Oficina de textos na graduação em Letras: produção de gêneros acadêmicos no ciclo básico do Ensino Superior
Alessandra Folha Mós Landim[1]
https://orcid.org/0000-0001-9831-9375
Resumo
O aprimoramento da escrita acadêmica no Ensino Superior coloca algumas demandas e o estudo dos gêneros de uma perspectiva comunicativa configura modo razoável de tratá-las. O artigo tem o objetivo de estabelecer relação entre gêneros discursivos e prática de produção textual na graduação, em especial no Ciclo Básico do Curso de Letras. Para isso, realiza revisão bibliográfica embasada na teoria bakhtiniana. Também discute os gêneros em pelo menos dois aspectos: do próprio discurso e dos estudiosos do texto. A partir disso, descreve etapas de uma disciplina obrigatória constituída por oficinas de produção textual dos gêneros resumo e resenha acadêmicos. Finalmente, o texto conclui que a perspectiva comunicativa favorece a análise e produção crítica dos gêneros acadêmicos estudados.
Palavras-chave: Gêneros discursivos. Ensino superior. Língua e ensino.
Text Workshop in Undergraduate Language Studies: text production of academic genres in basic cycle of higher education
Abstract
The improvement of academic writing in higher education presents certain demands, and studying genres from a communicative perspective constitutes a reasonable way to address them. This paper aims to establish a relationship between discursive genres and the practice of text production in undergraduate courses, particularly in the Basic Cycle of Language and Literature program. Thereunto, it conducts a literature review based on Bakhtinian theory. It also discusses genres from two perspectives: discourse itself and the point of view of text scholars. Based on this, it describes the stages of a mandatory course consisting of textual production workshops focused on abstract and review genres. Finally, the paper concludes that the communicative perspective enhances both critical analysis and text production in the academic genres studied.
Keywords: Discursive genres. Higher education. Language and teaching.
Considerações iniciais
Diante do crescente cuidado docente em relação ao aprimoramento da escrita acadêmica no Ensino Superior, algumas demandas podem se colocar para que os graduandos desenvolvam essa habilidade. Nesse sentido, o estudo dos gêneros acadêmicos na graduação é parte integrante da Educação Superior.
O crescente interesse nos estudos sobre gêneros coloca, então, a questão: é possível debater ensino de gêneros, oficina de produção textual e estudos acadêmicos na graduação a partir de postulados da teoria bakhtiniana? No intuito de responder a esta questão, este artigo, à luz da referida teoria, bem como de estudiosos do discurso e do texto, objetiva estabelecer a relação entre gêneros discursivos e prática de produção textual no Ensino Superior, em especial no Ciclo Básico do Curso de Letras. Para isso, realiza revisão bibliográfica e descreve as etapas de uma disciplina obrigatória que tem como objetivo estudar e produzir os gêneros acadêmicos resumo e resenha.
Dessa forma, em um primeiro momento, os gêneros são situados na esfera acadêmica por meio de uma breve revisão de algumas abordagens. Em seguida, os gêneros discursivos são debatidos enquanto tipos relativamente estáveis de enunciados (Bakhtin, 2016a), com destaque para sua riqueza e diversidade. De forma complementar, são tecidos alguns comentários sobre um quadro de referência e restrições que engloba esses enunciados a partir de observações de dois autores que dialogam com o Círculo de Bakhtin, desdobrando a discussão. São eles: Charaudeau (2009; 2015) e Maingueneau (2008; 2015). Esses dois autores são trazidos ao trabalho como a representação de um debate complementar, indicando que, na esfera acadêmica, ainda na atualidade, diferentes teóricos vêm levantando distintas compreensões e explicações para os gêneros de discurso.
Na tentativa de situar o debate nas concepções de discurso e texto, o artigo discute os gêneros sob o aspecto textual. A própria concepção de texto de Bakhtin (2016b), do ponto de vista do enunciado – elo na cadeia de comunicação humana (Bakhtin, 2016a; Volóchinov, 2021[1929]) – é adotada para refletir um pouco mais sobre os gêneros. Com base nisso, o trabalho aponta para Marcuschi (2008) e outros estudiosos que influenciam a análise de gêneros sob a égide dos estudos do texto, situando-se, ainda, em um lugar de confluência com o Círculo bakhtiniano.
Em seguida, o artigo concentra-se, à luz desses postulados, em deliberar sobre uma disciplina intitulada Oficina de texto: introdução aos gêneros acadêmicos, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais – Ciclo Básico (disciplina obrigatória) e a atuação docente e discente em um dos últimos semestres em que foi oferecida presencialmente. Objetiva-se, à luz da reflexão anunciada, discutir práticas de ensino e produção dos gêneros acadêmicos resumo e resenha no Ensino Superior.
Situando o gênero na esfera acadêmica
No que diz respeito a enunciados relativamente estáveis (Bakhtin, 2016a), os gêneros têm sido objeto de amplo debate na esfera acadêmica. Analistas de discursos, estudiosos da argumentação e da retórica, das Linguísticas Textual e Aplicada, educadores, estudiosos da esfera jurídica, literária e jornalística têm se dedicado ao tema, dada sua relevância. Desde a Antiguidade, na qual o papel da comunicação entre os seres humanos e os deuses era intermediado pelos gêneros antigos, passando pela Grécia e pelas necessidades de mediar as atividades políticas e jurídicas que esboçaram os princípios contemporâneos de democracia, a noção de gênero tem constituído a história da humanidade.
Com o advento de estudos de literatura, por exemplo, elementos teóricos e metodológicos têm reunido especificidades de variados gêneros para compreensão de regularidades de composição, forma e estilo com o objetivo de desenhar (sem fronteiras rígidas) categorizações de produções literárias, tais como romance e poema, para citar exemplos, bem como para identificar as tendências dessas produções a partir de suas especificidades históricas. Neste último aspecto, chamam a atenção, inclusive, as escolas literárias.
Na atualidade, porém, os estudos sobre os gêneros têm conhecido amplo avanço que perpassa a esfera acadêmica, em especial nas áreas que se dedicam aos estudos de linguagem, comunicação e educação. Estudos sobre texto, discurso, língua, ensino, práticas educativas, letramentos e formação docente têm se dedicado ao assunto e encontrado positivas transformações a partir do conceito de gênero inspirado na teoria bakhtiniana. Têm conhecido, por isso, diferentes pontos de vista a partir dos quais a relativa estabilidade desses enunciados é compreendida.
De modo meramente sinóptico, Charaudeau (2016) menciona diferentes pontos de vista: i) funcional; ii) enunciativo; iii) textual, amplamente debatido pela Linguística Textual que estuda a regularidade composicional; iv) o próprio ponto de vista comunicacional amparado em Bakhtin (2011; 2016a; 2016b).
