Mikhail Bakhtin: caminho e vida na docência[1]
Oleg Efimovich Osovsky[2]
https://orcid.org/0000-0002-9869-3233
Svetlana Anatolyevna Dubrovskaya[3]
https://orcid.org/0000-0002-5660-8977
Resumo
Pela primeira vez na história da pedagogia russa, os autores apresentam uma reconstrução do percurso e da vida profissional do eminente pensador russo M. M. Bakhtin (1895-1975) no campo pedagógico. Com base em materiais de arquivo e em pesquisa biográfica, são apresentadas as principais etapas da atividade docente de Bakhtin – desde a tutoria durante seus anos de ensino fundamental até o magistério no Instituto Pedagógico e na Universidade da Mordóvia, no período pós-guerra. Os autores argumentam que o componente pedagógico da biografia científica de Bakhtin ocupa um lugar não menos significativo do que seu trabalho de pesquisa. Além disso, para a maioria daqueles que o conheceram na vida cotidiana – seus alunos, graduados e pessoas que conviveram com ele em diversas circunstâncias – Bakhtin, o professor, não foi menos importante do que Bakhtin, o cientista. Isso é confirmado pelas memórias e cartas de alunos e alunas de Bakhtin, bem como por dedicatórias em livros presenteados. Ao longo dos anos de sua carreira docente, Bakhtin desenvolveu sua própria compreensão das tarefas de criação e educação, sua própria filosofia de educação, que pode ser chamada de “pedagogia da responsabilidade”. O artigo apresenta uma análise do rascunho do discurso de M. M. Bakhtin aos formandos da Faculdade de História e Filologia da Universidade da Mordóvia, o qual contém os princípios fundamentais de sua “pedagogia da responsabilidade”. Esses princípios correspondem claramente aos fundamentos do programa filosófico e ético inicial de Bakhtin. A responsabilidade pelo próprio trabalho e pelos próprios alunos é o princípio mais importante que Bakhtin destaca nesse texto. Segundo ele, o que transforma professores em verdadeiros educadores é a continuidade da tradição, a fidelidade à escolha e a oposição à indiferença.
Palavras-chave: M. M. Bakhtin. Profissão docente. “Pedagogia da responsabilidade”. Pedagogia dialógica.
Mikhail Bakhtin: path and life in teaching
Abstract
For the first time in the history of Russian pedagogy, the authors present a reconstruction of the path and professional life of the eminent Russian thinker M. M. Bakhtin (1895-1975) in the pedagogical field. Based on archival materials and biographical research, the main stages of Bakhtin’s teaching activity are presented — from his early tutoring during his school years to his work as a lecturer at the Mordovian Pedagogical Institute and later at Mordovia University in the post-war period. The authors argue that the pedagogical component of Bakhtin’s scholarly biography occupies a place no less significant than his research work. Moreover, for most of those who knew Bakhtin in everyday life – his students, alumni, and people who met him in various life circumstances – Bakhtin the teacher was no less important than Bakhtin the scholar. This is confirmed by the memories and letters of his students, as well as by the inscriptions in books presented to him. Throughout his teaching career, Bakhtin developed his own understanding of the tasks of creation and education – his own philosophy of education – which can be called “pedagogy of responsibility.” The article presents an analysis of a draft of M. M. Bakhtin’s speech to the graduates of the Faculty of History and Philology at Mordovia University, which contains the fundamental principles of his “pedagogy of responsibility.” These principles clearly correspond to the foundations of Bakhtin’s early philosophical and ethical program. Responsibility for one’s own work and for one’s students is the most important principle that Bakhtin emphasizes in this text. According to him, what transforms teachers into true educators is the continuity of tradition, fidelity to one’s choice, and opposition to indifference.
Keywords: M. M. Bakhtin. Teaching profession. Pedagogy of responsibility. Dialogical pedagogy.
Introdução
O nome do destacado pensador, filósofo e teórico da literatura russo M. M. Bakhtin é hoje conhecido por qualquer pessoa interessada na história da ciência e da cultura russa do século XX. Na esfera acadêmica internacional, Bakhtin tem sido visto, há muitas décadas, como um dos símbolos da cultura russa e, nesse sentido, está ao lado de A. S. Púchkin, F. M. Dostoiévski, L. N. Tolstói e A. P. Tchékhov. Para as ciências humanas, o princípio do pensamento dialógico, formulado por Bakhtin em suas obras do final da década de 1920 e desenvolvido de forma consistente nas obras das décadas de 1940 a 1960, revela-se hoje fundamental. É sobre esse princípio que se constrói a pedagogia dialógica, em desenvolvimento desde a década de 1970, cujas ideias se tornam cada vez mais requisitadas na teoria e na prática da educação no mundo moderno (Dubrovskaya; Osovsky, 2021; Matusov; Marjanovic-Shane; Gradovski, 2019; Osovsky et al., 2020).
Até o momento, centenas de monografias e coletâneas, bem como milhares de artigos, foram dedicados a vários aspectos da herança científica de Bakhtin (Osovsky, 2013; Osovsky; Dubrovskaya, 2021; Osovsky et al., 2022). Ao mesmo tempo, o componente cultural-educacional e propriamente pedagógico da biografia de Bakhtin permanece insuficientemente explorado.
