ECOS JUVENIS DO COLÉGIO NOSSA SENHORA AUXILIADORA DE CAMPO GRANDE/MT: CLASSE E GÊNERO (1936-1951)
ECOS JUVENIS FROM NOSSA SENHORA AUXILIADORA HIGH SCHOOL IN CAMPO GRANDE/MT: CLASS AND GENDER (1936–1951)
ECOS JUVENIS DEL COLEGIO NOSSA SENHORA AUXILIADORA DE CAMPO GRANDE/MT: CLASE Y GÉNERO (1936-1951)
Cristian Lopez Gomes[1], https://orcid.org/0000-0003-3296-232X
Jacira Helena do Valle Pereira Assis[2], https://orcid.org/0000-0002-4539-6462
Resumo:
O texto tem por fonte principal o periódico escolar Ecos Juvenis, vinculado ao Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, localizado em Campo Grande, sul de Mato Grosso. O recorte temporal da pesquisa foi escolhido devido ao número de impressos localizados, quais sejam, 16, que são datados de 1936 a 1951. Utiliza perspectiva histórica/sociológica vinculada a Pierre Bourdieu. O objetivo consiste em fazer uma aproximação à illusio do subcampo da imprensa escolar para compreender a lógica do jogo, na perspectiva de moldar um habitus de classe e de gênero das estudantes secundaristas no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. Considera que essa illusio era bem fundamentada, pois além de ser acoplada a todo o trabalho escolar em incutir elementos de distinção e de submissão da mulher, estava em harmonia em relação às proposições para a educação secundária feminina. Os elementos de distinção são: escrita erudita para o impresso; acumulação de conhecimentos humanísticos e religiosos; e incentivo aos concursos literários. Já os elementos de submissão, tidos como características legítimas para as moças: mãe, esposa, religiosa, dona de casa, bela e magra.
Palavras-chave: periódicos escolares; habitus; educação secundária feminina; Ecos juvenis.
Abstract:
The primary source for this text is the school newspaper Ecos Juvenis, published by Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, located in Campo Grande, southern Mato Grosso. The time frame of the study was chosen based on the number of issues found, 16 in total, dating from 1936 to 1951. It employs a historical/sociological perspective rooted in the work by Pierre Bourdieu. The objective is to examine the illusio within the subfield of school press to understand the logic of the system, with a view to shaping a class and gender habitus among high school students at Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. It considers that this illusio was well-founded, since in addition to being linked to the entire school system’s efforts to instill elements of distinction and submission in women, it was in harmony with the propositions of female secondary education. The elements of distinction are erudite writing for print; accumulation of humanistic and religious knowledge; and encouragement to participate in literary contests. The elements of submission, regarded as legitimate characteristics for young women: mother, wife, nun, housewife, beautiful and thin.
Keywords: school magazines; habitus; female secondary education; Ecos Juvenis.
Resumen:
La fuente principal del texto es la revista escolar Ecos Juvenis, vinculada al Colegio Nossa Senhora Auxiliadora, situado en Campo Grande, sur de Mato Grosso. El marco temporal de la investigación se ha elegido en función del número de ejemplares localizados, concretamente 16, que datan de 1936 a 1951. Utiliza una perspectiva histórica/sociológica vinculada a Pierre Bourdieu. El objetivo consiste en abordar la illusio del subcampo de la prensa escolar para poder comprender la lógica del juego, con el fin de moldear un habitus de clase y de género de las alumnas de secundaria del Colegio Nossa Senhora Auxiliadora. Considera que esta illusio estaba bien fundamentada, ya que, además de estar vinculada a todo el trabajo escolar para inculcar elementos de distinción y sumisión de la mujer, estaba en armonía con las propuestas de la educación secundaria femenina. Los elementos de distinción son: escritura erudita para el impreso; acumulación de conocimientos humanísticos y religiosos; y fomento de los concursos literarios. Ya los elementos de sumisión, considerados características legítimas para las jóvenes: madre, esposa, religiosa, ama de casa bella y delgada.
Palabras clave: revistas escolares; habitus; educación secundaria femenina; Ecos juvenis.
Considerações iniciais
Este artigo[3] tem por fonte principal o periódico escolar[4] Ecos Juvenis, que esteve vinculado ao Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, localizado em Campo Grande, sul de Mato Grosso[5]. Essa instituição escolar salesiana, fundada em 1926, possuía uma peculiaridade: ofertava escolarização somente às moças. Compreendemos, pela literatura científica, que no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora havia inculcação de valores para essas estudantes, estabelecendo papéis específicos que eram ensinados mediante o modelo de mulher hegemônico que havia na sociedade. Também havia práticas de refinamento cultural para essas moças, que eram majoritariamente das elites (Ortiz, 2014; Trubiliano, Martins, 2010). O refinamento cultural constituía-se devido ao estabelecimento escolar ser privado e destinado majoritariamente às filhas das elites regionais.
Conforme Loren Katiuscia Paiva da Silva (2022), houve oferta de bolsas para moças pobres na instituição por meio do projeto Escola Doméstica, mas havia somente a oferta do ensino primário e de economia doméstica. Além disso, essas moças tinham que fazer trabalhos braçais para custear a bolsa, ou seja, uma oferta de ensino diferenciado das moças das elites. Apesar de a literatura científica não destacar esse elemento, há indícios em algumas fontes memorialísticas de uma crença da instituição como um colégio majoritariamente composto por moças brancas. O relato de uma mulher negra que estudou na instituição, qual seja, Adélia Leite Kraweiec, ficou eternizado na obra Memória da Cultura e da Educação em Mato Grosso do Sul de Maria da Glória Sá Rosa (1990), em que Kraweiec elucida: “Eu sempre tive verdadeira loucura para estudar com as Irmãs Salesianas, mas disseram à minha mãe que lá não me aceitariam, que o Colégio era só de meninas brancas” (Sá Rosa, 1990, p. 80-81).
Em relação ao periódico escolar[6], Ecos Juvenis[7] foi produzido entre 1934 até meados da década de 1950, e circulou no estado de Mato Grosso e São Paulo. Também contava com a participação de diversos agentes sociais que compunham o corpo editorial, além das alunas secundaristas: professores e professoras do colégio e de outras instituições, diretora do colégio, alunas de outras escolas salesianas, freiras da instituição e de outras instituições, ex-alunas e quem se dispunha a escrever para o impresso.