Desdobram-se, ainda: iv) os estudos dos gêneros do cotidiano - os gêneros primários (Bakhtin, 2011; 2016a; Volóchinov, 2021[1929]), materializados, dentre outras propostas, na Análise da Conversação (Kerbrat-Orecchioni, 2006) e em obras organizadas e escritas na Universidade de São Paulo (USP) por Hudinilson Urbano, em especial sobre a análise dos gêneros orais, nas primeiras décadas dos anos 2000 (Urbano, 2011); v) estudos dos gêneros institucionalizados - secundários (Bakhtin, 2011; 2016ab), das esferas de atividade humana organizadas institucionalmente (Maingueneau, 2015), materializadas na Análise do Discurso de tendência enunciativo-pragmática e na Análise de Discursos Comparativa (Grillo; Reboul-Touré; Glushkova, 2021), na Semiolinguística charaudiana (Charaudeau, 2009; 2015), dentre outras.
Muitas produções científicas consideram a noção de gênero pela perspectiva bakhtiniana. Dentre elas, não sem sua parte significativamente expressiva, destacam-se as pesquisas sobre produções textuais e práticas interativas na Educação Básica e Superior baseadas em metodologias ativas. Essas pesquisas trazem importantes contribuições por meio de variadas experiências pedagógicas voltadas aos gêneros. Uma referência relevante é a obra de Marcuschi (2008), amplamente divulgada e estudada, que integra os conceitos de gênero e de ensino.
Esses pontos de vista revelam a relevância do tema para os estudos da linguagem, incluindo práticas de ensino em nível superior. Esta seção não possui, evidentemente, nenhuma pretensão de esgotamento do tema, tampouco de simples repetição de percursos teóricos. Antes, indica a grande influência da teoria bakhtiniana na área, reforçando a ideia de seu extenso debate. Debate este que, ao que tudo indica, ainda possui abrangente e profícuo campo de discussões futuras.
As seções seguintes apresentam propostas teóricas amplamente difundidas que situam os estudos dos gêneros em duas perspectivas: discursiva e textual, visando a delinear um dos possíveis caminhos de reflexão sobre o tema. Se de um lado, o gênero discursivo tem fulcro na teoria bakhtiniana, de outro, o gênero textual encontra a mesma influência teórica.
Gênero discursivo ou gênero textual: um enunciado, múltiplos pontos de vista
Uma das possíveis discussões sobre o estudo dos gêneros recai sobre a denominação dos tipos relativamente estáveis de enunciados – gêneros discursivos e/ou textuais. Embora não seja o foco central aqui, propõe-se uma reflexão que pode orientar práticas pedagógicas. O gênero discursivo inscreve-se em vertentes discursivas, tais como a Análise do Discurso francesa (inaugurada por Pêcheux, 1997[1969]; 1995[1975]), crítica (Fairclough, 1989) e dialógica (Brait, 2006; Bakhtin, 2016a), que o compreendem de uma perspectiva comunicativo-discursiva. Os corpora analisados nesse campo constituem-se por gêneros de discurso. O gênero textual, por sua vez, emerge de reflexões que têm como base o estudo da organização textual e dos mecanismos de coesão e coerência e em seu papel na comunicação (Adam, 2011; 2019; Koch; Elias, 2006), orientando o debate sob a égide da Linguística Textual. Uma discussão em aberto, que aponta caminhos.
Ainda que não aprofundada neste estudo, menciona-se a perspectiva dos letramentos (Kleiman, 1995; 2006), que compreende os gêneros como práticas de linguagem de produção de sentido, cujo aspecto social auxilia na ampliação das competências de linguagem de estudantes. Partindo de pressupostos dialógicos e interacionistas, essa abordagem contribui com as práticas de ensino e aprendizagem dos gêneros na esfera acadêmica, reconhecendo, ainda, o aspecto textual e discursivo desses enunciados.
Outro aporte teórico trata da Análise de Discursos Comparativa (Grillo; Reboul-Touré; Glushkova, 2021), que tem como princípio o tertium comparationis - critério de semelhança que propõe pontos de conexão entre os enunciados - materializado pelo gênero discursivo. A abordagem, tal como praticada no Brasil, filia-se à teoria bakhtiniana.
O caráter didático aqui proposto não visa a um enquadre teórico integral, mas oferece uma organização metodológica compatível com os objetivos e escopo deste estudo, e prepara o terreno para as discussões subsequentes. Reitera-se, ainda, que indiscutivelmente, a teoria bakhtiniana (Bakhtin, 2011, 2016a; Volóchinov, 2021[1929]) representa um bom senso teórico[2], já que as abordagens expostas são dela tributárias.
O gênero discursivo: objeto de pesquisa de analistas de discursos
Os gêneros são amplamente conhecidos como tipos relativamente estáveis de enunciados (Bakhtin, 2011; 2016a). Em termos gerais, o enunciado é uma unidade concreta de comunicação a partir da qual, ao serem identificadas determinadas especificidades, representa um gênero.
Por exemplo, hipoteticamente, a aula de produção textual do Ensino Superior do Curso de Pedagogia na Universidade Federal de Minas Gerais, no dia 14 de fevereiro de 2025, ao ser reconhecida como uma unidade de comunicação, é um enunciado que representa o gênero aula. Entretanto, o fato de ser reconhecida efetivamente, assim requer que algumas regularidades sejam observadas: um local específico e uma instituição que a legitime; um professor; presença de alunos; tipos de exposições decorrentes da interação entre esses sujeitos; estilo de interação etc. Ora, o professor pode estar em uma sala de aula com alunos no intervalo, descaracterizando a interação em forma de aula efetivamente. Da mesma forma, ainda que dentro do horário estabelecido pela instituição, se o professor estiver a sós em sala de aula, com efeito, a aula é inviabilizada. Perceba-se que determinadas especificidades relacionadas ao tipo de atividade humana envolvida nas interações, bem como à sua função comunicativa, são necessárias para que o gênero aula seja, decerto, assegurado.
A relação constitutiva entre enunciado e gênero é um dos pilares sobre os quais a teoria dos gêneros de discurso se embasa. Para a teoria bakhtiniana, a problemática dos gêneros está intimamente ligada às esferas de atividade humana, ratificando a observação supra. Bakhtin (2016a) sugere que há gêneros mais livres, decorrentes de esferas mais informais e íntimas, e por isso, notadamente marcados pela oralidade; e gêneros mais formais, decorrentes de esferas mais institucionalizadas, e por isso, notadamente marcados por escrituralidade.