Ao abordarem Bakhtin como filósofo, teórico da literatura, linguista e estudioso da cultura, muitos autores às vezes se esquecem do que constituía a essência de sua vocação profissional: sua atividade pedagógica na escola e na universidade. É claro que essa questão não foi completamente ignorada, tendo sido tratada em obras de V. I. Laptun, N. L. Vasiliev e outros (Brandist et al., 2020; Laptun, 2001; Osovsky; Dubrovskaya, 2024; Tikhanov; Laptun, 2017; Vasiliev, 2013). A atividade docente de Bakhtin está parcialmente presente em suas biografias escritas por Clark e Holquist (1984), Konkin e Konkina (1993) e Pankov (2010).
No entanto, até recentemente, esse aspecto da vida de M. Bakhtin recebeu pouca atenção dos pesquisadores. A importância do componente pedagógico só se tornou clara com a abertura do arquivo de Bakhtin para amplo acesso. Ao longo de sua vida, ele guardou, além de seus próprios manuscritos e correspondências, numerosos documentos relacionados ao seu trabalho na escola e na universidade (rascunhos de artigos metodológicos, planejamentos de departamento, provas e até mesmo anotações com perguntas de alunos em palestras e seminários).
A recente publicação, na revista Voprosy Filosofii, de um artigo sobre o fenômeno da aprendizagem grata na vida de Bakhtin, acompanhada de materiais de arquivo (Osovsky; Dubrovskaya, 2024), permitiu formular uma definição da natureza de suas visões pedagógicas como uma “pedagogia da responsabilidade”, por analogia à “arquitetura da responsabilidade”, considerada uma fórmula subjacente às pesquisas filosóficas de Bakhtin no início da década de 1920.
O objetivo do nosso artigo é analisar o caminho de Bakhtin rumo à profissão docente e, ao mesmo tempo, mostrar que era justamente a vocação de professor um dos aspectos mais essenciais da atividade do pesquisador. Hoje podemos afirmar com segurança que Bakhtin tinha um senso interno de sua vocação como professor: não é por acaso que, em um rascunho de discurso para os formandos da Faculdade de História e Filologia da Universidade da Mordóvia, ele declarou: “Hoje me dirijo a vocês [...] como um professor para professores” (Osovsky; Dubrovskaya, 2024, p. 132).
O caminho de Bakhtin rumo à carreira docente
O caminho de Bakhtin rumo à carreira docente desenvolveu-se em meio a circunstâncias de vida difíceis e em um ambiente de mudança radical na vida social e política, em tempos de guerras e revoluções. É digno de nota que as irmãs mais novas de Bakhtin também seguiram a carreira docente. Outro exemplo é o destino de seu irmão mais velho, N. M. Bakhtin. De estudante, ele foi para as frentes de batalha da Primeira Guerra Mundial, depois da Guerra Civil, serviu na Legião Estrangeira Francesa durante seus anos de emigração, retornou a Paris após ser gravemente ferido e tornou-se um dos principais críticos literários da emigração. No início da década de 1930, mudou-se para a Inglaterra, onde encerrou sua vida como professor de letras clássicas na Universidade de Birmingham.
Bakhtin teve a oportunidade de fazer algo além de lecionar? A pergunta não é retórica. Seu pai, Mikhail Nikoláievitch Bakhtin, foi por muitos anos funcionário e, depois, gerente de uma agência de um grande banco em Orel, depois em Vilno e Odessa. M. M. Bakhtin dominava os fundamentos da contabilidade e, segundo algumas informações, chegou a trabalhar em uma das agências bancárias de Petrogrado. Posteriormente, essas habilidades o ajudariam a ganhar a vida no exílio, em Kustanai, onde conseguiu um trabalho de contador na União Distrital de Consumidores local, ocasionalmente lecionando em vários cursos, inclusive de contabilidade (Clark; Holquist, 1984; Konkin; Konkina, 1993).
Mikhail Bakhtin exerceu atividades de ensino desde muito jovem. Aqui devemos relembrar uma tradição bem conhecida: alunos do ensino médio com desempenho destacado frequentemente atuavam como tutores de seus colegas ou daqueles que precisavam de preparação intensiva para ingressar em universidades ou cursos superiores. Em particular, isso dizia respeito a adolescentes de famílias ricas que planejavam ingressar em instituições de ensino de prestígio na capital ou que, devido a certas restrições (estamos falando principalmente de famílias judias), necessitavam de preparação adicional para passar em exames em universidades russas ou da Europa Ocidental.
É essa história que fundamenta o conhecido enredo sobre a primeira experiência de Bakhtin como professor, quando, aos 18 anos, se tornou tutor de uma jovem de uma rica família judia em Odessa. Muitos anos depois, a viúva de Matvei Kagan, amigo próximo de Bakhtin, relembrou o episódio em uma entrevista concedida a N. A. Pankov. O que é digno de nota aqui não é tanto a tutoria, mas a avaliação a respeito do jovem Bakhtin feita em conversa por seu colega mais velho e com vasta experiência de ensino:
Ouvi falar de Mikhail Mikhailovich Bakhtin antes mesmo de conhecê-lo. Na minha juventude, tive uma amiga, Lelya Sochevanova, filha de um empresário muito rico e importante. Na família deles, a educação foi feita por um tutor, professor — não sei qual é a maneira correta de dizer — chamado Kleber. [...]. E assim, Kleber frequentemente se lembrava de Mikhail Mikhailovich e dizia, com deleite: “Este é um gênio! Este é um gênio!”. Ficava impressionado com a independência de julgamento e a amplitude de conhecimento de Mikhail Mikhailovich. Muitas vezes repetia: “Este é um gênio! Este é um gênio!” (Kagan; Kagan, 1995, p. 166).
