe de se INSCREVE::R... e espero que cê tenha GOSTA::DO... e vai LÁ no instaGRAM::... e vai LÁ no facebook divulga pra galera e VAMO QUE VAMO que a vida não para moçada

 

Identificamos, desse modo, uma estrutura composicional que se assemelha à tipicamente encontrada em vídeos do YouTube de assuntos diversos: a abertura, a vinheta e o encerramento com chamado à ação do interlocutor. No encerramento, esse chamado à ação se materializa no uso de imperativos (“não deixe de se INSCREVE::R”; “vai LÁ no instaGRAM::”; “vai LÁ no facebook divulga pra galera”), que abordam modos pelos quais o interlocutor pode engajar com o vídeo assistido a fim de demonstrar apoio ao canal.

Por um lado, tais aspectos sinalizam que o autor possui, para além dos objetivos discursivos de um professor preocupado com a compreensão dos interlocutores como alunos, os de um produtor de conteúdo, cujo foco está na obtenção de engajamento e na retenção de seu interlocutor, visto como audiência e consumidor. Portanto, há uma faceta da imagem do autor que se associa a um produtor de conteúdo e a suas funções no meio de circulação do enunciado: o YouTube.

Por outro lado, conforme Silva (2023), ao pertencer ao gênero videoaula, o enunciado assume como objetivos discursivos não só o engajamento, como também uma intenção de didaticidade (Moirand, 1993, 2002), compreendida como a intenção de mudar e ampliar o estado de conhecimentos do outro. Por conta disso, o autor associa a sua imagem à de um professor e a suas funções; no entanto, esse grupo social é refratado pelo autor, que adota uma imagem bipartida entre autoridade e descontração.

Verificamos traços materiais dessa bipartição tanto nos elementos verbais quanto nos vocovisuais do enunciado. Nos elementos vocovisuais, o autor emprega signos que remetem ao espaço institucionalizado da escola e à situação da aula presencial, a fim de marcar materialmente o traço de autoridade que compõe a imagem de professor à qual ele associa sua própria imagem de autor. É o que se observa, por exemplo, no fato de ele vestir um jaleco branco, bem como no uso de um fundo verde-escuro que remete a um quadro-negro, sobre o qual são inseridos blocos de texto com tópicos referentes à sua fala, conforme mostra a Figura 4 que segue.

 

Figura 4 – Frame da videoaula analisada

Fonte: Extraída de Período Composto [...] (2016, 1 min 16 s).

 

Tanto a fonte quanto as cores escolhidas para os blocos de texto remetem à escrita em giz no quadro-negro; além disso, o enunciado emprega uma animação de entrada e saída do texto aliada a efeitos sonoros que simulam o processo de escrita a giz no quadro, bem como o seu posterior apagamento. Tais elementos vocovisuais contribuem para associar a imagem do autor ao espaço escolar institucionalizado e, por extensão, à imagem de professor como figura de autoridade na relação com o aluno.

Ao mesmo tempo, é possível perceber que o autor também imprime seu estilo pessoal em sua imagem externa, algo que é notado pelos interlocutores, como demonstra o seguinte trecho do comentário (3): “[...] ELE É PARECIDO COM O HOMER MISTURADO COM UM ROCKEIRO DE 40 ANOS QUE ANDA DE MOTOCICLETA COM UMA JAQUETA DA SUA BANDA FAVORITA”.

Se esse estilo está mais oculto no decorrer da videoaula, em razão do uso do jaleco, ele se revela de maneira mais proeminente na thumbnail do vídeo (Figura 5), em que o autor aparece sem essa vestimenta (ainda que esteja usando uma camiseta com o logotipo do canal). O destaque, então, recai sobre seus acessórios e aparência, que representam o estilo individual do autor, conferindo à sua imagem personalidade e individualidade.

 

Figura 5 – Printscreen da thumbnail

Fonte: Extraída de Período Composto [...] (2016).

 

Tais aspectos estão ainda mais proeminentes na seção final da videoaula, em que o autor apresenta sua paródia musical (Figura 6).

