Educação intergeracional em contexto universitário: uma revisão de escopo[1]

 

Jennifer Yorrane Nascimento Rufo[2]

https://orcid.org/0009-0009-4531-0786

 

Thaís Branquinho Oliveira Fragelli[3]

https://orcid.org/0000-0001-9378-0066

 

 

Resumo

O presente trabalho teve o objetivo de investigar as práticas pedagógicas intergeracionais em universidades. Foi realizada uma revisão de escopo orientada pela metodologia Joanna Briggs Institute (JBI) Evidence Synthesis. Utilizaram-se as bases SCOPUS, ERIC e Web of Science; e estratégia de busca com termos padronizados do tesauro do ERIC e palavras-chave de artigos sobre o tema. Foram identificados 529 estudos nas bases de dados sendo que 23 artigos foram elegíveis para a pesquisa. Conclui-se que a intergeracionalidade no Ensino Superior amplia oportunidades de aprendizagem ao longo da vida; contribui para a construção de uma universidade humanizada, democrática e transformadora; e reduz os estereótipos relacionados ao envelhecimento humano.

 

Palavras-chave: Educação intergeracional. Idosos. Jovens. Gerontologia. Universidade.

 

Intergenerational education in a university context: a scoping review

 

Abstract

The present study aimed to investigate intergenerational pedagogical practices in universities. A scoping review was conducted using the Joanna Briggs Institute (JBI) Evidence Synthesis methodology. The SCOPUS, ERIC, and Web of Science databases were used, using a search strategy with standardized terms from the ERIC thesaurus and keywords from articles on the subject. A total of 529 studies were identified in the databases, of which 23 articles were eligible for the research. It is concluded that intergenerationality in higher education expands opportunities for lifelong learning, contributes to the construction of a humanized, democratic, and transformative university, and reduces stereotypes related to human aging.

 

Keywords: Intergenerational education. Elderly people. Young people. Gerontology. University.

 

 

Introdução

 

Em 2022, no Brasil, a população idosa representava 10,9% do total, com um crescimento de 57,4% em relação a 2010 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2023). Esse cenário revela uma importante transição demográfica, evidencia uma inversão da pirâmide etária, menos crianças e mais adultos, e traz novos desafios e oportunidades para a sociedade visto que possibilita o aumento da presença de idosos no mercado de trabalho e em universidades, espaços que antes eram predominantemente ocupados por jovens (Albiero; Maciel; Lima, 2022).

Nesse contexto, emerge a educação intergeracional que implica uma troca e a construção de saberes entre diferentes gerações (Lovell et al., 2018), prática é defendida por Freire (1996) em Pedagogia da autonomia, em que a construção de saberes é compartilhada entre jovens e idosos. Diante desse quadro, considera-se importante sensibilizar a comunidade para atender às necessidades desse grupo, especialmente em áreas como saúde e educação.

É comum associar a educação intergeracional à troca informal de saberes, integrados ao cotidiano e desenvolvidos pelo senso comum, tais como aqueles transmitidos por meio de histórias, cultura, rituais e observações, que, de acordo com Freire (1996) em Pedagogia da autonomia, são os saberes da pura experiência, ou seja, a prática. No entanto, a educação entre gerações não se limita somente a esses contextos; pode ser integrada na promoção de saúde física e mental dos idosos por meio de ações educativas e de estímulo à cidadania, empoderamento e desenvolvimento social (Vanderbeck; Worth, 2015). Nesse aspecto, a educação intergeracional favorece o rompimento do etarismo ou idadismo, uma visão preconceituosa em relação à população idosa (Palmeirão; Menezes, 2009).

No Brasil, um exemplo de prática de educação intergeracional acontece na Universidade de Brasília (UnB), que implantou em 2024 o primeiro vestibular 60+. Além disso, a instituição também oferece, desde 2015, um programa de extensão por meio de um curso de Educador Político Social em Gerontologia na Universidade do Envelhecer (UniSER), que busca implementar a educação e a saúde, transformando a vida de idosos (UnB, 2024). Assim, considerando a mudança no perfil sociodemográfico e a realidade de inserção de estudantes 60+ em ambientes universitários, surge a necessidade de investigar as estratégias pedagógicas utilizadas em salas de aula intergeracionais em universidades, constituindo, assim, o objetivo deste estudo.