Cientes de que no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora havia refinamento cultural e ensinos mediados pelo modelo hegemônico de mulher, objetivamos fazer uma aproximação à illusio[8] do subcampo da imprensa escolar para compreender a lógica do jogo na perspectiva de moldar um habitus de classe e de gênero[9] das estudantes secundaristas no/do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, nos anos de 1936 a 1951[10], calcado nas seguintes problematizações: a) qual era a illusio que fazia as agentes sociais se mobilizarem nesse subcampo? Esse interesse no jogo aproximou-se da formação de disposições para a classe social e gênero das estudantes secundaristas?
No exercício de atingir o objetivo elencado e aproximarmo-nos de possíveis respostas em relação às questões, desenvolvemos uma análise sociológica e histórica pautada em Pierre Bourdieu. Reconhecemos que, por meio do tripé conceitual bourdieusiano, que compreende campo, habitus e capitais, há possibilidades de organizar um desenho para a leitura do nosso objeto. Além disso, o Grupo de Pesquisas em Antropologia e Sociologia da Educação (GEPASE/CNPq/UFMS), ao qual somos vinculados, propõe-se a olhar diferentes objetos no campo da História da Educação e da Sociologia da Educação em perspectiva bourdieusiana. Nessa perspectiva, mobilizamos as noções de habitus, capital cultural, campo e illusio. Tais noções possibilitaram a compreensão da ordem social da imprensa escolar e o entendimento da relação do macrocosmo com o microcosmo.
Ressaltamos que Bourdieu (2004) defende que o foco do ofício do pesquisador é estabelecer uma relação entre o texto e o campo e/ou subcampo. Nesse sentido, o pesquisador não deve se limitar a produzir o conhecimento científico relacionado às produções culturais (nesta investigação, os periódicos escolares) como se elas falassem por si, em um exercício de análise somente pelas leituras do texto e/ou em uma perspectiva de que o texto está relacionado às determinações do mundo social, mas sem considerar as regras próprias do campo ou subcampo em questão.
Bourdieu (2004, p. 17) compreende que os campos sociais se constituem “[...] como microcosmos relativamente autônomos”. No exercício de tensionar o olhar ao observar macrocosmo e microcosmo, Bourdieu (2004, p. 20) pondera que, na relação desses dois polos, embora distanciados, existe um universo intermediário, que se orienta mediante “[...] leis sociais mais ou menos específicas. A noção de campo está aí para designar esse espaço relativamente autônomo, esse microcosmo dotado de suas leis próprias”.
O microcosmo, nesta pesquisa, consistiu-se no subcampo da imprensa escolar, no qual estavam inseridas as agentes sociais que produziam o periódico escolar Ecos Juvenis, e a instituição escolar, o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, que produzia e/ou reproduzia leis sociais mais ou menos específicas, estritamente ligadas ao macrocosmo.
Dessa forma, a partir das contribuições de Bourdieu (2004), buscamos tecer elementos do macrocosmo do ensino secundário para mulheres no recorte temporal de 1936 a 1951, bem como compreender aspectos singulares do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e do Ecos Juvenis como dispositivo de legitimação de um modo de ser e estar de classe e de gênero para estudantes secundaristas. Ao fazermos a seleção das temáticas analisadas no impresso, selecionamos textos cujas temáticas são recorrentes em mais de um impresso. Além disso, o suporte teórico da teoria bourdieusiana auxiliou nessa incursão. Na questão de classe social, identificamos: a) o gosto pelos estudos; b) conhecimentos humanísticos e religiosos; e c) concursos literários. Na questão de gênero, localizamos: a) formação religiosa; b) formação para o lar; c) maternidade; e d) estética e/ou alimentação. No trabalho de dissertação do primeiro autor (Gomes, 2023), aprofundamos o detalhamento acerca das temáticas identificadas e selecionadas do Ecos juvenis.
Nesse sentido, o texto está organizado em duas seções, além da introdução e considerações finais. O primeiro aproxima-se de aspectos da educação secundária feminina, problematizando legislações e portarias para a compreensão de imposições do macrocosmo; o segundo visa a compreender se o Ecos Juvenis era um dispositivo utilizado para manutenção e conservação de um habitus de classe e gênero das estudantes secundaristas do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora.
A educação secundária das mulheres: entre a distinção e a formação para o lar
No período de 1936 a 1951, referente ao recorte temporal selecionado na pesquisa, investigamos cinco leis educacionais em âmbito nacional, : Lei Orgânica do Ensino Secundário n. 19.890, de 1931, referente à Reforma de Francisco Campos (Brasil, 1931); O Estatuto da Família, de 1939 (Brasil, 1939; a Lei Orgânica do Ensino Secundário n. 4.244, de 1942 (Brasil, 1942), referente à Reforma de Gustavo Capanema do ensino secundário; a Portaria Ministerial n. 14, de 7 de janeiro de 1946 (Brasil, 1946); e a Portaria Ministerial n. 996, de 2 de outubro de 1951 (Brasil, 1951). Destacamos que as referidas leis foram produzidas durante a Era Vargas (1939-1945), e apesar de as Portarias serem publicadas após a Era Vargas, possuíam inspiração no governo anterior.
Salientamos que, na Era Vargas, ocorreu uma reforma educacional coordenada pelo ministro da educação, Francisco Campos, no ano de 1931. Tal reforma estruturou o ensino secundário em dois ciclos: fundamental e complementar. Além disso, houve a implementação do exame de admissão e caracterizava-se por ser uma prova carregada de elementos de seleção e elitismo, já que havia, em torno dessa prova, simbolismos relacionados ao fracasso ou ao sucesso escolar (Nunes, 2000). Ademais, para a realização da matrícula no ensino secundário, deveria haver um: “[...] c) recibo de pagamento da taxa de matrícula” (Brasil, 1931). O exame de admissão, juntamente com o pagamento, formava um cenário desfavorável para os estudos das frações de classe menos favorecidas. Concordamos com Rocha, Severino e Rodríguez (2021, p. 1039), ao afirmarem que “[...] a classe trabalhadora não usufruía, não tinham condições financeiras para arcar com essas despesas. Apenas poucos conseguiam por meio de bolsas e bom desempenho”.
No ano de 1942, buscando amenizar o caráter autoritário e centralizador da reforma redigida por Francisco Campos, foi realizada a Reforma Capanema, coordenada pelo Ministro da Educação, Gustavo Capanema, durante o governo do Estado Novo. Nessa nova reforma educacional, procurou-se focalizar a busca por uma identidade e um sentimento nacionalista, que era reforçado por Vargas. Isso culminou em transformações na educação, principalmente para o currículo e para a fiscalização do ensino. Nos artigos 1º, 2º e 3º da Lei n.4.244/42 e no texto de exposição de motivos para a promulgação da legislação, apresentavam-se as seguintes finalidades:
Art. 1. Formar, em prosseguimento da obra educativa do ensino primário, a personalidade integral dos adolescentes.