Figura 6 Frame da videoaula

Fonte: Extraída de Período Composto [...] (2016, 11 min 57 s).

 

Nessa seção, o autor aparece com uma touca, canta e dança funk, de modo que sua imagem externa representa uma mudança na “personagem” que ele assume ou, ainda, no grupo social que refrata – agora, o de um funkeiro. Essa mudança é vista também no uso de efeitos vocovisuais no trecho: o efeito de lens flare na tela, a trilha sonora de funk e o uso de um efeito sonoro de explosão no momento em que o autor canta “clakibum”.

Aqui, os elementos estilísticos empregados pelo enunciado atribuem à imagem do autor aspectos propriamente humorísticos, os quais, se retomarmos os comentários ao vídeo, são interpretados pelos interlocutores como carisma, alegria, animação, felicidade em ensinar e até mesmo “loucura”, como no comentário (5) – mas com uma valoração positiva, de excentricidade. Todavia, o autor não se desassocia da imagem de professor nesse momento, uma vez que ele continua utilizando o jaleco. Além disso, o tema da paródia permanece sendo o objeto de conhecimento de sua explicação – as orações coordenadas –, fazendo com que essa seção descontraída, até mesmo humorística, ainda faça parte da sequência da aula e, consequentemente, seja regida pela intenção de didaticidade.

Passamos, agora, à análise dos elementos verbais do enunciado, nos quais também encontramos uma bipartição entre didaticidade e humor/descontração. Retomando a abertura do vídeo (12), o autor, logo de início, já se identifica como professor (“estamos aqui de novo SIM EU professor nosLEN aqui:: junto com voCÊS::...”) e a situação como uma aula (“aula de HOJE... orações coordenadas começamos a falar de período comPOSsto hoje...”). Essa aproximação da videoaula aos elementos da esfera educacional perpassa todo o canal, começando pelo próprio nome, Professor Noslen. Por meio dessa escolha lexical, o autor associa sua imagem à esfera educacional e, mais especificamente, se apresenta como professor, grupo social que refrata conforme sua avaliação social (Volóchinov, 2019b [1926]).

Ao mesmo tempo, a abertura do vídeo também traz usos linguageiros com outros sentidos atrelados. É o caso dos vocativos informais e descontraídos usados para se referir aos interlocutores (“moçada”, “moçadinha”, “pessoas”), bem como da presença de expressões comumente empregadas na conversação cotidiana (“e aí”, “beleza?”, “não liga não”, “olha só”). Tais usos no início do vídeo contribuem para estabelecer o tom da orientação social (Volóchinov, 2019a [1930]) desse enunciado, isto é, da relação socio-hierárquica que o autor deseja construir com seus interlocutores: uma de descontração e informalidade, em que, em vez da tensão advinda das diferentes posições hierárquicas entre professor e aluno, assume-se uma postura relaxada, de parceria e proximidade.

Assim, a abertura analisada já materializa as duas facetas da imagem de autor concretizada pelo enunciado: de um lado, há uma preocupação em atrelar o autor e o canal à esfera educacional; de outro, há um esforço em construir, em conjunto com o interlocutor, uma relação socio-hierárquica caracterizada pela proximidade, pelo relaxamento e pela descontração.

Explica-se desse modo também o fato de o autor, tanto na abertura quanto em outros momentos do enunciado, fazer comentários de natureza pessoal ao relatar suas vivências (como na própria abertura, em que comenta sobre a inflamação na garganta), suas preferências (como em (14)) e até mesmo comentar, de forma debochada, sobre as vivências de seu aluno (como em (15)):

 

(14) 00:44 – 00:54

PN - EI::ta vida hein VAmo lá enTÃO pessoas? PERÍ::ODO COMPOSTO que maraVIlha que alegria AH:: que beleza... muita gente gosta disso... muita gente não gosta... eu gosto sempre... é:: gosto sempre...

