Editorial da Seção temática:

A perspectiva de M. Bakhtin e do Círculo para pesquisas em educação

 

Milena Moretto [1]

https://orcid.org/0000-0002-1924-1678

 

Renata Helena Pin Pucci[2]

https://orcid.org/0000-0002-8880-4243

 

Sheila Vieira de Camargo Grillo[3]

https://orcid.org/0000-0003-0480-2660

 

Svetlana Dubróvskaia[4]

https://orcid.org/0000-0002-1361-6942

 

 

Mikhail Bakhtin é o pensador russo das ciências humanas de maior projeção internacional (Коrоvаchко, 2017)[5]. Conhecido como filósofo, filólogo, teórico da literatura, linguista, culturólogo, Bakhtin, no entanto, de 1918 até 1961, quando se aposentou, foi professor na Educação Básica e no Ensino Superior na Rússia e na União Soviética.

Muito embora desde ao menos o início da década de 1990, trabalhos de Mikhail Bakhtin e também de Valentín Volóchinov figurem em documentos oficiais de educação e em livros didáticos de ensino de língua portuguesa no Brasil, foi só com o texto “Questões de Estilística no ensino da Língua” (2013), escrito no início dos anos 1940, que o público brasileiro tomou conhecimento de uma face da atuação de M. Bakhtin até então pouco conhecida: a de professor de língua russa na Educação Básica. No artigo de Oleg Efimovich Osovsky e de Svetlana Anatolyevna Dubrovskaya, é constatado que “o ensino escolar impulsionou Bakhtin a se voltar para questões metodológicas, em particular para os problemas do ensino de língua russa nos anos finais do ensino médio. Foi em Savelovo que ele preparou o artigo “Questões de estilística no ensino da língua” (Bakhtin, 2013 [194-), que até hoje permanece um dos textos metodológicos mais importantes para a pedagogia dialógica (Matusov; Marjanovic-Shane; Gradovski, 2019)”. Esse texto é notável em vários aspectos. Primeiramente, pela coerência entre os escritos filosóficos, de teoria literária e de filosofia da linguagem e a metodologia bakhtiniana de ensino de russo como língua materna. Em segundo lugar, por tratar de uma construção sintática – o período composto por subordinação sem conjunção ou subordinadas não conjuntivas na terminologia de Ataliba Castilho (2010) – tópico gramatical que Bakhtin aborda do ponto de vista de seus usos estilísticos. Por meio desse tópico gramatical, M. Bakhtin objetiva desenvolver, nos estudantes, o amor pelo estudo da língua, novos modos de pensar e o estilo dos estudantes. Em relação a este último, Bakhtin insiste em que o caráter livresco, frio e escolástico deve ceder espaço para a expressividade verbal dos estudantes.

Valentín Volóchinov, por sua vez, na sua trilogia de artigos “Estilística do discurso literário I, II e III” primeiramente publicados no periódico “Literatúrnaia utchióba. Jurnál dliá samoobrazovániia” [Estudos da literatura. Revista para auto-formação] e publicados no Brasil na coletânea “A palavra na vida e a palavra na poesia. Ensaios, artigos, resenhas e poemas” (2019[1930]), revela extrema sensibilidade para promover a autoformação de um auditório amplo acerca do método sociológico no estudo da língua e da literatura. Professor de literatura em sindicatos de trabalhadores, em escolas técnicas e em universidades, Valentín Volóchinov, na trilogia acima mencionada, revela sua metodologia de ensino em diversos aspectos: o cuidado com a definição precisa de cada conceito, o uso de exemplos da literatura russa para ilustrar seus conceitos acompanhados de análises esclarecedoras, tudo isso orientado pela sensibilidade aos destinatários dos artigos.

Em 1945, M. Bakhtin se muda para Saránsk, onde atuou no Instituto Pedagógico da Mordóvia (depois Universidade Estatal da Mordóvia), instituição de Ensino superior, em que atuou na formação de professores, no ensino de literatura e como coordenador do Departamento de Literatura Estrangeira. De 1945 a 1961, M. Bakhtin trabalhou intensamente na Educação Superior, atividade marcada pelo compromisso ético, pelo envolvimento com os estudantes, pela profundidade e expressividade de suas aulas.