 

Metodologia

 

O presente estudo constitui uma revisão de escopo orientada pela metodologia Joanna Briggs Institute (JBI) Evidence Synthesis para revisões de escopo (Peters et al., 2020) e, relatada com uso do Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analysis for Scoping Review (PRISMA-ScR) (Page et al., 2021).

 

Pergunta de pesquisa

Conforme Peters et al. (2020), foi utilizada a estratégia PCC (Problema, Conceito e Contexto) para formulação da questão de pesquisa: (a) Problema: estratégias pedagógicas; (b) Conceito: intergeracionalidade; (c) Contexto: universitário. Assim, a presente revisão foi orientada pela seguinte questão: “Quais práticas pedagógicas promovem a troca de saberes intergeracionais no ambiente universitário?”.

 

Critérios de inclusão e exclusão

A presente revisão segue os seguintes critérios de inclusão: 1) estudos com foco em estudantes universitários; 2) estudos que abordem a interação intergeracional no ambiente universitário; e 3) estudos que apresentem estratégias pedagógicas relacionadas ao tema.

Os critérios de exclusão são: 1) estudos que tratem exclusivamente de validação de instrumentos; 2) trabalhos que discutam interações intergeracionais fora do contexto universitário; 3) pesquisas que abordem diferenças geracionais entre professores e estudantes; e 4) conferências, capítulos de livros, editoriais e notas. Não foram aplicados critérios de elegibilidade relacionados ao idioma, foram aceitos quaisquer que fossem identificados, e todos os artigos encontrados foram considerados, independentemente da data de inserção nas bases de dados.

 

Fontes e estratégias de busca

A busca foi realizada nas bases de dados SCOPUS, Education Resources Information Center (ERIC) e Web of Science no período de outubro de 2024 a novembro de 2024. Optou-se por realizar as buscas nas bases elencadas por se tratar de fontes amplamente reconhecidas pela qualidade, interdisciplinaridade e abrangência das publicações indexadas, incluindo periódicos brasileiros e estrangeiros. Essa opção permitiu reunir estudos de diferentes contextos, favorecendo uma visão comparativa e abrangente sobre o tema investigado. Elaborou-se a estratégia de busca utilizando termos padronizados do tesauro do ERIC e palavras-chave de artigos sobre o tema. Posteriormente, a estratégia foi estruturada, para buscar informações nas bases de dados científicas mencionadas anteriormente, conforme o Quadro 1. Uma busca adicional foi realizada nas citações dos artigos selecionados.

 

Tabela

Descrição gerada automaticamente

 

Seleção dos estudos

A seleção foi realizada de acordo com as seguintes etapas: 1) identificação do número de artigos que apareceram sem filtros (separando cada base de dados); 2) exclusão de conferências, capítulos de livros, editoriais e notas (em cada base de dados); 3) remoção de artigos duplicados; 4) leitura dos títulos e dos resumos para eliminar estudos que não cumpriram os critérios de inclusão; e 5) leitura completa dos textos para a seleção final dos artigos.

 

Extração e análise dos dados

Em planilha do Google Sheets foram extraídos os seguintes dados: país de origem, objetivos dos estudos, definições de educação intergeracional, público-alvo, contexto, tipo de estudo realizado, métodos de coleta de dados, tamanho da amostra, descrição das intervenções, duração, componentes principais das intervenções, stakeholders envolvidos, principais resultados, impactos em diferentes gerações, aspectos sociais e culturais, barreiras e facilitadores, teorias ou modelos utilizados, recomendações e lacunas existentes.

Foi realizada uma análise qualitativa com agrupamento por temáticas e a plotagem dos países em gráfico de mapa por meio do software Venngage para melhor visualização dos dados. O Venngage constitui uma ferramenta online para criação de designs para visualização de informações de maneira personalizada que favorece a apresentação gráfica dos resultados (Devanesan, 2025).

 

Resultados

 

Foram identificados 529 estudos nas bases de dados, sendo 23 artigos classificados como elegíveis para a pesquisa, as etapas de seleção podem ser visualizadas na Figura 1.