 

(15) 06:23 - 06:43

PN - então por exemplo... talvez vocês tenham escutado isso muito quando era criança ou AINDA ESCUTE... ESTUDE... O::U:: não sairá neste sábado... ((sinaliza ao aluno como se estivesse de olho nele)) se voCÊ  tá ouvindo isso ainda HOje estudando para o enem pro vestibulLAR... tem alguma coisa errada nessa vida hein pessoa... HÃ?... estude ou não sairá nesse sábado NÃO PODE acontecer isso... hã?...

 

Esses comentários materializam novamente o esforço do autor em atribuir à orientação social de seu enunciado um caráter de proximidade e intimidade, o que, por sua vez, influencia a sua própria imagem de autor: a de um professor parceiro, acessível, com quem o aluno consiga se identificar.

Simultaneamente, os momentos que concentram a explicação sobre o objeto do conhecimento abordado – as orações coordenadas e seus tipos – também materializam a outra faceta de professor à qual o autor deseja se identificar: a de um professor competente e eficaz no ato de explicar e fazer compreender. Para melhor analisar essa questão, voltaremos nossa atenção para o trecho em que o autor apresenta as orações coordenadas conclusivas, distinguindo-as das explicativas:

 

(16) 06:53 - 08:54

PN - e agora muito cuidado vamos DEVAGAR nessa parte final agora... por que?... eu tenho dois tipos ainda... esses dois tipos eles têm relações diretas um com o Outro... e vamo prestar atenção exatamente na função de UMA conjunçãozinha que tem aLI... olha SÓ... primeira... conclusiva... a conclusiva ela traz ideia de conclusão... justificação... certo?... QUAIS conjunções mais... coMUNS?... logo portanto por isso então assim por diante... EU TEnho... a seguinte oração aqui olha... eu vou colocar uma oraÇÃO... preste bem atenção... estudou como nunca fizera antes... conseGUIU POIS... a aprovação CALma... estudou como nunca fizera antes conseguiu pois a aprovação... ce TÁ VENdo esse pois aí?... ta vendo que ele tá vindo APÓS o verbo da segunda oração?... NORMALMENTE o pois... é uma conjunção explicaTIva que é a próxima eu já vou falar sobre isso... mas NESSE caso quando eu desLOco ele pra dePOIS do verbo da segunda oração... ele se torna... uma conjunção CONCLUSIVA... e essa é a parte mais diFÍcil... Essa é a parte mais difícil... então ó... de NOvo olha a oração que tá aí... produção colocou aí a oração (com o que) tinha?... hã?... estuDOU como nunca fizera antes... conseGUIU POIS... a aprovação... p(rofes)sor eu poderia trocar esse pois por um LOgo?... POde como ficaria?... estudou como nunca fizera antes... LOGO... conseguiu a aprovação... perCEBE que a função do pois e do logo é a MESma?... só coloquei o logo ANtes do verbo... não tem proBLEma... o que eu quero que cê enTENda... essa relação... está concluINdo... certo? a segunda oração CONCLUI... a ação da primeira... certo?... SE EU faço o conTRÁrio se eu coloco o pois AN::TES do verbo da segunda oração... ele vai se tornar... explicativo... mas pra que isso aconTEça... que que eu tenho que fazer?... eu também tenho que inverter as duas orações... como assim?... olha só a próxima... a explicativa...

 

Esse trecho é relevante para nossa análise pela ênfase que o próprio autor dá a esse recorte do objeto de conhecimento, ao considerá-lo mais difícil que o restante e um possível ponto de dúvida. Tal antecipação do autor com relação à reação do seu interlocutor age para aproximar os dois interactantes, adicionando um novo aspecto à relação entre eles: para além da descontração e da informalidade, constrói-se ainda uma relação de cumplicidade e compreensão, em que as dúvidas são admitidas e claramente abordadas e sanadas.