Portanto, se hoje propomos um número dedicado à “perspectiva de M. Bakhtin e do Círculo para pesquisas em educação”, temos dados biográficos e bibliográficos suficientes para afirmar que Mikhail Bakhtin e outros integrantes do Círculo, em especial Valentín Volóchinov, não só teorizaram sobre o modo de abordar a linguagem, a literatura, a cultura, o ensino, mas também tiveram intensa experiência prática na docência escolar e superior. A apresentação subsequente dos artigos deste número atesta a variedade de abordagens sobre e de experiências na educação, ao mesmo tempo que referendam a produtividade dos conceitos desenvolvidos por M. Bakhtin e o Círculo para as pesquisas sobre os processos de ensino-aprendizagem.

Em “Mikhail Bakhtin: caminho e vida na docência”, Oleg Efimovich Osovsky e Svetlana Anatolyevna Dubrovskaya têm a finalidade de examinar o percurso de Bakhtin como professor, mostrando que essa esfera de atuação é um dos componentes mais importantes de sua vida. Em uma narrativa envolvente, alternando testemunhos do próprio M. Bakhtin e de seus ex-alunos, os autores acompanham a vida docente do grande pensador desde 1918 até a década de 1960, quando, apesar de aposentado, orientava pesquisas de pós-graduação. Segundo Oleg e Svetlana, a essência do trabalho pedagógico de M. Bakhtin é a intolerância à indiferença: “Mãos indiferentes nada criam. Ame as pessoas que a vida aproxima de você” (Osovsky; Dubrovskaya, 2024, p. 132). Outro ponto destacado no artigo é o fato de a ênfase moral e pedagógica do falecido Bakhtin coadunar-se com a orientação filosófica e ética de seus primeiros textos, nos quais as ideias de responsabilidade e de ação humana formam o núcleo das reflexões do jovem filósofo. O artigo traz uma contribuição original ao público brasileiro a respeito da atuação docente e da orientação pedagógica de Mikhail Bakhtin.

Em “A Ética Profissional Docente e o Ato Responsável em Bakhtin: Diálogos, Contradições e Horizontes Formativos”, Giseli Lucas, Guilherme do Val Toledo Prado e Ana Paula Caetano Viana investigam a formação continuada em serviço e a profissionalidade docente, observando conexões entre essa noção e a ética profissional dos professores, além das tensões e distanciamentos, principalmente ao considerar as condições necessárias para que a ética seja observada. O trabalho tem por base a tese sobre a formação e (auto) formação de profissionais da educação em contextos de Instituto Federal, que mobilizou narrativas, atas, e-mails, pareceres e relatos das experiências pedagógicas entre 2014 e 2019, de autoria de Giseli Lucas (2021). O texto apresenta-se em três seções principais, que abordam, em um primeiro momento, os fundamentos teóricos, com a compreensão do ato responsável e ético, enfatizando os níveis do conteúdo e do processo e o estatuto do agente como lócus de responsabilidade. Em seguida, examina os elementos centrais entre a ética profissional, a complexidade da docência e a responsabilidade e, por fim, explora a interface entre os atos singulares e a formação. Os autores indicam que o ato responsável em Bakhtin (2010) oferece subsídios para pensar a ética profissional docente e que esse conceito também promove um redimensionamento ético das relações pedagógicas e fortalece práticas mais horizontais, dialógicas, responsivas e não-indiferentes.

Em “As relações dialógicas presentes na narrativa docente: as marcas de constituição do sujeito professor a partir de um diálogo entre Bakhtin e Freire”, de André Plez Silva, Milena Moretto e Jèsus Domingo Segovi, é apresentada uma discussão sobre a constituição docente e sobre como o professor (re)significa a profissão ao longo de sua trajetória de vida. A pesquisa parte da análise da entrevista narrativa de um professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo e é fruto da Tese de André Plez Silva. Como referencial teórico, o estudo apoia-se na perspectiva do Círculo de Bakhtin e nas considerações de Paulo Freire, compreendendo aproximações entre os autores: “Bakhtin e Freire nos apresentam a possibilidade do diálogo como alicerce para uma formação comprometida entre o eu e outro, na busca por uma educação responsiva como prática da liberdade”. O texto ressalta aspectos das relações dialógicas em ambos os autores, com destaque para a interação entre os sujeitos do discurso em Bakhtin e a concepção democrática em Freire, trazendo ainda conceitos como: alteridade, diálogo, dialogismo, responsabilidade, ação ética, amorosidade, devir, inacabamento e exotopia. Os pesquisadores mostram, nas análises, as marcas da constituição do sujeito, a importância do outro nesse processo e o posicionamento responsivo do professor diante dos dilemas da educação tendo em vista a construção de uma prática docente libertária.

