A influência dos avós cuidadores na trajetória escolar de jovens universitários oriundos de camadas populares

 

Andresa Pâmela de Souza[1]

https://orcid.org/0000-0001-8140-2412

 

Tatiane Kelly Pinto de Carvalho[2]

https://orcid.org/0000-0003-0933-6734

 

Rosa Maria da Exaltação Coutrim[3]

https://orcid.org/0000-0002-9510-1263

 

 

Resumo

O objetivo da pesquisa foi investigar a influência das práticas educativas dos avós cuidadores no processo de escolarização de jovens universitários de camadas populares. Com base em uma abordagem metodológica qualitativa, foi realizado um levantamento bibliográfico sobre a temática, bem como se recorreu a entrevistas semiestruturadas com sete jovens universitários dos cursos de Jornalismo e Pedagogia da Universidade Federal de Ouro Preto, que tinham seus avós como principais cuidadores. Os resultados da investigação mostram a importância dos avós na vida dos netos para que pudessem alcançar a longevidade escolar, também revelam que, para além do suporte financeiro, o apoio emocional ao longo do percurso escolar foi fundamental para que os estudantes chegassem à universidade.

 

Palavras-chave: Longevidade Escolar. Avós Cuidadores. Práticas Educativas. Ensino Superior. Trajetórias Escolares.

 

 

The influence of caregiver grandparents on the academic trajectory of young university students from Low-Income Backgrounds

 

Abstract

The aim of this research was to investigate the influence of the educational practices by grandparents on the schooling process of young university students from working-class backgrounds. Based on a qualitative methodological approach, a bibliographical survey on the subject was conducted, as well as semi-structured interviews with seven young university students from the Journalism and Pedagogy courses at the Federal University of Ouro Preto, who had their grandparents as their caregivers. The results of the research show the importance of grandparents in the lives of their grandchildren so that they could achieve academic longevity, and also reveal that in addition to financial support, emotional support throughout the school career was essential for students to reach university.

 

Keywords: Educational longevity. Caregiving grandparents. Educational Practices. Higher Education. School Trajectories.

 

 


 

Considerações iniciais

 

As famílias brasileiras apresentam diversas configurações, dentre elas estão aquelas que possuem avós em sua composição, sejam idosos[4] ou não. As pessoas com mais de 60 anos têm participado ativamente em diversos setores da sociedade, e muitas delas têm assumido tarefas do cotidiano familiar, auxiliando no cuidado das crianças e adolescentes. Alguns desempenham a tarefa de cuidar dos netos quando o pai e/ou a mãe não habitam o domicílio, ou se ausentam durante parte do dia[5].

Embora as relações intergeracionais não configurem um tema de pesquisa largamente estudado no Brasil, consideramos que já existe um corpus teórico bastante razoável produzido em diferentes áreas das ciências humanas que direcionam os olhares para a figura dos avós (Carvalho, 2023; Dias, 2022; Ramos, 2011; Dias; Silva, 2003). Nas pesquisas, eles são analisados como transmissores de cultura e tradições, garantia de suporte financeiro, cuidados com a saúde, fonte de afeto e segurança para as crianças, dentre outros. Contudo, ainda são poucas as pesquisas que discutem a influência exercida por esses agentes no processo de escolarização dos netos, principalmente daqueles que alcançam o sucesso escolar e chegam ao ensino superior (Dias; Silva, 2003; Carvalho, 2023).

Diversos autores da Sociologia da Educação, como Portes (2006), Piotto (2008), Nogueira (2004, 2013) e Bento e Nogueira (2024) têm se dedicado a compreender os fatores que influenciam a longevidade escolar dos estudantes de camadas populares. Tais pesquisas buscam analisar, sob a perspectiva microsociológica, quais práticas educativas exercidas por essas famílias auxiliam no processo de escolarização das gerações mais novas.  Cabe pontuar que, no caso das famílias de baixa renda que têm os avós como principais cuidadores, os desafios no processo de escolarização são ainda maiores, uma vez que entre essa parcela da população é comum encontrarmos pessoas com mais de 50 anos com baixa escolaridade ou mesmo analfabetas.

A partir das discussões sobre o tema e intencionando contribuir com os estudos na área da educação sobre longevidade escolar, família e relações intergeracionais, a pesquisa teve como principal objetivo analisar a influência das práticas educativas dos avós cuidadores na vida dos netos de camadas populares que chegaram à universidade. Para isso, foram entrevistados sete estudantes, matriculados e frequentes, na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que foram cuidados e/ou criados por seus avós.

Para a discussão do tema e melhor exposição da análise dos resultados, este artigo apresenta, primeiramente, uma breve discussão sobre o processo de escolarização nas camadas populares; em seguida, o percurso metodológico utilizado na pesquisa; em terceiro são apresentados os resultados e as análises do estudo; e finalmente são trazidas as considerações finais.

 

O processo de escolarização nas camadas populares: breve contextualização

 

As investigações sobre a relação família e escola ganharam maior visibilidade no Brasil a partir da década de 1970, com estudos que passaram a se debruçar sobre o entendimento das práticas educativas familiares nos meios populares. Por estudantes de camadas populares[6], entendemos aqueles indivíduos oriundos de famílias com limitados níveis de escolarização e renda, vinculados a ocupações que exigem baixos níveis de qualificação, ou seja, que se distanciam da herança dos capitais.

Segundo Bourdieu (2010), o capital social refere-se à rede durável de relações e à vinculação a um grupo, o que pode mobilizar o volume de capital econômico, cultural ou simbólico. O capital econômico está atrelado ao poder aquisitivo do indivíduo que, por sua vez, favorece a aquisição de outros capitais. Cabe, ainda, considerar que outras formas de capital, como o social e cultural, são fortalecidos pelo capital econômico.