Mediante a análise do modo como essas duas classificações de orações são apresentadas e explicadas pelo autor, identificamos o uso de atividades discursivas[12] que materializam a didaticidade no enunciado, como:

·       Definição (“conclusiva... a conclusiva ela traz ideia de conclusão... justificação...”), seguida de exemplificação (eu vou colocar uma oraÇÃO... preste bem atenção... estudou como nunca fizera antes... conseGUIU POIS... a aprovação”);

·       Retomada (“então ó... de NOvo olha a oração que tá aí...”); e

·       Perguntas didáticas (“QUAIS conjunções mais... coMUNS?”; “ce TÁ VENdo esse pois aí?... ta vendo que ele tá vindo APÓS o verbo da segunda oração?”; “p(rofes)sor eu poderia trocar esse pois por um LOgo?... POde como ficaria?... estudou como nunca fizera antes... LOGO... conseguiu a aprovação... perCEBE que a função do pois e do logo é a MESma?”; “mas pra que isso aconTEça... que que eu tenho que fazer?...”).

A presença de tais atividades discursivas na fala do autor novamente liga-o à esfera educacional e a seus recursos discursivos típicos, o que confere autoridade e credibilidade à imagem do autor, associando-a à de um professor. Ainda, retomando os comentários analisados, os interlocutores validam essa imagem e a elogiam: para eles, ele não só é de fato um professor, como também é um bom professor, capaz de levar o aluno a compreender o objeto de conhecimento em questão e sanar suas dúvidas.

 

Considerações finais

 

A partir de nossa análise, podemos traçar algumas respostas para os objetivos de pesquisa aos quais nos propusemos neste artigo. Sobre a imagem do autor materializada na videoaula analisada, verificamos que sua composição é complexa e multifacetada, de modo que encontramos nela refratadas não só imagens referentes ao professor que esperávamos, como também referentes ao produtor de conteúdo.

A presença desse segundo grupo social na imagem do autor está relacionada ao gênero videoaula, especificamente videoaulas youtubianas, e à situação de produção e circulação desses enunciados, que leva à confluência de objetivos discursivos distintos: de um lado, a intenção de didaticidade (Moirand, 1993, 2002), que vincula o enunciado à esfera educacional; de outro, a busca pelo engajamento e pela retenção do interlocutor como fator de sucesso comercial e financeiro de um vídeo.

Essas duas facetas são componentes igualmente inalienáveis de sua imagem de autor e se traduzem em uma relação socio-hierárquica distinta entre autor-professor e interlocutor-aluno. Em consequência, a maneira pela qual ele associa à sua imagem de autor imagens referentes ao professor é afetada pela necessidade de conquistar o interesse e a atenção de seus alunos. Para isso, ele inscreve em seu enunciado imagens de professor caracterizadas pela autoridade e pela credibilidade, bem como pela descontração, informalidade e intimidade.

Se retomarmos a seção de comentários desse enunciado, encontramos uma reação responsiva, em grande parte positiva, por parte dos interlocutores, o que valida as escolhas do autor para a composição de sua própria imagem e, por sua vez, influencia seus próximos enunciados. Ratifica-se, assim, a posição do interlocutor como coconstrutor ativo da imagem do autor – aspecto que é especialmente relevante, a nosso ver, em enunciados educacionais, uma vez que a relação professor-aluno constitui o seu cerne.

A partir de nossa análise, concluímos que o estudo das imagens que, de algum modo, refratam o professor como grupo social, presentes em enunciados educacionais dos mais diversos tipos, permite investigar as avaliações sociais (Volóchinov, 2019b [1926]) vinculadas a tal figura em um determinado recorte histórico-social-ideológico e, com isso, as expectativas a ela associadas por parte dos interlocutores que assumem a posição de aluno.

 

Referências

 

AMOSSY, R. Da noção retórica de ethos à análise do discurso. In: AMOSSY, Ruth (org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005. p. 9-28.

 

AMOSSY, R. L’éthos et ses doubles contemporains : perspectives disciplinaires. Langage Et Société, Paris, v. 149, n. 3, p. 13-30, jul. 2014. Disponível em: https://shs.cairn.info/revue-langage-et-societe-2014-3-page-13?lang=fr. Acesso em: 8 jan. 2025.