Art. 2. Acentuar e elevar, na formação espiritual dos adolescentes, a consciência patriótica e a consciência humanística.
Art. 3. Dar preparação intelectual geral que possa servir de base a estudos mais elevados de formação especial (Brasil, 1942).
É que o ensino secundário se destina à preparação das individualidades condutoras, isto é, dos homens que deverão assumir as responsabilidades maiores dentro da sociedade e da nação, dos homens portadores das concepções e atitudes espirituais que é preciso infundir nas massas, que é preciso tornar habituais entre o povo (Brasil, 1942).
O caráter humanístico, conforme Nunes (2000), reafirmava o ensino secundário como uma etapa seletiva e privilegiada, visto que favorecia a formação do espírito e o preparo para o trabalho intelectual, baseado na arte de bem falar e bem escrever dos futuros dirigentes do país. Além disso, destacamos que a Igreja Católica defendia uma perspectiva de ensino bastante específica. No ensino secundário, ganhou destaque a defesa de uma educação humanista, na qual “a defesa do humanismo enraizado nas tradições cristãs não era apenas o apego ao passado, mas a disputa de interesses no campo da educação e da cultura” (Souza, 2009, p. 85).
Também, a reforma de Capanema perpetuou o exame de admissão, corroborando a ideia de seletividade. Havia outra característica predominante: as escolas particulares concentravam-se em mais na educação secundária. Assim, “[...] poucos alunos oriundos da classe trabalhadora conseguiram usufruir, visto que existiam poucas escolas públicas [...]” (Rocha; Severino; Rodríguez, 2021, p. 1040).
Ao incursionar nas singularidades do estado de Mato Grosso, em quem acessava o ensino secundário, Silvia Helena Andrade de Brito e Stella Sanches de Oliveira Silva (2021, p. 344) utilizam estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e fontes camarárias para destacar que havia, entre 1942 e 1961, forte presença do ensino privado, e “[...] a escola secundária ofereceu escolarização a uma parcela que não chegava a 20,0% dos residentes urbanos de 12 a 18 anos, no final desse período.”
Na reforma Capanema também houve uma mudança relacionada à escolarização das mulheres. No texto da exposição de motivos para a promulgação da Lei Orgânica do Ensino Secundário (1942), apresentava-se uma mudança na educação no que diz respeito ao fim da coeducação:
É estabelecida a diferenciação do ensino secundário feminino. Deverá êste ensino tomar em consideração a natureza da personalidade feminina e a missão de mulher dentro do lar. Decorrerão naturalmente dessa diferenciação uma diversa orientação dos programas e a separação das classes, sempre que na mesma escola secundária houver alunos dos dois sexos (Brasil, 1942, grifo nosso).
Dessa forma, legitimou-se o ensino secundário feminino como uma etapa de formação das mulheres para o lar, em um discurso de naturalização ligado ao biológico. Compreendemos, pela teoria bourdieusiana, que o discurso de naturalização de um modo legítimo de ser mulher se trata de uma perspectiva patriarcal, que condensava duas operações: “[...] legitima uma relação de dominação inscrevendo-a em uma natureza biológica que é, por sua vez, ela própria uma construção social naturalizada” (Bourdieu, 2014, p. 33).
A lógica expressa na Lei Orgânica do Ensino Secundário de 1942 representou o modelo da família patriarcal. Havia uma preocupação, por parte da sociedade patriarcal, em relação à escolarização das mulheres, pois elas teriam que assumir futuramente as funções impostas historicamente de mãe, esposa e dona de casa. Para que as mulheres assumissem a função social de futuras rainhas do lar, a Lei Orgânica do Ensino Secundário de 1942 tornou obrigatória a disciplina Economia doméstica, com conteúdos voltados ao lar.
Compreendemos que a atribuição dos trabalhos domésticos somente às mulheres esteve ligada à dominação masculina simbólica. Bourdieu (2014, p. 41) caracteriza como “[...] privados e escondidos, ou até mesmo invisíveis [...]” os trabalhos domésticos sob a perspectiva patriarcal, pois há um determinado confinamento, que possui uma ordem de silenciamento dos corpos das mulheres. A disciplina de Economia doméstica traduzia essa lógica de pensar os papéis das mulheres ligados aos trabalhos domésticos. Nesse sentido, Bourdieu (2014, p. 42) assevera que as mulheres eram coagidas a encarregar-se “[...] das preocupações vulgares da gestão quotidiana da economia doméstica, parecem comprazer com as mesquinharias do cálculo, das contas e dos ganhos que homem de honra deve ignorar”.
A Portaria Ministerial n. 14, de 7 de janeiro de 1946, e a Portaria Ministerial n. 996, de 2 de outubro de 1951, elucidam os conteúdos que estiveram presentes na disciplina de Economia doméstica: preservação da família; ornamentação da casa; limpeza da casa; preparo, conservação e uso das roupas; preparo, conservação e uso dos alimentos; orçamento doméstico; noções de puericultura; e cuidados em relação à quantidade e qualidade dos alimentos. De fato, as intencionalidades na obrigatoriedade dessa disciplina era difundir e coagir as agentes sociais para serem um modelo de mulher bastante específico, ligado à lógica hegemônica e patriarcal, com os papéis de mãe, esposa e dona de casa exemplar. A referida disciplina não era meramente para compreender o orçamento doméstico, mas para inculcar os papéis anteriormente mencionados.
Schwartzman (1981) investiga um documento denominado Estatuto da família, escrito por Gustavo Capanema, em 1939. Compreendemos que a referida lei, apesar de não ter sido promulgada, traduzia os ideais específicos de formação de família e de educação da mulher, conforme os seguintes artigos demonstram:
Art.13: O Estado educará ou fará educar a infância e a juventude para a família. Às mulheres será dada uma educação que as torne afeiçoadas ao casamento, desejosas da maternidade, competentes para criação dos filhos e capazes da administração da casa.
Art. 14: O Estado adotará medidas que possibilitem a progressiva restrição da admissão de mulheres nos empregos públicos e privados. Não poderão as mulheres ser admitidas senão aos empregos públicos e privados. Não poderão as mulheres ser admitidas senão aos empregos próprios da natureza feminina, e dentro dos estritos limites da conveniência familiar.
Art. 15: O Estado impedirá que, pela cátedra, pelo livro, pela imprensa periódica, pelo cinema, pelo teatro e pelo rádio, ou ainda por qualquer meio de divulgação, se faça, direta ou indiretamente, toda e qualquer propaganda contra o instituto da família ou destinada a estabelecer restrições à sua capacidade de proliferação (Schwartzman, p. 72, 1981).