Por fim, o capital cultural corresponde aos bens culturais, aos certificados escolares e às formas de disposições duráveis no indivíduo, orientando a maneira de ver o mundo (habitus). Bourdieu (2010) também explicita que o capital cultural pode ser encontrado sob três formas: incorporado, objetivado e institucionalizado. O incorporado refere-se à apropriação e acumulação de elementos úteis (gostos, domínio da língua culta e cultura escolar) que se tornam parte duradoura da singularidade do indivíduo. O capital cultural objetivado está atrelado à posse de bens culturais (obras de arte, livros, acesso a museus, cinema, entre outros) e intrinsicamente ligado ao capital econômico, uma vez que propicia a aquisição material ou simbólica desses bens culturais. Já o capital institucionalizado é aquele reconhecido oficialmente por instituições, através de diplomas escolares, títulos ou certificados.

É importante ressaltar, com base em Catani et al. (2017), que as condições extraescolares influenciam fortemente a escolarização dos alunos de meios populares, que chegam à escola em condições desiguais de capital econômico, social e cultural, contribuindo para legitimar os desempenhos escolares insatisfatórios ou com poucas chances de sucesso escolar. Desse modo, para alguns grupos ou indivíduos, a probabilidade de alcançar a longevidade escolar é reduzida, necessitando de forte investimento familiar e dos professores para que possam prosseguir nos estudos (Bourdieu, 2010).

Dados do relatório A educação no Brasil: uma Perspectiva Internacional, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelaram que a população mais vulnerável tem menos acesso à educação de qualidade, bem como está mais propensa ao abandono escolar. Ainda segundo o documento, “os alunos de origem mais pobre não têm as mesmas oportunidades que seus colegas em melhor situação e tendem a frequentar escolas de qualidade inferior” (OCDE, 2021, p. 22). Ao lado dessa constatação ainda existe a disparidade educacional entre jovens dos meios urbanos e rurais, uma vez que tanto a evasão quanto o atraso escolar são mais presentes na zona rural do que na zona urbana (Rosa, 2020).

Contudo, ao analisar a trajetória escolar dos estudantes dos meios populares e os empecilhos vivenciados por eles, é fundamental considerar também as dinâmicas internas familiares no que diz respeito às práticas educativas e aos esforços empreendidos para que a prole alcance a longevidade escolar. Somente a partir da análise mais ampla da realidade em estudo é possível compreender como a pluralidade dos contextos vivenciados por esses indivíduos impacta o processo de escolarização (Lahire, 2002, 2004). Assim, a partir da análise das trajetórias sociais e pessoais, dos grupos de pertencimento, do sentido atribuído à escolarização e suas chances de ascensão social, é possível a compreensão das estratégias, táticas e mobilizações escolares empreendidas pelos estudantes e seus familiares (Carvalho, 2023).

Os estudos de Lahire (1997) constataram que indicadores sociológicos, como origem social, meio social e grupo social, em muitos casos considerados causas de explicação de sucesso e de fracasso escolares, são elementos que influenciam as trajetórias escolares, mas não as determinam. Portanto, somente a análise conjunta das múltiplas experiências de socialização dos indivíduos, da mobilização escolar familiar, do habitus e dos capitais permite entender o processo de escolarização nas famílias de camadas populares, inclusive revelando táticas e estratégias que contribuem para o bom desempenho escolar dos filhos (Carvalho, 2023).

As discussões a respeito das configurações familiares atuais evidenciam que diversos indivíduos atuam no processo de escolarização das crianças e jovens de camadas populares familiares, em especial os avós cuidadores. Embora no Brasil ainda haja pouco reconhecimento dos avós como sujeitos que agregam valor à família, diferentes estudos têm revelado que a colaboração deles tem sido fundamental nos núcleos familiares em que são cuidadores das crianças (Bragato et al.,2023; Dias, 2022; Rabinovich; Bastos, 2019).

Acrescentamos, ainda, que mesmo com baixa escolaridade e desconhecimento da cultura escolar, muitos avós influenciam a escolarização longeva dos netos, criando condições para que cheguem à universidade (Dias et. al., 2010; Cardoso, 2011, Carvalho, 2023; Carvalho et. al., 2024). A construção de estratégias educativas familiares é orquestrada de modo a minimizar as chances de fracasso no processo de escolarização.

Para Certeau (2012), a estratégia é o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um indivíduo traça um caminho a ser percorrido. No entanto, pondera-se que as famílias nem sempre apresentam estratégias bem definidas em relação à escolarização de seus filhos; ao contrário, aproveitam-se de situações que podem favorecer a longevidade escolar.

 

Percurso metodológico

 

Nesta investigação, recorremos à abordagem qualitativa que, segundo Minayo (2009), é um tipo de pesquisa que não pode ser quantificada, trabalhando com o universo de significados, aspirações, crenças, valores e atitudes dos seres humanos. Para melhor organização da pesquisa, a construção metodológica foi dividida em quatro fases.

A primeira, de caráter exploratório, consistiu em análise documental e levantamento bibliográfico de teses, dissertações, capítulos de livros e artigos publicados entre 2012 e 2023 na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da CAPES (BDTD), Scielo Brasil e Portal de Periódicos da CAPES. O Google Acadêmico também foi utilizado como recurso adicional, para encontrar textos não divulgados nas outras plataformas selecionadas. As buscas foram centralizadas na área da educação, e adotamos como descritores: “relação avós e netos”, “avós cuidadores”, “jovens criados pelos avós”, “jovens de camadas populares no ensino superior”, “jovens criados por avós”, “avós e escolarização dos netos”, “relação avós e escola”, “práticas educativas dos avós”.

Com base no levantamento feito, encontramos nove textos referentes às relações entre avós e netos e o processo de escolarização. Em contrapartida, quanto às publicações referentes à interferência dos avós na trajetória escolar de jovens que chegaram ao Ensino Superior, as publicações são escassas, sendo encontrada apenas uma obra, o que revela a necessidade de novas pesquisas na área da educação.

Na segunda fase do estudo, foi aplicado um questionário on-line[7] a todos os estudantes regularmente matriculados no curso de Jornalismo e Pedagogia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)[8], no ano de 2023, perfazendo o total de 669 estudantes. Esse recurso metodológico teve como principal objetivo localizar o público-alvo da pesquisa, ou seja, jovens universitários de camadas populares que foram criados e/ou cuidados por seus avós em um período de no mínimo quatro horas do dia. As perguntas do questionário foram construídas em blocos a partir de três eixos: Perfil socioeconômico e familiar dos estudantes; Relação do jovem universitário com os avós; e a Relação do jovem de camada popular com a universidade.

