O que pode a fronteira (Brasil-Uruguai)? de fotografias, paisagens e educações ambientais[1]

 

What can the Brazil–Uruguay border do? Of photographs, landscapes, and environmental educations

 

¿ qué puede hacer la frontera (Brasil-Uruguay)? de fotografías, paisajes y educación ambiental

 

 

Juliana Corrêa Pereira Schlee[2], http://orcid.org/0000-0002-3566-2181

 

Paula Corrêa Henning[3], http://orcid.org/0000-0003-3697-9030

 

 

Resumo:

O presente artigo, de caráter ensaístico, tem como objetivo principal problematizar o que se entende como o espaço “fronteira”, compreendendo-o como um contraespaço, uma possibilidade heterotópica. Para isso buscam-se intercessores da Filosofia da Diferença para compor o referencial teórico, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Didi-Huberman. Por meio da trama entre arte, filosofia e educação ambiental, compôs-se como traçado metodológico, em um aprofundamento teórico e analítico, a problematização de algumas fotografias (arquivo pessoal) e alguns ditos do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense do escritor Aldyr Garcia Schlee. A partir do corpus empírico sobre a mesa, conclui-se que a fronteira pode ser um espaço heterotópico, para além das noções e imagens-clichês que se acostumou a experimentar nesse espaço híbrido. Assim, o texto provoca o(a) leitor(a) a pensar outros modos de ver e habitar os espaços, os lugares e, aqui neste estudo, a fronteira.

Palavras-chave: Educação Ambiental; fronteira; heterotopia; ecosofia; fotografia.

 

 

Abstract:

This essayistic article primarily aims to problematize what is understand as the space known as the “border”, approaching it as a counter-space and a heterotopic possibility. To this end, we draw on interlocutors from the Philosophy of Difference—such as Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, and Georges Didi-Huberman—to develop the theoretical framework. Through the interweaving of art, philosophy, and environmental education, the methodological approach consisted of an in-depth theoretical and analytical examination of selected photographs from a personal archive and of several sayings included in Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense, by the writer Aldyr Garcia Schlee. Based on the empirical corpus at hand, we conclude that the border can constitute a heterotopic space, beyond the clichéd notions and images through which we are accustomed to experiencing this hybrid space. In this sense, the text invites readers to consider other ways of seeing and inhabiting spaces and places—and, in this study, the border.

Keywords: Environmental Education; border; heterotopia; ecosophy; photography.

 

Resumen:

El principal objetivo de este artículo, de carácter ensayístico, es problematizar lo que se entiende por el espacio “fronterizo”, entendiéndolo como un contraespacio, una posibilidad heterotópica. Para ello, se buscan intercesores de la Filosofía de la Diferencia para componer el marco teórico, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Didi-Huberman. A través del entrelazamiento entre arte, filosofía y educación ambiental, se constituyó como trazado metodológico, fue necesario profundizar en el análisis teórico y analítico, la problematización de algunas fotografías (archivo personal) y algunos dichos del Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense del escritor Aldyr García Schlee. A partir del corpus empírico analizado, se concluye que la frontera puede constituir un espacio heterotópico, más allá de las nociones y las imágenes cliché a las que estamos acostumbrados en nuestra experiencia de este espacio híbrido. Así, el texto provoca al lector a pensar en otras formas de ver y habitar los espacios, los lugares y aquí, en este estudio, la frontera.

Palabras clave: Educación Ambiental; frontera; heterotopía; ecosofía; fotografía.

 

 

Introdução

 

A obra de arte, para aqueles que são usuários, é uma empresa de desenquadre, de ruptura de sentido, de proliferação barroca ou de empobrecimento extremo que arrasta o sujeito numa recriação e reinvenção de si mesmo. Sobre ela, um novo suporte existencial oscilará sobre um duplo registro de reterritorialização (função de ritornelo) e de ressingularização. O acontecimento de seu encontro pode fechar de maneira irreversível o curso de uma existência e gerar campos possíveis “longe dos equilíbrios” da cotidianidade (Guattari, 2015, p. 55)[4].

 

A arte atravessa, rasga, fere, quebra, desenquadra, trazendo para esta pesquisa a possibilidade de pensar a fronteira entre o Brasil e o Uruguai, mirar com outros olhos, sentir, viver por meio de uma sensibilidade estética. Para além daquilo que a cerca e a define, a fronteira é aqui pensada, esculpida por algumas dimensões transversais que a entrelaçam: a arte, a filosofia, o espaço e as possíveis educações ambientais[5]. Mediante a relação estético-político-ética, Guattari (1990, 2015) cunha a ecosofia para demarcar uma perspectiva da diversidade, do dissenso criador do respeito às diferenças, o que nos faz querer mirar para a fronteira com um devir ecosófico ao olhar para as relações entre fronteiriços(as) e a fronteira.

A escrita deste artigo, de caráter ensaístico, se deu a partir de um aprofundamento teórico necessário e potente para pensar principalmente no objeto de pesquisa, a fronteira, ou melhor, a fronteira entre Brasil e Uruguai. Além disso, também este texto foi um exercício analítico para compor com a arte, a filosofia e a educação ambiental. Nesse movimento questionamos: o que pode a fronteira? Nesta busca ativa tecemos encontros entre arte e filosofia entremeados com paisagens e fotografias. E, nessa caminhada, fomos provocadas pelos autores da Filosofia da Diferença, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Didi-Huberman, desalinhando fronteiras, hablando portunhol, rompendo barreiras, pulando muros e linhas divisórias.

Para este artigo nosso objetivo principal foi problematizar o que entendemos como o espaço “fronteira”, compreendendo-o como um contraespaço, uma possibilidade heterotópica, como um lugar de contestação, de criação de educações ambientais por meio de um devir ecosófico. Assim, tendo como foco uma escrita ensaística e filosófica, o estudo investe na problematização de imagens fotográficas e literatura, ao unir arte, educação ambiental e filosofia, para dar vazão ao tipo particular de escrita ensaística. Buscamos, aqui, tensionar os modos como enxergamos a fronteira e, quiçá, encontrar nesse espaço possibilidades outras de educações ambientais imagéticas e criadoras de múltiplas possibilidades inventivas nos encontros com a vida, com o mundo e com o sujeito que se vê atravessado pela potência do viver o espaço fronteiriço entre Brasil e Uruguai. Desse modo, a escrita apresenta um eixo analítico ao investigar a fronteira como um contraespaço, um espaço heterotópico (Foucault, 2009). Não há uma articulação sistemática entre dados e teoria ou análises demonstrativas; trata-se, muito mais, de evocações e possibilidades de imaginar educações ambientais e criar outros modos de nos relacionarmos com o mundo e com as experiências possíveis no encontro entre esses dois países e suas paisagens inventivas.