No artigo “Definindo-se professor na contemporaneidade: a imagem de autor em videoaulas no YouTube e as imagens de professor nela inscritas”, as autoras investigam, em um enunciado do gênero videoaula no Youtube, a imagem do seu autor com vistas a identificar nele imagens do professor, considerado como grupo social. O canal foi selecionado com base na sua popularidade na internet, garantido, com isso, a relevância social. Já o enunciado da videoaula foi escolhido, de um lado, por abordar um tópico gramatical da área de sintaxe de considerável interesse dos estudantes do ensino médio, e, de outro, pelo tratamento do tema por meio de elementos de humor e paródia. Dois conceitos específicos orientam a análise: primeiramente, o de imagem, concebido como contraparte sígnica de um elemento da realidade concreta, que foi acumulado histórica e socialmente por uma dada coletividade social; em seguida, o de autor, presente no conjunto da obra de M. Bakhtin e do Círculo, para designar o centro de valores éticos e estéticos orientador da forma do enunciado na relação com o contexto extra-verbal e, em especial, com o interlocutor. A inter-relação entre esses dois conceitos é sintetizada na acepção de que a imagem do autor é a contraparte verbal de sua existência, condicionada por avaliações sociais, pela autoimagem do autor, pela orientação social e pelo gênero do enunciado. Orientadas por essa concepção, as autoras, mediante a análise tanto dos aspectos verbais quanto dos aspectos extra-verbais da aula selecionada, identificam que a imagem do autor conjuga traços do professor e do produtor de conteúdo no meio digital. Este último está claramente relacionado ao gênero, videoaula na internet, que congrega objetivos didáticos e de engajamento do público. Já a imagem de professor é afetada pela necessidade de conquistar o interesse e a atenção de seus alunos, o que resulta em uma combinação de imagens de professor caracterizadas pela autoridade e pela credibilidade, bem como pela descontração, informalidade e intimidade. O papel do interlocutor na construção dessa imagem é analisado, sobretudo, pelos comentários que validam positivamente as escolhas do autor.

O texto “Formar(se) Professora(s) mediada(s) por Tecnologias Digitais: um ato dialógico e responsivo”, de Tatiana Cristina Vasconcelos, realiza uma discussão sobre uma experiência de formação docente mediada por tecnologias digitais. Para isso, a autora apresenta a experiência vivenciada com 24 professores em formação, cujo contexto se dá no componente curricular de Psicologia Educacional II de um curso de Pedagogia. Tal componente, segundo a autora, fora organizado em três etapas - Ambientação, Imersão e Inventação – que possibilitavam a leitura, a interação e a discussão como processos dinâmicos e recíprocos. Buscando incentivar as professoras a estabelecerem relações entre os textos e suas vivências, as leituras passaram a se tornar um espaço de reflexão crítica, colaborativa e dialógica. Nesse entremeio, duas estudantes afirmaram gostar de organizar as ideias em infográficos, o que mobilizou o interesse da professora formadora e dos demais colegas em formação. Assim, iniciou-se um processo de busca de artigos e softwares que auxiliassem na construção de infográficos sobre os temas estudados. Após a análise, a autora identificou que é necessário compreender a formação de professoras como acontecimento de natureza ontológica, ética e estética, isto é, “trata-se de uma prática situada, marcada pela singularidade de sujeitos em interação, cujas vozes, histórias e afetos constituem a malha simbólica do saber docente”.

Ana Paula Küster da Silva e Valeria Oliveira de Vasconcelos, no artigo “O ato de ler no curso técnico de Magistério por meio de Tertúlias Literárias Dialógicas”, fruto de dissertação de mestrado, tiveram como objetivo perceber como (e se) o ato de ler por meio das Tertúlias Literárias Dialógicas (TLD) contribui para uma leitura crítica do mundo entre estudantes de um curso técnico de Magistério. Para isso, utilizando-se da pesquisa-ação, as autoras iniciaram a produção dos dados em uma escola estadual de Lages. Evidenciam, após a análise, que o ato de ler contribuiu para a formação crítica dos estudantes do magistério, sobretudo se utilizada as Tertúlias Literárias Dialógicas. Ressaltam que o ato de ler transcende a decodificação dos signos e, ao ampliar a visão de mundo das estudantes, contribui, também, para uma sociedade mais justa e igualitária.