Ao todo, obtivemos 39 estudantes que responderam ao questionário e 12 se enquadraram nos objetivos do estudo, sendo sete selecionados para a entrevista, que constituiu a terceira fase da pesquisa. Os critérios adotados para a seleção compreenderam: ser das camadas populares (autodeclaração de renda familiar de até três salários-mínimos); e ter sido cuidado e/ou criado pelos avós por mais de quatro horas do dia durante a infância e/ou adolescência.

Quanto ao perfil dos entrevistados, quatro eram do curso de Pedagogia e três do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Todos os participantes pertenciam às camadas populares. A maioria era constituída por mulheres, com apenas um homem na amostra, e as idades variaram entre 20 e 27 anos. Em relação à autodeclaração racial, quatro estudantes identificaram-se brancas, duas como pretas e uma como parda. Quanto à renda familiar, seis participantes relataram viver com até um salário-mínimo e uma com renda entre dois e três salários-mínimos. Todos mantinham vínculos afetivos significativos com os avós, e a maioria foi criada ou cuidada diretamente por eles, sobretudo por avós maternos.

As entrevistas semiestruturadas aconteceram com auxílio de um gravador de voz, em dia e horário previamente acordado entre os depoentes. Foram realizadas entre os meses de julho e dezembro de 2023, em formato presencial e virtual, com duração média de aproximadamente quarenta e cinco minutos. As perguntas tiveram um roteiro e seguiram quatro eixos: Práticas educativas familiares e processo de escolarização; Relações entre os avós e netos na infância e na adolescência.; Influência dos avós no percurso escolar até a chegada ao ensino superior; e Mudanças na convivência com os avós ao longo da vida.

Apesar dos cuidados na diversificação das fontes (questionários e entrevistas) e na análise dos resultados, reconhecemos que as pesquisas sobre relação família-escola, cujos depoimentos ocupam lugar central, trazem consigo o risco do etnocentrismo. Segundo Carvalho e Cunha (2025), o uso de diversos recursos metodológicos, como a entrevista de outros membros da família e a observação sistemática do cotidiano familiar, possibilita maior compreensão da realidade. No entanto, impeditivos concretos, como o tempo para a realização da pesquisa e a distância que separava a entrevistadora e os avós citados pelos estudantes[9] impossibilitaram a maior diversificação metodológica.

Na quarta e última etapa da pesquisa, realizamos a triangulação das fontes e a análise dos dados por meio de análise de conteúdo (Bardin, 1977), segundo quatro categorias: Categoria 01 - Relação entre avós e netos na infância e adolescência; Categoria 02 - Práticas educativas dos avós cuidadores dos estudantes; Categoria 03 - Diferenças nas práticas educativas dos avós cuidadores dos estudantes de Jornalismo e Pedagogia; e Categoria 04 - Desafios no percurso acadêmico do jovem universitário criado e/ou cuidado pelos avós.

Para as análises, recorremos aos estudos sobre longevidade escolar e relação avós e netos trazidos pela pesquisa bibliográfica em triangulação com as fontes empíricas, ou seja, questionário on-line e entrevistas com os estudantes. Os resultados apresentados neste artigo foram produzidos a partir dos relatos dos sete universitários selecionados para a entrevista, com foco nas categorias 01 e 02.

 

Resultados

 

Quem são os estudantes participantes da pesquisa

 

Do público-alvo selecionado a partir da aplicação do questionário on-line aos alunos do curso de Pedagogia e de Jornalismo da UFOP, do 1º ao 8º período, chegamos a 12 estudantes que se enquadravam nos critérios definidos na pesquisa, e desses, como já mencionado, sete foram selecionados para serem entrevistados. Quatro eram estudantes do curso de Pedagogia e três do Jornalismo, sendo seis do sexo feminino e um do sexo masculino, conforme sexo biológico por eles declarado.

No curso de Pedagogia, nossa primeira entrevistada foi Ana[10], estudante do 4º período, autodeclarada branca, com renda familiar entre dois e três salários-mínimos e que ingressou na UFOP via políticas de ações afirmativas. A segunda universitária, Marina, do 5º período, autodeclarada parda, com renda familiar de até um salário-mínimo e ingressante na universidade por ampla concorrência. Já Maria, autodeclarada branca, com renda familiar de até um salário-mínimo, é recém-formada (na época que respondeu o questionário on-line estava no 8º período). Seu acesso à universidade aconteceu por meio das políticas de ações afirmativas. A última depoente do curso de Pedagogia, Kayssa, autodeclarada preta, com renda familiar de até um salário-mínimo, estava cursando o 8º período. Seu ingresso na universidade se deu por ampla concorrência, assim como Marina. Salientamos que todas as universitárias do curso de Pedagogia participantes da entrevista cursaram a Educação Básica integralmente em escola pública.

No curso de Jornalismo, Catarina, estudante do 6º período, autodeclarada negra e com renda familiar de até um salário-mínimo, entrou na UFOP através das políticas de ações afirmativas. Mazzaropi, autodeclarado preto, é universitário do 4º período, com renda familiar de até um salário-mínimo. Foi o único dos sete entrevistados que teve uma rápida passagem por instituição privada ao longo de sua escolarização, tendo cursado os dois primeiros anos da Educação Básica em escola particular, e os demais em escola pública. Nossa última entrevistada, Clarice, estava cursando o 7º período de Jornalismo, autodeclarada branca, com renda familiar de até um salário-mínimo, que ingressou na universidade através das políticas afirmativas.

No quadro abaixo (Quadro 01), elencamos os estudantes entrevistados e algumas características familiares:

 

Quadro 01 - Jovens universitários dos cursos de Pedagogia e Jornalismo da UFOP criados e/ou cuidados pelos avós na infância e adolescência

 

ESTUDANTE

CURSO

TEMPO COM OS AVÓS

SITUAÇÃO DE CONVIVÊNCIA COM OS AVÓS

Ana - 20 anos

Pedagogia

10 h

Filha de pais separados, ficava sob os cuidados do avô materno (avó falecida) para a mãe trabalhar.