Para isso, na primeira seção percorremos alguns encaminhamentos metodológicos alinhavados com a ferramenta foucaultiana da problematização. No segundo momento, trouxemos algumas fotografias (arquivo pessoal) e alguns ditos do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense do escritor Schlee (2019) para um necessário aprofundamento teórico e analítico para alcançar nosso objetivo. Para finalizar este artigo, compomos algumas considerações finais deste estudo. 

Convidamos os(as) leitores(as) a permitir-se experimentar a leitura desta escrita, buscando percorrer paisagens por meio da fotografia; a pensar nos ditos que nos constituem como fronteiriços e fronteiriças, entremeados pela arte e pela cultura que nos constituem modos de ser e viver este lugar.

 

Ver e problematizar imagens e ditos da fronteira: caminhos metodológicos

 

Neste artigo convidamos os(as) leitores(as) a percorrer imagens, paisagens. Para que essas imagens sejam vistas, provocamos para que leiam para além do que pensamos quando nos remetemos à palavra “fronteira”, suspendendo as imagens-clichês que povoam nossas mentes quando pensamos em fronteira e em educação ambiental. Só assim, talvez, seja possível criar, ver, inventar deslocamentos possíveis para este espaço.

 

Será preciso sempre outros artistas para fazer outras fendas, operar as necessárias destruições, talvez cada vez maiores, e restituir assim, a seus predecessores, a incomunicável novidade que não mais se podia ver. Significa dizer que o artista se debate menos contra o caos (que ele invoca em todos os seus votos, de uma certa maneira), que contra os “clichês” da opinião. O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página branca, mas a página ou a tela estão já de tal maneira cobertas de “clichês” preexistentes, preestabelecidos, que é preciso de início apagar, limpar, laminar, mesmo estraçalhar para fazer passar uma corrente de ar, saída do caos, que nos traga a visão (Deleuze; Guattari, 1993, p. 262).

É preciso estraçalhar para que passe uma corrente de ar que quiçá nos traga frestas para a criação, que nos traga outra visão ou mais visões. Somos acostumados com as imagens que vemos diariamente, embaçamos as lentes e naturalizamos olhares, distanciando-nos de um olhar provocativo e de estranhamento. Henning (2012) nos provoca a olhar a Educação Ambiental e os atravessamentos midiáticos acerca da produtividade de verdades que nos interpelam modos de ser e viver o contemporâneo, capturando-nos para agir diante dos problemas ambientais, uniformizando ações frente ao planeta.

Nesta pesquisa, buscamos alargar o campo da Educação Ambiental embasadas principalmente no conceito de ecosofia de Guattari (1990), articulando a arte e a filosofia como potência de tensionar, de disparar o pensamento ao que está dado ao campo de saber da Educação Ambiental. Um campo amplamente discutido e produzido no mundo moderno, mas que merece alargar o pensamento e problematizar o que pode e o que ainda cabe nesse conceito, como também quais as possibilidades de outras educações ambientais. Na potência de pensar outros modos de nos relacionar com o lugar em que vivemos, Henning (2017) nos convida a multiplicar este campo de saber, questionando os discursos que nos ensinam modos de ser e viver no planeta – e isso encontramos na união entre paisagens artísticas e culturais da fronteira.

Aceitando o convite de Félix Guattari, buscamos uma articulação ético-política, a ecosofia, que nos instigue em uma reinvenção do ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade. Que nos traga uma multiplicidade de olhares, “indo no sentido de uma re-singularização individual e/ou coletiva, ao invés de ir no sentido de uma usinagem pela mídia, sinônimo de desolação e desespero” (Guattari, 1990, p. 15).

Por isso, questionamo-nos: o que é a fronteira? O que é educação ambiental? Habituamo-nos com as respostas que saltam e afirmam... o que é. “Assim, nos modos como lemos uma imagem há um pouco daquilo que pensamos ser. Transgredi-las, ou seja, pensá-las para além daquilo que uma ‘ecologia maior’ já nos acostumou a ver é, nesse sentido, um ato de deslocamento de si, dos nossos modos costumeiros de ver” (Guimarães; Preve, 2012, p. 2).

Para transgredir é preciso desocupar o olhar e abrir-nos para uma paisagem silenciosa, imaginativa, inventiva de nós sujeitos fronteiriços e da linha que traça a fronteira. Como nos provocam Guimarães e Preve (2012), criar práticas pedagógicas que possibilitem exercitar não só um deslocamento da imagem, mas de nossos focos quando miramos para o ambiente que nos interpela. Mirar diferentes horizontes, rastros, vestígios, perceber-nos neste ambiente, aqui na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, no sentido de alargar nossas visões de mundo, nosso olhar, nosso sentir.

Para nos ajudar nesse processo escolhemos, metodologicamente, como corpus empírico do nosso estudo, algumas fotografias do Pampa, especialmente aquelas imagens que forçam nosso olhar a enxergar a fronteira Brasil-Uruguai; e também a literatura poética do escritor Schlee (2019), em sua obra Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense. A escolha imagética, como campo metodológico, foi feita porque a primeira autora deste texto, habitualmente, registra imagens por meio da fotografia sobre o Pampa, seu território, sua casa, sua morada; interessa-se especialmente pela fronteira entre Brasil e Uruguai, lugar onde vive desde sua infância. Assim, as fotografias trabalhadas nesta pesquisa são fruto do olhar da pesquisadora e de uma vida dedicada ao registro imagético. No que se refere à literatura, para esta escrita, deliberadamente selecionamos o dicionário de Aldyr Schlee, obra que é o resultado da pesquisa baseada na linguagem literária gaúcha reelaborada e desenvolvida em quase dois séculos por autores da literatura pampeana. O Dicionário possui dois volumes, totalizando mais de mil páginas, e foi amplamente distribuído em instituições de ensino e bibliotecas, tornando-se uma referência para a cultura pampeana.