 

Figura 1 – Fluxograma do processo de inclusão dos artigos encontrados

Diagrama

Descrição gerada automaticamente

Fonte: elaboração própria

 

 

A Figura 2 mostra a distribuição geográfica dos estudos analisados.

 

Figura 2 – Distribuição geográfica dos estudos analisados

Mapa

Descrição gerada automaticamente

Fonte: elaboração própria

 

No Quadro 2 são apresentadas as informações das análises individuais dos artigos incluídos no presente trabalho.


Tabela

Descrição gerada automaticamenteTabela

Descrição gerada automaticamenteTabela

Descrição gerada automaticamente


Na seção a seguir, discorre-se sobre a concepção de educação intergeracional na visão apresentada pelas pesquisas analisadas.

 

Definição de educação intergeracional

 

A educação intergeracional é abordada de maneira diversa na literatura. Em sua maioria, visa a uma educação que promove o conhecimento e/ou a saúde dos participantes. Ayers e Narduzzi (2009), por exemplo, veem-na como processo formal ou informal enquadrado no contexto acadêmico, que transmite conhecimento entre diferentes gerações, uma concepção tradicional, voltada principalmente à transferência de conhecimento, e não à interação entre gerações. Essa concepção aproxima-se da visão de Corrigan, Mcnamara e O'Hara (2013), que a compreendem como uma estratégia de aprendizagem que favorece a relação entre diferentes culturas e a solidariedade entre gerações.

Já Castro et al. (2014) definem a educação intergeracional em três pontos fundamentais: (1) a promoção do conhecimento entre gerações; (2) a construção e reconstrução de relacionamentos; e (3) a participação coletiva em contextos compartilhados. Complementando essas perspectivas, Cheng e Lyu (2024) apresentam a ideia de “educação reversa”, na qual os mais jovens assumem o papel de educadores, ensinando os mais velhos. Nessa mesma linha, Forster et al. (2021) definem a educação intergeracional como atividades formais que engajam diferentes gerações na coaprendizagem, tanto em ambientes educacionais como não educacionais.

Leedahl et al. (2018) reforçam essa perspectiva ao entender a educação intergeracional como programas que promovem a colaboração entre gerações, voltados à troca de conhecimentos e ao apoio mútuo. Lovell et al. (2018) também enfatizam a interação entre diferentes gerações, com foco na aprendizagem mútua e na valorização dos saberes compartilhados. Satterly, Cullen e Dyson (2018), por sua vez, destacam a troca de saberes e habilidades entre gerações em ambientes acadêmicos, sem hierarquias, promovendo um espaço de protagonismo equitativo. Versen (1986) acrescenta que programas intergeracionais também podem ter como objetivo a redução de estereótipos geracionais e o fortalecimento da compreensão mútua.

Apesar de Darkenwald e Novak (1997) não apresentarem uma definição formal, destacam o valor dos ambientes de aprendizagem com idades mistas e a importância da interação intergeracional no processo de envelhecimento.

Lai e Kaplan (2016) apresentam uma concepção cognitiva, na qual a educação intergeracional é aplicada como ferramenta pedagógica no ensino de segunda língua (L2), valorizando o compartilhamento de interesses, histórias e experiências, um enfoque construtivista com forte caráter curricular. Lai et al. (2025) propõem uma perspectiva afetivo-social, ao investigar as percepções, motivações e desafios de idosos e jovens em programas intergeracionais, demonstrando que tais práticas promovem a socialização, a inclusão e o respeito mútuo, contribuindo para a saúde emocional dos envolvidos.

Por outro lado, alguns estudos tratam do contexto intergeracional, mas não definem explicitamente seu conceito. É o caso de autores como Bekebrede, Warmelink e Mayer (2011); Clare et al. (2019); Howard, James III e Taylor (2002); Kolnhofer-Derecskei, Reicher e Szeghegyi (2017); Mokhtari et al. (2021); Pan, Lu e Tsai (2015); Sobkin, Lykota e Petrakova (2023); Stark e Howell (2016); Fincias e Gonzalez (2021); Wessels e Steenkamp (2009); e Witkowsky e Ferguson (2021). Apesar de investigarem as interações entre diferentes gerações, não se dedicam à conceituação do termo, evidenciando a necessidade de maior precisão teórica, considerando o crescimento dessas práticas em ambientes educacionais, como o universitário.