Marina - 22 anos

Pedagogia

24 h

Cresceu em uma família extensiva, vivia sob cuidado da mãe e da avó (avô falecido).

Maria - 27 anos

Pedagogia

24 h

Filha de pais separados, ficava sob cuidado dos avós (falecidos) para a mãe trabalhar.

Kayssa - 25 anos

Pedagogia

24 h

Filha de pais separados, residia com a mãe e avó (avô falecido), ficava sob cuidado da avó para a mãe trabalhar.

Catarina - 21 anos

Jornalismo

24 h

Filha de pais separados, ainda reside com os avós, ficava sob seus cuidados, pois a mãe não teve condições financeiras para cria-la.

Mazzaropi - 20 anos

Jornalismo

24 h

Filho de pais separados, residiu com os avós (falecidos) desde os seis meses de vida, devido ao recasamento da mãe e suas condições financeiras precárias.

Clarice - 22 anos

Jornalismo

12 h

Residia com os avós durante o dia para os pais trabalharem.

Fonte: Elaborado pelos autores.

 

É importante destacar, a partir dos relatos dos sete entrevistados, que todos os avós cuidadores tinham baixa escolaridade. As avós e os avôs cuidadores de Ana, Catarina, Marina e Kayssa tinham Ensino Fundamental incompleto; a avó de Mazzaropi tinha Ensino Médio incompleto, e seu avô, Ensino Fundamental completo; a avó de Clarice não chegou a concluir o Ensino Médio, e seu avô era analfabeto. No caso de Maria, ambos os avós eram semianalfabetos. A baixa escolaridade dos avós de camadas populares também foi observada na pesquisa de Bragato et al. (2023).

Entretanto, recorrendo a táticas, estratégias escolares e mobilizações familiares, como pode ser observado na seção seguinte, os avós conseguiram garantir que os netos não perdessem o interesse pelos estudos e continuassem em busca da longevidade escolar, definida por Viana (2006) como a permanência na escola básica até a entrada no Ensino Superior.

 

Práticas educativas dos avós cuidadores que contribuíram para a longevidade escolar dos netos de camadas populares

 

O envelhecimento populacional possibilitou maior tempo de contato entre as gerações e, consequentemente, a participação dos avós[11] na vida dos netos por mais anos do que nas gerações anteriores. Alguns deles auxiliam os filhos esporadicamente no cuidado dos netos, outros se encarregam de tarefas cotidianas, como levar e buscar na escola, garantir a alimentação e os cuidados durante o tempo livre, e há também os avós que colaboraram financeiramente para o sustento familiar.

Porém, na atualidade, ainda existem aqueles avós que são os principais ou os únicos cuidadores e, portanto, participam ativamente da educação formal e informal dos netos. Assim, eles atuam em papéis geralmente atribuídos aos pais e, por diversos motivos, assumem tarefas que vão para além do cuidado com alimentação, vestuário, saúde, entre outros. Embora a convivência entre avós e netos seja objeto de estudos desde a década de 1990, a atuação desses agentes no processo de escolarização dos netos ainda é pouco estudada (Coelho; Dias, 2016).

De acordo com Szymanski (2004), as práticas educativas são ações que podem influenciar o desenvolvimento das crianças e adolescentes, colaborando para a inserção do indivíduo nas instituições sociais, entre elas, a escola. As pesquisas de Lahire (1997, 2022), Piotto (2008), Nogueira (2004, 2013), Carvalho (2023), entre outros estudiosos do campo da Sociologia da Educação, revelam que o acesso de jovens de camadas populares ao Ensino Superior está atrelado, em grande medida, ao esforço da família nesse processo, bem como às práticas educativas adotadas que contribuem para a longevidade escolar. Nesse aspecto, é necessário pontuar que algumas famílias, mesmo com baixo capital escolar e financeiro, conforme levantado nesta investigação (avós com baixa escolaridade e pertencentes aos meios populares), favorecem a escolarização da prole recorrendo a distintas estratégias e táticas:

 

[...] por meio da criação de um mundo ordenado, no qual impera o respeito pela Autoridade (inclusive dos professores), a definição clara de obrigações (incluindo a realização dos deveres escolares), o estabelecimento de horários para a realização de atividades (entre as quais, os estudos), o controle sobre as relações de amizade, entre outros (Nogueira, 2013, p. 9).

 

Além da ordem moral doméstica, algumas famílias propiciam às crianças e jovens o desenvolvimento da autonomia e da autodisciplina. Carvalho (2023) ainda ressalta que há famílias dos meios populares que supervalorizam a escolaridade dos filhos e fazem um investimento pedagógico visando à longevidade escolar. Dentre as formas de investimento, Lahire (1997) destaca a participação familiar constante na escola, a colaboração na execução dos deveres de casa, o incentivo para a participação em atividades extracurriculares, cobrança do desempenho escolar, práticas de leitura, entre outros elementos incentivadores.

Ana, estudante do curso de Pedagogia, declarou que seu avô materno sempre incentivava na leitura, comprava livros para ela ler e colorir, e foi um grande suporte para que ingressasse no Ensino Superior. A respeito disso, Bourdieu (2010) pontua a importância da aquisição do capital cultural incorporado como um dos elementos de sucesso escolar: as informações sobre o mundo escolar inculcadas pelo avô de Ana e sua assimilação dos códigos escolares, por meio de certos recursos que teve acesso, certamente foram essenciais em sua trajetória escolar.

Foi o avô, por diversas vezes, o apoio emocional e a base para que a universitária buscasse novos horizontes. Ele faleceu antes que Ana ingressasse no Ensino Superior, mas a escolha do curso e a profissão de futura pedagoga, ela atribui ao seu cuidador. A graduanda afirmou que seu sonho é concluir os estudos e trabalhar com idosos na Educação de Jovens e Adultos – EJA, como forma de homenagear o avô, que era analfabeto. Nas palavras da estudante:

 

[...] tenho vontade de trabalhar com a EJA. Porque ele não chegou a estudar, né? E aí eu tenho vontade de trabalhar com a EJA ou trabalhar em uma área de idoso, sabe? A minha vontade é de trabalhar com a área de idoso. E não é tanta criança, mas com a área de idoso. Eu posso trabalhar com a pedagogia hospitalar e tal, mas eu tenho vontade mesmo de trabalhar com o idoso, de certa forma. E a pedagogia tem uma área muito ampla, que dá para trabalhar com o idoso. Então, assim, a escolha do curso me impactou muito na relação que eu tive com o meu vô (Ana, estudante do curso de pedagogia).