Talvez seja precisamente essa avaliação que pode ser considerada como o ponto de partida na história de mais de cem anos da recepção da vida pessoal e da personalidade de M. M. Bakhtin.
Não há dúvida de que as origens da maestria pedagógica se encontram na própria experiência escolar de Bakhtin. Não se trata apenas de o jovem Bakhtin ter estudado nos melhores ginásios de Vilnius e Odessa, de onde emergiram muitas figuras famosas da cultura russa. A própria atmosfera intelectual e acadêmica dessas instituições educacionais certamente influenciou seu processo de formação e estimulou a ampla gama de interesses nas humanidades do futuro autor de livros sobre Dostoiévski e Rabelais. Não é coincidência que, em suas conversas com Vadim Duvakin, em 1973 (publicadas alguns anos mais tarde), Bakhtin relembrou essa época com grande emoção: “O ginásio de Odessa era bom. Não posso reclamar, não posso. Todos os professores eram bons [...] em geral, era maravilhoso. Eram todos jovens excelentes, maravilhosos, nobres” (Duvakin, 2002, p. 30).
Infelizmente, doenças frequentes e ataques de osteomielite o impediram de frequentar regularmente a escola e o levaram a se tornar autodidata, o que contribuiu amplamente para a profunda imersão do jovem estudante do ensino médio na filosofia europeia. Vemos evidências desses anos de estudo em cartas de Nikolai M. Bakhtin (irmão mais velho de Mikhail Bakhtin), enviadas a A. A. Vrubel, de Odessa, durante as férias estudantis: “Meu irmão e eu lemos poetas e o Kant inédito” (Dvinyatina, 2005, p. 116). É digno de nota que, no verão de 1914, o aluno da Faculdade de História e Filologia da Universidade de São Petersburgo, Nikolai M. Bakhtin, e seu irmão mais novo, Mikhail Bakhtin, tivessem os mesmos interesses literários e acadêmicos. Esse fato é confirmado por outras cartas, em que Nikolai conta à irmã de um artista famoso e à proprietária do apartamento onde mora sobre como está se preparando para o exame universitário de filosofia com a ajuda de seu irmão.
Apesar de não haver histórico documentado da permanência de Bakhtin nas universidades de Novorossiysk (Odessa) e Petrogrado, hoje podemos afirmar com segurança que ele possuía alguma experiência universitária. Além disso, Bakhtin indica diversos nomes de seus mentores em documentos oficiais de meados da década de 1940. Assim, em uma versão de sua autobiografia, ele escreveu:
Após se formar em um ginásio clássico em Odessa em 1913, ingressou na Universidade de Novorossiysk, onde estudou com os professores Lange, Varnicke, Mandes, Mochulsky e outros. Em 1916, transferiu-se para a Universidade de Petrogrado, onde se formou em 1918 (estudou com A. I. Vvedensky, F. F. Zelinsky, S. S. Srebrny e outros) [...]. Estudou [os princípios da] filosofia e da filologia clássica (Osovsky; Dubrovskaya, 2024, p. 133).
Entre os professores citados, destaca-se a figura de um dos fundadores da psicologia experimental russa, aluno de W. Wundt, o professor N. N. Lange. Bakhtin relatou detalhes de seu contato, quando estudante, com o famoso cientista, em uma conversa com Duvakin:
B: Lange, eu lhe disse, é Nikolai Nikolaevich. Ele era um excelente professor, um excelente professor, mas, por exemplo, quando me lembro de perguntar a ele – comecei a ler livros filosóficos no original, em alemão, muito cedo – perguntei sobre Hermann Cohen – o diretor da Escola de Marburg...
D: Onde está Pasternak?
B: Pasternak, sim, sim. Aqui. Sua primeira obra desse tipo, e muito importante, é “Kants Theorie der Erfahrung”, ou seja, “A Teoria da Experiência de Kant”. Perguntei a ele se era um livro sólido (Duvakin, 2002, p. 40).
A presença, nos primeiros textos filosóficos de Bakhtin, de críticas ao psicologismo europeu e às teorias psicológicas modernas, bem como sua posterior imersão nos problemas do vitalismo, não poderia ter ocorrido sem o conhecimento de certas ideias de seu professor de Odessa. Com não menos reverência, Bakhtin relembrou seus mentores de Petrogrado: “As figuras mais importantes entre aqueles que conheço, com quem estudei, foram: Faddey Frantsevich Zelinsky... Bem, ele era um notável conhecedor da Antiguidade, tradutor de obras antigas e assim por diante. Ele teve uma enorme influência sobre todos os clássicos da época” (Duvakin, 2002, p. 63).
O contato com professores célebres não se limitava à discussão de problemas científicos; uma atmosfera extremamente amigável, quase familiar, desenvolveu-se entre o mentor e os alunos, o que, ao que parece, predeterminou a natureza das futuras relações de Bakhtin com seus próprios alunos: “Os famosos seminários de Zelinsky eram realizados em sua casa e, além disso, sua esposa nos oferecia tortas deliciosas” (Duvakin, 2002, p. 72).