 

Aspectos culturais e sociais das diferentes gerações

 

Observa-se que, ao enfatizar o reforço da inclusão e desafiar as normas sociais de segregação entre faixas etárias, a intergeracionalidade tem impactos tanto culturais quanto sociais (Lai et al., 2025). É por meio da educação e da interação que se promovem a inclusão digital e as trocas entre diferentes gerações (Cheng; Lyu, 2024), considerando que cada uma possui características marcantes. Como afirmam Wessels e Steenkamp (2009), a geração Y é mais colaborativa, enquanto a geração X tende a ser mais individualista. A troca de saberes permite que uma geração aprenda com a outra, equilibrando conhecimentos práticos e tecnológicos, como a geração da televisão (X) que assimila valores de colaboratividade e independência da geração Y.

Além disso, as interações nos contextos culturais observados em populações hispânicas e irlandesas e na história colonial de Hong Kong demonstram que as mudanças socioculturais influenciam o relacionamento com os ambientes educacionais (Sobkin; Lykota; Petrakova, 2023). Um fator importante a ser destacado é a introdução gradual das tecnologias na educação ao longo do tempo, considerada um dos principais desafios para gerações que tiveram pouca ou quase nenhuma interação em sua juventude (Mokhtari et al., 2021). No entanto, Stark e Howell (2016) apontam que turmas mistas são uma alternativa viável para facilitar a integração dessas tecnologias na aprendizagem, apesar dos desafios existentes.

Por fim, as trocas intergeracionais fortalecem os valores culturais (Leedahl et al., 2018) e reforçam a inclusão social (Lai et al., 2025), desafiando normas de segregação geracional e combatendo estigmas relacionados ao envelhecimento (Versen, 1986). É importante destacar que há uma predominância feminina na participação em eventos e graduações e em formações acadêmicas voltadas à intergeracionalidade, como por exemplo a gerontologia, conforme destacado no estudo de Castro et al. (2014). Fincias e Gonzalez (2021) notaram que a taxa de formação acadêmica entre idosos ainda é baixa. No entanto, de acordo com o Censo da Educação Superior, no Brasil, a população idosa tem ocupado mais espaços nas faculdades, só em 2023 mais de 51 mil idosos estavam matriculados, o que representa um crescimento de 82% se comparado a 2012. De acordo com o Mapa do Ensino Superior do Instituto Semesp, de 2012 a 2022 houve um aumento de 15% nos cursos presenciais e 577% em cursos de Ensino a Distância (EAD). No entanto, destaca-se que a presença no Ensino Superior não implica em conclusão dos cursos, o que ressalta a necessidade de dados que incluam as taxas de evasão e de permanência nas diferentes instituições de Ensino Superior (Ensino Superior, 2025).

 

Intervenções intergeracionais realizadas

 

Os resultados expostos nesta seção destacam a análise relacionada à descrição da duração, dos componentes principais, dos stakeholders e dos modelos teóricos utilizados.

 

Duração

O programa de Cheng e Lyu (2024) teve duração de quatro meses, enquanto a proposta de Leedahl et al. (2018) estendeu-se por um semestre acadêmico. As experiências de intercâmbio cultural de Lai et al. (2025) e Corrigan, Mcnamara e O’Hara (2013) variaram de ações pontuais a projetos contínuos, conduzindo atividades durante um período de quatro anos.

Já Forster et al. (2021) relatam uma intervenção contínua, iniciada em 2014, incorporada ao currículo universitário. Castro et al. (2014) desenvolveram sua proposta durante 2 anos, somando 36 créditos ao percurso acadêmico dos estudantes envolvidos.

Os demais artigos não apresentam informações sobre a duração de suas intervenções intergeracionais.

 

Estratégias utilizadas

As principais estratégias identificadas incluem sessões de mentoria personalizada (Leedahl et al., 2018), suporte emocional e tecnológico (Cheng; Lyu, 2024), atividades culturais e de lazer (Corrigan; Mcnamara; O’Hara, 2013; Lai et al., 2025), práticas pedagógicas compartilhadas (Castro et al., 2014; Forster et al., 2021) e metodologias inclusivas que valorizam a experiência de vida dos idosos e promovem jovens em processos de coaprendizagem.