Schwartzman (1981, p. 73) traz uma elucidação referente às motivações que levaram o estatuto da família a não ser promulgado, que foram as críticas de Oswaldo Aranha e Francisco Campos, mas essas críticas não divergiam dos ideais de Capanema, pois foram feitas na perspectiva de que esses ideais “[...] já estariam implícitos na legislação ou na Constituição de 1937.” Dessa maneira, entendemos que havia, nas décadas de 1930, 1940 e 1950, uma defesa para a conservação da família tradicional e do papel da mulher. Ressaltamos que a lógica de pensamento dos papéis destinados às mulheres poderia ser difundida pelas instituições secundárias, revelando-se em uma perspectiva de superioridade masculina e deixando as mulheres à margem.
Em síntese, ao observarmos a circulação de ideias e legitimações (leis) do macrocosmo, que traziam imposições ao microcosmo, identificamos seletividade e elitismo no ensino secundário, tendo em vista que dificultava o acesso das frações de classes baixas por meio do exame de admissão. Além disso, conhecimentos humanísticos estavam calcados em uma cultura que tinha como foco a escrita erudita e a arte de falar bem, com o objetivo da chegada ao ensino superior. Em relação à educação feminina, havia uma perspectiva de formação para o futuro lar, embasada em um discurso naturalizante ligado ao biológico sobre o que se constituía ser uma mulher.
O subcampo da imprensa escolar: as disposições de classe e gênero no Ecos Juvenis
Entendemos que há uma estrita relação da illusio do subcampo da imprensa escolar com os habitus das agentes sociais, pois havia uma coerção social para as estudantes secundaristas aceitarem as regras e se mobilizarem nesse subcampo.
Inicialmente, localizamos indícios das expectativas das estudantes secundaristas do que elas pretendiam ser na sociedade, como estes excertos descrevem[11]:
Avante mocidade salesiana! Trabalharemos e sacrifiquemo-nos pelo bem de nossa gente. E’ da juventude de hoje que dependerá o futuro da nossa terra. Mato Grosso sempre esteve silencioso e ignorado quasi... mas já é tempo de levantar essa cortina que nos encobre! Coragem! Empulhemos a espada pacifica, mas segura da pena e, corajosamente entremos para combater na batalha da Imprensa. Hoje cooperemos com simples artigos colegiais, amanhã quem sabe?... teremos algumas literatas a escrever para grandes jornais, trabalhando no apostolado da boa imprensa, talvez.... (Ecos Juvenis, 1947, s/n., p. 37).
Porém ao lado dessas que constituem a quarta parte desta classe privilegiada não nos pode morrer na memória a lembrança das jovens amantes da nossa literatura Brasileira, que zelosas procuram se porem em contacto mais direto com a vida dos grandes gênios literários, visando um fim realmente nobre: de purificar principalmente nos arrabaldes e locais distantes do meio social, o nosso idioma, que se vai deturpando, sem encontrar um apoio onde se possa firmar (Ecos Juvenis, 1947, n. 53, p. 14).
Assim, observamos que as expectativas das estudantes eram em torno de possuir uma profissão de prestígio e sempre tendo em mira a moral católica, construindo uma lógica, na imprensa escolar, de perpetuação de um habitus de classe e religioso para que as agentes sociais sempre reconstruíssem os habitus em um percurso de longa duração. Para atingir tal propósito formativo, havia um denso exercício no subcampo, de mencionar o objetivo do periódico e do grêmio escolar[12] para que as alunas secundaristas os tivessem sempre em foco, conforme expressa este excerto:
Colégas! O Grêmio Literário do Colégio, seguindo os conselhos e crenças do seu patrono tem por fim:
1) despertar o gôsto literário das alunas incentivando o cultivo da boa leitura, principalmente de autores nacionais. Para tal fim contamos com a biblioteca do Colégio, que está à disposição das interessadas.
2) Aproveitar os trabalhos que apresentem valor como criação e estilo, publicando-os na revista Ecos Juvenis.
3) Cultuar por meio de sessões litero-musicais as datas cívicas e as grandes figuras da História e da Literatura brasileira.
4) Unir as almas em comunhão intelectual, moral e religiosa por meio de reuniões ativas e proveitosas.
5) Tudo fazer para que o nível intelectual do nosso Colégio possa igualarse aos que mais alto se elevam no plano educacional do Brasil. Entretanto, para que se realize tudo o que acima foi dito, necessitamos do auxílio ecooperação das alunas, o que ora solicitamos (Ecos juvenis, 1947, s/n., p. 39).
Esse discurso foi proclamado em um evento que contou não só com a participação das estudantes secundaristas, mas também dos pais das estudantes e possivelmente de autoridades locais. Tal estratégia auxiliava os pais a compreenderem que a instituição escolar se constituía como exemplar para a classe social, fazendo o exercício de incentivo aos estudos com o grêmio escolar e o periódico escolar Ecos Juvenis. Em outras palavras, estava em consonância com a origem das estudantes secundaristas da elite local, pois a “[...] riqueza, a fineza e o estilo da expressão sempre serão considerados, implícita ou explicitamente, consciente ou inconsciente, em todos os níveis do cursus [...]” (Bourdieu, 2015, p. 51).
Compreendemos que a existência de a escrita para um periódico contribuía com a ideia de que a escolha do estabelecimento escolar pelos pais foi assertiva para uma formação culta e intelectual das moças. Bourdieu (2015, p. 56) assevera que “[...] as vantagens e desvantagens são cumulativas, pelo fato de as escolhas iniciais, escolha de estabelecimento e escolha de seção, definirem irreversivelmente os destinos escolares”.
Havia ênfase no gosto pelos estudos no periódico escolar. Nos dois textos a seguir, as estudantes secundaristas expressam a necessidade dos estudos:
A instrução é um bem que nenhum ladrão nos pode tirar
No mundo hodierno, há muita injustiça a reparar, muitos abusos a corrigir, muitas misérias a aliviar, muitas dores a consolar. A maioria das vezes, qual o motivo destes descalábrios? Quase sempre a falta de Instrução – a ignorância. Como sanar e preencher esta lacuna? A leviandade na juventude, a falta de vontade decidida na virilidade, são as causas do pouco saber. Deve ser portanto a instrução a salvaguarda, o grande esteio do levantamento universal. Sómente ela fará ressurgir o mundo em agonia dos escombros da ignorância, para os alicerces duradouros de um futuro ideal e realista. [...]
Dilza Maria II – Normal (Ecos Juvenis, 1951, n. 62, p. 9).