Não menos notável é a figura de outro estudioso clássico, S. S. Srebrny, representante daquela geração de professores universitários que era apenas alguns anos mais velha que seus alunos:
De quem eu era especialmente próximo?... De Srebrny, Stepan Samuilovich Srebrny. Ele era polonês, sim. Ele também era, é claro, aluno de Zelinsky e se dedicava ao estudo da comédia clássica, principalmente comédia clássica, comédia clássica antiga e comédia clássica média. Bem, é claro, ele também tocou em comédia clássica tardia, comédia grega [...]. Ele ministrava seminários, como muitos professores e professores associados, em sua casa. Isso estava na moda na época! [...]. Bem, Srebrny tinha um seminário, nós nos sentávamos lá, então alguns de nós, os mais distantes, íamos embora, e nosso círculo, os mais próximos dele... ficava depois dessas aulas, bebia chá e então encenava charadas (Duvakin, 2002, p. 65, 72).
A menção de Bakhtin a Srebrny é de grande importância para o esclarecimento dos detalhes de sua biografia. Muitos dos chamados céticos, duvidando da base factual das lembranças de Bakhtin sobre sua estadia nas universidades de Novorossiysk e Petrogrado, afirmam que ele provavelmente tomou emprestados os detalhes da vida universitária das histórias de seu irmão mais velho (Korovachko, 2017). No entanto, a julgar pelos dados disponíveis, Srebrny assumiu o cargo de professor em 1916, ou seja, quando N. M. Bakhtin deixou a universidade. Consequentemente, a maior parte da convivência do jovem Bakhtin com ele ocorreu na ausência de seu irmão.
Em 1918, Bakhtin iniciou sua carreira docente nas escolas da cidade de Nevel. Durante esses anos, ele não apenas lecionou, mas também desempenhou diversas funções administrativas. No arquivo de M. M. Bakhtin encontra-se um certificado de posse do cargo de presidente do conselho escolar da escola de Nevel, emitido em 9 de agosto de 1920. Juntamente com os alunos, o corpo docente discutia ativamente questões relacionadas ao aprimoramento do ensino e à inclusão de novas disciplinas, em particular, latim e inglês, boxe e esgrima (Pankov, 1998).
Com seu amigo L. V. Pumpyansky, Bakhtin participou da produção de Édipo em Colono, de Sófocles. Segundo o jornal do distrito, nessa apresentação cerca de 500 alunos participaram das cenas de multidão. No entanto, Bakhtin descobriu seu talento de professor não apenas dentro dos muros da escola; Nevel tornou-se o lugar onde ele teve a oportunidade de apresentar suas próprias ideias filosóficas, formadas em grande parte durante seu trabalho com as obras de Immanuel Kant e dos principais representantes do neokantismo alemão e russo.
A apresentação de Bakhtin em um dos “círculos familiares” de Nevel, que recebeu o nome de Seminário Kantiano, tornou-se um evento marcante na vida intelectual dessa pequena cidade. A amiga de longa data de Bakhtin, a notável pianista Maria Yudina, escreveu sobre isso mais de uma vez em suas memórias. É digno de nota que Bakhtin também ministrava palestras ao ar livre: um número limitado de ouvintes era suficiente para que ele apresentasse as ideias de sua “primeira filosofia” tendo como pano de fundo as pitorescas paisagens de Nevel, onde um dos lagos recebeu o nome de “Lago da Realidade Moral”.
Os discursos de Bakhtin também eram extremamente populares entre o grande público em vários clubes de Nevel, o que se refletia nas páginas da imprensa local (Maksimovskaya, 1996). Dessa mesma época data o breve artigo “Arte e Responsabilidade”, publicado no jornal de Nevel “Dia da Arte”, em que Bakhtin delineou pela primeira vez os princípios de sua visão ética e estética da vida real e da arte (Bakhtin, 2003 [1919]).
No outono de 1920, Bakhtin mudou-se para a cidade de Vítebsk, trocando seu cargo de professor na escola pelo de professor universitário. Vários anos de prática escolar, estudos intensivos em filosofia e intensa atividade docente permitiram que ele se tornasse uma das figuras mais proeminentes não apenas na esfera escolar, mas também na vida intelectual da cidade. O trabalho docente no Instituto de Educação Pública local, no Conservatório Popular e em escolas técnicas alternava-se com apresentações em clubes e inúmeros debates, detalhadamente noticiados em jornais e revistas de Vítebsk (Shatskikh, 2001).
Prova da atenção com que Bakhtin era tratado por seus alunos e ouvintes de diversos seminários são as anotações de um membro do Círculo de Bakhtin, o futuro e famoso crítico de arte I. I. Sollertinsky. Em 1921, em Vítebsk, ele registrou em seu diário os títulos de todas as palestras de Bakhtin a que assistiu. A evidência mais marcante é a lembrança de R. M. Mirkina, que, ainda estudante, frequentou o Círculo de Bakhtin sobre literatura russa em Vítebsk e, posteriormente, como aluna do Instituto de Leningrado, juntamente com sua irmã, reencontrou Bakhtin para continuar seus estudos. Muito mais tarde, Mirkina recordou:
Mikhail Mikhailovich lecionava lindamente. Era um orador nato, com uma voz muito expressiva e um timbre belíssimo. Sua fala fluía livre e desinibidamente. Nunca usava notas, planos ou citações preparadas. Parte da ponderação inerente às suas obras impressas desaparecia em suas apresentações orais. Parecia estar lidando com um improvisador brilhante, apaixonado e emotivo. Ao recitar poemas, parecia que não era um palestrante ou um leitor, mas o autor deles. Bakhtin, é claro, levava em consideração a composição da plateia, mas nunca simplificava nada. Essa capacidade de combinar simplicidade de apresentação com análise profunda também era característica de Mikhail Mikhailovich. Certa vez, ele se autodenominou neokantiano […]. Ele era um gênio não apenas como cientista, mas também como pessoa. O que aprendi com Bakhtin entrou para sempre em minha vida. Suas palestras me impulsionaram para as reflexões mais amplas não apenas sobre questões da literatura, mas também sobre vários aspectos da realidade social (Mirkina, 1993, p. 67, 69).