Nesse encontro entre as palavras e as imagens, o propósito desta escrita está em convidar o(a) leitor(a) a olhar aquilo que nos olha, como nos provoca Didi-Huberman (2012), e encontrar frestas de ar e possibilidade de pensamentos mais abertos e plurais e encontros coletivos com o outro, com o chamado estrangeiro, conosco mesmo e com a vida que vibra em cada um de nós. É desse encontro entre arte, educação ambiental e filosofia que interessadamente olhamos para as fotografias pampeanas brasileiras e uruguaias e para a literatura de Aldyr Schlee. Antecipadamente, dizemos ao(à) nosso(a) leitor(a) que neste texto não encontrará resultados ou achados analíticos de maneira objetiva; encontrará, isto sim, um convite, talvez um convite filosófico, para um encontro amigo entre duas nações e múltiplas possibilidades de criação de educações ambientais que nos forcem a enxergar o outro e a nossa relação com o mundo fronteiriço entre Brasil e Uruguai.

Quiçá, nosso texto se trata de “fechar os olhos para ver... criar uma zona vaga... Nos provocarmos em possibilidade(s) ainda não pensada(s)” (Schlee; Ratto, 2018, p. 186) ao olhar as fotografias e uma literatura do Pampa, o não dito da imagem e o dito literário para pensar como assumimos posições como fabricantes de um discurso de natureza pampeana. Talvez aqui seja importante enxergar nesse material atravessado pelo pensamento um necessário vazio para criarmos, inventarmos a nós mesmos.

Repleto de informações está nosso olhar de mundo, com símbolos que nos impedem muitas vezes de ter experiências outras. Como escreve Larrosa (2002), não há espaço para a experiência ao sujeito da informação, a busca excessiva de informações já é em si uma antiexperiência, por isso nossas sociedades contemporâneas que se constituem sob o signo da informação tornam-se uma sociedade em que a experiência é cada vez mais rara. Mas vemos aqui a possibilidade de despir-nos do excesso de informação e explorar outro modo de ver e viver na fronteira a partir do par experiência-sentido. Reafirmamos Larrosa (2002, p. 21): “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. [...] Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara”.

Ao prosseguirmos nesta caminhada de pensar a fronteira, objeto desta pesquisa, como um espaço, colocamo-nos em um exercício de problematização (Foucault, 2006b) e levantamos alguns questionamentos: como podemos compor paisagens para inventar espaços além-fronteiras? É possível pensar a fronteira como um espaço outro? Como uma heterotopia? Será que nos permitimos ver, imaginar um ambiente outro para além das representações históricas e culturais? Que educações ambientais podem ser vividas, criadas a partir de um devir ecosófico neste espaço fronteiriço?

Suscitar, provocar, questionar, problematizar... assim adentramos a oficina de Michel Foucault a convite de Veiga-Neto (2006) em busca das ferramentas apropriadas para esta pesquisa: alicates, martelos, turquesas, serrotes, tesouras, chaves de fenda, limas... algo que sirva não para provocar a dor, mas sim alegrias, quiçá, “alegria desmedida” como escreve Nietzsche (2010). Alegrias essas que possam ser úteis para criar fissuras, arranhar, provocar pequenas rupturas, frestas e que, talvez, sejam necessárias para criar – como nos instiga Deleuze (1999, p. 6), “um criador só faz aquilo de que tem absoluta necessidade”!

 

E conforme formos dando as marteladas no nosso pensamento, retorcendo-o naquilo que nos dizem ser a verdade, naquilo que pensamos ser as nossas certezas, iremos colocando tudo sob suspeita: desde as nossas maneiras de pensar, nossas verdades e certezas até mesmo o martelo com que martelamos a nós mesmos ou a chave de fenda com que torcemos nossas ideias. Afinal, um pensamento a marteladas não raramente rompe até mesmo com o martelo, assim como o arrochar do parafuso pode quebrar a chave de fenda que usamos. E rompendo ou quebrando a si mesmo, esse pensamento expõe – seja descobrindo, seja inventando – o que está para lá do até então pensável e do até então dizível (Veiga-Neto, 2006, p. 5).

 

Tomar o martelo de Nietzsche (2010, p. 16) com as próprias mãos para aprender a filosofar, a fazer perguntas “e talvez ouvir como resposta aquele célebre som oco”. É na Filosofia da Diferença que buscamos nos infames, nos malditos filósofos como Foucault, Deleuze, Nietzsche, Guattari e Didi-Huberman intercessores para esta investigação, que nos auxiliem a operar minuciosamente com algumas ferramentas que apresentam para então agir e compreender nosso presente, nossa atualidade, colocando sob suspeita nossas mais sólidas verdades e certezas.

 

O que é fácil cavar? O que vai resistir? Observa de que maneira as fortalezas são implantadas. Perscruta os relevos que podem ser utilizados para esconder-se ou lançar-se de assalto. Uma vez tudo isso delimitado, resta o experimental, o tatear. Enviam-se informes de reconhecimento, alocam-se vigias, mandam-se fazer relatórios. Defina-se, em seguida, a tática que será empregada. Seria o ardil? O cerco? Seria a tocaia ou bem o ataque direto? O método finalmente, nada mais é que esta estratégia (Foucault, 2006a, p. 69).

 

Aceitamos o convite do filósofo Foucault (2006a) e lançamo-nos a fazer algo que possa deixar “caírem os muros” como estratégia para esta pesquisa. Para isso tomamos como ferramenta teórico-metodológica foucaultiana: a problematização (Foucault, 2006b), com a intenção de olhar para os materiais que nos interpelam quando miramos educações ambientais e a fronteira entre o Brasil e o Uruguai.

Olhar para essas fotografias e literatura requer pensar na história, no tempo e espaço no qual foram fabricadas, mas o mais importante é pensar o quanto produzem ainda no presente seus efeitos na nossa subjetivação. Buscamos mirar o presente, ao trazer para esta pesquisa materiais que auxiliem na problematização de educações ambientais possíveis aqui na fronteira, para além de um território dividido.

 

Olhos mais atentos ao mundo, à vida, aos discursos hegemônicos e cheios de verdade que adentram nossas casas cotidianamente. Cultivar educações ambientais potentes, cheias de vida. Para isso, é preciso desprender-se do ressentimento de um mundo perdido, de um mundo morto pelas mãos do homem moderno. Arrancar, da crise ambiental, aquilo que ainda podemos fazer, viver, criar. Encher de alegria os ambientes em que nos situamos, cultivar o nosso eu e o nosso mundo (Henning, 2021, p. 315).