Alessandra Folha Mós Landim, em “Oficina de textos na graduação em Letras: produção de gêneros acadêmicos no ciclo básico do Ensino Superior”, teve como objetivo analisar a relação entre gêneros discursivos e prática de produção textual na graduação, em especial no Ciclo Básico do Curso de Letras. Para isso, a autora realiza uma revisão bibliográfica e descreve as etapas de uma disciplina obrigatória que tem como objetivo estudar e produzir os gêneros acadêmicos como o resumo e a resenha. Após a análise, a autora revela o quão relevante é o trabalho com os gêneros acadêmicos por meio de uma perspectiva discursiva, que leva em consideração o contexto de produção da escrita. O artigo também apresenta os desafios que são apresentados ao professor no que diz respeito à heterogeneidade dos estudantes, a restrição do tempo dedicado às oficinas e a rigidez institucional.

No artigo “Linguagem, dialogismo e educação: fundamentos para o ensino de língua portuguesa”, dois princípios presentes em textos de Mikhail Bakhtin e de Valentín Volóchinov são relacionados a dois documentos brasileiros de educação: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). O primeiro deles é a teorização sobre a linguagem, que é reiteradamente definida como “manifestação complexa que reflete a riqueza e a diversidade da experiência humana (…) ela é a base sobre a qual se constroem as interações sociais e o conhecimento. É por meio dela que os indivíduos se constituem como sujeitos que dialogam, compreendem o outro e se tornam parte ativa de um mundo compartilhado”. O segundo princípio é a assunção do conceito bakhtiniano de gêneros do discurso que são compreendidos “como instrumentos pedagógicos essenciais, que organizam situações comunicativas, possibilitam a reflexão crítica e promovem a inserção do aluno nas práticas sociais e históricas da linguagem”. A esses dois princípios é adicionado um terceiro formulado por autores brasileiros diversos, segundo os quais a escola desempenha uma “dimensão humanizadora da educação, enfatizando a formação integral do aluno, que articula conhecimento, valores, autonomia e responsabilidade ética”. Portanto, são propostos três fundamentos para o ensino de língua portuguesa, dois dos quais baseados em textos de Mikhail Bakhtin e de Valentín Volóchinov.

O manuscrito “Ideologias linguísticas na escrita de professores de Letras/Língua Portuguesa em formação inicial”, de Luiz Rosalvo Costa, apresenta uma reflexão sobre ideologias linguísticas na escrita de professores de língua portuguesa em formação inicial, tendo como objeto de análise formulações sobre língua e gramática em Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) e em relatos reflexivos de licenciandos de um curso de Letras em uma universidade pública federal. Para a discussão, o estudo parte de concepções de linguagem e ideologia propostas pelo Círculo de Bakhtin (Bakhtin, 2010; Medviédev, 2012; Volóchinov, 2017). Com esse aporte teórico e em diálogo com as contribuições de autores da área da linguística, o autor define as ideologias linguísticas “como as ideias, imagens, crenças e representações que os falantes – de modo consciente ou inconsciente – associam à língua, às suas variedades, aos seus usos e aos próprios falantes”. Pelas análises realizadas, o pesquisador conclui que a ideologia, entrelaçada com as lutas sociais, não é somente a expressão dos dominantes, tampouco a dos dominados, mas se constitui em um território heterogêneo, plurívoco e com implicações para a discussão da identidade do professor de língua portuguesa em formação inicial. Destaque para as tensões, no cenário brasileiro, que se referem à identidade da língua do Brasil e ao ensino dessa língua, sendo as principais posições refletidas e refratadas nos enunciados a da língua padrão e a da variação linguística.

No texto “Nuances verbivocovisuais na ótica de professores de Ensino Médio”, Silvânia Maria da Silva Amorim Cruz e Cristiane Malinoski Pianaro Angelo analisam as concepções de linguagem, língua, bem como a relação entre os elementos verbais, vocais e visuais na tela “O grito”, de Edward Munch (1893), e no poema “Aos pais que têm filhas” de Kaur (2017), de três professores de língua portuguesa de uma escola de Ensino Médio de Pernambucano. No que concerne aos critérios de seleção, esses dois enunciados foram escolhidos por terem um plano de expressão que articula elementos verbais, visuais e vocais. Quanto ao material de análise, as concepções foram identificadas em respostas a um questionário semiaberto aplicado aos professores participantes. Na fundamentação teórica do artigo, as autoras fazem uma retomada de conceitos da teoria bakhtiniana, quais sejam: concepção dialógica da linguagem, estilo, forças centrípetas e centrífugas e vozes. Um segundo aporte teórico procede da concepção tridimensional ou verbivocovisual da consciência humana (Paula; Luciano, 2020a, 2020b; Paula; Serni, 2017). Segundo os autores, “a linguagem é verbivocovisual porque o sujeito se constitui tridimensionalmente, ao passo que a consciência se constitui de maneira verbivocovisual, pois a linguagem se caracteriza e se comporta dessa maneira” (Paula; Luciano, 2020b, p. 112). Mediante as análises das respostas da/os professora/es, as autoras sustentam a produtividade de uma concepção de linguagem tridimensional ou verbivocovisual, para o processo de ensino e de aprendizagem. Defendem ainda que a concepção de linguagem dos professores deve ser dialógica, incluindo, portanto, a dimensão axiológica da linguagem, em que as palavras, as imagens e os sons são perpassados por avaliações sociais e valores éticos.