 

BAKHTIN, M. M. Toward a philosophy of the act. Tradução: V. Liapunóv. Austin: University of Texas Press, 1993 [1918-1924].

 

BAKHTIN, M. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. In: BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética (A teoria do romance). 6. ed. São Paulo: Hucitec, 2010a [1924]. p. 13-70.

 

BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução: Yara Frateschi Vieira. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 2010b [1965].

 

BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas: Paulo Bezerra; notas da edição russa: Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2016 [1952-1953]. p. 11-69.

 

BAKHTIN, M. Fragmentos dos anos 1970-1971. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas: Paulo Bezerra; notas da edição russa: Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017 [1970-1971]. p. 21-56.

 

BAKHTIN, M. O autor e o personagem na atividade estética. Tradução, posfácio e notas: Paulo Bezerra; notas da edição russa: Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2023 [192-].

 

CASTILHO, A. T. Gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2016.

 

FARACO, C. A. Autor e autoria. In: BRAIT, B. (org.). Bakhtin: conceitos-chave. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2005. p. 37-60.

 

GRILLO, S.; AMÉRICO, E. Glossário. In: BAKHTIN, M. A obra de François Rabelais e a cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Tradução: Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, [2025?]. No prelo.

 

MOIRAND, S. Autour de la notion de didacticité. Les Carnets du Cediscor, [s. l.], n. 1, p. 9-20, jan. 1993. DOI: http://dx.doi.org/10.4000/cediscor.600.

 

MOIRAND, S. Didacticité. In: CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, D. (org.). Dictionnaire d'Analyse du Discours. Paris: Éditions Du Seuil, 2002. p. 181-184.

 

MUSSIO, S. C. A constituição do ethos discursivo em videoaulas na internet: a figura do professor-apresentador, Fórum Linguístico, Florianópolis, v. 14, n. 1, p. 1849-1865, mar. 2017. DOI: http://dx.doi.org/10.5007/1984-8412.2017v14n1p1849.

 

PAULA, L. de; LUCIANO, J. A. R. A filosofia da linguagem bakhtiniana e sua tridimensionalidade verbivocovisual. Estudos Linguísticos, São Paulo, v. 49, n. 2, p. 706-722, 26 jun. 2020. DOI: http://dx.doi.org/10.21165/el.v49i2.2691.

 

PERÍODO COMPOSTO por Coordenação (Orações coordenadas) Paródia "Morro do Dendê" [Prof Noslen]. [S. l.], 2016. 1 vídeo (12 min 26 s). Publicado pelo canal:  Professor Noslen. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UbrR7An5ZfY. Acesso em: 1 out. 2024.

 

PROFESSOR NOSLEN. O maior canal de língua portuguesa do mundo. YouTube, [s. l.], 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/@ProfessorNoslen. Acesso em: 1 out. 2024.

 

SILVA, B. A. A. Entre a diversão e o aprendizado: entrecruzamentos dos movimentos da didatização e do humor em enunciados do gênero videoaula. 2023. 575 f. Dissertação (Mestrado em Filologia e Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023.

 

VOLÓCHINOV, V. Estilística do discurso literário II: a construção do enunciado. In: VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas. Organização, tradução, ensaio introdutório e notas: Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: 34, 2019a [1930]. p. 266-305.

 

VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica. In: VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas. Organização, tradução, ensaio introdutório e notas: Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: 34, 2019b [1926]. p. 109-146.

 

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário: Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2021 [1929].

 

 

Submetido: 18.02.2025.

Aprovado: 31.07.2025.



[1] Este trabalho é fruto de tese de Doutorado em andamento, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – Processo nº 2024/01819-8.

[2] Universidade de São Paulo, São Paulo, beatriz.amorim.silva@usp.br.

[3] Universidade de São Paulo, São Paulo, sheilagrillo@usp.br.