 

É a partir das relações humanas nos espaços que se constituem nossas vidas, nossas experiências, nossas linguagens, nossos modos como lemos e vemos o mundo, e aqui neste espaço fronteiriço. Conforme Guimarães (2008, p. 88), vamos estabelecendo cotidianamente nossas maneiras de ver e narrar nossas relações com os outros, com o mundo: “[...] é na cultura, nesse espaço de circulação e de compartilhamento de significados, que vamos aprendendo a lidar com a natureza e, também, vamos estabelecendo nosso lugar no mundo, ou seja, sabendo quem nós nos tornamos dia a dia”.

O espaço no qual vivemos, amamos – como nos provoca Foucault (2013, p. 21) – é heterogêneo, múltiplo, formado por uma justaposição complexa e simultânea, uma rede em que se entrecruzam o próximo e o longínquo, o lado a lado, as relações de vizinhança, a dispersão:

 

Não se vive em um espaço neutro e branco; não se vive, não se morre, não se ama no retângulo de uma folha de papel. Vive-se, morre-se, ama-se em um espaço quadriculado, recortado, matizado, com zonas claras e sombras, diferenças de níveis, degraus de escada, vãos. Relevos, regiões duras e outras quebradiças, penetráveis, porosas.

 

Sendo assim, a partir do aporte teórico de Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Didi-Huberman tecemos a escrita com o intuito de – por meio de algumas imagens fotografadas por uma das pesquisadoras deste estudo e entremeadas pelos ditos retirados do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense do escritor Schlee (2019) – nos provocarmos a pensar a fronteira como um espaço outro, como uma possibilidade heterotópica. E provocamos, vocês, leitores e leitoras desta pesquisa, mirem!

 

Espaços outros da fronteira: desalinhando para (re)habitar

 

Convidamos o(a) leitor(a) a mirar para os espaços outros da fronteira, como na Figura 1, rompendo com a linha divisória, (re)habitando o espaço fronteiriço como uma possibilidade heterotópica, um contraespaço. Neste estudo, após as fotografias mostradas, inserimos verbetes retirados do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense (Schlee, 2019) e relacionamos a cada imagem apresentada.


 

Figura 1 – Chasqueiro (Arroio Grande, RS)

Fonte: arquivo pessoal (2020)

 

LINHA (BRAS) S.f. – Cordel, barbante, fio natural ou artificial – us.

Na costura, no amarrar coisas ou em pescarias. // Risco, traço desenhado ou marcado sobre uma superfície – e do qual se considera apenas o comprimento.// Série de palavras escritas ou impressas na mesma direção. // Tramo marcado pelos postes telegráficos ou pelos trilhos de uma ferrovia ao longo da estrada.// Tramo de alambrado, ao longo de um campo.// Marca de partida de uma competição, especialmente a carreira de cavalos.// Linha do horizonte// Correção de maneiras e de conduta. // A risca divisória, entre o Brasil e o Uruguai, nos campo e nos centros urbanos da fronteira. FRAS: andar na linha (vestir bem e com elegância); dar linha (aguardar que ocorra o que se diz ou se anuncia/ ou dar atenção sentimental a alguém); perder a linha (descompor-se, perturbar-se); ter linha (ser equilibrado, bem posto e bem disposto) (Schlee, 2019, p. 586).

 

A Figura 1 mostra um fim de tarde que previa chuvas ao anoitecer. Nosso olhar percorre a linha – linha de arame farpado esticado, usado para conter o gado e o cavalo –, procuramos ver o micro e assinalamos a formiga errante! Talvez a simples composição da imagem traga a falta de um movimento agitado, frenético, com que nos habituamos a conviver na fronteira, no ir e vir de fluxos, culturas, línguas, por meio da linha imaginária.

 

Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras (Calvino, 1990, p. 7).

 

Em Cidades Invisíveis, escrito por Calvino (1990), o personagem Marco Polo descreve as cidades visitadas em viagens diplomáticas para o imperador dos tártaros Kublai Khan, que as conhece pelas palavras e começa a vê-las através do telescópio de Polo, que as descreve, inventa, produz imagens imaginárias do território do império. Nas palavras escritas por Calvino a história cria marcas como as linhas da mão, em cada canto da fronteira se constituem no entremeado de cultura, vias e trajetos. Nosso anseio se dá por telescópios novos, novas formas de ver e viver este espaço fronteiriço.

A fronteira vai muito além de um marco físico ou natural, ela é muito mais que uma risca divisória entre dois países. Segundo a historiadora Pesavento (2002, p. 35), “as fronteiras são, sobretudo, culturais, ou seja, são construções de sentido, fazendo parte do jogo social das representações que estabelecem classificações, hierarquias e limites, guiando o olhar e a apreciação sobre o mundo”. É preciso romper com algumas ideias e representações preestabelecidas sobre a fronteira, como nos trazem Deleuze e Guattari (1993, p. 262): é necessário “operar as necessárias destruições” para que nosso exercício de pensar a fronteira seja o do estranhamento e do múltiplo. “Se a fronteira cultural é trânsito e passagem, que ultrapassa os próprios limites que fixa, ela proporciona o surgimento de algo novo e diferente, possibilitado pela situação exemplar do contato, da mistura, da troca, do hibridismo, da mestiçagem cultural e étnica” (Pesavento, 2002, p. 37).

O espaço entre o Brasil e o Uruguai, assim como outros espaços, nos interpela, segundo Guattari (1992, p. 161), seja do ponto de vista afetivo, seja do ponto de vista estilístico, histórico ou funcional, criando uma subjetividade parcial, “a cidade, a rua, o prédio, a porta, o corredor... modelizam, cada um por sua parte e em composições globais, focos de subjetivação” que podem atuar tanto na uniformização do sujeito quanto na sua singularização:

 

O alcance dos espaços construídos vai então bem além de suas estruturas visíveis e funcionais. São essencialmente máquinas, máquinas de sentido, de sensação, máquinas abstratas funcionando como o “companheiro” anteriormente evocado, máquinas portadoras de universos incorporais que não são, todavia, Universais, mas que podem trabalhar tanto no sentido de um esmagamento uniformizador quanto no de uma re-singularização libertadora da subjetividade individual e coletiva (Guattari, 1992, p. 158).