No estudo de Cheng e Lyu (2024), jovens universitários contribuíram para o ensino e suporte emocional a idosos no uso de smartphones. Leedahl et al. (2018) apresentam uma prática semelhante, com foco na mentoria reversa, na qual estudantes universitários auxiliam idosos no uso de tecnologias por meio de sessões presenciais personalizadas.

Outras abordagens incluem o intercâmbio cultural. Lai et al. (2025), em Hong Kong, desenvolveram atividades como tours culturais, ensino de idiomas e design de brinquedos, promovendo a interação entre universitários, idosos e jovens. Corrigan; Mcnamara; O’Hara (2013), na Irlanda, propôs atividades culturais com estudantes de diferentes áreas e faixas etárias, valorizando a troca intergeracional e o desenvolvimento de competências.

Também foram observadas práticas que envolvem a participação ativa de idosos em projetos pedagógicos. Forster et al. (2021) integraram idosos em cursos de design, como coeducadores no ensino e avaliação do módulo, promovendo o design intergeracional. Semelhantemente, Castro et al. (2014) incorporaram jovens e idosos em disciplinas curriculares, com atividades reflexivas e metodologias inclusivas.

Os artigos referem que a necessidade de criação de espaços abertos para a interação e troca de conhecimento por atividades colaborativas facilita o engajamento e a integração entre as gerações (Lai et al., 2025).

A estruturação educacional é essencial para facilitar o ensino-aprendizagem, principalmente aqueles processos que contemplem os diferentes perfis dos alunos, e oferece suporte contínuo (Cheng; Lyu, 2024). Um fator-chave é o interesse mútuo e o compartilhamento de histórias, ao valorizar o conhecimento e as vivências de ambas as gerações, fortalecendo laços e aprimorando o comprometimento com o aprender (Clare et al., 2019).

A personalização do ensino pode ser benéfica, mas é um campo pouco explorado, especialmente para ser aplicado em outros espaços (Kolnhofer-Derecskei; Reicher; Szeghegyi, 2017).

 

Stakeholders/ atores envolvidos

Os stakeholders envolvidos nas iniciativas são majoritariamente instituições de Ensino Superior; professores universitários; pesquisadores; estudantes de diferentes faixas etárias; idosos da comunidade; centros culturais e comunitários; e facilitadores de programas educacionais (Castro et al., 2014; Cheng; Lyu, 2024; Corrigan; Mcnamara; O’Hara, 2013; Forster et al., 2021; Lai; Kaplan, 2016; Leedahl et al., 2018).

 

Teorias e modelos utilizados nas intervenções

Foram encontradas diversas abordagens teóricas, entre elas o modelo de envelhecimento ativo da Organização Mundial da Saúde – OMS – (2005), que enfatiza o respeito e a inclusão participativa dos idosos na sociedade, tanto na obra de Clare et al. (2019) quanto na de Lai et al. (2025). Também foi identificada a abordagem de aprendizagem transformadora de Meirow e a teoria da ação comunicativa de Habermas desenvolvida por Corrigan, Mcnamara e O’Hara (2013), que potencializa a reflexão crítica por meio das interações intergeracionais.

O construtivismo de Piaget é utilizado na intervenção de Witkowsky e Ferguson (2021), que enfatiza a colaboração e a importância do contexto social na construção do saber. Também se destaca no estudo de Satterly, Cullen e Dyson (2018) a Teoria Geracional de Howe e Strauss (2007), que afirma que pessoas nascidas em um mesmo período compartilham comportamentos semelhantes, com valores que se transformam conforme a geração e as influências externas dominantes. Além disso, o Modelo de Mentoria Reversa de Murphy (2012),no qual jovens educam pessoas mais velhas, é mencionado na obra de Satterly, Cullen e Dyson (2018).

Por fim, os demais artigos não citam explicitamente as teorias ou modelos em que se basearam. No entanto, observa-se uma relação com o modelo da OMS (2005) e, de modo geral, uma centralidade na gerontologia.