Bakhtin deu palestras não apenas para residentes de Vítebsk: seu arquivo contém um “Certificado de trabalho como palestrante no clube divisional do departamento político da 5ª Divisão de Rifles”, o que indica que ele também ministrou palestras para soldados do Exército Vermelho de unidades militares ao redor de Vítebsk (Bakhtin, 1922).
Tendo retornado a Leningrado na primavera de 1924, Bakhtin pôde continuar trabalhando apenas com atividades de ensino não oficiais, limitadas a palestras em círculos familiares e seminários. Muitos contemporâneos de Bakhtin, incluindo o acadêmico D. S. Likhachev, o historiador e estudioso da literatura N. P. Antsiferov e outros, relembraram sua participação nesses círculos. Não menos notável foi a presença de Bakhtin em numerosos salões literários e musicais de Leningrado, em particular nas casas do historiador E. V. Tarle, da já mencionada Maria Yudina e do estudioso e crítico literário, membro do “Círculo de Bakhtin”, Pável Medviédev (Osovsky; Dubrovskaya, 2022).
De acordo com vários depoimentos indiretos, ainda não documentados, Bakhtin teve a oportunidade de lecionar ocasionalmente em instituições educacionais de Leningrado. No entanto, sua saúde debilitada e o intenso trabalho científico – em particular a preparação do livro Problemas da obra de Dostoiévski (Bakhtin, 2022 [1929]) – impossibilitaram sua dedicação ao ensino em tempo integral.
Em dezembro de 1928, Bakhtin foi preso por frequentar uma organização religiosa considerada antissoviética e, após julgamento, foi condenado a cinco anos no campo de Solovetsky. Todavia, devido ao estado de saúde do condenado e a inúmeras petições, inclusive de A. M. Gorky, da Cruz Vermelha Política e de outros, sua pena foi substituída pelo exílio em Kustanai (Konkin; Konkina, 1993).
Em vários documentos biográficos, Bakhtin indicou que, em Kustanai, teve a oportunidade de lecionar em instituições educacionais especializadas; porém, nenhuma evidência arquivística disso foi encontrada até o momento.
Bakhtin permaneceu em Kustanai até o início do outono de 1936. Em outubro, mudou-se com a esposa para Saransk, onde retomou suas atividades no ensino superior. A chegada de Bakhtin a Saransk foi resultado de uma confluência favorável de circunstâncias: por um lado, o Instituto Pedagógico da Mordóvia, criado em 1931, necessitava urgentemente de professores qualificados; por outro, o já mencionado Pável Medviédev e seu ex-aluno, o reitor do Departamento Literário do Instituto Pedagógico Estatal de Moscou, G. S. Petrov, mantinham relações estreitas com essa universidade. Mais de três décadas depois, Bakhtin disse a Duvakin:
[…] no meu último ano, recebi uma carta de Pavel Nikolaevich Medviédev. Medviédev visitou Saransk. Ele foi lá simplesmente para pequenos trabalhos. Havia um grande instituto pedagógico lá, em Saransk, e então… seu aluno era o reitor de lá. E então ele foi para pequenos trabalhos. Ele gostou de lá; eu gostei no sentido de que era tão calmo, tranquilo, tudo era bom. Naquela época… E ele me aconselhou a ir para Saransk (Duvakin, 2002, p. 237).
Nazarova e Svischeva (1990, p. 3) apresentam o seguinte relato:
Mikhailovich Bakhtin ainda está diante de nós clara e visivelmente.
No segundo ano, Mikhail Mikhailovich lecionou literatura antiga para nós. Esperávamos impacientemente e ouvíamos suas palestras com prazer.
Ele era baixo, ligeiramente curvado, calvo, com um rosto pálido e olhos escuros e inteligentes que brilhavam com um brilho especial. Usava um terno leve. Durante as aulas, geralmente mantinha a mão direita no bolso do paletó e a esquerda sobre o peito, sobre a lapela. Nunca tinha papéis, livros ou pedaços de papel nas mãos. Lembro-me de quando falava sobre Homero e analisava seus poemas épicos, recitava grandes capítulos de cor. Parecia-nos que, diante de nós, não estava o mestre Bakhtin, mas um antigo pensador grego e uma testemunha viva daqueles eventos distantes. O ouvíamos como se estivéssemos enfeitiçados, com medo até de tossir.
Um documento notável desse período, descoberto no arquivo de M. A. Beban, são as notas de aula sobre literatura estrangeira que o poeta e estudante por correspondência ministrou no semestre da primavera de 1937 (Klyueva, 2019). Apesar de todas as imperfeições das notas, é notável como a profundidade científica dessas aulas se combina com a habilidade pedagógica de apresentar material bastante complexo a estudantes provincianos.