O estudo é o caminho que devemos seguir se quisermos adquirir a maior fortuna: o saber. É através dos estudos que nós somos em contato com as mentalidades antigas e modernas. Foi por meio dos estudos que os sábios puderam chegar ao conhecimento de muitas coisas, inclusive à invenção de vários instrumentos para auxilio da humanidade. Com os estudos, haurimos novos conhecimentos, preparamos nossa vida para o futuro. A um estudante que não ama o estudo e não cumpre bem os seus deveres escolares, não podemos chamá-lo de estudante, mas, sim, de ladrão do dinheiro dos seus pais. [...] Sebastiana de Souza – 4º. Normal (Ecos Juvenís, 1939, n. 29, p.14).
Entendemos que as lógicas expressas nesses textos derivavam da circulação de uma perspectiva de pensamento calcada em uma cultura das elites, que exigia que os membros cultivassem o capital cultural para que as agentes sociais obtivessem sucesso no mercado escolar, e as estudantes deveriam aderir fortemente aos valores escolares, pois a escola poderia satisfazer as expectativas das famílias que eram das frações das classes médias e das elites. Nesse direcionamento, concordamos com Bourdieu (2015, p. 61), que destaca que “a cultura da elite é tão próxima da cultura escolar [...]”.
Questionamos quais eram os conhecimentos e exercícios feitos na imprensa escolar e/ou que Ecos Juvenis incentivava e que incidiam em elementos constituintes de um refinamento cultural. Uma professora do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, chamada Irmã Bartira Constança Gardés, menciona que a centralidade na produção do Ecos Juvenis era estimular “[...] produções literárias de nossas alunas. Era com ansiedade que as meninas aguardavam sua publicação, para ver com letra de forma seus discursos, poemas, contos” (Sá Rosa, 1999, p. 91). A prática de escrita para o impresso colaborava para a ampliação dos níveis de ensino das estudantes secundaristas e as aproximava de uma cultura humanística que incentivava a escrita erudita.
Também, essa aproximação das alunas secundaristas com a cultura humanística ocorreu pelos conhecimentos tidos como distintos, os quais o Ecos Juvenis incentivava, e incluíam literatura, poesia, o estudo da língua portuguesa e história. Como já mencionado anteriormente, os colégios confessionais católicos eram defensores de uma educação nessa perspectiva, pois “o pensamento católico se via como herdeiro natural e direto do humanismo e seu mais dileto defensor” (Souza, 2009, p. 83). Os excertos a seguir exemplificam um sentimento ufanista em torno desses conhecimentos tidos como distintivos. O primeiro é um discurso de uma estudante secundarista em um evento da instituição escolar promovido pelo grêmio literário sobre Castro Alves; e o segundo, sobre a disciplina de História:
6 de Julho
Castro Alves, imortal figura da Literatura brasileira, homenageado pelo Grêmio Literário D. Aquino Corrêa.
A literatura é uma arte. Como todas as artes, ela reflete a alma de uma raça, suas tendencias, o progresso, a cultura, enfim, tudo o que difere um povo dos demais povos de nosso imenso Globo. A literatura brasileira, tal como a própria terra do Brasil, é abundante e fecunda, rica em literatos como em ideias, em beleza, em sentimentos profundos, que fazem vibrar as mais sensíveis cordas de nosso coração. Entre os que enriqueceram nossa literatura, escrevendo páginas imortais, destaca-se um vulto bem conhecido e cada vez mais admirado: Castro Alves.
[...] Lucy Dualibi
1º Clássico (Ecos Juvenis, 1946, n. 52, p. 7-9).
E no teor seguinte que a aluna Nilza Xavier, responde a uma pergunta sôbre o estudo da História: - Que vantagem tem o estudo da História para nós, que tão longe vamos dos tempos em que aconteceram os fatos em discussão? - <> A História é um tesouro onde encontramos as joias mais raras da glória, da cultura e da moral de um povo. Múltiplos são os interesses e grande é a importância do estudo da História. [...] É por meio intermédio da História que nos inteiramos do desenvolvimento da religião, desde a sua origem até os dias de hoje. Vemos e nos exultamos com suas vitórias sôbre seus inimigos que queriam sobrepujá-la sem nunca o conseguir [...] (Ecos Juvenis, 1947, n. 53, p. 18).
Para o exercício de apropriação dos conhecimentos humanísticos, o Ecos Juvenis incentivava e promovia concursos literários, visto que, para a produção de textos para esse concurso, as alunas secundaristas tinham de fazer um exercício de escrita com embasamento em leituras específicas. Os concursos literários eram atividades que mobilizavam as alunas secundaristas para a escrita de textos em torno de uma temática, tais como: Madre Mazarello (Ecos Juvenis, 1946, n. 51); Dom Bosco (Ecos Juvenis, 1947, n. 53); Maternidade (Ecos Juvenis, 1951, n. 61); e o Ecos Juvenis tratava de divulgar as vencedoras dos concursos, como a figura 1 demonstra:
Figura 1 – Vencedoras de concurso literário no Ecos Juvenis

Fonte: Periódico Ecos Juvenis, n. 61, ano 18, 1951.
Dessa maneira, identificamos indícios de que a imprensa era um local propício para o refinamento cultural, calcada em uma lógica própria da distinção que poderia assegurar benefícios simbólicos às estudantes secundaristas.
Também na leitura do Ecos Juvenis, notamos que ganhou relevo a questão de mencionar algumas questões relacionadas às mulheres. O modelo de mulher idealizado nos impressos era Maria, a qual é citada nestes excertos:
Enfim, nossa promessa, depomo-la aos pés da Auxiliadora, a doce Virgem inspiradora da obra já secular de Dom Bosco, a qual nos sorriu em cada ângulo deste recinto – nas horas de piedade e de estudo, trabalho e entusiasmo. E, como foi dito, que toda obra incitada sob o olhar de Maria leva o sigilo de uma benção celeste, assim, esta divina, promessa de proteção do céu, nos acompanhe em nossa futura missão, fazendo que a lembrança de Maria seja luz ao nosso trabalho auxílio e conforto em toda nossa vida. (Ecos Juvenis, 1941, n. especial, p. 19).
Educandas caras: As casas salesianas são jardins, onde se cultivam flores para os céus. Sois vós essas flores – a jardineira celeste – MARIA AUXILIADORA – que em vosso meio opera por intermédio de suas filhas. Foi ela quem foi buscar cada uma de vós em vossas casas, dispensando-vos meios de formação cristã sob sua proteção. Ela quem vos convida a enfeitar-vos da peregrina beleza das virtudes, a nutrir-vos de uma Fé, que tudo vence, a corresponder os anseios de vossas educadoras de vossos pais – a quem representais a preciosa joia, que se lapida no presente, o sorriso do futuro [...]