 

Barreiras e facilitadores encontrados na educação intergeracional

 

Entre os principais obstáculos apontados está a dificuldade de adaptação, seja na diferença de linguagem, seja nos interesses e expectativas (Corrigan; Mcnamara; O’Hara, 2013; Lai; Kaplan, 2016). A falta de conhecimentos e de preparo para e com as tecnologias também é apontada como um fator de frustração e desânimo para os idosos, o que consequentemente impacta a sua participação (Leedahl et al., 2018; Lovell et al., 2018).

Witkowsky e Ferguson (2021) indicam que o uso das tecnologias no ensino é limitado, há abordagens intergeracionais que não reaproveitam as diferenças e experiências e não conseguem trabalhar com elas.

Para as instituições, é indicada como desafiadora a necessidade de adaptação dos métodos de ensino para um público heterogêneo de jovens e adultos, na qual se enfrenta a necessidade pelo equilíbrio da dinamização (Castro et al., 2014; Forster et al., 2021).

Também foi destacada a resistência às mudanças, tanto pelos jovens quanto pelos idosos, que podem demonstrar receio na interação com outras gerações, seja por preconceitos, seja por insegurança ou estigmatização (Satterly; Cullen; Dyson, 2018; Versen, 1986).

 

Impactos das intervenções intergeracionais

 

Dentre os benefícios das intervenções são apontados, tanto para os jovens quanto para os idosos, o ouvir e o falar, na compreensão mútua; a redução de estereótipos; e o desenvolvimento de competências emocionais e cognitivas (Fincias; Gonzalez, 2021). Segundo Clare et al. (2019), os programas e as experiências entre gerações provêm mudanças comportamentais comprovadas, como a saúde mental e o bem-estar.

Além disso, estudos indicam que a interação auxilia na construção de valores e atitudes, permitindo que jovens adquiram sabedoria prática e componham uma visão positiva sobre os idosos (Lai et al., 2025). Impacto esse reforçado por pesquisas como as de Cheng e Lyu (2024), que destacam o desenvolvimento de habilidades pedagógicas nos jovens ao desenvolverem o aprendizado tecnológico com os idosos – são trocas enriquecedoras para ambos os grupos.

Por fim, a empatia e a cooperação são outro efeito dessas iniciativas que consequentemente quebram estereótipos, estabelecendo o fortalecimento de confiança entre diferentes gerações. Finalmente, são essenciais os impactos dessas intervenções para a inclusão e a coletividade (Forster et al., 2021).

 

Discussão

 

Este estudo investigou as estratégias pedagógicas utilizadas em salas de aula intergeracionais no Ensino Superior, com foco nas trocas de aprendizagem entre jovens e idosos. A partir da revisão de literatura, observou-se que a intergeracionalidade contribui para a construção de saberes mútuos, desenvolvimento da empatia, melhoria da saúde mental e promoção da inclusão social (Leedahl et al., 2018; Lovell et al., 2018; Vanderbeck; Worth, 2015).

Nesse contexto, de acordo com a distribuição geográfica dos estudos é possível compreender que as nações com maior taxa de envelhecimento investem mais na educação continuada de idosos, promovendo a intergeracionalidade como prática pedagógica transformadora (Freire, 1996). Outro ponto é que a predominância do envelhecimento populacional nesses países os leva a uma preocupação maior com políticas de inclusão intergeracional, não somente por compromisso social, mas também por necessidade demográfica e econômica, como destaca o Relatório Mundial sobre o Idadismo (OMS, 2022), ao apontar que reduzir o idadismo gera benefícios econômicos significativos ao ampliar a participação ativa de idosos. Contudo, é importante considerar que a predominância desses estudos também pode refletir limitações das bases internacionais de indexação, que concentram publicações em inglês e de países desenvolvidos, sub-representando pesquisas de contextos em desenvolvimento.

As evidências apontam que, ao interagirem com os mais jovens, os estudantes idosos experimentam ganhos em autoestima, bem-estar emocional e autonomia. Por sua vez, os jovens participantes relatam desenvolver a paciência, a  sensibilidade e habilidades de comunicação ao adaptarem suas formas de ensinar, como ocorre na mentoria reversa (Satterly; Cullen; Dyson, 2018). Esse processo de troca fortalece a ideia de aprendizagem como dinâmica e social, conforme os princípios do construtivismo de Piaget (1978) e da pedagogia libertadora de Freire (1996).