 

O relato da universitária vai além das práticas educativas do avô cuidador que contribuíram para a sua longevidade escolar; o sentimento de gratidão impactou, inclusive, na sua escolha profissional. Esse protagonismo do avô também foi observado no estudo de Viturino e Dias (2022, p. 165): “os avôs ainda cumprem um importante papel no suporte emocional, aconselhando, orientando e sendo provedores de afeto e segurança”.

Marina, também estudante do curso de Pedagogia, conta que a família, de modo geral, sempre lhe incentivou nos estudos. Sua referência no processo de longevidade escolar é a tia pedagoga e seus irmãos mais velhos que chegaram à universidade. Contudo, pontua que sua avó materna foi a pessoa que mais buscou orientá-la nos caminhos a seguir e colaborou financeiramente para isso. Diante da escassez material familiar, a avó fazia os lanches e costurava os uniformes para que a neta pudesse ir à escola, comprava livros e contava histórias. Contudo, mesmo que timidamente, a avó, ao comprar o material de estudo para a neta, contribuiu para o seu processo de aquisição de capital cultural, impactando positivamente seu desempenho escolar.

Além disso, a estudante destacou o apoio financeiro dos avós que, embora representasse apenas cerca de 4 % do salário-mínimo vigente à época (2023), teve um papel importante em sua rotina universitária, tanto no aspecto material quanto simbólico. Também é importante lembrar da relevância de outros agentes nesse processo escolar longevo: alguns avós criam uma rede de apoio doméstico para auxiliar no acompanhamento escolar (Carvalho et. al., 2021), e no caso de Marina, a tia teve colaboração fundamental em sua trajetória escolar.

Maria, estudante egressa do curso de Pedagogia, atribuiu o sucesso escolar ao apoio que os avós maternos proporcionaram a ela durante a sua infância e adolescência. Eles faleceram antes de seu ingresso na graduação, mas a entrevistada trouxe relatos carregados de emoções e saudades dos avós durante a entrevista.  Segundo a neta, eles davam dinheiro para o lanche na escola e cuidavam dela e dos irmãos para que a mãe pudesse trabalhar. Maria declarou, ainda, que sem os avós não teria chegado aonde chegou, pois era com a aposentadoria deles que sua família conseguia garantir o sustento e comprar o básico para a subsistência.

O caso da família de Maria não é isolado. Pesquisas como as de Camarano e Pasinato (2002), Camarano (2004) e Camarano (2020), com base no Censo e da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD), revelam que vem crescendo o número de aposentados responsáveis pelo sustento dos domicílios com filhos e netos. As mulheres idosas, por exemplo, contribuem com a manutenção de suas famílias, garantindo moradia conjunta em seus próprios lares. Como pontuado pela estudante investigada, a aposentadoria dos avós foi fundamental para sua subsistência e para seus estudos, contribuindo para seu ingresso no Ensino Superior público.

A estudante do curso de Pedagogia, Kayssa, relatou que sua avó materna sempre foi influente em sua vida escolar: era presente nas reuniões escolares, comprava os materiais para estudo, além de ter, juntamente com sua mãe, custeado o cursinho preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio – Enem. Era a avó quem garantia o pagamento das despesas da casa para que a graduanda tivesse o básico. Por isso, a universitária atribuiu seu sucesso escolar primeiramente à avó que, mesmo com dificuldades financeiras, esforçava-se para que nada lhe faltasse.

As pesquisas de Bragato et al. (2023), Dias (2022) e Rabinovich e Bastos (2019) revelam que os avós cuidadores, em muitas famílias, ocupam papel central no suporte financeiro. Além dos esforços para que Kayssa pudesse alcançar a longevidade escolar, o apoio emocional também foi essencial. Segundo a estudante, a avó sempre lhe fez acreditar que é possível alcançar os objetivos.

Também merece ser pontuado que os bons resultados educacionais de Kayssa têm ligação com a aquisição do capital cultural que sua avó materna pôde proporcionar a ela através da compra de materiais escolares e paradidáticos, pagamento do curso preparatório para o Enem e contribuição nas despesas domésticas para que a neta pudesse lograr êxito na escolarização sem precisar trabalhar. Nesse aspecto, a contribuição do capital econômico foi essencial para a aquisição do capital cultural da estudante.

Catarina, graduanda do curso de Jornalismo, diferentemente dos outros entrevistados, declarou que seus avós não lhe incentivavam nos estudos e não auxiliavam na realização das tarefas escolares. No entanto, ao longo da entrevista foi possível constatar que eles contribuíram para sua escolarização, ao proporcionar o acesso a bens materiais, moradia, educação e alimentação.

Mesmo que não tenham desenvolvido práticas educativas já reconhecidas, como incentivo à leitura, comparecimento às reuniões escolares, aquisição de materiais e recursos didáticos, preparação de lanches, entre outras reveladas pelos entrevistados, os avós de Catarina contribuíram com seus estudos. Conforme Moreira e Oliveira (2022) lembram, a educação escolar envolve um cenário múltiplo voltado para a educação não formal que tem contribuição para o desenvolvimento de crianças e adolescentes no contexto escolar, auxiliando os indivíduos nos seus percursos escolares.

Diferentemente de Catarina e mais próxima dos demais entrevistados, Clarice, estudante do curso de Jornalismo, também atribui o seu sucesso escolar aos avós maternos. A universitária pontuou que eles sempre cuidaram dela durante a infância e adolescência para que seus pais pudessem trabalhar. Além disso, os avós contribuem financeiramente até hoje para a permanência da neta na UFOP, pagando suas refeições no Restaurante Universitário.