Por isso, sua diversidade é notável e determinada pelo fato de que eles incorrem em uma troca entre a própria língua e a situação comunicativa, a posição social e as relações de reciprocidade entre os participantes da comunicação: “há formas elevadas desses gêneros, rigorosamente oficiais e respeitosas, concomitantes com formas familiares, que ademais apresentam diversos graus de familiaridade com formas íntimas” (Bakhtin, 2016a, p. 40). De acordo com o autor,
A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multifacetada atividade humana e porque em cada campo dessa atividade vem sendo elaborado todo um repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que tal campo se desenvolve e ganha complexidade (Bakhtin, 2016a, p. 12).
Como os gêneros discursivos estão intimamente ligados a uma abordagem sociológica de estudos e filosofia da linguagem, é de se compreender que o autor suponha que os sujeitos possuam fluência nos gêneros para estabelecerem vínculos sociais. Assim, pessoas que dominam uma língua (idioma) podem se sentir completamente impotentes em relação a alguns campos da comunicação, porque não possuem repertório atualizado dos gêneros daquela comunidade. “Aqui não se trata de pobreza vocabular [...] tudo se resume a uma inabilidade para dominar o repertório de gêneros” (Bakhtin, 2016a, p. 4).
Por trazer à tona as relações humanas, campo de interesse da teoria bakhtiniana e de contemporâneos do Círculo de Bakhtin, os gêneros vinculam-se inevitavelmente com enunciados concretos (orais e escritos) que se relacionam, por sua vez, com as esferas e sua respectiva forma de comunicação. São exemplos de gêneros, de acordo com a teoria bakhtiniana: “[...] crônicas, contratos, textos legislativos, documentos oficiais ou pessoais, réplicas do diálogo cotidiano em toda sua diversidade formal, etc.” (Bakhtin, 2011, p. 282). Esses tipos relativamente estáveis de enunciados sugerem a ideia de que, “se os gêneros do discurso não existissem e nós não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso, de construir livremente cada enunciado pela primeira vez, a comunicação discursiva seria quase impossível” (Bakhtin, 20126a, p. 39).
É nesse sentido que aulas destinadas a oficinas de produção textual trazem benefício aos discentes. Elas desenvolvem habilidades de comunicação necessárias à atuação na esfera acadêmica, condição de fluência na área tanto para aqueles que desejam exclusivamente concluir sua formação quanto para aqueles que se lançarão em formações de pós-graduação.
Ainda como uma consideração complementar, a noção de gênero tem sido desdobrada, na atualidade, por uma série de autores, em especial das análises de discurso de tendência enunciativo-pragmática. São autores que que se inspiram na teoria bakhtiniana e valem-se de diferentes metáforas que explicam os gêneros: a do contrato de comunicação (Charaudeau, 2009; 2015) e da encenação discursiva (Maingueneau, 2008; 2015). Eles são trazidos aqui a título ilustrativo para ampliação da discussão, muito pontualmente na ideia de que a relativa estabilidade dos enunciados está, nessas abordagens, ligada à concepção das restrições situacionais.
A metáfora do contrato de comunicação advém da teoria Semiolinguística (Charaudeau, 2009). O centro do debate situa-se em uma perspectiva de restrições impostas pela situação de comunicação. A Semiolinguística charaudiana (Charaudeau, 2009; 2015) reforça a existência de uma instância de produção discursiva e outra de recepção. A primeira está na ordem do sujeito que fala/escreve, e a segunda, na ordem do interlocutor presumido e do interlocutor real. Essas duas instâncias são mediadas pelo produto, qual seja, pelo enunciado, representado, por sua vez, por um gênero discursivo.
Nessa abordagem, o gênero não se constitui senão por meio das cláusulas de um contrato. Isso porque “todo discurso depende, para a construção de seu interesse social, das condições específicas da situação de troca na qual ele surge” (Charaudeau, 2015, p. 67). Isso “constitui [...] o quadro de referência ao qual se reportam os indivíduos de uma comunidade social quando iniciam uma comunicação” (Charaudeau, 2015, p. 67).
Nessa linha de pensamento, existiria, portanto, uma espécie de acordo prévio entre os participantes de uma troca comunicativa, o que explicaria efetivamente o contrato de comunicação. Este é constituído, então, por regularidades que favorecem as produções mais ou menos estabilizadas no tempo a partir de práticas sociais e de suas respectivas maneiras de dizer. Visto por esse ângulo, o contrato de comunicação estaria fortemente relacionado a uma fluência nos gêneros. Isso porque os sujeitos, para materializarem a comunicação, precisariam estar conscientes das metafóricas cláusulas desse contrato. Oficinas de produção textual no Ensino Superior, portanto, estudariam as especificidades dos prováveis contratos de comunicação na esfera acadêmica apontando para regularidades nas interações, no intuito de desenvolver a fluência nas produções.
A segunda consideração complementar alusiva à perspectiva enunciativa e pragmática trata da metáfora da encenação discursiva. Ela também preserva certa interlocução com a perspectiva bakhtiniana assumida, inclusive, por seu representante mais expressivo, Dominique Maingueneau. De acordo o estudioso, a categoria de gêneros discursivos (e/ou textuais[3]), “há algumas décadas, principalmente por influência da etnografia da comunicação e das ideias de M. Bakhtin, é uma noção que tem sido utilizada para descrever uma multiplicidade de enunciados produzidos na sociedade” (Maingueneau, 2008, p. 152, grifo nosso).
Maingueneau (2008; 2015) é reconhecido pelas cenas da enunciação. A metáfora da encenação advém de um desdobramento de sua própria compreensão. De um lado, “um espaço delimitado no qual são representadas as peças [teatrais]” (Maingueneau, 2015, p. 117). De outro, as “sequências das ações, verbais e não verbais que habitam esse espaço” (Maingueneau, 2015, p. 117). Nessa linha de pensamento, o discurso é construído por meio de representações nas quais os sujeitos agem de acordo com a cena discursiva que desejam construir (Maingueneau, 2015).
A cena discursiva, nessa metáfora teatral, é constituída por pelo menos três elementos de absoluta relevância caso se leve em consideração a noção de gênero: i) a cena englobante, qual seja, o tipo de discurso, ou para retomar a teoria bakhtiniana, a esfera de atividade humana que caracteriza um enunciado; ii) a cena genérica, qual seja, o gênero propriamente dito, que delimita a finalidade do ato comunicativo, o papel dos sujeitos envolvidos na comunicação e as restrições linguísticas que caracterizam a estabilidade de determinado tipo de enunciado; e finalmente, iii) a cenografia[4], que é o modo como efetivamente o interlocutor é defrontado, ou seja, o ambiente criado pelo discurso a partir do qual o interlocutor o interpreta e com ele interage.