Destacou-se a troca de saberes e experiências entre gerações como fator fundamental. A convivência entre jovens e idosos é descrita como enriquecedora, afetiva e baseada no respeito mútuo, aproximando-se da concepção de educação como prática de liberdade, conforme propõe Freire (1996), ao enfatizar o diálogo, a escuta e o reconhecimento do outro como sujeito.

A educação intergeracional promove benefícios tanto emocionais quanto pedagógicos, como mostram Clare et al. (2019) e Cheng e Lyu (2024), ao associarem esse tipo de prática ao desenvolvimento da autonomia, do bem-estar e da saúde mental dos estudantes idosos.

Essas interações também desempenham um papel fundamental no enfrentamento do idadismo, entendido como o preconceito ou discriminação baseada na idade. O Relatório Mundial sobre o Idadismo (OMS, 2022) destaca que o contato intergeracional é uma das estratégias mais eficazes para reduzir estereótipos negativos sobre a velhice e promover o respeito entre gerações. Nesse sentido, as práticas pedagógicas intergeracionais não somente beneficiam os sujeitos envolvidos, mas também contribuem para a construção de sociedades mais inclusivas e justas, alinhadas aos princípios globais de equidade e direitos humanos.

No Brasil, legislações como a Lei n.º 10.741, de 1.º de outubro de 2003 (Brasil, 2003), que traz o Estatuto do Idoso; a Lei n.º 8.842, de 4 de janeiro de 1994 (Brasil, 1994), que dispõe sobre a Política Nacional do Idoso; o Plano Nacional de Educação (2014-2024) (Brasil, 2014); e as diretrizes internacionais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO – (2025) e da OMS (2005) sobre envelhecimento ativo enfatizam a importância de garantir o acesso, a permanência e o bem-estar da população idosa no Ensino Superior.

Entretanto, os dados também revelaram lacunas e desafios, tais como a ausência de práticas pedagógicas voltadas à intergeracionalidade e a falta de formação docente para lidar com turmas heterogêneas em termos de faixa etária. Esse ponto já é apontado por Versen (1986) e Forster et al. (2021), que destacam a necessidade de repensar as estratégias pedagógicas para atender às demandas de diferentes gerações. Isso indica que, embora a intergeracionalidade exista, ainda há desconexão entre teoria e prática, reforçando a necessidade de políticas institucionais e públicas que reconheçam e promovam intencionalmente essas abordagens.

Outra lacuna apontada nos estudos foi a necessidade de mais investigações longitudinais sobre os impactos da interação entre estudantes jovens e idosos, principalmente no ambiente acadêmico, social e emocional de ambos os grupos (Cheng; Lyu, 2024; Clare et al., 2019). Além disso, a maioria dos estudos concentra-se em contextos específicos, dificultando a generalização das descobertas para outros ambientes educacionais (Lai; Kaplan, 2016).

Outro ponto é a falta de pesquisas direcionadas a metodologias pedagógicas efetivas para proporcionar o aprendizado intergeracional, considerando diferenças no percurso acadêmico, experiências de vida e níveis de confiança com tecnologias digitais (Pan; Lu; Tsai, 2015; Wessels; Steenkamp, 2009).

Diante dessas lacunas, recomenda-se investigar os efeitos da educação intergeracional ao longo do tempo para compreender sua influência na aprendizagem, no desenvolvimento de ciclos sociais e na permanência dos estudantes idosos no Ensino Superior (Cheng; Lyu, 2024; Clare et al., 2019); conduzir estudos em diferentes países e tipos de instituições para garantir que as descobertas sejam aplicáveis a realidades diversas (Lai; Kaplan, 2016; Sobkin; Lykova; Petrakova, 2023); desenvolver e avaliar estratégias pedagógicas que promovam a inclusão e o protagonismo dos estudantes idosos e jovens, considerando o uso de tecnologias e metodologias ativas e a mediação docente (Pan; Lu; Tsai, 2015; Wessels; Steenkamp, 2009); e, por fim, incentivar mais implementações e o desenvolvimento de  políticas institucionais que fortaleçam programas intergeracionais, com capacitação continuada de professores, suporte psicopedagógico e espaços de convivência que estimulem a troca de saberes entre gerações (Corrigan; Mcnamara; O’Hara, 2013; Versen, 1986).