 

Com apoio em Guattari (1992, p. 164), pensamos os espaços e as corporeidades com uma refinalização ético-estética a partir da rubrica ecosófica, considerando as dimensões de ecologia ambiental, ecologia social e ecologia mental, redefinindo as relações entre os espaços, os territórios existenciais da humanidade – “mas também da animalidade, das espécies vegetais, dos valores incorporais e dos sistemas maquínicos” para afirmar a questão de qualidade de vida, mas principalmente do porvir da vida em relação à biosfera. Há uma multiplicidade de relações neste espaço, não só humanas, mas sim vidas outras e diferentes fluxos que o compõem.

No desejo de pensar o espaço, o ambiente, a fronteira é que alinhamos as imagens e os entrelaçamentos teóricos necessários para criar outros olhares para a paisagem, para nós mesmos. Que perder a linha ou perturbar-se seja tão potente quanto andar na linha ou fora da linha! A mesma linha que serve para delimitar um espaço, para impedir o livre movimento, serve também como ponte, como caminho, como acesso, há uma multiplicidade ao olhar este espaço.

Percorremos a fronteira, carregada de símbolos, de discursos, dos quais muitas vezes só repetimos os clichês. Assim como em Tamara, a cidade narrada por Marco Polo, podemos olhar para a linha do horizonte, e criar...

 

Como é realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende-se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão às nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante (Calvino, 1990, p. 9).

 

A Figura 2 não mostra a velocidade do veículo que realiza a passagem de um ponto ao outro, uma trajetória realizada entre o Uruguai e o Brasil, ou mais precisamente, entre Río Branco (Uruguai) e Jaguarão (Brasil). O entardecer colore de um tom alaranjado o cimento do muro que protege a ponte – Ponte Internacional Mauá – que une as duas margens do rio Jaguarão. Ao fundo é possível ver o rio, os casarões de Jaguarão, as torres das igrejas. A imagem assinala um tempo e um espaço, ultrapassa espacialidades e temporalidades, recorta o momento, incendeia! Traz o movimento necessário para provocar os pensamentos sobre a fronteira e seus habitantes fronteiriços ou fronterizos.


 

Figura 2 – Ponte Internacional Mauá (Jaguarão – Río Branco)

Fonte: arquivo pessoal (2021)

 

FRONTEIRA (BRAS) S.f. – Região onde se confrontam os limites territoriais de dois ou mais países.

 

FRONTEIRIÇO (BRAS) Adj. – Dito de quem é oriundo de uma região de fronteira.// Dito do espanhol da fronteira do Uruguai e da Argentina com o Brasil; ou do português brasileiro da fronteira com o Uruguai e a argentina [voc. Us. Nesta acep. c/ PLAT: fronterizo (DESU, NDUR)] (Schlee, 2019, p. 443).

 

            A imagem arde ao tocar o real. Segundo o filósofo e historiador de arte Didi-Huberman (2012, p. 210), “não se pode falar do contato entre a imagem e o real sem falar de uma espécie de incêndio. Portanto, não se pode falar de imagens sem falar de cinzas”; ela arde pelo desejo, pela urgência, pela sua intenção e enunciação, também a fotografia arde pela destruição, por seu resplendor na possibilidade visual aberta, arde pelo intempestivo movimento incapaz de ser um único caminho e arde pela audácia e pela dor.

Temos a intenção de olhar para as fotografias aqui selecionadas e criar uma montagem experimental com os ditos encontrados no Dicionário (Schlee, 2019), com o intuito de traçar intempestivos e experimentais pensamentos sobre o espaço onde habitamos. Buscar o sopro de ar necessário para expandir o calor de cada fotografia, para “tornar-se capaz de discernir o lugar onde arde, o lugar onde sua eventual beleza reserva um espaço a um ‘sinal secreto’, uma crise não apaziguada, um sintoma. O lugar onde a cinza não esfriou” (Didi-Huberman, 2012, p. 215). Ver e possibilitar pensar este espaço a partir de muitas faces e dimensões que atravessam os meandros da fronteira, uma multiplicidade de significações que se constroem histórica e culturalmente, criando modos possíveis de nos relacionar com os outros e com o lugar em que vivemos.

“Ex-cêntrico” é a condição da fronteira, tanto pela premissa de ser diferente quanto pela distância do centro. Pesavento (2002) faz um convite para romper com o dicotômico local-regional, por onde se encaminhavam os primeiros estudos e críticas sobre o conceito de fronteira. A fronteira cultural, propõe a pesquisadora, pode ser pensada a partir de duas dimensões: a ambivalência e ambiguidade. A primeira, pois é trânsito que comporta dois estados de ser; e a segunda, pois traz consigo a possibilidade de ser outro:

 

A condição de fronteira é ser ex-cêntrico, ou seja, é dada pela situação de ser borda, margem ou franja. Não estar no centro é, pois, tanto estar distante quanto ser diferente. Admitir tal condição é postular uma atitude de estranhamento, que possibilita aquilo que se convencionou chamar como sendo a melhor atitude antropológica: “ver mais longe”, colocar-se à distância e em recuo frente à situação observada para melhor enxergá-la e compreendê-la (Pesavento, 2002, p. 37).

 

A situação de borda, margem, torna a possibilidade de pensar a fronteira em uma atitude de estranhamento, mirar com outros focos para este espaço, despedir-se das visões de seus colonizadores e exploradores, reabitando este espaço para recomeçar, criar outros olhares, outros modos de ser e de pensar... “O que legitima entender desta forma as fronteiras culturais é a possibilidade, sempre presente no conceito, de pensar um novo, de pensar além, de estabelecer um pensamento ‘sem fronteiras’” (Pesavento, 2002, p. 38).

A partir dos estudos foucaultianos, podemos compreender a fronteira como um espaço carregado, povoado, que nos atrai para fora de nós mesmos, um espaço que nos constitui, corrói, sulca e que nos delimita. Assim como em outras cidades, as fronteiras também tinham – têm – o intuito de vigiar os marcos físicos que delimitam os países, disciplinar os corpos por meio de suas barreiras físicas, e não mais naturais. Era preciso um urbanismo que “desse conta” deste espaço recheado de multiplicidades; como escreve Foucault (2014, p. 16) em seu livro Vigiar e Punir, era necessária uma “arquitetura que seria um operador para transformação dos indivíduos” para permitir então um controle, dar visibilidade, docilizar e moldar corpos.