Apesar de sensivelmente mais complexa, a metáfora da encenação discursiva ainda guarda relação com um quadro de determinadas restrições impostas pelo gênero, reforçando a ideia de que as formas do gênero moldam o discurso (Bakhtin, 2016a), e há que se dominar o repertório cenográfico para que um sujeito participe do processo de produção e recepção dos gêneros. Não sem razão, Bakhtin (2016a) endossa, inclusive, a importância de compreender e dominar os gêneros, uma vez que sua existência pressupõe a comunicação discursiva.
A metáfora da encenação discursiva converge, também, para a atenção a ser dispensada aos pontos de regularidade dos enunciados que constituem os gêneros de discurso, o que corrobora a concepção do desenvolvimento da fluência em gêneros por intermédio de reflexão, estudo e prática, e possibilita o desenvolvimento de habilidades em relação à produção de gêneros acadêmicos.
Bakhtin e o Círculo, desde as primeiras décadas do século XX, assim como Charaudeau e Maingueneau mais recentemente, constituem referenciais teóricos relevantes para reflexão sobre os gêneros discursivos, além de oferecerem subsídio para o estudo crítico dos gêneros na esfera acadêmica. Muito embora não esgotem o debate, esses estudiosos foram mobilizados por sua representatividade, bem como por atenderem aos propósitos deste artigo. Além disso, para fins de reflexão, a soma dessas abordagens é razoável, pois apesar das variações terminológicas, esses estudos convergem, em grande parte, em relação aos fundamentos conceituais dos gêneros de discurso e quase sempre em relação à influência bakhtiniana.
Como exposto nas primeiras palavras, a problemática dos gêneros também vem sendo debatida pelos estudiosos do texto demandando um percurso, ainda que moderado, sobre o tema.
O gênero textual: objeto de pesquisa de estudiosos do texto
O conceito de texto propriamente dito não passou despercebido por Mikhail Bakhtin. O autor dedicou-se à reflexão e, com isso, inspirou pesquisadores da atualidade a pensar no assunto, sem deixar de lado a natureza da comunicação humana. Isso porque toda ideia sobre texto que perpassa a teoria bakhtiniana é permeada pela noção do diálogo e da interação. Por esse prisma, é impossível estudá-lo em uma concepção puramente estrutural.
O pesquisador que se lança sobre o estudo do texto, especialmente influenciado pela concepção bakhtiniana, o apreende da perspectiva do enunciado “incluído na comunicação discursiva [...] de dado campo” (Bakhtin, 2016b, p. 73). Além disso, entende a indissociabilidade entre o texto, o autor (falante ou escritor) e o destinatário, já que o enunciado (o texto, neste caso) é um elo na cadeia da comunicação humana.
O texto é um dado relevante para as disciplinas das ciências humanas (Bakhtin, 2016b) e pode ser realizado verbal ou não verbalmente, embora para a linguística, haja inevitavelmente preferência pelo texto verbal. A teoria bakhtiniana eleva o texto ao patamar de ponto de partida para as ciências linguísticas. Uma das passagens que retratam sua relevância, reforçando esse entendimento, está em seu ensaio intitulado O texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas: um experimento de análise filosófica:
O texto é a realidade imediata (realidade do pensamento e das vivências), a única fonte de onde podem provir essas disciplinas[5] e esse pensamento. Onde não há texto não há objeto de pesquisa e pensamento. O texto “subentendido”. Se concebe o texto no sentido amplo como qualquer conjunto coerente de signos, a ciência das artes (a musicologia, a teoria e a história das artes plásticas) opera com textos (obras de arte). [...] Independentemente de quais sejam os objetivos de uma pesquisa, só o texto pode ser o ponto de partida. Nosso interesse estará voltado apenas para a questão dos textos verbais, que são o dado primário das respectivas disciplinas humanísticas, primordialmente da linguística, da filologia, da investigação literária etc. (Bakhtin, 2016b, p. 71-72).
Na primeira década do século XXI, trabalhos de expressiva circulação acadêmica debateram o gênero textual em diálogo com a teoria bakhtiniana. Alguns autores têm contribuído até a atualidade com a área do ensino da linguagem. De acordo com essa diretriz conceitual, "produzimos textos similares na estrutura e eles circulam em ambientes recorrentes e próprios" (Marcuschi, 2008, p. 150). Essa relativa estabilidade de enunciados fornece, aos estudiosos, relevante objeto de pesquisa, favorecendo a apreensão de regularidades que auxiliam na identificação de seus respectivos tipos. Para além disso, essas regularidades, identificadas, possibilitam temas de aulas e oficinas de produção textual, auxiliando alunos em todos os níveis educacionais.
A discussão pode ser ainda brevemente complementada por autores de correntes textuais. Adam (2011; 2019) entende a organização textual como constituída por sequências textuais (narrativa, descritiva, explicativa, injuntiva e argumentativa) combinadas nos enunciados. Coesão e coerência, para ele, não são meras formalidades, mas fatores de textualidade (ver nota 6). Em diálogo com a perspectiva social do Círculo, o autor busca descrever o funcionamento interno dos enunciados, sem desprezar a realidade da comunicação.
Já Koch e Elias (2018), seguindo a linha de pensamento do texto como elo na cadeia de comunicação, destacam a diversidade de especificidades internas e externas dos enunciados, tais como a coesão, os processos de referenciação e a coerência, respectivamente[6].
Essas abordagens textuais não fecham o debate, afinal, as atividades humanas estão em constante modificação, impedindo que essas discussões sejam definitivas. Entretanto, suas contribuições para o campo da educação são notáveis, pois auxiliam os discentes na fluência com os gêneros. Segundo Marcuschi (2008, p. 154), "quando dominamos um gênero não dominamos a forma linguística, mas as formas de realizar linguisticamente objetivos específicos de situações particulares". Assim, o estudo dos gêneros de uma perspectiva textual promove o protagonismo estudantil nas atividades de produção em todos os níveis educacionais.
Apesar das inegáveis contribuições, o debate está longe de circunscrever a noção apenas a um dos âmbitos textual e/ou discursivo. Exclusivamente com o objetivo de compreender determinadas filiações teórico-metodológicas e possibilitar outras aberturas, o excerto a seguir soluciona parcialmente a discussão. Assim, em relação aos gêneros tanto textuais quanto discursivos,
[...] ora leva-se em conta de modo preferencial, a ancoragem social do discurso, ora sua natureza comunicacional, ora as regularidades composicionais dos textos produzidos. Pode se pensar que esses diferentes aspectos estão ligados, o que cria, aliás, afinidades em torno de suas orientações principais: aquela que está mais voltada para o texto justificando a denominação “gêneros de texto" e a mais voltada para as condições de produção do discurso, que justifica a denominação “gênero do discurso” (Charaudeau, 2016, p. 251).