F. M. A (Ecos Juvenis, 1946, n. 52, p. 31).
Compreendemos que estava em circulação, no Ecos Juvenis, essa referência de mulher exemplar, pois Maria era recatada, virgem e pura, e por essa razão, as alunas deveriam seguir esse protótipo de mulher ideal. Azzi (2003), ao incursionar na trajetória de instituições escolares femininas salesianas, sinaliza que esse modelo era recorrente nessas instituições. Na análise sob a perspectiva bourdieusiana, entendemos que essas menções estiveram ligadas à inculcação de um ethos às estudantes secundaristas, que a “honra” da mulher “[...] só pode ser defendida ou perdida, sua virtude sendo essencialmente a virgindade e a fidelidade [...]” (Bourdieu, 2014, p. 64). O culto à pureza e à castidade era um exercício constante no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora (Ortiz, 2014), e a imprensa escolar contribuía para isso, apesar de não mencionar de forma explícita, o impresso destacava que os valores das alunas salesianas eram a pureza e a santidade.
Nesse sentido, o ethos de gênero que se construía no subcampo da imprensa escolar salesiana estava calcado em uma perspectiva de subordinação da mulher, que no mundo simbólico, pode vir expressa na exaltação da castidade, “[...] das prendas ao lar, à aquarela e ao piano, e também, pelo menos nos países de tradição católica, à prática religiosa, cada vez mais exclusivamente feminina” (Bourdieu, 2014, p. 102). Outra crença que esteve em torno da imprensa escolar foi a questão de associar a mulher aos trabalhos domésticos, sendo essa associação ligada ao que as alunas pretendiam se tornar, como estes textos romantizados expressam:
Quando eu for dona de casa...
Não lhe agrada, minha boa amiga, êste este pensamento? Quem não pensa em ter o seu lar muito bem organizado, arranjado com carinho? Cada coisa em seu lugar, tudo bem ordenado, é assim que desejo trazer sempre a minha casa. Não é este o pensamento que lhe vem idéia quando pensa em ser dona de casa? Bem, aqui vão alguns conselhos que tenho a certeza, serão bem recebidos pois facilitam muito a tarefa de uma dona de casa. Vamos começar pela cozinha, que é a “dor de cabeça das donas de casa” sem prática alguma, pois bastará um pouco de bôa vontade e interêsse, para que o “horror” se transforme em uma doce, senão agradável tarefa [...] (Ecos Juvenís, 1950, n. 57, p. 23).
Economia Doméstica
Sabatina de Jacy f. de Britto
3ª Série
Campo Grande, 19/4/1948
Entende-se por “Economia Doméstica” saber governar bem uma casa, isto é, não esbanjar muito dinheiro e tambem não poupar demais. Cuidar bem dos empregados, afim de que eles façam tudo direito e bem feito. Devemos comprar tudo conforme as nossas posses. Para saber tudo isso, precisamos pois estudar a Economia Doméstica. A Economia Doméstica, não é uma ciência mas um complexo de ciências que ensinam tudo o que é necessario para uma bôa organização do lar. Economia Doméstica significa lei da casa" conforme a origem Grega. A lei na familia é uma necessidade. Se não houvesse lei na familia; seria uma desgraça, a casa toda ficaria em reboliço. [...] Portanto, é necessaria a lei na família e quem a faça observar. Se tivermos mais tarde que ser donas de casa, e se quisermos ser santas e sabias, precisamos cuidar primeiramente muito bem do que diz respeito á Economia Doméstica. Devemos ser o “anjo da família”. Se soubermos fazer saberemos mandar: Quem não sabe para si, não sabe para os outros. O estudo da Economia Doméstica é necessário para sabermos governar nosso lar. Devemos ser as primeiras a levantar para fiscalizar os empregados [...] (Ecos Juvenis, 1948, n.1, p. 28).
Como mencionado anteriormente, consideramos uma perspectiva de superioridade masculina, associar os trabalhos domésticos somente às mulheres. Além disso, observamos que houve um reforço, na imprensa escolar, das condições simbólicas que estavam no estabelecimento escolar, nas famílias, na lógica patriarcal e na concepção de mulher e educação das mulheres que estavam postas na Lei Orgânica do Ensino Secundário de 1942 e no currículo oficial da disciplina de Economia doméstica. Também entendemos que as questões que envolveram a classe social das estudantes secundaristas não foram desconexas das questões que envolveram o habitus de gênero inculcado, pois o segundo excerto elucida as intencionalidades da disciplina de Economia doméstica, uma aproximação das moças com conhecimentos domésticos que possibilitariam ter autoridade sobre os empregados. A partir das contribuições de Bourdieu (2014), há possibilidade de entender que, apesar de as experiências das mulheres as aproximarem, pois vivenciam a violência simbólica da dominação masculina, há separação por diferenças econômicas e culturais.
Notamos que o impresso, ao tratar de divulgar que a instituição escolar, inculcava uma formação das moças calcada no culto aos fazeres domésticos, e observamos que poderia ser uma estratégia matrimonial, para divulgar que essas moças possuíam predicativos para se casar, pois perante a lógica de economia das trocas simbólicas, as mulheres são estigmatizadas como “[...] objetos de troca, definidos segundo os interesses masculinos, e destinados assim a contribuir para a reprodução do capital simbólico dos homens [...]” (Bourdieu, 2014, p. 56). A figura 2 possibilita observar, por meio de uma fotografia e um texto, a divulgação de uma atividade de bordado das estudantes secundaristas.
Figura 2 – Alunas ginasianas costurando

Fonte: Periódico Ecos Juvenis, n. 61, ano 18, 1951.
Consideramos que outra possibilidade de análise em torno das figuras 1 e 2 diz respeito ao modo de se vestir das moças, que estava ligada à perspectiva da religião católica, que impunha que as roupas das jovens católicas deveriam ser longas. O texto abaixo comparou as mulheres que vestiam de forma indecente com pessoas que acometidas por lepra, ratificando estigmas e estereótipos em relação às mulheres e a uma doença que afligiu a humanidade por séculos.