A estudante ainda relatou que seus avós incentivavam buscar o Ensino Superior e sempre faziam questão que ela tivesse acesso a bens culturais, tais como peças teatrais, cinemas e visitas a museus, o que despertou em Clarice o amor pelo Jornalismo. Mesmo com poucos recursos, os avós sempre compravam livros para a neta, e juntos, faziam os deveres escolares e atividades de colorir. Nesse aspecto, mesmo com o capital econômico escasso dos avós, Clarice teve acesso a bens e objetos culturais que favoreceram seu desempenho escolar e reforçaram a aquisição do capital cultural objetivado.

O último entrevistado, Mazzaropi, estudante do curso de Jornalismo, foi criado e cuidado por seus avós desde os seis meses de vida, pois além dos pais serem separados e a mãe não ter condições financeiras para cria-lo, o atual cônjuge de sua mãe nunca o aceitou. Segundo o relato do entrevistado, dentre as práticas educativas dos avós cuidadores, o avô sempre lia jornal e lhe incentivava a fazer o mesmo cotidianamente. Os avós também lhe levavam a teatros, cinemas e festivais culturais, despertando em Mazzaropi o prazer pela cultura e pelo conhecimento. Segundo o estudante, eles trabalharam muito para que nada lhe faltasse, inclusive o acesso a cursos extracurriculares que contribuíram para a sua longevidade escolar:

 

[...] durante um tempo, eu fiz um curso de informática. E foi a minha avó quem pagou ele integralmente. Foi ela quem pagou. E quando eu era criança, eles buscavam me colocar em diversos tipos de aula que me desenvolvessem. Então, quando eu era criança, eu fiz aula de teatro, eu fiz aula de... Algumas eu não sei quais que eram pagas e quais que eram gratuitas, porque eu lembro que tinha bastante que eram gratuitas porque eles buscavam. Eu fiz natação, teatro, aula de desenho e catequese (Mazzaropi, estudante do curso de jornalismo).

 

Esses relatos da convivência intergeracional, como o de Mazzaropi, revelam não somente as práticas educativas dos avós cuidadores que contribuíram para a longevidade escolar dos netos, também mostram a importância do apoio financeiro e emocional que os mais novos tiveram ao longo da escolarização. Mesmo pertencentes aos meios populares, nota-se que houve empenho, por parte dos avós, para que os estudantes pudessem se apropriar e acumular capital cultural, favorecendo o sucesso e a longevidade escolar.

Ressaltamos, também, que os resultados desta pesquisa vão ao encontro da análise de Carvalho (2023), ao concluir que os avós contribuem significativamente para a socialização e a educação escolar dos netos, interferindo, inclusive, nas suas escolhas de vida pessoal, acadêmica e profissional. As práticas educativas (ordem moral doméstica, controle do tempo destinado aos estudos e expectativas depositadas no sucesso escolar dos netos), bem como a possibilidade de garantir acesso ao capital cultural, foram estratégias utilizadas para a continuidade dos estudos dos mais novos, mesmo em um cenário desfavorável ao longo do processo de escolarização das camadas populares.

 

Relação entre avós e netos: o apoio financeiro e emocional dos avós cuidadores e o impacto na longevidade escolar dos netos

 

Conforme já mencionado, as relações estabelecidas entre avós e netos têm se tornado tema relevante de estudo. Como pontuam Schuler et al. (2019), essas gerações têm tido a oportunidade de conviver por mais tempo, o que tem gerado pesquisas dedicadas a discutir a intergeracionalidade. Além disso, considerando que as projeções apontam o crescimento acelerado da população de idosos nos próximo vinte anos (IBGE, 2023), são essenciais estudos que se debrucem sobre o papel dessa população nas famílias e no processo de socialização e escolarização dos netos.

Nessa convivência intergeracional entre avós e netos, nota-se um esforço por parte dos avós em contribuir com o processo educativo dos netos, apesar de nem sempre atuarem de forma direta nos assuntos escolares (Carvalho, 2023; Coutrim et. al., 2007). Desse modo, conforme sinalizaram Bragato et al. (2023), o idoso contemporâneo vem assumindo um papel sociofamiliar relevante, pois além de contribuir financeiramente para o sustento de suas famílias, também assume os cuidados dos netos.

Conforme mencionado anteriormente, esse protagonismo de alguns avós revela, ainda, que o apoio financeiro e emocional ofertado aos netos por eles criados e/ou cuidados é relevante para a longevidade escolar dos mais jovens. Carvalho et. al. (2024) também ponderam que, além da contribuição afetiva e emocional, os mais velhos oferecem amparo em momentos desafiadores dos netos, o que ficou evidente nesta pesquisa.

No caso da estudante Marina, além da contribuição financeira e emocional, a avó foi a pessoa que mais lhe incentivou a buscar o Ensino Superior. Segundo o relato da entrevistada, a avó aconselhava a sair da cidade pequena e ir viver esse mundão, bem como reforçava que continuaria a ajudá-la financeiramente para que pudesse prosseguir os estudos. Indagada se queria que a neta se mudasse de cidade para entrar na universidade, a avó dizia: “Eu quero, eu pago para você ir. Nem que seja, minha filha, passando aperto, nós vendendo quitandinha[12], mas você vai” (Marina, estudante do curso de pedagogia).

O apoio financeiro e emocional da avó certamente encorajou a universitária a buscar o diploma do curso superior. Conforme pontuaram Rosas e Neri (2019), nas dinâmicas familiares em que há apoio material, afetivo, conforto emocional, entre outros elementos que permeiam as relações sociais, os indivíduos se sentem acolhidos. No caso de Marina, é perceptível o quão importante foram a hospitalidade e as palavras incentivadoras de sua avó cuidadora para que ela ingressasse na universidade.

Situação semelhante de apoio dos avós ao longo da trajetória escolar foi esboçada por Mazzaropi, pois ele atribuiu todo o seu sucesso escolar e como pessoa aos avós maternos, que lhe proporcionaram experiências de vida que impactaram sua escolha pelo jornalismo. O estudante demonstrou carinho e eterna gratidão para com os avós maternos, que foram seus principais agentes educativos desde os 6 meses de vida até seus 17 anos, sendo essa relação duramente interrompida em decorrência do falecimento deles. O universitário ainda pontuou que, para além do apoio financeiro e emocional, seus avós foram essenciais para que ele pudesse lidar com as dificuldades proporcionadas pelo Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH):

 

Eles me ajudavam bastante, sabe? Tanto que, porque eu tenho TDAH. E quando eu recebi o diagnóstico de TDAH, era a época que eu ainda morava com eles. E foi a minha avó que fez todo o desdobramento de entender isso. Porque ela percebia que eu tinha muita dificuldade de prestar atenção nas coisas. Nas aulas tinham certas reclamações de professores que, às vezes, eles estavam explicando, eu estava desenhando no fundo do caderno, ou que eu não conseguia acompanhar os textos no quadro, [quando] eles apagavam, eu ainda estava muito no início. Mas que ela percebia que não era culpa minha. Tipo assim, eu realmente não estava conseguindo (Mazzaropi, estudante do curso de jornalismo).