Fruto dessa compreensão, muitas pesquisas e publicações têm ocupado importante espaço no campo da linguística, da filologia e das análises de discurso em amplo debate interdisciplinar. A próxima seção traz uma breve resenha de algumas dessas produções para que, em seguida, sejam ponderadas propostas de trabalho com produção textual discente no Ensino Superior.
Trabalhos sobre gêneros realizados por estudiosos no Brasil e na França
Para este artigo, foram elencados alguns trabalhos e tendências de pesquisas decorrentes das discussões sobre gêneros na atualidade para um breve posicionamento em relação ao campo de pesquisa contemporâneo, em uma demanda acadêmica estabelecida. Assim, embora não intente aprofundar cada um deles, referenciados devidamente ao final do artigo possibilitando acesso, amplia-se a discussão e propõe-se uma progressão do debate no âmbito de oficinas de produção de texto no Ensino Superior.
Relembram-se as contribuições de Campos e Mitsunari (2023), para quem o estudo dos gêneros aplicados ao ensino devem auxiliar na promoção do protagonismo estudantil, partindo de propostas argumentativas na esfera digital. O trabalho analisa o gênero unboxing, célebre nas redes sociais, tecendo críticas e reflexões acerca de enunciados de exercícios propostos para atividades escolares. Campos, aliás, tem sido importante pesquisadora que contribui com os estudos sobre os gêneros, a exemplo de artigos publicados sobre produção escrita de quadrinhos em perspectiva dialógica (Campos; Leite, 2021) e da própria noção de arquitetônica voltada à análise de livros didáticos (Campos, 2012). Esses trabalhos abordam os gêneros em uma perspectiva histórica e social, permitindo que a relação entre docentes e discentes parta de um princípio interativo, além de insistir na questão de que o texto é um elo na cadeia da comunicação. Nesse sentido, convém analisar o texto da perspectiva do enunciado, e não de um objeto isolado proveniente de mera atividade didática (Campos, 2012).
Publicações importantes na esfera acadêmica das pesquisas em gênero também constituem o Volume 33, número 1 do periódico Linha d’Água. Nele, uma série de artigos (8) foram publicados com o intuito de divulgar estudos sobre tecnologia, multimodalidade e gêneros em diferentes temáticas. Dentre elas, encontram-se a formação de professores, o ensino e aprendizagem de línguas e o desenvolvimento da oralidade e da escrita na escola. Para compreender a questão, os artigos e o editorial da edição mostram a evolução do estudo dos gêneros ao longo do tempo e sua relevância para as discussões sobre língua e ensino. De acordo com o editorial, “desde a chegada da problemática dos gêneros textuais ao Brasil, várias correntes teóricas foram se implantando e se delineando, algumas mais e outras menos voltadas para o ensino” (Linha d’Água, 2020). Nessa linha de pensamento, a revista apresenta uma série de trabalhos que levam o leitor a compreender as mais variadas correntes de estudos, algumas das quais envolvidas neste trabalho e abordadas nas seções supra.
Já Brait et al. (2023) introduzem número de importante impacto para o debate e ampliação dos estudos na área na revista Bakhtiniana, e defendem que os enunciados sejam analisados de um ponto de vista de compreensão ativa e responsiva com base na teoria do Círculo. Dessa forma, essas autoras têm trazido trabalhos importantes em uma perspectiva multidisciplinar. Uma dessas publicações encontra-se no artigo intitulado O leitor presumido em editoriais do El País (Mendes; Mendonça, 2022), que analisa o gênero editorial no âmbito da garantia de circulação do jornal em escala mundial. Esses trabalhos possuem importante ponto de intersecção com os debates sobre gêneros de pontos de vista discursivos e textuais.
Além deles, relembram-se, igualmente, as contribuições de Grillo, Reboul-Touré e Glushkova (2021), que propõem uma Análise de Discursos Comparativa. Essa abordagem procura comparar enunciados apontando regularidades e depreendendo semelhanças e diferenças entre distintas culturas postas em comparação por meio de uma multiplicidade de gêneros. Os gêneros são o ponto de encontro da comparação, denominados tertium comparationis. É deles que parte todo trabalho de investigação realizado pelo pesquisador da área que, por sua vez, constrói uma metodologia comparativa com o objetivo de estabelecer e descrever sentidos, regularidades e distinções entre as culturas.
Há, na atualidade, distintas perspectivas de estudo sobre gêneros. A partir disso, é possível identificar: i) pressupostos da interação discursiva via linguagem por meio de gêneros; ii) contribuições dos estudos da teoria bakhtiniana por meio de postulados dialógicos e sociológicos; e iii) contribuições de diferentes teóricos que estudam os gêneros em perspectivas textuais e discursivas. Esses trabalhos colocam as propostas deste estudo em contato com o debate corrente na área, e permitem que elas estejam situadas em base sólida de importantes discussões na esfera acadêmica.
A próxima seção descreve uma proposta de trabalho com gêneros acadêmicos para estudantes de Ensino Superior em curso de Letras que tem sido desenvolvida ao longo de um trabalho docente que teve início em uma universidade federal.
Oficina de texto: produção de gêneros acadêmicos no Ensino Superior
Com base nas seções anteriores, é possível, agora, tratar de algumas questões sobre produção textual de gêneros acadêmicos nos semestres iniciais de um curso de Letras de uma universidade federal, em que atuamos durante atividade docente voluntária. A decisão de descrever o decorrer desse curso advém de sua enorme relevância para a experiência docente e sua influência em trabalhos posteriores no Ensino Superior, bem como da interação entre professor e aluno. Além de ministrar disciplina de produção textual, essa interação possibilitou o compartilhamento de experiências na pesquisa acadêmica com estudantes de graduação que manifestavam desejo de ingressar na pós-graduação. Desde então, todo trabalho docente, em especial quando ofertamos cursos de produção textual acadêmica, tem levado em conta não apenas a elaboração de textos do ponto de vista da comunicação humana, como prevê a teoria bakhtiniana, mas a importância de colocar o estudante como protagonista do processo (Campos, 2012).
Intitulada Oficina de texto: introdução aos gêneros acadêmicos e obrigatória no Curso de Letras, Ciclo Básico da Universidade Federal de Minas Gerais, a disciplina tem a seguinte ementa, em vigor desde nossa primeira atuação:
Produção escrita a partir da introdução aos gêneros acadêmicos escritos com ênfase em aspectos tais como paráfrase, retextualização, observação de características relativas ao estilo de linguagem e à construção composicional. Estudo e produção de resumos, resenhas, esquemas, comentários críticos etc. (Universidade Feral de Minas Gerais, 2019).