O agravamento da situação política no país e o conflito interno na liderança do Instituto Pedagógico forçaram Bakhtin e sua esposa a deixarem Saransk no início de julho de 1937. Mikhail Bakhtin passaria os oito anos seguintes na estação de Savelovo, a pouco mais de cem quilômetros de Moscou, onde, nos anos anteriores à guerra, se dedicou principalmente ao trabalho científico, preparando uma monografia sobre o romance de formação, um estudo sobre Rabelais e uma série de trabalhos sobre a teoria do romance. Com base neste último, dois relatórios seriam elaborados na seção de Teoria Literária do Instituto da Literatura Mundial A. M. Gorky, da Academia de Ciências da URSS (Pankov, 2010).
Com o início da Grande Guerra Patriótica[4], Bakhtin voltou a lecionar em uma escola secundária. Por vários meses, trabalhou como professor de alemão na vila de Ilyinskoye e, em seguida, lecionou língua e literatura russas, língua e história alemãs em escolas secundárias na cidade de Kimry e em uma escola na estação de Savelovo.
No final da década de 1980, os estudiosos literários de Tver, E. N. Ponomareva e M. V. Stroganov (1992), e, um pouco mais tarde, o historiador local V. Korkunov (2013) tentaram coletar memórias do professor Bakhtin. Lembrando-se de seu professor com um sentimento de enorme gratidão, ex-alunos notaram a capacidade de Bakhtin de dialogar com eles como iguais, discutir temas sérios, rejeitar os estereótipos presentes nos livros didáticos e defender sua própria visão da literatura. Assim, em uma situação em que o diálogo em sala de aula se desenrolou em torno de um dos enredos favoritos de Bakhtin – um exemplo do discurso alheio em Eugene Onegin –, aconteceu o seguinte:
Quando estudamos Eugene Onegin, ele nos deixou descobrir o poema e os personagens por nós mesmos. Gostávamos mais de Lensky, porque, ao contrário do agressivo Onegin, ele parecia mais romântico. E então Bakhtin contou como Púchkin considerava Lensky; ele mostrou que Púchkin não reconhecia Lensky como um escritor [...].
Lembro-me de uma discussão e debate em sala de aula sobre Eugene Onegin. A imagem de Lensky.
– O que você acha dos poemas de Lensky?
– “Excelente”, dissemos.
– Ruim!
– Mas, o que você rejeita (reprova, ou algo assim) em Púchkin?
– Não foi Púchkin quem escreveu mal, mas Lensky… (Korkunov,
2013, p. 116).
O dispositivo metodológico que Bakhtin utilizou no diálogo foi retirado do arsenal dialógico já mencionado no livro sobre Dostoiévski: o exemplo com a poesia de Lensky é uma palavra óbvia que Bakhtin aproveitou para ilustrar aos alunos o heterodiscurso do romance de Púchkin.
O ensino escolar impulsionou Bakhtin a se voltar para questões metodológicas, em particular para os problemas do ensino de língua russa nos anos finais do ensino médio. Foi em Savelovo que ele preparou o artigo “Questões de estilística no ensino da língua” (Bakhtin, 2013 [194-), que até hoje permanece um dos textos metodológicos mais importantes para a pedagogia dialógica (Matusov; Marjanovic-Shane; Gradovski, 2019). Não menos notáveis são os esboços e as notas de textos de aulas preservados no arquivo de Bakhtin, em particular sobre a poesia de Maiakovski, que ele ensinava nas escolas de Savelovo.
Após o fim da Grande Guerra Patriótica, Bakhtin decidiu retomar suas atividades de ensino na universidade. Seguindo o conselho de G. S. Petrov, então funcionário responsável do Ministério da Educação da União Soviética, retornou a Saransk, onde, no outono de 1945, assumiu o cargo de chefe do Departamento de Literatura Geral. A partir de então, as atividades de ensino de Bakhtin passaram a ser vinculadas ao Instituto Pedagógico da Mordóvia (desde 1957, Universidade Estatal da Mordóvia) (Bakhtin, 2002).
No outono de 1946, no Instituto de Literatura Mundial, Bakhtin defendeu sua tese sobre o tema “François Rabelais na História do Realismo”, cujo texto mais tarde formaria a base de seu famoso livro A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular da Idade Média e do Renascimento[5]. Devido a circunstâncias que nada tinham a ver com a qualidade da pesquisa, Bakhtin recebeu o título de doutor em Ciências Filológicas apenas seis anos depois (Pankov, 2010). Contudo, para a maioria de seus colegas e estudantes, o status de Bakhtin como acadêmico, sua personalidade, a profundidade de seu conhecimento e seu evidente talento pedagógico eram inegáveis.
Uma análise dos documentos do Departamento de Literatura Geral (e depois de Literatura Russa e Estrangeira) permite-nos afirmar que, para Bakhtin e seus colegas, não apenas a pesquisa, mas também a atividade docente eram bastante importantes (Bakhtin, 2002). O chefe e os professores do departamento lideravam círculos estudantis, davam palestras sobre problemas de estética e cultura moderna a estudantes de várias faculdades. O departamento realizava trabalho metodológico, colaborando com o Departamento de Pedagogia e Psicologia, bem como com representantes individuais de institutos de pesquisa da Academia de Ciências Pedagógicas da União Soviética. A presença de um conhecido poeta e teórico literário, L. I. Timofeev – amigo próximo de Bakhtin – na Academia de Ciências Pedagógicas tornou possível enviar jovens professores do departamento, Yu. F. Basikhin e A. G. Serdtseva, para a pós-graduação.