O mesmo faço eu... (não em Molokai, onde talvez não irei...), o mesmo fazem as pessoas de <<bom senso>> e de costumes ímprobos, quando... pelas ruas de nossas cidades, encontram –, ou encontramos – meninas e moças INDECENTEMENTE vestidas. Que horor, Ptoloméia; Então a senhora NOS COMPARA com... leprosos??? Acho que não exagero. [...] Não receio afirmar que <<jovens imodestamente vestidas>>, que expõem ao público o que a mais elementar lei da moral e da bôa educação, manda cobrir, são POBRES LEPROSAS (sic!) nauseantes: desafiam a voz da consciência, a voz dos pastores da Igreja que em Nome do próprio Deus, bradam ao escândalo, e ameaçam servir-se da arma poderosa peculiar à Igreja Católica, contra a qual debalde reagiram os <<Napoleões>> da terra a excomunhão! [...] Vossa querida Ptoloméia[13] (sem lepra) (Ecos Juvenís, 1950, n. 57, p. 19).
A classificação no Ecos Juvenis referente à vestimenta das mulheres demonstrava perspectiva maniqueísta e apresentava estas duas classificações: a) mulheres com roupas longas, designando aquelas que eram conservadoras dos bons costumes cristãos; b) mulheres com roupas indecentes, atribuindo uma série de características pejorativas. Entendemos que as estudantes secundaristas eram coagidas a se identificarem com uma vestimenta que expressava uma espécie de confinamento simbólico, que sob a perspectiva bourdieusiana, demonstra que “[...] tem por efeito não só dissimular o corpo, chamá-lo continuamente à ordem” (Bourdieu, 2014, p. 39).
Outro elemento que indicia que as estudantes eram coagidas à conservação social no Ecos Juvenis era ser mãe, como nesse longo texto em que Ptoloméia classificou o que era ser uma boa mãe de forma irônica:
As mãezinhas elegantes do século XX – chamamô-las assim – não teem tempo de dar aos filhos as primeiras noções de catecismo. Os filhos, quando os teem, só lhe atrapalham a vida! Calculem! [...] A felizarda da Margarida Bosco, ignorante dessa tão elevada ciência, ensinava aos filhos o Catecismo “todas as noites” e repelia as perguntas e as respostas tantas vezes quantas fosse preciso para que eles as soubessem de cor; [...] Que tal? (Vejo as mãesinhas modernas sorrirem de desdém, só do lado esquerdo...) [...] Mas...todos somos mortais! Depois de uma longa vida de merecimentos, Margarida foi receber no céu, o prêmio de sua virtude heroica. Foi vítima de uma violenta pneumonia. Recebeu os últimos confortos de nossa Santa Religião e até o fim foi assistida pelo filho Sacerdote. Quantos meninos a choraram como Mãe!... Quantos necessitados perderam uma amiga, uma protetora! Entre outras coisas ela disse: - Tenho a consciência tranquila; cumpri sempre meu dever”. Que tal? (terceiro sorriso das mãesinhas modernas, mostrando os dois dentes da frente). Todos somos mortais. E, se uma dessas mães elegantes do séc. XX, fosse chamada perante o Tribunal de Deus?! Ah, queria assistir a esse exame, do qual não há segunda época! – Que virtudes praticaste como esposa e como mãe? – pergunta a voz terrível da Justiça Eterna. A pobre, tremendo procura... e não acha. Coitada! Está lá, sozinha, à frente da Verdade invencível. [...] Sua anti-estética PTELOMÉIA (Ecos Juvenis, 1946, n.52, p. 12).
Dessa forma, em torno do Ecos Juvenis, havia uma celebração da maternidade, em uma perspectiva específica ligada à subordinação das mulheres aos homens. Sob perspectiva bourdieusiana (Bourdieu, 2014), entendemos que as expressões protetora e heroica indiciam uma destituição de outras possibilidades de atividades para as moças. Em outras palavras, tratava-se de um senso prático de exclusão dos assuntos públicos e econômicos, pois a celebração da possibilidade de reprodução biológica das mulheres indica uma subordinação das mulheres a essa atividade de produção.
Outro elemento que emerge nos impressos, indiciando elementos de dominação masculina, era relacionado à estética e alimentação das moças secundaristas, como estes textos elucidam:
Não somos corpo e alma? A beleza é uma qualidade que pode pertencer a ambos; com uma diferença de suma importância a uma jovem cristã. A beleza do corpo caduca e morre com ele e a beleza da alma perdura eternamente com a imortalidade da mesma. Responde-me, querida educanda, qual das duas belezas preferes? Se a natureza te foi pródiga, dotando-te de um lindo semblante e graciosas formas, se o Divino Artifice fez de ti um perfeito modelo aos pintores e escultores, com a beleza perecível de teu corpo, cuidas de ornamentar tua alma com os encantos imperecíveis para os céus? Ou cuidas daquele e descuidas desta? E se não foste agraciada pela natureza e possues grosseiras formas e desagradáveis traços? Ao em vez da maquilage, desprezível máscara da feiura, sabes procurar ornamentos a tua alma, enriquecendo-te de dotes infinitamente superiores aos encantos naturais? A realidade nem sempre me traz uma resposta afirmativa. Quantas e quantas vezes, meu olhar se turva pesaroso ante a face de uma colegial pouco cumpridora dos seus deveres, cujos olhos pisados denotam cansaços e os lábios avermelhados e murchos acusam a passagem do <<baton>> usado na véspera e a extravagância de uma noite de festa. Calma, cara estudante! Ainda é cedo! Não deixes fugir inutilmente a melhor quadra de tua vida para a conquista da beleza moral. [...]. Esforça-te para, se fores bela fisicamente, seres também moralmente; se fores feia, possas merecer este nobre quão significativo elogio <<TÔDA BELEZA LHE VEM DA ALMA>>. THÉMIS (Ecos Juvenis, 1947, n. 53, p. 3-4).
PERFIL PSICOLÓGICO: A GULOSA
Trabalho de Psicologia! Por Helena de Figueiredo, do 2º Ano Normal.
Ei-la, à mesa, sentada almoçando como se fosse “uma camarada” que tendo deixado sua enxada e a foice, sente agora uma “fome devoradora”. Ali está, atrás de um prato, por cima do qual não se vê a companheira da frente. Isto é gula! Acho impossível uma moça que só faz serviços delicados, não se mexe no quintal, na horta, possa sentir tanta fome!... Na distribuição da merenda, é uma vergonha: ela se coloca atrás das outras e estende as duas mãos para ganhar a sua parte. Sempre tem uma desculpa para comer muito: ou está com saudade deste prato, ou aquele é de sua predileção .... e nesta brincadeira ela vai comendo por duas! Depois do recreio, logo diz “brinquei muito, seria capaz de almoçar outra vez, já estou com fome de novo”. Criatura terrível! Quer comer o dia inteiro, fora de hora. [...] (Ecos Juvenis, 1951, n. 60, p. 15).