Como é possível notar, o direcionamento geral remonta aos gêneros acadêmicos escritos e sua análise crítica com fundamento em exercícios interativos por meio de retextualização[7] (Marcuschi, 2008), observação e análise da construção composicional, dentre outros aspectos. Baseado nisso, o objetivo geral de nosso plano de ensino consistiu-se em: [O aluno deverá] desenvolver a capacidade de compreender, produzir e tecer reflexão crítica sobre os gêneros acadêmicos resumo e resenha.
Já os objetivos específicos[8] trataram de apreender três grandes blocos temáticos de encontros. O primeiro deles, constituído pela aula inaugural, na qual os graduandos debateram a importância da leitura e tomada de notas para sua formação, preparando-os para as atividades vindouras; o segundo, por quatro encontros interativos e exploratórios sobre as especificidades do resumo e da resenha propriamente ditos, resultando na produção desses gêneros como exercício avaliativo; e o terceiro, que revisou o conteúdo da disciplina, as descobertas dos graduandos e incluiu um seminário crítico em grupos de cinco alunos[9]. Importa mencionar que o gênero seminário não foi discutido ao longo das oficinas na disciplina, por isso os critérios avaliativos levaram em consideração apenas o senso crítico dos graduandos e sua participação na atividade proposta.
Os gêneros acadêmicos estudados nas oficinas, uma vez que trata(ra)m de trabalho com alunos dos semestres iniciais da graduação em Letras, têm sido, desde nossa primeira atuação até a atualidade em diferentes instituições, primordialmente o resumo e a resenha. Esses gêneros são importantes ferramentas de exercício acadêmico, uma vez que desenvolvem habilidades de síntese e pensamento crítico. Além disso, a vida acadêmica requer a produção desses gêneros com frequência, em razão de trabalhos finais, monografias, publicações, e mesmo leituras necessárias para a formação.
O estudo criterioso de resumos e resenhas reais, aliado a discussões orientadas, levou os alunos a compreenderem que esses gêneros são compostos por tipos de enunciados que materializam formas específicas e institucionalizadas de interação. Na esfera acadêmica, isso permite o desenvolvimento de fluência nos gêneros (Bakhtin, 2016a). A análise de pontos de estabilidade ao longo do curso favorece a identificação, produção e reflexão crítica desses gêneros. Exercícios de retextualização, como paráfrases e comparações também contribuem para esse fim.
O caso que está sendo descrito ocorreu no ano de 2019. Embora pareça relativamente distante, a data é muito significativa por pelo menos dois motivos: i) foi a primeira vez em que trabalhamos voluntariamente na disciplina e, portanto, é um importante marco de trabalho docente influente em trabalhos posteriores; e ainda mais expressivo, ii) foi uma das últimas vezes em que a disciplina foi oferecida integralmente em modo presencial. Isso porque, em seguida, houve o estouro da pandemia de coronavírus e os trabalhos universitários das oficinas passaram a ser oferecidos remotamente, permanecendo assim até o momento.
Aliás, essa foi uma das razões motivadoras para a escrita deste artigo, uma vez que já é possível identificar as consequências desse período no modo de oferecimento de determinadas disciplinas por instituições de Ensino Superior. Atualmente, a disciplina continua vigente, não mais sob nossa docência, apenas em ensino remoto, o que, de certa maneira, pode comprometer a troca de conhecimento entre os estudantes e professores. Ainda assim, ao observar os planos de ensino de 2025 disponíveis no site da instituição, percebe-se que a identidade geral do conteúdo programático permanece mais ou menos inalterada.
As oficinas presenciais ocorreram em nove encontros semanais de 3h30 cada, somando pouco mais de 30 horas-aula. No penúltimo encontro, os alunos participaram de um seminário, expressando oralmente seu senso crítico sobre uma obra escolhida por professores (cf. nota 9), também tema da resenha avaliativa final.
Na aula inaugural, explanaram-se a finalidade do curso – produção textual acadêmica – e as formas de avaliação. De igual maneira, foi reservado um tempo para que os alunos pudessem se apresentar e conhecer a professora. Além disso, houve uma conversa sobre ler e tomar notas durante o trabalho acadêmico, com base em leitura prévia de parte do livro intitulado Ler e tomar notas: primeiros passos da pesquisa bibliográfica, de autoria de Johnny José Mafra (Mafra, 2005), professor adjunto da PUC-Minas e doutor em Literatura Latina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A obra orienta o exame crítico de materiais acadêmicos:
[...] dada a natureza do estudo científico, a leitura informativa deve ser também crítica, o que significa que o leitor deve ser capaz de escolher e distinguir. Ler é, sobretudo, escolher, ou seja, distinguir os elementos importantes daqueles que não o são e, depois, optar pelos mais representativos e mais sugestivos (Mafra, 2005, p. 59).
Nesse sentido, observa-se que a discussão do autor vai ao encontro da perspectiva de gênero em dada esfera de atividade humana (Bakhtin, 2011; 2016a; Volóchinov, 2021[1929]), neste caso, a acadêmica. Nela, tipicamente estimulam-se o pensamento crítico e um embasamento sólido das produções em pesquisa discente e docente. Trata-se, aliás, das restrições naturais dos gêneros acadêmicos (Charaudeau, 2009; 2015; Maingueneau 2008; 2015), que colocam ao pesquisador os princípios de atuação em seu campo.
O segundo bloco foi constituído por quatro aulas, nas quais foram debatidas as regularidades dos gêneros resumo e resenha e alguns pontos de estabilidade que os caracterizam (Bakhtin, 2016). Os resumos e resenhas trazidos pelos alunos e pela docente à sala de aula foram estudados e debatidos a partir da ideia de que o texto/enunciado é a realidade imediata da comunicação humana em distintas esferas (Bakhtin, 2016b).
Além disso, os estudantes perceberam que resumos e resenhas circulam em diferentes esferas de atividade humana. São elas que regulam as restrições e os princípios de funcionamento e produção desses enunciados, preservando, entretanto, algumas de suas funções. Foram debatidas algumas diferenças entre resumos de livros, filmes e telenovelas, de dissertações, teses e artigos etc. Também foram colocadas em debate resenhas de filmes, documentários e obras científicas. Embora suas funções sejam, respectivamente resumir e avaliar, o fato de circularem em diferentes esferas altera estilos e formação composicional dos enunciados. Se, de um lado, na esfera artística predomina a função do entretenimento, de outro, na esfera acadêmica, predomina uma função de disseminação de conhecimento científico e desenvolvimento do pensamento crítico e analítico.