Bakhtin mantinha relações especiais com seus alunos de Letras, muitos dos quais carregaram a grata lembrança de seu mentor por toda a vida. Para a grande maioria dos alunos, o contato com Bakhtin foi não apenas voltado para o mundo da literatura, mas também uma forma de compreender a própria vida e suas leis.
Assim, V. A. Mirskaya – que manteve relações com Bakhtin e sua esposa por muitos anos após sua formatura na universidade, tornou-se aluna de pós-graduação e, posteriormente, professora no Instituto Pedagógico da Mordóvia – escreveu no prefácio da publicação de suas anotações das palestras de Bakhtin:
Guardei meu antigo caderno como uma relíquia. E hoje estou feliz porque ele está se tornando propriedade de todos que prezam o nome de nosso inesquecível professor. E, também, me orgulho de que eu – aquela menina diligente de tranças – pude agradecer de alguma forma ao meu amado professor, transmitindo suas palavras a outros... (Mirskaya, 1999, p. 10).
O fato de quase todos os alunos que passaram pela “Escola Bakhtin” sentirem sincera gratidão é evidenciado pelas dedicatórias nos livros que presenteavam ao seu mentor. É esse sentimento que preenche a dedicatória de um dos grupos de alunos:
Caro Mikhail Mikhailovich! Você nos deu um conhecimento profundo, nos ensinou a amar a literatura e a arte. Você acendeu em nós o amor pelo conhecimento. Você nos ensinou a compreender a vida, a amá-la, nos ensinou a viver. Um grande OBRIGADO por isso. Gratos alunos do quarto ano do Departamento de Literatura do Instituto Pedagógico Estatal da Mordóvia. 3/I-50 (Klyueva; Zemkova, 2020, p. 119).
O diálogo de Bakhtin com seus alunos continuou ao longo de seus anos de estudo e de trabalho. Naturalmente, essas relações foram construídas de forma diferente com cada aluno: o arquivo de Bakhtin contém cartas que os formandos enviavam a seus professores de distantes aldeias da Mordóvia, onde lecionavam em escolas. Ex-alunos parabenizavam Bakhtin nos feriados, compartilhando suas vidas e dificuldades. A força das palavras do pensador ressoava nas almas e nos corações dos alunos, o que é evidenciado pelas mensagens que deixavam em livros. Assim, o ex-aluno de Bakhtin, o poeta A. S. Malkin, escreveu: “Para Mikh. Mikh. Bakhtin. Um conhecedor de literatura e um homem com alma [Assinatura de A. S. Malkin]. 26/11/1955” (Klyueva; Zemkova, 2020, p. 143).
Ainda mais expressiva é a mensagem do escritor G. V. Balabaev: “Ao querido Mikhail Mikhailovich Bakhtin – de um aluno. Você me ensinou a sentir e a compreender a alma viva da literatura e, com seu exemplo, me ensinou uma lição única de comportamento na vida. Este livro é uma tímida homenagem do meu respeito por você. 24/12/73 [assinatura de G. V. Balabaev]” (Klyueva; Zemkova, 2020, p. 30).
Poucos estudantes tiveram a sorte de continuar colaborando com Bakhtin como seus alunos de pós-graduação. Vale ressaltarmos que o cientista assumiu a orientação dos alunos de pós-graduação após sua aposentadoria na universidade. Para Yu. F. Basikhin, A. V. Dialektova, V. A. Gobov, E. V. Konyukhova e T. M. Nefedova, a pós-graduação tornou-se uma verdadeira escola de pesquisa científica (Klyueva; Lisunova, 2020; Vasiliev, 1998).
Tentativas de ingresso no programa de pós-graduação de Bakhtin também foram feitas por “estranhos”. Assim, o estudioso e crítico literário V. N. Turbin, que muito contribuiu para facilitar a vida e o cotidiano de Bakhtin em Saransk e Moscou, tentou persuadi-lo a acolher na pós-graduação vários formandos de seu seminário (Pankov, 2010). Às vezes, a própria oportunidade de encontrar Bakhtin era tão importante para o pós-graduando quanto discutir questões científicas. Ponomareva (1995) fala sobre isso em suas memórias. Ela foi funcionária de longa data e, mais tarde, diretora do Museu Dostoiévski, em Moscou:
Fui lá como se tivesse um propósito, obviamente não acreditando nisso totalmente – escrever uma dissertação sob sua supervisão [...]. Para mim, no final, acabou sendo uma história muito longa, pois deixei a dissertação por muitos anos e a defendi muito tarde – para mim, nunca foi um fim em si mesmo, mas o contato com M. M. Bakhtin foi um presente; o tema em si da dissertação foi deixado de lado e acabou ficando em uma perspectiva tão vaga, que quase nunca abordamos nos anos seguintes – meio que esquecemos desse objetivo e desse assunto (Ponomareva, 1995, p. 60).