 

O relato de Mazzaropi sobre o esforço da avó cuidadora para entender os seus desafios com o TDAH também aparecem em outras pesquisas. Na pesquisa de Bragato et al. (2023), em que foram abordados aspectos sobre o cuidado aos netos, os resultados mostram que houve predominância de avós do sexo feminino exercendo esse papel, principalmente no que tange aos aspectos relacionados à saúde das crianças e adolescentes. Os Autores ainda pontuam que “tais cuidados são realizados essencialmente por mulheres devido a vivências como a gravidez, nascimento e histórico de que as mães são predominantemente responsáveis pelo cuidado de crianças” (Bragato et al., 2023, p. 7).

Maria também ressaltou, em seu depoimento, o apoio emocional dado pelos avós, principalmente porque, segundo suas palavras, eles supriram o amor de pai que ela nunca teve e a ausência da mãe, que trabalhava o dia todo. A estudante ainda acrescentou a importância dos avós em sua formação pessoal: “Eles ajudaram muito nessa minha visão de vida, na minha visão de mundo, na minha postura como pessoa”.

O depoimento da estudante contradiz a ideia do senso comum, de que os avós são incapazes de oferecer limites e estragam os netos, mostrando, ainda, que a convivência intergeracional entre a neta e seus avós contribuiu para sua formação pessoal. O apoio afetivo e emocional recebido por Maria certamente facilitou a construção de uma base familiar sólida e profícua para a assimilação de valores, condutas e regras exigidas socialmente.

A entrevista concedida por Kayssa também revelou o papel fundamental da avó em sua formação pessoal. Segundo as palavras da universitária, “tudo o que ela é hoje, deve à avó”, confirmando resultados de outras pesquisas (Carvalho et. al, 2023; Dias, 2022; Coutrim et. al., 2007) que buscaram entender como as relações intergeracionais influenciam as escolhas de vida de netos jovens e adultos. Nas palavras da entrevistada:

 

Eu acho que... Na minha... Na minha infância, na minha adolescência, eu acho que minha avó, ela foi fundamental para mim em todos os momentos. Assim, eu acho que... Se não fosse minha avó e... Tudo, assim, que eu reconheço que ela fez por mim até hoje, assim, e ela ainda faz. Eu acho que eu não... Não teria nada, assim, sabe? Eu acho que a forma que ela me educou, [...] que ela me ajudou... A questão de... De tudo, assim, que eu sou hoje, eu acho que eu devo tudo à minha avó, assim, sabe? Questão de amor, questão de empatia, de cuidado, de carinho... É tudo pela minha avó, assim, sabe? [choro] (Kayssa, estudante do curso de pedagogia).

 

Como podemos observar no relato de Kayssa, a estudante reconhece o mérito e os esforços que a avó empreendeu ao longo de sua trajetória escolar e pessoal. Seu depoimento aproxima-se dos resultados apresentados na pesquisa de Carvalho (2023), ao revelar que uma característica comum que permeia as relações intergeracionais entre avós e netos são os sentimentos de amor e gratidão.

A estudante Clarice também enfatizou o apoio emocional recebido de seus avós. Segundo relatou, os avós sempre lhe incentivaram, não somente no acesso ao Ensino Superior, mas inclusive na permanência (eles pagam o Restaurante Universitário para a neta). Segundo a universitária, esse apoio dos avós é essencial em sua trajetória pessoal e acadêmica: “Saber que eu tenho aquela base, ali é, assim... É o que te ajuda nos tempos difíceis, né”? Ainda ressaltou que a principal importância dos avós em sua vida foi emocional:

 

Eu acho que a principal importância que eles conseguiram me dar é emocional. De estar sempre me incentivando, de estar sempre comigo. Mas também não posso esquecer da ajuda financeira, também. Igual eu falei aos meus avós. Eles pagam o meu RU aqui na UFOP. Então... Enfim, né? Ajudou muito, né? É claro que essa ajuda financeira é muito grande. Mas também eu acho que a maior mesmo é a emocional (Clarice, estudante do curso de jornalismo).

 

O relato de Clarisse mostra que os avós oferecem amparo em momentos de crise ou dificuldades dos mais jovens (Carvalho et. al., 2024), o que contribui com as trajetórias pessoais, acadêmicas e profissionais dos netos. Partindo do princípio de que as relações sociais, bem como as familiares são baseadas em intercâmbios de apoio afetivo e material (Rosas e Neri, 2019), Clarice encontrou, em sua avó, um porto seguro, mesmo diante de desafios de ordem financeira no núcleo familiar, que lhe impulsionaram na busca pela longevidade escolar.

Ana, assim como os outros entrevistados, também relembrou, em seu depoimento, o quanto seu avô materno foi importante apoio emocional. A estudante contou que foi vítima de abuso sexual cometido pelo atual padrasto, e que sua mãe foi negligente em não ter lhe dado apoio. Seu avô foi a pessoa que ofereceu proteção. Segundo suas palavras, foi seu “aconchego, abrigo e a válvula de escape” para que ela se fortalecesse. A universitária ainda repetiu as palavras do avô: “Eu quero que você forme, eu quero te ver formada, eu quero te ver lá em cima, eu quero te ver recebendo o diploma”. Entretanto, infelizmente, ele não teve a oportunidade de vê-la entrar na universidade, falecendo de câncer antes do seu ingresso no curso de Pedagogia.