Com base nessas análises, os estudantes foram orientados a ler os capítulos 2 e 8 da obra Produção textual na universidade (Motta-Roth; Hendges, 2010), que abordam resenha e resumo acadêmicos. De perfil didático, o livro é amplamente utilizado em oficinas e defende que a produção de diversos gêneros é essencial à vida acadêmica, apesar de criticar o foco excessivo na quantidade e na publicação em detrimento, muitas vezes, da qualidade. Avançando em direção à teoria bakhtiniana, a obra defende que o Ensino Superior demanda fluência nos gêneros acadêmicos. Sendo assim, com base na leitura e na manipulação dos exemplos, os alunos chegaram aos seguintes princípios elementares:
Quadro 1 - Princípios gerais dos gêneros resumo e resenha acadêmicos
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RESUMO |
RESENHA |
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Define o problema de pesquisa |
Apresenta o enunciado resenhado |
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Estabelece o objetivo do trabalho |
Realiza uma descrição dele |
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Descreve a metodologia |
Realiza uma avaliação positiva ou não |
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Apresenta resultados |
Recomenda ou não |
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Retextualiza/reproduz dados de uma pesquisa, um artigo, uma dissertação ou tese de modo sucinto |
Retextualiza/reproduz os principais dados, em geral de uma obra, de modo sucinto, analítico e avaliativo |
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Circula na esfera acadêmica, literária e artística (ex. sinopses de filmes) |
Circula na esfera acadêmica, literária e artística |
Fonte: elaboração própria com base em Motta-Roth; Hendges (2010) e debate em sala de aula.
O quadro encerra especificidades basilares sem entrar em detalhamentos sobre cada um desses gêneros, o que foi sendo discutido ao longo encontros. Todavia, é interessante notar como os estudantes perceberam que os enunciados i) guardam essas regularidades distintas e ii) circulam em ambientes próprios (Marcuschi, 2008), como o caso da academia. Também houve comentários dos estudantes sobre o modo como uma análise desse tipo pode contribuir para retroalimentar o funcionamento da esfera acadêmica. Nesse sentido, considera-se que o objetivo de cultivar nos alunos a fluência nesses gêneros, ao ponto de serem capazes de tecer comentários críticos e interpretar a realidade comunicativa desses enunciados, foi alcançado.
Ainda no segundo bloco, o mais longo, a cada encontro, os alunos tomaram notas e deram início à produção de suas próprias resenhas e resumos com base em obras de sua preferência. Juntamente às discussões e ao trabalho docente, puderam aprimorar suas produções até que chegassem à escrita que julgaram ser apropriada. Como nessa fase foi possível analisar resumos e resenhas de diferentes esferas de atividade humana, os estudantes poderiam produzir esses gêneros a partir da retextualização de enunciados advindos do campo artístico ou literário. A maior parte dos trabalhos resultou em boas produções textuais.
O último bloco de aulas foi composto por três encontros. Neles, houve uma revisão dos principais pontos do resumo e da resenha, bem como de uma abordagem do ponto de vista da comunicação humana em relação a esses gêneros. Durante esses encontros, os estudantes tiraram suas dúvidas e prepararam o seminário com uma apresentação crítica da obra de Chomsky (2013 – cf. nota 9). Além disso, esses últimos encontros tiveram espaço reservado para que os alunos produzissem, agora de um ponto de vista avaliativo mais criterioso, outros resumos e resenhas acadêmicos. Aqui, eles precisavam se adaptar às restrições desses gêneros propriamente ditas e alcançaram bom resultado.
Embora não seja o foco da discussão deste artigo, a disciplina também contou o seminário. A ideia de sua realização foi para que os alunos interagissem e praticassem a oralidade de um ponto de vista formal e institucional. Por não ter sido o centro da disciplina e tampouco de nenhuma das oficinas, foi um trabalho livre, sem as pressões das restrições impostas pelo gênero. Por essa razão, neste artigo, não é discutido em profundidade. Ficam registrados apenas alguns dados e breve avaliação sobre a apresentação discente. Seis grupos organizaram-se para propor exposição e debate por cerca de vinte minutos sobre os temas tratados nas oficinas e na obra de Chomsky (2013). Todos eles cumpriram os objetivos: i) respeito ao tempo de apresentação para não tomar espaço do grupo subsequente; ii) avaliação crítica da obra; e iii) todos os membros do grupo deveriam falar.
Finalmente, o último encontro foi utilizado para revisão da disciplina, autoavaliação e entrega dos trabalhos finais. Também foi reservado tempo para alguns estudantes que desejassem rever suas produções, revisando-as e reescrevendo-as.
Apesar dos avanços, algumas dificuldades e tensões emergiram, indicando que a implementação de práticas de produção escrita, muitas vezes, enfrenta a influência de abordagens normativas da língua e a constante demanda de dedicação docente no que se refere à autorreflexão e à abertura para a abordagem discursiva. A perspectiva discursiva tende a levar os alunos à reflexão, ao contexto comunicativo dos gêneros e à sua constante transformação. A isso, somam-se os variados perfis dos graduandos que chegam à universidade com repertórios variados, e não raro, pouca familiaridade com os gêneros acadêmicos.
Outro ponto considerado é a própria carga horária das disciplinas voltadas à oficina de escrita acadêmica. Essa rigidez institucional pode dificultar o aprofundamento dos estudos e das discussões em sala de aula, tão necessário à prática reflexiva.
As tensões identificadas revelam a constante demanda por reavaliação e (re)adaptação das abordagens didáticas. Durante a condução de uma das oficinas, por exemplo, foi solicitado que os estudantes elaborassem um resumo crítico de um artigo da área de estudos da linguagem. Antes da produção, porém, foram fornecidas orientações prévias à leitura guiada e à realização da atividade. Ainda assim, alguns textos foram entregues com reproduções quase literais de excertos do estudo. Ao discutir as razões dessas ocorrências, alguns estudantes relataram insegurança na escrita de paráfrases com receio de desvios do sentido original. Esse caso sinalizou com clareza que alguns pontos estudados precisariam ser retomados, especialmente os exercícios de paráfrase e as discussões sobre estratégias de reformulação textual, implicando um redirecionamento, ao mesmo tempo em que era necessário seguir o cronograma.
O decorrer das oficinas e as readaptações dentro do cronograma evidenciaram não somente algumas lacunas na formação básica dos discentes, apesar da boa proficiência no contexto global, mas também a relevância do apoio institucional no que se refere a uma maior flexibilidade docente diante das necessidades reveladas no dia a dia das oficinas e maior quantidade de tempo disponível para o desenvolvimento das competências esperadas dos graduandos. Para além disso, a experiência presencial em sala de aula demonstra a importância dos estudos dos gêneros acadêmicos de uma perspectiva de constante modificação devido à própria natureza da atividade humana, sempre ativa e em constante transformação.