A jovem geração de estudiosos e filósofos literários do início da década de 1960 encontrou em Bakhtin um mentor e um produtor de conhecimento que transformou suas ideias sobre a ciência literária. Em uma carta de V. V. Kozhinov, escrita em nome de seus amigos e associados (S. G. Bocharov, G. D. Gachev, P. V. Palyevsky e V. D. Skvoznikov), dizia-se:
Mikhail Mikhailovich, profundamente respeitado e querido por nós! Dirijo-me a você em nome de um grupo de jovens estudiosos da literatura, unidos pelo trabalho conjunto e pela amizade, que nasceram no ano em que seu livro foi publicado ou um ou dois anos depois[6]. Na prática, ainda não fizemos quase nada. Entretanto, esforçamo-nos para continuar o trabalho de sua geração de pesquisadores da literatura russa. [...] para nós, talvez o maior valor de seu trabalho resida em sua metodologia, que fornece o único caminho verdadeiro para a compreensão da arte das palavras – uma metodologia que, ao analisar uma obra, não faz abstrações a priori de qualquer tipo, mas se esforça para revelar todo o seu conteúdo artístico multifacetado, explorando profundamente a realidade objetiva e concreta da forma da obra [...]. Aprendemos isso com você. E, se conseguirmos expressar algo útil e essencial, seremos em grande parte gratos a você por isso (Pankov, 2010, p. 486).
Em cartas trocadas com Bakhtin, o tema da gratidão ao mentor ressoa constantemente nas memórias de Bocharov, Kozhinov e Gachev. Embora se concentrasse sobretudo em temas científicos, o diálogo com frequência se voltava para a discussão de questões cotidianas, e cada um dos interlocutores de Bakhtin buscava seus conselhos ou instruções. Todos acreditavam que a “Escola de Bakhtin”, pela qual haviam passado, lhes proporcionara a oportunidade de atingir um nível especial de compreensão científica da literatura russa – o que fez de cada um dos participantes do “círculo mais jovem de Bakhtin” pesquisadores proeminentes das humanidades russas e tornou suas obras uma contribuição inestimável para os estudos literários.
Conclusões
Bakhtin formulou sua concepção de professor na virada das décadas de 1950 e 1960, no já mencionado rascunho de um discurso para os formandos da Faculdade de História e Filologia da Universidade da Mordóvia. Ainda não conseguimos estabelecer a época exata da escrita desse texto; Bakhtin, muito provavelmente, o preparou em 1961, antes de sua aposentadoria. Não há evidências de que esse discurso tenha sido proferido, mas o próprio curso dos pensamentos do cientista, a ênfase e as principais teses do texto nos permitem afirmar que temos diante de nós a formulação da “pedagogia da responsabilidade” de Bakhtin. Um dos pensamentos mais importantes nesse rascunho é a ideia da responsabilidade de um mentor para com seus alunos, transmitida de geração em geração:
Você está no limiar. Uma celebração no limiar: atrás de você está a universidade; à sua frente, uma vida enorme e ainda desconhecida para você. No limiar está o tempo de pensar.
Leve consigo todas as coisas boas que recebeu, não as perca, não as esqueça. Lembre-se de que somos responsáveis por tudo o que faremos (Osovsky; Dubrovskaya, 2024, p. 132).
Aqui, a ideia de responsabilidade se transforma no princípio mais importante da formação e da educação, que deve constituir a base das atividades de todo professor: “Nossos produtos são pessoas vivas. Somos responsáveis por todas as suas ações futuras, pelo seu trabalho, e você será responsável por toda a vida subsequente de seus alunos” (Osovsky; Dubrovskaya, 2024, p. 132).
Ao mesmo tempo, como enfatiza Bakhtin, o trabalho pedagógico não tolera a indiferença: “Tema a indiferença, a aridez, a insensibilidade. Mãos indiferentes nada criam. Ame as pessoas que a vida aproxima de você” (Osovsky; Dubrovskaya, 2024, p. 132).
Esse tipo de discurso é, por definição, um monólogo; contudo, no caso de Bakhtin, há um dialogismo interno, cuja resposta serão as ações correspondentes de seus ouvintes em suas vidas futuras. A ênfase moral e pedagógica do falecido Bakhtin coaduna-se claramente com a orientação filosófica e ética de seus primeiros textos, nos quais as ideias de responsabilidade e de ação humana formam o núcleo das reflexões do jovem filósofo.
O lado pedagógico da vida de Bakhtin pode parecer menos expressivo do que suas realizações científicas, mas, na dimensão humana, ocupa um lugar não menos importante na “biografia viva” do pensador. Nesse sentido, Bakhtin, o professor, situa-se, com razão, no mesmo nível de Bakhtin, o filósofo e estudioso da literatura, e sua atividade pedagógica não é menos significativa do que suas descobertas científicas.
Referências
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Submetido: 19.09.2025.
Aprovado: 27.09.2025.
[1] O artigo foi originalmente publicado na revista científica e metodológica "Educação: Caminho para a Profissão" (ISSN: 3034-1817) que autorizou a publicação da tradução do manuscrito na Revista Horizontes. O artigo foi traduzido do original em russo por Sheila Grillo.
[2] Secretaria da Educação da Mordóvia, Universidade M. E. Evsevieva: osovskiy_oleg@mail.ru.
[3] Universidade Estadual da Mordóvia N. P. Ogareva, Centro M. M. Bakhtin: s.dubrovskaya@bk.ru.
[4] Correspondente ao período da Segunda Guerra Mundial (1941-1945), quando a Rússia foi invadida pelos nazistas e teve de lutar pelo seu território.
[5] Nota de tradução: Esse texto recebeu um título um pouco diferente na atual tradução brasileira: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais (Bakhtin, 1999 [1940-1965]).
[6] Nota de tradução: Referência ao ano de 1929, quando foi publicado o primeiro livro de M. Bakhtin “Problemas da obra de Dostoiévski” (Bakhtin, 2022[1929]).