 

As pedras podem tornar dócil e conhecível. O velho esquema simples de encerramento e do fechamento – do muro espesso, da porta sólida que impedem de entrar ou de sair – começa a ser substituído pelo cálculo das aberturas, dos cheios e dos vazios, das passagens e das transparências (Foucault, 2014, p. 169).

 

O espaço da fronteira também é um espaço de passagem, de trânsito, um espaço que pode atuar por intermédio do poder disciplinar, moldando corpos, tornando os indivíduos dóceis e úteis; e também atua nos processos de subjetivação, constituindo um sujeito preso a uma identidade atribuída a ele como própria (Fonseca, 2003). O sujeito fronteiriço constitui-se por meio de seu contato com a espacialidade da fronteira, compreendendo-se como pertencente a este lugar. Segundo Guattari (1990) na ecosofia mental é necessário inventar a relação entre o sujeito, o corpo e a vida – sua maneira de operação se aproxima mais com inspirações ético-estéticas, recompondo práticas individuais e coletivas.

Os espaços servem para disciplinar, mas também podem ser contraespaços, “lugares que se opõem a todos os outros destinados, de certo modo, a apagá-los, neutralizá-los ou purificá-los” (Foucault, 2013, p. 19). Espaços de contestação, ou melhor, heterotopias, como o conceito cunhado por Michel Foucault em uma conferência no Círculo de Estudos Arquitetônicos em março de 1967.

 

Espacialidades e temporalidades diferentes, diferidas: outras. Um mesmo espaço, constituído por um conjunto de elementos singulares, que são percebidos e espaçados em sua materialidade e extensão, pode ser um outro dele mesmo em diferentes tempos, embora alguns desses elementos, seus atributos e relações permaneçam relativamente estáveis. A um mesmo tempo, em um mesmo instante, nele convergem e sobrepõe-se diferentes alocações, temporalidades e territorialidades, acoplando-se, fazendo com que em uma mesma localidade múltiplas espacialidades e tempos coexistam, e que inumeráveis interpretações e projetos possam ser construídos (Castro, 2015, p. 9).

 

A fronteira pode ser um outro espaço dela mesma em diferentes tempos, são territorialidades e temporalidades mesclando-se, criando uma multiplicidade de espaços. Ao pensar a contemporaneidade e fazer uma crítica do presente, Foucault nos provoca a pensar o espaço hoje. Se o século XIX era o século do tempo, como uma grande via, uma grande evolução, uma linha em desenvolvimento, atualmente temos uma grande mudança de representação e podemos viver a espacialidade do tempo, como uma grande rede, trama em simultaneidade (Margareth [...], 2015).

É preciso pensar de outra maneira o lugar em que vivemos, porque as representações de fronteira que tínhamos já não dão conta desse espaço mestiçado, híbrido. (Re)inventar outros modos de ser fronteiriços, outros modos de criar educações ambientais passa pela via de se pensar a vida individual e coletiva menos excludente, menos hierárquica, com menos barreiras e mais caminhos...

Na Figura 3, convidamos o(a) leitor(a) a percorrer caminhos, teatinar pela fronteira e descobrir novas formas de habitá-la, deixando rastros de um modo de viver aqui e acolá.

 

Figura 3 – Areia Lago Merín (Balneário Lago Merín, Uruguai)

Fonte: arquivo pessoal (2021)

 

TEATINAR (BRAS) Int. ANT DES – Andar de lá para cá – de estância em estância - que nem forasteiros ou estrangeiros.

 

TEATINO (BRAS) Adj. ANT DES – Forasteiro, estranho, estrangeiro. Pessoa de outras plagas (SL, AJ, FP). // Dito, também, de cavalo sem dono (Schlee, 2019, p. 858).

 

Andar de lá para cá, deixar pegadas, huellas, rastros, vestígios. A vida em trânsito, a vida que percorre caminhos que a desafiam. A imagem fotografada – inserida na Figura 3 – em uma manhã de sol no Balneário da Lagoa Mirim (Uruguai) mostra os rastros de gente, cachorros, gaivotas ... e muito mais! Ao fundo é possível ver algumas “pipas” que traçam no ar com piruetas usadas para a prática do esporte kitesurf. A própria imagem é um rastro, possui uma intencionalidade, uma enunciabilidade, produz discursos.

 

Porque a imagem é outra coisa que um simples corte praticado no mundo dos aspectos visíveis. É uma impressão, um rastro, um traço visual do tempo que quis tocar, mas também de outros tempos suplementares – fatalmente anacrônicos, heterogêneos entre eles – que não pode, como arte da memória, não pode aglutinar. É cinza mesclada de vários braseiros, mais ou menos ardentes (Didi-Huberman, 2012, p. 216).

 

A fotografia oferece uma experiência e um ensinamento, mas para isso é preciso parar, manter o olhar, percorrer a imagem, habitar por um tempo nessa paisagem e assim tornar possível a experiência, fazer disso uma forma visual. No entanto, é preciso deixar de antemão os clichês linguísticos e visuais, para

 

[...] a mudez provisória ante um objeto visual que o deixa desconcertado, despossuído de sua capacidade de lhe dar sentido, inclusive para descrevê-lo; logo, imporá a construção desse silêncio em um trabalho de linguagem capaz de operar uma crítica de seus próprios clichês (Didi-Huberman, 2012, p. 216).

 

Suspender, ficar em silêncio e renovar a linguagem, o pensamento! Criar formas visuais de saber! Por isso, sugerimos aos leitores e às leitoras deste artigo que façam o exercício de olhar para cada imagem que compõe esta seção e pensem nas seguintes questões: o que a fotografia me remete? Que fronteira ela inventa? Vejo-me mesclado(a), envolvido(a) nesta paisagem? Que educações ambientais ela evoca? São deslocamentos necessários para exercitar nosso olhar, um teatinar!

Dentro da sua materialidade – linha divisória –, podemos reinventar relações humanas que façam deste espaço um contraespaço, uma heterotopia, e fazer desta linha... costuras, nós, enredos, entreveros, mas também vãos, vazios, lacunas que tecem modos de viver, ver e ser neste lugar.