Consideramos paradoxal a perspectiva de beleza imposta no Ecos Juvenis, pois enquanto havia ênfase nos valores católicos, que compunham a beleza da mulher, também havia ênfase para que as alunas obtivessem um corpo e uma estética específica, como os excertos elucidam. Além disso, entendemos que a imprensa escolar instituía e conservava uma hexis para os corpos das mulheres em uma estética em que os corpos das mulheres deveriam ser magros. Dessa forma, concordamos com Bourdieu (2014, p. 82) que, sob a ordem simbólica da dominação masculina, as mulheres são coagidas a se incomodar “[...] com as regiões de seu corpo que lhe parecem ‘demasiado grandes’.”
A partir das análises feitas dos impressos, compreendemos que o periódico Ecos Juvenis reforçava a lógica de pensar a mulher ligada à dominação masculina, para as estudantes secundaristas se identificarem com o modelo hegemônico de mulher.
Considerações finais
Este artigo teve como objetivo fazer uma aproximação à illusio do subcampo da imprensa escolar para compreender a lógica do jogo, na perspectiva de moldar um habitus de classe e de gênero das estudantes secundaristas no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, nos anos de 1936 a 1951.
Como resultados, apontamos que, ao realizar uma aproximação à illusio do subcampo da imprensa escolar salesiana, na perspectiva de moldar um habitus de classe, observamos que a imprensa era um espaço de refinamento cultural, com foco em: escrita erudita para o impresso; acumulação de conhecimentos humanísticos e religiosos; e incentivo aos concursos literários. Em relação à illusio do subcampo da imprensa escolar salesiana, na perspectiva de moldar um habitus de gênero, compreendemos que havia legitimações de alguns papéis, conhecimentos e adjetivações, os quais eram tidos como características legítimas para as moças: mãe, esposa, religiosa, dona de casa, bela e magra.
Consideramos que a illusio que movimentava as estudantes secundaristas na imprensa escolar era bem fundamentada, pois era acoplada a todo o trabalho da instituição escolar em incutir diversos elementos de distinção social e de submissão da mulher, também na perspectiva de que estavam em harmonia com as imposições do macrocosmo em relação à educação secundária e à educação das mulheres. Em síntese, reconhecemos que o Ecos juvenis era um dispositivo que incidia em elementos de distinção social, também de dominação masculina, fato que se considerou como parte de um jogo no campo do impresso, pois as alunas secundaristas e professoras contribuíam com a dominação simbólica masculina na perspectiva de classificação dos tipos de mulheres. Porém, ao mesmo tempo, essas estudantes eram subservientes à dominação simbólica masculina, no sentido de que havia coerção social de uma série de papéis, conhecimentos e adjetivações que as alunas deveriam possuir.
Por fim, consideramos que as análises do Ecos Juvenis possibilitaram o exercício de desestabilizar a divisão de gênero e repensar a conformidade com o natural, pois houve uma construção social naturalizada que permeou as relações sobre os papéis sociais destinados às mulheres. Nessa reflexão, conhecer a História da Educação das mulheres contribui para repensar a contradição da divisão de gênero.
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SOBRE OS AUTORES
Cristian Lopez Gomes: Aluno do curso de Doutorado em Educação da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação, Memória e Sociedade (GEPHEMES).
Contribuição de autoria: conceituação, análise formal, investigação, metodologia, redação do manuscrito original e redação – revisão e edição.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0091568428833430
Jacira Helena do Valle Pereira Assis: Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Professora Titular aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Contribuição de autoria: conceituação, análise formal, investigação, metodologia, redação do manuscrito original e redação – revisão e edição.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7174344701638609
AUTODECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS ÉTICOS
Não houve utilização de IA, e a pesquisa, por não envolver participação de seres humanos, dispensou a necessidade de submissão a comitês de ética.
Submetido em: 01.12.25
Aceito em: 22.05.26
Publicado em: 25.06.26
[1] Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, Mato Grosso do Sul, Brasil; cristiangomes2000@gmail.com
[2] Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil; jpereira.dou@terra.com.br
[3] Este trabalho é fruto da dissertação do primeiro autor (Gomes, 2023), intitulada Impresso escolar Ecos Juvenis: Disposições de classe e gênero na formação de estudantes secundaristas no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Campo Grande – sul do antigo Mato Grosso (1936-1951).
[4] Diante da gama de termos referente a impressos produzidos no âmbito escolar, adotamos a definição de periódico escolar por compreender o Ecos Juvenis como material elaborado com a participação de diferentes agentes sociais.
[5] O recorte temporal da pesquisa antecede a criação do estado de Mato Grosso do Sul, que ocorreu em 1977.
[6] A pesquisa insere-se na temática de impressos escolares, que tem sido uma temática abordada em diversas pesquisas no campo da História da Educação, pois entendemos que, a partir da mobilização dessa fonte, em específico, emergem diversas possibilidades de compreensão da dinâmica social do cotidiano escolar. Destacamos que há pesquisas em relação a periódicos escolares/estudantis produzidos em escolas católicas femininas, a saber: Caruso (2006); Abras (2010) e Borges (2011).
[7] Enfatizamos que há produções acadêmicas que mobilizam o Ecos Juvenis como fonte principal (Trubiliano, 2007; Trubiliano; Martins, 2010; Souza, 2003; Gomes, 2023); e o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora como objeto, com diferentes enfoques: o curso normal (Ortiz, 2014); a cultura escolar católica (Andrade, 2021); a implantação do curso ginasial (Oliveira, 2014); a escola doméstica (Silva, 2022) e a imprensa escolar (Gomes, 2023).
[8] De acordo com Bourdieu (2021), illusio é a lógica de interesse construída em determinado campo no qual certas coisas são importantes e outras não.
[9] Consideramos que há profícua literatura em relação a gênero como uma categoria histórica e cultural, mas fazemos essa incursão em diálogo com Bourdieu (2014) e Maria Eulina Pessoa de Carvalho (2004), interlocutora do referencial bourdieusiano que adjetivou o habitus e dissertou sobre a estruturação do habitus de gênero nos processos educativos.
[10] O recorte temporal da pesquisa foi escolhido devido ao número de impressos localizados, totalizando 16, que são datados de 1936 a 1951.
[11] A grafia da época foi mantida em todos os excertos.
[12] O Ecos Juvenis era vinculado ao Grêmio Escolar Dom Aquino Corrêa, do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, que objetivava desenvolver o gosto pela apreciação de leituras católicas, exercitar a declamação e a escrita das estudantes.
[13] Localizamos indícios de que “Pteloméia” era um codinome de uma freira salesiana que possuía uma seção, qual seja, “Tagalerices de Ptolomeia”, em alguns números do Ecos Juvenis.