Por fim, os dados apontam que a intergeracionalidade não deve ser entendida somente como um encontro entre faixas etárias diferentes, mas como uma abordagem pedagógica potente para promover socialização, inclusão e aprendizagem colaborativa. A presença de idosos no Ensino Superior amplia as possibilidades de construção de saberes em comunidade, desafiando estereótipos geracionais e promovendo a empatia entre estudantes. Essa perspectiva está de acordo com os princípios do construtivismo de Piaget (1978), que defende a aprendizagem como construção ativa e contextualizada; e da pedagogia libertadora de Freire (1996), que propõe a educação como espaço de diálogo e transformação mútua.

 

Considerações finais

 

Este estudo investigou as estratégias pedagógicas utilizadas em salas de aula intergeracionais no Ensino Superior, com foco nas trocas de aprendizagem entre jovens e idosos. Nesse contexto, a presente pesquisa buscou oferecer perspectivas sobre o tema para pesquisadores e educadores, trazendo insights que também podem ser úteis para formuladores de políticas públicas ao considerarem a idade e outras variáveis que impactam a experiência educacional.

Nesse aspecto, o presente estudo promove a discussão sobre uma realidade crescente do aumento da expectativa de vida e da longevidade, o que, por sua vez, favorece o convívio de diferentes gerações por muito mais tempo.

A pesquisa colabora para a compreensão sobre o modo como as práticas intergeracionais têm se desenvolvido considerando essa nova realidade. Essa compreensão se faz necessária, visto que indivíduos 60+ têm, cada dia mais, se tornado mais participativos da sociedade, contrariando a antiga concepção do refúgio doméstico da aposentadoria, adentrando em espaços que antes eram majoritariamente ou quase exclusivamente dominados pela presença dos jovens, a exemplo das universidades.

Para a ciência, este estudo contribui para agregar reflexões sobre o tema, disponibilizando um mapeamento de evidências em que futuros estudos podem se fundamentar e/ou ampliar suas discussões.

Para a sociedade, o presente trabalho reflete as necessidades da população 60+, que envelhece ativamente e participativamente, em vários campos e espaços.

Destaca-se ainda que este estudo apresenta limitações, pois, embora tenham sido envidados esforços na tentativa de saturar a busca por meio de uma estratégia abrangente, ainda assim, há a possibilidade de que alguns estudos não tenham sido encontrados, a exemplo da sub-representação de estudos brasileiros. Reconhece-se assim, como limitação do estudo, que a ausência de produções nacionais possa ser em razão da opção por bases de dados internacionais. Enfatiza-se que, embora a Web of Science inclua o SciELO Citation Index, o que permite o acesso parcial a periódicos brasileiros, essa cobertura não contempla toda a produção científica nacional. Dessa forma, alguns estudos relevantes publicados em revistas não indexadas nessas bases podem não ter sido identificados na presente revisão. Inclui-se também a possibilidade de limitação por meio da estratégia utilizada.

Recomenda-se, assim, ampliar estudos intergeracionais em contextos diversos, incluindo bases brasileiras, com investigações de longo prazo que considerem os efeitos sociais, emocionais e educacionais dessa convivência. É fundamental que as estratégias pedagógicas valorizem o protagonismo dos idosos e incentivem o uso acessível das tecnologias digitais, promovendo um ambiente mais inclusivo, colaborativo e respeitoso com todas as gerações.

Assim, conclui-se que a intergeracionalidade no Ensino Superior não somente amplia oportunidades de aprendizagem ao longo da vida, mas também contribui para a construção de uma universidade humanizada, democrática e transformadora.

 

Referências

 

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Submetido: 26.06.2025.

Aprovado: 14.10.2025.



[1] Pesquisa resultado de Trabalho de Conclusão de Curso da primeira autora.

[2] Universidade de Brasília, Brasília: jenniferyorrane37@gmail.com.

[3] Universidade de Brasília, Brasília: thaisfragelli@unb.br.