 

Há, igualmente, e isso provavelmente em qualquer cultura, em qualquer civilização, lugares reais, lugares efetivos, lugares que são delineados na própria instituição da sociedade, e que são espécies de contraposicionamentos, espécies de utopias efetivamente realizadas nas quais os posicionamentos reais, todos os outros posicionamentos reais que se podem encontrar no interior da cultura estão ao mesmo tempo representados, contestados e invertidos, espécies de lugares que estão fora de todos os lugares, embora eles sejam efetivamente localizáveis (Foucault, 2009, p. 415).

 

No entrecruzamento entre o espaço e o tempo que levantamos nossos questionamentos, problematizações e pensamentos sobre a fronteira, “estamos em um momento em que o mundo se experimenta, acredito, menos como uma grande via que se desenvolveria através dos tempos do que como uma rede que liga pontos e que entrecruza sua trama” (Foucault, 2009, p. 411).

Se na Idade Média tínhamos como referência os espaços como localização, havia um conjunto de espaços hierarquizados, muitas vezes opostos, como os urbanos e os rurais, os profanos e os sagrados, o celeste e o terrestre. Por meio dos descobrimentos de Galileu surge o espaço como extensão, a partir do momento em que passa a haver um espaço infinito e aberto e um ponto em movimento (Foucault, 2009).

Na atualidade, o espaço está sob a forma de relações de posicionamento, substituindo o espaço como extensão e como localização. O que define esse tipo de espaço são as relações de vizinhança entre pontos e elementos, e é possível descrevê-los em séries, redes, grades e organogramas (Foucault, 2009). Nossas inquietações de hoje são fundamentalmente mais sobre o espaço que sobre o tempo, “o tempo provavelmente só aparece como um dos jogos de distribuição possíveis entre elementos que se repartem no espaço” (Foucault, 2009, p. 413).

O espaço contemporâneo sofre uma dessacralização, que ainda não está completa, falta atingir principalmente a prática, somos comandados por um certo número de oposições nas quais ainda não podemos tocar, como o espaço privado e o espaço público, ou então o espaço familiar e o espaço social, o espaço de lazer e o espaço do trabalho (Foucault, 2009).

O limite, a fronteira foram espaços sacralizados, “a limes, então, o limite, designa um intervalo, uma margem, uma borda sem apropriação, mas dotada de todos os valores políticos, simbólicos, religiosos que a mitologia grega reúne sob a égide de Hermes” (Leenhardt, 2002, p. 29), deus que protege as fronteiras, rompe muralhas, guia dos viajantes, deus da passagem e da ultrapassagem dos limites. Como podemos pensar um espaço outro para o limite? Talvez possamos brincar como as crianças e fazer, deste espaço, contraespaços! Na cama dos pais, no fundo do jardim ou no alto de uma árvore, transformados em mares, ilhas desertas e mastros... Na Figura 4 há possibilidades de pensar a fronteira como um contraespaço, na expansão dos limites imaginativos e criativos.

 

Figura 4 – Lago Merín (Balneário Lago Merín, Uruguai)

Fonte: arquivo pessoal (2019)

 

LIMITE (BRAS) S.m – Linha real ou imaginária que marca e estabelece a separação entre dois espaços territoriais.// Ponto em que uma coisa termina.// Ponto até onde se pode chegar numa ação, conversa ou especulação (Schlee, 2019, p. 583).

 

            Olhar a linha do horizonte e não ver o limite, não ver o que separa dois elementos que compõem a paisagem: o ar e a água – tudo se torna tons de azul. É possível observar a Lagoa Mirim, uma espacialidade que engloba uma bacia hidrográfica internacional, com afluentes nos dois países: no Uruguai e no Brasil. Os habitantes desse ambiente percorrem suas águas, banhados, enseadas, ilhas e ilhotas, os pescadores trafegam pelas águas, fazendo da fronteira um outro espaço.

            A heterotopia, na qual “hetero” significa diferente, outro; e “topia”, o espaço, o lugar, é posicionamento que está em relação aos outros posicionamentos de tal forma que se inverte ou neutraliza o conjunto de relação que se encontra instituída (Foucault, 2009). A fronteira entre o Brasil e o Uruguai pode ser um espaço fabricado, instituído para separar, delimitar os espaços daqui e de lá, mas também podemos fazer um exercício filosófico de pensar como um contraespaço, já que as relações que se estabelecem são também de integração, multiculturalismo, mistura e mescla.

            Para Foucault (2009, 2013) há dois tipos de contraespaços, espaços que contradizem todos os outros posicionamentos: as utopias e as heterotopias. As utopias são posicionamentos sem um lugar real, ou seja, são fundamentalmente irreais, servem muitas vezes para pensar em um lugar aperfeiçoado ou no inverso de uma sociedade. Já as heterotopias inquietam, desacomodam (Margareth [...], 2015), são lugares reais de contestação, são utopias efetivamente realizáveis, são, portanto, opostas às utopias. Entre esses dois tipos de contraespaços há uma experiência mista e mediana, da qual Foucault (2009, p. 415) traz como exemplo o espelho:

 

O espelho, afinal, é uma utopia, pois é um lugar sem lugar. No espelho, eu me vejo lá onde não estou, em um espaço irreal que se abre virtualmente atrás da superfície, eu estou lá longe, lá onde não estou, uma espécie de sombra que me dá a mim mesmo minha própria visibilidade, que me permite me olhar lá onde estou ausente: utopia do espelho. Mas é igualmente uma heterotopia, na medida que o espelho existe realmente, e que tem, no lugar que ocupo, uma espécie de efeito retroativo: é a partir do espelho que me descubro ausente no lugar em que estou porque eu me vejo lá longe. A partir desse olhar que de qualquer forma se dirige para mim, do fundo desse espaço virtual que está do outro lado do espelho, eu retorno a mim e começo a dirigir meus olhos para mim mesmo e a me constituir ali onde estou: o espelho funciona como uma heterotopia no sentido em que ele torna esse lugar que ocupo, no momento em que me olho no espelho, ao mesmo tempo absolutamente real, em relação com todo o espaço que o envolve, e absolutamente irreal, já que ela é obrigada, para ser percebida, a passar por aquele ponto virtual que está longe de mim.

 

            O espelho é um espaço irreal e virtual, portanto, uma utopia, mas ao existir realmente e na possibilidade de olhar o espaço que ocupamos ele torna-se uma heterotopia. Talvez aqui seja um exercício interessante para pensarmos a fronteira como um espelho: o que vemos do lado de lá? Quais utopias produzem virtualmente este espaço como um contraespaço? Ao olharmos o espelho-fronteira... o que vemos do lado de cá, ao nosso redor, no espaço real que ocupamos, nas relações humanas, ambientais e conosco mesmos? Como fazer desta posição uma heterotopia? O que nos provoca inquietações, deslocamentos, desacomodações sobre este lugar?