Yanê Batista Santos Lins e Yuri Batista Santos, no artigo “Plurilinguismo e políticas linguísticas no Brasil e na França: uma análise de discursos comparativa de bases curriculares”, se propõem a analisar como as bases curriculares brasileiras e francesas abordam, em seu discurso, o desenvolvimento do plurilinguismo identificando, inclusive, as convergências e divergências no diálogo entre as culturas discursivas. Para isso, utilizando-se de um estudo comparativista e a análise do discurso comparativa, tomam como corpus as construções discursivas da Base Nacional Comum Curricular e do Socle commun de connaissances, de compétences et de culture, utilizando-se de um recorte do nível escolar Fundamental (Anos iniciais e Anos finais) no documento da BNCC e os Cycle 2 e Cycle 3, equivalentes ao mesmo nível de escolaridade no documento francês SC. Após as análises, os autores chegam à conclusão de que ambos os documentos, apesar de apresentarem princípios gerais de valorização da diversidade linguística, também operam com a padronização, carregando marcas de disputas sobre identidade, cidadania e os desafios de inclusão social.

Em “Ensino e aprendizagem de Português como Língua Adicional (PLA) na Coreia do Sul: reflexões à luz de conceitos da teoria bakhtiniana”, Joice Eloi Guimarães objetiva investigar o papel das teorizações do Círculo de Bakhtin nos processos de ensino e aprendizagem de Português como Língua Adicional (PLA). A autora faz uma retomada das principais teorias do ensino de línguas adicionais - estas concebidas como as línguas acrescidas ao repertório do falante – quais sejam: o método da gramática-tradução, a abordagem comunicativa e a pedagogia pós-método. Endossando esta última abordagem, Joice Guimarães identifica que, nas teorias mais recentes de ensino de línguas adicionais, a teoria bakhtiniana está presente mediante seu enfoque nos gêneros do discurso, ou seja, em usos situados da língua, que necessariamente compreendem dinâmicas de organização social, processos de subjetivação/objetivação, construção de valores e de posicionamentos axiológicos em materiais semióticos diversos. O conceito bakhtiniano de diálogo também integra as abordagens contemporâneas de ensino de línguas adicionais, em razão da importância das relações de alteridade, do respeito à língua do outro e da valorização das trocas culturais na Linguística Aplicada contemporânea. Mediante os conceitos de signo ideológico e sinal presentes na obra “Marxismo e filosofia da Linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem”, a autora faz análises de enunciados extraídos de produções textuais de alunos sul-coreanos aprendentes de português e no contexto de PLA, que destacam a importância da consideração das situações imediata e ampla de uso, bem como das expressões culturalmente referendadas para o ensino de Português como Língua Adicional.

Em “O discurso de Orientadores sobre o evento discursivo ‘Orientação Acadêmica’ um mestrado profissional de uma universidade pública no Brasil”, Wallace Dantas e Eliete Santos têm como objetivo analisar o discurso de professores orientadores sobre a orientação acadêmica no contexto do PROFLetras de uma universidade pública brasileira. Para isso, os autores elaboraram um questionário que fora disponibilizado a todos os docentes do PROFLetras-CFP/UFCG através do GoogleForms. A partir das respostas obtidas, Dantas e Santos chegam à conclusão de que há poucos estudos sobre o processo de orientação em um mestrado profissional. Além disso, discorrem sobre os múltiplos desafios, no contexto de pós-graduação, que envolvem o trabalho docente. Nesse sentido, revelam que há muitos desafios atrelados a fatores internos e externos no que diz respeito à orientação acadêmica, sendo importante o entrelaçamento de orientando, orientador, coordenação do programa e CAPES.