[4] A didaticidade, tal como definida por Moirand (1993, 2002), pode ser resumida como a presença, em um discurso, de uma intenção de mudar o estado de conhecimentos do outro. Com esse conceito, a autora investiga discursos que apresentam intenção de didaticidade, mas que não possuem tal objetivo como vocação social fundamental, ou que não se enquadram em instituições sociais de formação e ensino – como é o caso das videoaulas, conforme Silva (2023).

[5] Volóchinov (2019a [1930], p. 281) afirma que a “[...] forma exterior corporal do comportamento social do homem”, incluindo expressões gestuais, tom de voz etc., bem como a entonação expressiva, também são determinadas pela orientação social do enunciado e expressam a avaliação social do autor do enunciado. Assim, sua análise, neste artigo, é relevante para identificar aspectos da imagem de autor na relação com o interlocutor.

[6] Embora a imagem bakhtiniana apresente diversos pontos de encontro com a noção de ethos de Amossy (2005 [1999], 2014), ambos os conceitos se distanciam em alguns aspectos relevantes para esta pesquisa. Em primeiro lugar, enquanto o ethos de Amossy está direcionado à imagem construída de um alocutário em uma enunciação, a imagem em Bakhtin pode referir-se a qualquer fragmento da realidade material, o que possibilita o emprego da noção tanto para o estudo da relação dialógica autor-interlocutor quanto para questões de conteúdo temático. Em segundo lugar, e como consequência do ponto anterior, a teoria de Bakhtin e do Círculo enfatiza o lado ideológico da imagem, estabelecendo-a como refração da realidade a partir de um ponto de vista avaliativo, ao passo que Amossy, apesar de reconhecer que o ethos parte de representações preexistentes, não confere destaque a esse aspecto específico.

[7] Considerando o caráter dialógico do discurso segundo Volóchinov (2019a [1930]), que postula que o discurso sempre se orienta para um outro e busca sua compreensão e resposta, a orientação social do enunciado refere-se à “[...] dependência do enunciado em relação ao peso sócio-hierárquico do auditório” (Volóchinov, 2019a [1930], p. 280), isto é, à consideração das relações socio-hierárquicas existentes entre autor e auditório na construção do enunciado.

[8] Embora o foco de Bakhtin (2023 [192-]) esteja no âmbito artístico-literário, é possível encontrar indícios de que a concepção de imagem externa compreende também as vivências cotidianas e os enunciados que as caracterizam.

[9] Em todos os casos, os nomes de usuário e as fotografias vinculados a cada comentário foram ocultados para evitar exposição. Ademais, as transcrições dos comentários dos usuários ao longo deste artigo foram mantidas integralmente, sem revisão ortográfica ou gramatical, de modo a preservar a forma original de escrita dos autores.

[10] O enunciado da videoaula é formulado por diversos autores, seja na elaboração do roteiro, seja na participação na videoaula em conjunto com o professor, seja na execução dos aspectos técnicos. No entanto, analisando tais questões pelo enfoque da imagem de autor, é característico do gênero videoaula (Silva, 2023) a presença de pelo menos um participante da interação a quem se atribui uma imagem de professor, isto é, uma determinada percepção relativa à profissão docente e ao grupo social e cultural que a exerce, recortada e apresentada conforme as avaliações sociais do(s) autor(es) do enunciado. No corpus analisado, esse participante é a pessoa em cena, a quem nos referimos como “autor” e a quem é atribuída a imagem de autor, bem como as imagens referentes à profissão de professor.

[11] Segundo Bakhtin (2010a [1924], 2016 [1952-1953]), a construção composicional refere-se à forma do conjunto do enunciado, a qual orienta o autor na escolha das articulações composicionais que o constituirão, bem como das relações que elas terão entre si.

[12] Em Silva (2023), cunhamos o termo “atividade discursiva” para nos referirmos a conjuntos de traços formais que representam a intenção do autor de interferir em seu interlocutor, realizando sobre ele uma ação ou efeito. Como exemplos, citamos a explicação, a demonstração, a denominação/designação, a descrição, a definição e a reformulação.