Ao contrário dos seis estudantes investigados, Catarina disse não ter recebido ajuda financeira e emocional dos seus avós para prosseguir nos estudos. Para ela, seus avós não lhe incentivaram por não terem estudado e, consequentemente, não saberem o que é uma universidade. Apesar de os avós terem sido seu principal suporte financeiro ao longo da vida, em seu depoimento, foi possível notar um certo descontentamento quando questionada sobre o apoio ofertado pelos avós.

O caso de Catarina aproxima-se do que foi encontrado na pesquisa de Portes (2006) sobre estudantes de camadas populares que ingressaram em um curso de alto prestígio social de uma Universidade Federal. Foi observado que os participantes da pesquisa se sentiram claramente desconfortáveis ao precisarem pedir dinheiro aos familiares para poderem se manter no ambiente acadêmico. Segundo o autor, esses indivíduos são colocados em uma situação de constrangimento perante a família, que não compreende claramente o papel da universidade em suas vidas. Embora Catarina não tenha recebido o apoio direto dos avós, conforme observado nos outros casos trazidos nesta pesquisa, ela foi a primeira da sua família a cursar o Ensino Superior.

 

Considerações finais

 

Com o intuito de analisar a influência das práticas educativas dos avós cuidadores na vida dos netos de camadas populares que chegaram à universidade, os resultados do estudo aqui apresentados revelam aproximações com outras pesquisas no campo educacional que têm se debruçado sobre o tema das relações intergeracionais entre avós cuidadores e netos.

Dentre os principais resultados desta pesquisa, que contou com a realização de sete entrevistas com estudantes dos curso de Jornalismo e Pedagogia da UFOP, constatamos que a relação entre avós e netos é próxima do lado materno devido à ausência da figura paterna; jovens de camadas populares têm conseguido ingressar no Ensino Superior público por meio das políticas de ações afirmativas; embora os avós possuam baixa escolaridade, os netos por eles criados e/ou cuidados lograram êxito em suas trajetórias escolares; e os jovens sentem gratidão por todo apoio de seus avós cuidadores e destacam o suporte emocional e financeiro recebidos.

Além do reconhecimento da importância de seus avós em seus processos formativos e na construção de suas identidades, os estudantes investigados reforçaram, por meio de seus relatos, o quanto as pessoas idosas estão cada vez mais presentes na sociedade, sendo necessária e urgente a desmitificação das pessoas mais velhas como passivas.

Reconhecemos os limites deste estudo, uma vez que se tratou de uma pesquisa qualitativa construída a partir de poucos casos em uma única universidade. Além disso, nossos depoentes foram os únicos de suas famílias ouvidos, e por tratarmos em grande parte da entrevista sobre a infância e adolescência deles, não houve nenhum tipo de observação sistemática do espaço doméstico (Carvalho; Cunha, 2025). Por isso, ressaltamos a necessidade de novas investigações sobre o tema que possam ampliar a discussão para outros cursos, outras universidades e diferentes camadas sociais. Considerando que estudos nacionais e internacionais revelam que a figura feminina se destaca nos cuidados dos netos, sugerimos também que outras investigações discutam a importância dos avôs cuidadores.

 Como observado neste estudo, uma das entrevistadas atribui ao avô o principal agente motivador para que chegasse à universidade. No entanto, observou-se que, de modo predominante, o trabalho de cuidado cotidiano com os netos foi exercido por mulheres, especialmente avós maternas. Tal constatação reforça a necessidade de problematizar a divisão sexual do trabalho de cuidado, que recai desproporcionalmente sobre as mulheres de todas as idades. Ao serem naturalizadas como principais responsáveis pelo cuidado familiar, essas mulheres assumem tarefas físicas, emocionais e financeiras que permanecem invisibilizadas nas políticas públicas e na própria literatura educacional, exigindo atenção crítica e aprofundamento em futuras pesquisas.

Concluindo, nosso desejo é que possamos despertar o interesse de outros pesquisadores da área da educação e incentivar novas e possíveis pesquisas sobre o tema, considerando que a relação entre avós cuidadores e netos e seus impactos na longevidade escolar dos mais jovens merece ser aprofundada, tendo em vista as novas configurações familiares e o protagonismo dos idosos na contemporaneidade.

 

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Submetido: 05.03. 2025.

Aprovado: 30.06.2025.

 

Agradecimento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).



[1] Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana: andresa.pamela.as@gmail.com.

[2] Universidade Federal do Sul da Bahia, Porto Seguro: tkpcarvalho@gmail.com.

[3] Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana: rosacoutrim@ufop.edu.br.

[4] No Brasil, segundo o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) (Brasil, 2003), a pessoa idosa é aquela com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos que tem todos os seus direitos resguardados, de modo a preservar sua integridade física, moral, mental, intelectual e espiritual.

[5] Carvalho (2023) cita que os avós assumem a responsabilidade de cuidar dos netos durante parte do dia ou integralmente quando os pais se divorciam, falecem ou até mesmo por questão de recasamento. A autora também pontua que a participação mais efetiva da mulher no mercado de trabalho tem contribuído para que os avós assumam essa tarefa.

[6] Consideram-se indicadores para pertencimento aos meios populares pais com baixo nível de escolaridade e baixa renda familiar, bem como aqueles grupos que ocupam as posições que se situam na base da pirâmide social (Souza, 2014; Viana, 2014).

[7] Comitê de Ética em Pesquisa da UFOP, CAEE: 65840722.3.0000.5150.

[8] O critério de escolha dos cursos considerou um curso de alto prestígio social na área das Ciências Humanas da referida instituição de Ensino Superior (Jornalismo) e um de baixo prestígio (Pedagogia).

[9] Também é importante destacar que muitos avós cuidadores mencionados como referência pelos netos entrevistados já eram falecidos.

[10] Os nomes próprios utilizados são fictícios para preservar a identidade dos participantes da pesquisa.

[11] Para serem avós, não necessariamente precisam ser idosos, visto que a legislação define como idosos aqueles com idade acima de 60 anos. Contudo, existem pessoas que ainda não entraram na categoria do idoso, mas que já são avós.

[12] No interior de Minas Gerais o termo quitanda se refere à bolos, biscoitos e doces caseiros em geral. É comum encontrarmos mulheres que fazem tais produtos em casa para a venda em pequena escala.