No artigo “Relatório de estágio: um espaço dialógico para praticar dizeres sobre si em processos de iniciação profissional docente”, Ana Lúcia Guedes-Pinto intenta problematizar como o tempo/espaço do estágio supervisionado na licenciatura é compreendido pelos estudantes mediante seus relatórios. Com base na teoria bakhtiniana de que o enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva, a autora focaliza a acentuação valorativa nos dizeres das estudantes sobre suas experiências nas escolas. O material de análise são os relatórios produzidos pelos estudantes de Pedagogia como trabalhos de finalização do semestre na disciplina estágio supervisionado. Os temas orientadores da análise são o trabalho docente, a escola e as relações sociais estabelecidas pelo estágio. As análises de trechos dos relatórios de estágio apontaram que há uma preocupação estética na elaboração desses textos manifesta pela presença de metáforas, pelo uso de gêneros literários como o cordel e mesmo pelo tom lírico de alguns relatos. A descrição do espaço escolar é permeada por umа tonalidade emotiva em que o autor apresenta uma visão subjetiva de um espaço objetivo. Presente e passado, a vivência como estudante e a experiência como estagiário se interconectam na percepção do espaço, do tempo e das relações intersubjetivas na escola. Os relatórios se destacam ainda pela inspiração em obras literárias para elaborar suas narrativas, que é fruto de um trabalho intencional no estágio supervisionado com vistas a desenvolver a sensibilização e o estilo dos estagiários.

Em “O processo de constituição da subjetividade de mulheres negras contribuições do Círculo de Bakhtin”, Elizabeth dos Santos Braga e Terená Bueno Kanouté analisam as narrativas de mulheres que ocupam diferentes posições no ambiente escolar para entender como sua presença interfere na formação das meninas negras. O estudo baseia-se em dados empíricos que foram construídos por meio de observação e entrevistas, em uma escola municipal da Zona Oeste de São Paulo, e fazem parte da dissertação de mestrado “Memórias e escrevivência: trajetórias de mulheres negras no ambiente escolar”, de Terená Bueno Kanouté (2024), realizada sob a orientação de Elizabeth dos Santos Braga. Como aportes teóricos, as pesquisadoras trazem a perspectiva de Vigotski sobre a constituição da subjetividade da mulher negra, dialogando com conceitos como os de internalização e personalidade, e a abordagem do Círculo de Bakhtin, discutindo conceitos, tais como ideologia, signo e consciência. Com esses referenciais, as autoras pontuam, a partir de Bakhtin, que a percepção de si passa pela fala e o olhar de outrem, e como as situações experienciadas podem constituir vivências, segundo Vigotski. O estudo desenvolvido propicia a reflexão sobre as relações de gênero e raça dentro e fora da escola, ampliando essa discussão no âmbito dos estudos da área educacional, psicológica e dos estudos linguísticos, e reforça a importância da educação antirracista no contexto escolar.

No texto “Formação docente e educação infantil: diálogos com a perspectiva bakhtiniana”, Maria Nilceia de Andrade Vieira, Renata Rocha Grola Lovatti e Valdete Côco refletem sobre como alguns traços dos aportes epistemológicos formulados por Bakhtin e o Círculo podem ampliar a compreensão dos processos formativos no contexto de disputas e tensões que perpassam a trajetória da primeira etapa da educação básica. As autoras apontam que o trabalho integra um conjunto de estudos desenvolvido no âmbito do Grupo de Pesquisa Formação e Atuação de Educadores (Grufae), que se aprofunda na discussão de conceitos de Bakhtin e do Círculo, como o ato ético, em suas interlocuções com as dimensões estética e política; inacabamento; alteridade; e ato responsivo. Com esse aporte teórico, o olhar das pesquisadoras volta-se a uma heterociência, no horizonte de uma ciência outra, fundamentada no diálogo, que escuta os sujeitos dos atos, para tematizar a formação docente no campo da educação infantil. Diante das discussões realizadas, as autoras reiteram a formação como ato ético, estético e político, no contexto das implicações das políticas públicas e de outras ideias e propostas na direção de iniciativas mais inclusivas e de enfrentamento das desigualdades.