            Mirar para este espaço real, a fronteira, e ver o múltiplo, ir a contrapelo para pensar nas relações entre a arte e a filosofia neste posicionamento, ou melhor, nesta contraposição, é o desejo nesta pesquisa. Buscamos exercitar os pensamentos ao olhar estas imagens e os ditos do Dicionário e trazer à tona inventividade, criatividade, para criar outras educações ambientais:

 

[...] e se imaginarmos, afinal, que o barco é um pedaço de espaço flutuante, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo, que é fechado em si e ao mesmo tempo lançado ao infinito do mar e que, de porto em porto, de escapada em escapada para a terra, de bordel a bordel, chegue até as colônias para procurar o que elas encerram de mais precioso em seus jardins, você compreenderá por que o barco foi para a nossa civilização, do século XVI aos nossos dias, ao mesmo tempo não apenas, certamente, o maior instrumento de desenvolvimento econômico (não é disso que falo hoje), mas a maior reserva de imaginação. O navio é a heterotopia por excelência. Nas civilizações sem barco os sonhos se esgotam, a espionagem ali substitui a aventura e a polícia, os corsários (Foucault, 2009, p. 422).

 

            No intuito de provocar o olhar para este espaço da fronteira, quiçá formar uma reserva de imaginação, é que buscamos compor este texto com algumas fotografias e ditos do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense do escritor Schlee (2019), aliados ao entrelaçamento das referências teóricas a partir da Filosofia da Diferença. A heterotopia traz elementos importantes para pensar e problematizar a fronteira como um contraespaço, para além de um espaço que delimita, que separa, que desagrega. Ela também pode ser pensada, vivida por meio de práticas cotidianas individuais ou coletivas nas relações humanas e ambientais e nas relações consigo, assim como Guattari (1990, p. 34) destacou: “a questão será, no futuro, a de cultivar o dissenso e a produção singular de existência” assinalados pelas três rubricas da ecosofia.

 

Considerações finais

 

            Ao longo deste artigo, tivemos intercessores da Filosofia da Diferença, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Didi-Huberman, que nos provocaram a pensar: o que pode a fronteira? Para isso, foi necessário um entrelaçamento entre o referencial teórico e a análise de algumas fotografias (arquivo pessoal) e alguns ditos do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense do escritor Schlee (2019). Esse encontro entre arte, educação ambiental e filosofia nos fez ver um eixo analítico em que tomamos a fronteira como um contraespaço ou, então, aquilo que Foucault (2009) tão bem definiu como um espaço heterotópico.

            Pensar o que pode a fronteira vai além de imagens-clichês do que é a fronteira. No encontro da tríade aqui colocada em movimento buscamos problematizar o que entendemos como o espaço “fronteira”, compreendendo-o como um contraespaço, uma possibilidade heterotópica. O desejo foi mirar para as paisagens, para o espaço fronteiriço, compondo com fotografias e os ditos selecionados do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense (Schlee, 2019), para problematizar o espaço fronteiriço e pensá-lo como uma heterotopia (Foucault, 2009).

            Que outros espaços podem ser olhados, vistos para além das lentes hegemônicas que constantemente vestem nossos olhos modernos? Como podemos nos provocar a olhar diferentemente para os lugares, os espaços, as paisagens que cotidianamente nos atravessam? São provocações para estes tempos que desejamos aos(às) leitores(as) para criar, inventar possíveis educações ambientais.

 

Referências

 

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SOBRE AS AUTORAS

 

Juliana Corrêa Pereira Schlee. Doutorado em Educação Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG); Técnica em Assuntos Educacionais da Universidade Federal do Rio Grande (FURG); Pesquisadora do Grupo de Estudos em Educação, Cultura, Ambiente e Filosofia (GEECAF/ FURG).

 

Contribuição de autoria: conceitualização, curadoria de dados, análise formal, metodologia, redação e escrita, incluindo a revisão e edição do artigo para publicação.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0268539146217826

 

Paula Corrêa Henning. Doutorado em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos; Professora Titular e pesquisadora do Instituto de Educação da Universidade Federal do Rio Grande (FURG); Líder do Grupo de Estudos em Educação, Cultura, Ambiente e Filosofia (GEECAF/FURG) e Bolsista Produtividade 1D do CNPq.

 

Contribuição de autoria: supervisão, visualização, redação e escrita, incluindo a revisão e edição do artigo para publicação.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5709258385798459

 

 

AUTODECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS ÉTICOS

As autoras estão comprometidas com as questões éticas do processo de pesquisa, análise e conclusões deste artigo. Não houve submissão à aprovação de Comitê de Ética em Pesquisa. Não houve uso de ferramentas de IA.

 

 

Submetido: 23.08.2025

Aprovado: 22.08.2026

Publicado: 21.10.2026

 



[1] O presente trabalho é fruto de uma Tese de Doutorado em Educação Ambiental, sob o abrigo do Grupo de Estudos em Educação, Cultura, Ambiente e Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande (GEECAF/FURG). Contou com o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

[2] Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil; julianaschlee@gmail.com

[3] Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil; paula.c.henning@gmail.com

[4] “La obra de arte, para aquellos que son sus usuários, es uma empresa de desencuadre, de ruptura de sentido, de proliferación barroca o de empoprecimento extremo que arrasta al sujeto em uma recreación y reinvención de sí mismo. Sobre ella, um nuevo apuntalamiento existencial oscilará sobre um doble registro de reterritorializacíon (función de ritornelo) y de resingularización. El acontecimento de su encuentro puede fechar de manera irreversible el curso de uma existência y generar campos de posibles ‘lejos de los equilíbrios’ de la cotidianidad”.

[5] Deixamos claro aos(às) leitores(as) que quando nos referimos ao campo de saber consolidado da Educação Ambiental permeada de legislações, conferências e definições estabelecidas escrevemos a expressão em iniciais maiúsculas. Mas aqui, neste artigo, nossa aposta é na multiplicidade, na pluralidade da educação ambiental – e destacamos essa concepção na escrita de forma plural e em iniciais minúsculas.