Considerações finais
À luz dos aspectos discutidos e diante da necessidade de procurar desenvolver, em graduandos, o aprimoramento da escrita acadêmica, o artigo procurou debater elementos de habilidade de escrita com base em pontos teóricos sobre os gêneros. Como visto, o estudo dos gêneros acadêmicos é parte integrante do Ensino Superior e evidencia seu crescente interesse na atualidade. Por isso, o artigo procurou refletir sobre o ensino de gêneros acadêmicos, especialmente o resumo e a resenha, em oficinas de produção textual a partir de postulados da teoria bakhtiniana.
O aprimoramento da escrita acadêmica no Ensino Superior impõe desafios, e o artigo procurou demonstrar que o estudo dos gêneros acadêmicos, de uma perspectiva comunicativa, configura modo razoável de superá-los. No intuito de debater a questão, o artigo objetivou, à luz teoria bakhtiniana, bem como de estudiosos do discurso e do texto, estabelecer a relação entre gêneros discursivos e prática de produção textual no Ensino Superior, em especial no Ciclo Básico do Curso de Letras. No percurso para alcançar o objetivo proposto, o trabalho realizou revisão bibliográfica e descreveu etapas de uma disciplina obrigatória do referido curso, que teve como objetivo estudar e produzir os gêneros acadêmicos resumo e resenha.
Dessa forma, em um primeiro momento, os gêneros foram situados na esfera acadêmica por meio de uma revisão de diversificadas abordagens sobre o assunto, configurando a primeira seção após a introdução. Em seguida, os gêneros discursivos foram apreendidos enquanto tipos relativamente estáveis de enunciados (Bakhtin, 2016a), com destaque para sua diversidade. Ainda de modo adicional, na referida seção, os gêneros, vistos de uma perspectiva discursiva, são produzidos partindo de um quadro de referência e restrições que engloba as interações discursivas produzindo enunciados. Essas observações, como exposto, vêm de dois autores que dialogam com o Círculo de Bakhtin: Charaudeau (2009; 2015) e Maingueneau (2008; 2015). Os dois autores representam um debate complementar e indicam que, na esfera acadêmica, ainda na atualidade, variadas abordagens teórico-metodológicas ainda se ocupam de explicar o fenômeno dos gêneros. Dessa maneira, o trabalho apresentou uma conjunção entre conceito de gêneros e seu aspecto discursivo.
Na tentativa de aproximar o debate sobre os gêneros de uma perspectiva teórico-metodológica textual, o artigo procurou discuti-los a partir da própria concepção de texto bakhtiniana (Bakhtin, 2016b). Nesse sentido, os textos são elos na cadeia de comunicação humana (Bakhtin, 2016a; Volóchinov, 2021[1929]). Além disso, a importante obra brasileira de Marcuschi (2008) trouxe a concepção de que os sujeitos produzem enunciados semelhantes, dependendo da esfera de atividade humana em que se encontra ao entrar na cadeia da comunicação discursiva. Sobre isso, foi possível compreender um ponto de confluência entre uma perspectiva do estudo do texto enquanto enunciado e a própria teoria bakhtiniana.
Assim, o artigo passou, então, a descrever etapas de uma disciplina obrigatória, constituída por oficinas de produção textual dos gêneros resumo e resenha acadêmicos, no intuito de discutir práticas de produção discente no Ensino Superior.
Durante as oficinas, os graduandos colocaram-se no debate sobre as restrições e as especificidades dos gêneros com base em enunciados reais. Houve desenvolvimento de análise crítica e produção de resumos e resenhas acadêmicos a partir de retextualização de enunciados advindos de diferentes esferas, incluindo, evidentemente, a acadêmica. Essa experiência demonstrou que esse tipo de condução de uma disciplina de produção textual possibilita a promoção do que se denomina fluência nos gêneros (Bakhtin, 2016a).
Os resultados revelados por essa abordagem evidenciaram a relevância dos estudos dos gêneros acadêmicos a partir de uma perspectiva discursiva, que leva em consideração o contexto comunicativo na produção escrita. Além disso, foi possível observar que o perfil heterogêneo dos estudantes, a restrição do tempo dedicado às oficinas e certa rigidez institucional impõem desafios diários ao docente, que se coloca diante de uma autorreflexão necessária para a efetivação da proposta. Ao docente, impõe-se a frequente necessidade de adaptações, mesmo diante do cumprimento do cronograma.
Em outras palavras, a experiência presencial em sala de aula demonstrou que, apesar de as discussões acerca dos gêneros não serem definitivas, dada a própria natureza da atividade humana em constante modificação, suas contribuições para o campo da educação são notáveis, uma vez que podem concorrer para o desenvolvimento de habilidades de escrita dos estudantes.
Para concluir, este artigo favoreceu a compreensão de que a análise e produção crítica de gêneros da esfera acadêmica pode ser enriquecida a partir da perspectiva comunicativa. Permanecem a serem consideradas, ainda, em que medida as oficinas produzem resultados satisfatórios, quando oferecidas em modalidade remota e/ou em modalidade presencial.
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Submetido: 12.03.2025.
Aprovado: 20.08.2025.
[1] Universidade de São Paulo, São Paulo: professora.alessandrafolha@gmail.com.
[2] Bom senso teórico, expressão de Marcuschi (2008), aponta a teoria bakhtiniana como convergência de distintas visões sobre os gêneros.
[3] A próxima seção discutirá gêneros de uma perspectiva textual.
[4] A seguinte citação de Maingueneau (2008, p. 123) é esclarecedora sobre a cenografia: “Um romance, por exemplo, pode ser enunciado por meio de uma cenografia do diário íntimo, do relato de viagem [...] A noção de cenografia se apoia na ideia de que o enunciador, por meio da enunciação, organiza a situação a partir da qual pretende enunciar”.
[5] Refere-se às disciplinas das ciências humanas.
[6] Esses estudos encontram interlocução não somente com a teoria bakhtiniana, mas nos princípios/fatores de textualidade (Beaugrande; Dressler, 1981; Bentes; Rezende, 2008).
[7] Retextualização é, em linhas gerais, um processo que converte um enunciado de um gênero em outro tipo de enunciado (Marcuschi, 2008). O resumo de um artigo é um processo de retextualização que preserva informações, ao mesmo tempo em que altera sua estrutura e função.
[8] Objetivos específicos que planejamos para o curso: i) Compreender a relevância de leitura crítica e tomada de notas para formação acadêmica; ii) Compreender as especificidades dos gêneros acadêmicos resumo e resenha; iii) Produzir e refletir criticamente sobre os gêneros acadêmicos resumo e resenha.
[9] Trata-se de seminário de análise crítica da seguinte obra: Chomsky, N. Mídia: propaganda política e manipulação. Trad. Fernando Santos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013. A escolha da obra ocorreu após designação do corpo docente/colegiado para todas as turmas da mesma disciplina. O plano de ensino e a metodologia didática, no entanto, foram de livre elaboração pelos docentes.