No manuscrito “Contribuições da obra de Mikhail Bakhtin para as relações de ensino e aprendizagem com bebês na Educação Infantil”, Daniela Eufrásio e Elaine de Fátima Fernandes apresentam uma pesquisa, de caráter bibliográfico, em que realizam a análise de cinco produções científicas que tematizam as relações interacionais de bebês. Com o objetivo de debater o aprofundamento da concepção de interação como um aporte importante para se qualificarem as relações de ensino e aprendizagem na Educação Infantil, no que se refere à primeiríssima infância, as autoras revelam que os bebês, desde o nascimento, se comunicam por interações orais, gestuais, vocalizações que vão além da língua falada, rompendo com discursos que consideram que os bebês são sujeitos passivos. Ressalta ainda que, ao discutir sobre a interação entre bebês e adultos, pode-se contribuir para os processos interacionais das professoras e bebês tendo em vista que estes são sujeitos ativos e possuem diversos modos e possibilidades de interação.

O artigo “O papel da linguagem para o desenvolvimento de futuras pedagogas no âmbito do ensino para crianças com deficiência”, de Laine Cristina Forati de Alencar e Ana Paula de Freitas, apresenta os resultados da pesquisa de doutorado em Educação, denominada: “Estágio extracurricular no curso de pedagogia: sentidos produzidos em um grupo de estudos com foco na educação inclusiva”, de autoria da primeira autora e sob orientação da segunda autora. O foco do texto são as relações entre as participantes de um grupo de estudos formado por licenciandas de Pedagogia que realizavam estágio extracurricular em uma rede de ensino e tinham como principal função o apoio às crianças com deficiência. A proposta foi analisar o papel da linguagem para o desenvolvimento das futuras pedagogas. Como referências teóricas em que o estudo se fundamenta, destacam-se os escritos sobre a linguagem, de Bakhtin e do Círculo (Bakhtin, 2003; Volóchinov, 2018) e as proposições de Vigotski (2021) relativas ao desenvolvimento das pessoas com deficiência. As análises dos enunciados no âmbito das reuniões do grupo, pautaram-se no papel privilegiado da palavra no processo de (re)elaboração de conhecimentos partilhados no espaço das relações entre estudantes, professora e pesquisadora. Nesse contexto, as pesquisadoras observaram que outro olhar foi se constituindo nas estagiárias, para além das condições biológicas e da deficiência, um olhar para as possibilidades oferecidas nos âmbitos social e cultural, em práticas sociais, mediadas pela palavra.

Em “Ser docente: construção de sentidos em enunciados narrativos sobre experiência escolar e acadêmica surda”, Laralis Nunes de Sousa Oliveira e Marília Varella Bezerra de Faria intencionam discutir os sentidos sobre a docência de um sujeito surdo que fora formado e atuou como professor no Curso de Licenciatura em Letras-Libras/Língua Portuguesa. Para isso, as autoras analisam os enunciados de Nelson, que durante o curso de extensão, traz suas vivências na Educação Básica, seu percurso como estudante na graduação e sua atuação como professor no CLLP. Oliveira e Faria, após a análise empreendida, mostram como os sentidos sobre o que é ser professor foram se modificando para Nelson nessas três etapas, revelando que o “vir-a-ser professor” não tem acabamento, se renova a cada relação eu-outro, bem como refletem e refratam dialogicamente o seu “ser professor” que está em constante atualização.

O artigo “Letramento com o gênero discursivo fábula: a Língua Brasileira de Sinais na concepção dialógica de linguagem”, de Dineia Ghizzo Neto Fellini e Elsa Midori Shimazaki, compreende que o processo pedagógico de ensino e aprendizagem de uma língua requer essencialmente o seu reconhecimento como prática social e valorativa. Com essa premissa, as autoras analisam o discurso em Libras, realizado por uma das pesquisadoras, em uma atividade desenvolvida em sala de aula com alunos surdos. O gênero trabalhado na atividade foi a fábula ‘O lobo e o Cordeiro’, adaptada por Ruth Rocha (2010) da obra original de Esopo, e a discussão foi fundamentada no Dialogismo do Círculo de Bakhtin. Os procedimentos adotados seguiram os passos: adoção à tradução da obra escrita para Libras, apresentada por meio de imagens; a cada excerto do texto escrito em português, foram apresentados o enunciado em Libras; as análises relativas à língua escrita e à língua sinalizada foram realizadas em uma proposta de observação paralela, permitindo aos surdos analisarem as semelhanças e diferenças entre as línguas. As autoras concluem que os enunciados em Libras se efetivam em um espaço tridimensional de sinalização (em que se encontram os personagens e objetos da narrativa, suas características, local, ações, fatos e posições de fala, e são expressos valores), por isso, ante essa complexidade é necessário ter profundo conhecimento da língua e da cultura surda e considerar o contexto extraverbal no momento da enunciação.

No artigo “Reavaliando a filosofia da linguagem bakhtiniana como visão de mundo para a etnografia virtual na educação em ciências”, Daniel Pigozzo e Matheus Monteiro Nascimento objetivam elaborar descrições etnográficas de enunciados da rede social Twitter/X com base em uma  aproximação entre a etnografia virtual e a teoria bakhtiniana. Desta última, os autores se apropriam dos seguintes conceitos: enunciado/texto, um elo na cadeia da comunicação discursiva formado por uma parte verbal e por outra extraverbal, em que os contextos imediato e amplo são constitutivos; sujeito falante, tomado como posição singular, pessoal e responsável na existência e no enunciado; gênero do discurso, considerado como um tipo relativamente estável de enunciado que reflete e refrata a realidade social e natural em devir. Esses três conceitos bakhtinianos são permeados pelo princípio dialógico da linguagem, segundo o qual os enunciados e seus sujeitos são afetados por relações axiológico-semânticas e vozes pessoais e sociais. Da etnografia virtual, é mobilizado sobretudo o conceito de internet de Hine (2000, 2015), entendido como um modo de comunicação em que comunidades e suas conexões complexas mediadas por tecnologias digitais se materializam e ainda como um artefato cultural a ser descrito e analisado holisticamente e segundo condições e objetivos da pesquisa. A partir do encontro desses dois referenciais teóricos principais, os autores investigam o modo como argumentos e informações científicas foram enunciados por participantes de debates na rede social X durante as queimadas na Amazônia em 2019. Mais especificamente, os autores analisam postagens na rede social X que reagem a notícias veiculadas em jornais nacionais e internacionais sobre queimadas na Amazônia. Em suas conclusões, Daniel Pigozzo e Matheus Monteiro identificam como sentido dominante e permanente o fato de que, apesar de a divisão ideológica entre críticos a Bolsonaro e apologistas ser relativamente estável, as práticas discursivas de ambos são, em grande medida, semelhantes. Já a diferenciação entre os dois grupos se manifestou na seleção dos aspectos das notícias sobre as queimadas que foram objetos das postagens compartilhadas.

Conforme visto, as discussões realizadas nesta Seção Temática são diversas e abrangem diferentes temas pertinentes à área da Educação, como a formação docente, as práticas pedagógicas, o ensino de línguas, a educação inclusiva, dentre outros, com referência em Bakhtin e o Círculo, asseverando a potência e a atualidade das ideias desenvolvidas pelos autores. Certas do enriquecimento mútuo que decorre do ato da compreensão dos discursos, como ensinou Bakhtin, convidamos leitores e leitoras, estudiosos (as) e curiosos (as) a desfrutarem dos textos aqui apresentados.

 

Referências

 

BAKHTIN, M. Questões de estilística no ensino da língua. Trad. S. Grillo e E. V. Américo. São Paulo: Editora 34, 2013.

 

CASTILHO, A. T. de. Nova gramática do português contemporâneo. São Paulo: Contexto, 2010.

 

GRILLO, S.V.C. O retrato de Mikhail Bakhtin em sua mais recente biografia russa (2017). In: BRAIT, B.; PISTORI, M. H. C.; FRANCELINO, P. F. (Org.). Linguagem e conhecimento (Bakhtin, Volóchinov, Medviédev). CAMPINAS: Pontes, 2019. p. 15-42.

 

KOROBАШКО, А. В. [КОRОVАCHКО, А. V.] Михаил Бахтин [Mikhail Bakhtin]. Москва: Молодая Гвардия, 2017.

 

VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Ensaios, artigos, resenhas e poemas. Trad. S. Grillo e E.V. Américo. São Paulo: Editora 34, 2019.

 

 

Submetido: 25.11.2025.

Aprovado: 27.11.2025.

 



[1] Universidade São Francisco, Itatiba: milena.moretto@usf.edu.br.

[2] Universidade São Francisco, Itatiba: renata.pucci@usf.edu.br.

[3] Universidade de São Paulo, São Paulo: sheilagrillo@usp.br.

[4] Universidade Estadual da Mordóvia N. P. Ogareva, Centro M. M. Bakhtin: s.dubrovskaya@bk.ru.

[5] Uma síntese dessa biografia pode ser encontrada no artigo: GRILLO, S.V.C. O retrato de Mikhail Bakhtin em sua mais recente biografia russa (2017). In: BRAIT, B.; PISTORI, M. H. C.; FRANCELINO, P. F. (Org.). Linguagem e conhecimento (Bakhtin, Volóchinov, Medviédev). CAMPINAS: Pontes, 2019. p. 15-42.