PRÁTICA DOCENTE DE ANTÔNIO ARAÚJO DE LIMA EM IGUATU-CE
ANTONIO ARAÚJO DE LIMA’S TEACHING PRACTICE IN IGUATU-CE
PRÁCTICA DOCENTE DE ANTÔNIO ARAÚJO DE LIMA EN IGUATU-CE
Francisca Genifer Andrade de
Sousa[1], https://orcid.org/0000-0001-8280-3250
Francisca Risolene Fernandes
Rocha[2], https://orcid.org/0000-0002-9017-2142
Vitória Chérida Costa Freire[3],
https://orcid.org/0000-0002-8029-5907
Resumo:
Neste artigo, o objetivo foi biografar Antônio Araújo de Lima com foco na sua atuação profissional em Iguatu, Ceará (CE). Para atender ao escopo ora traçado, adotou-se a história oral como metodologia, por meio da qual foram coletadas narrativas autobiográficas com o próprio Antônio Araújo de Lima. Ele narrou aspectos de sua vida familiar, educativa e profissional, com foco na sua atuação em sala de aula e na sua constituição como professor. Evidencia-se que Antônio foi um professor de Matemática e de Física que lecionou no município de Iguatu, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, e que hoje, aposentado, recorda com saudade seus alunos e os tempos em que esteve em sala de aula. A partir de sua trajetória de vida, foi possível discutir e problematizar questões ligadas à educação, como metodologia de ensino de matemática, valorização docente e condições de efetivação da prática educativa, demonstrando a sua importância para a história da educação local e regional.
Palavras-chave: história da educação; memória; trajetória de vida.
Abstract: This article aimed to construct a biographical
account of Antônio Araújo de Lima, focusing on his professional career in Iguatu, Ceará (CE), Brazil. Oral history was adopted as the
methodological approach, through which autobiographical narratives were
collected from Antônio Araújo de Lima himself. He recounted aspects of his
family life, education, and professional career, with particular emphasis on
his classroom experience and development as a teacher. The findings show that
Antônio taught Mathematics and Physics in the municipality of Iguatu at the elementary and secondary education levels and
that, now retired, he fondly recalls his students and the years he spent in the
classroom. His life trajectory provided a basis for discussing and critically
examining educational issues such as approaches to teaching Mathematics,
professional recognition of teachers, and the conditions under which
educational practice takes place, thereby highlighting his significance to the
history of education at the local and regional levels.
Keywords: history of education; memory; life
trajectory.
Resumen:
Este artículo tuvo como
objetivo elaborar una biografía de Antônio Araújo de Lima, con énfasis en su
trayectoria profesional en Iguatu, Ceará (CE),
Brasil. Se adoptó la historia oral como enfoque metodológico, mediante el cual
se recopilaron narraciones autobiográficas del propio Antônio Araújo de Lima. Él
relató aspectos de su vida familiar, educativa y profesional, con especial
atención a su actuación en el aula y a su formación como docente. Los
resultados muestran que Antônio fue profesor de Matemáticas y Física en el
municipio de Iguatu, donde ejerció la docencia en la
enseñanza primaria y secundaria, y que actualmente, ya jubilado, recuerda con
añoranza a sus alumnos y los años que pasó en el aula. A partir de su
trayectoria de vida, fue posible discutir y problematizar cuestiones relacionadas
con la educación, como los enfoques para la enseñanza de las Matemáticas, la
valoración de la profesión docente y las condiciones en las que se desarrolla
la práctica educativa, lo que pone de manifiesto su importancia para la
historia de la educación local y regional.
Palabras clave: historia de la educación; memoria;
trayectoria de vida.
Introdução
É importante escrever sobre a vida de pessoas menos importantes que constituem a teia social, como é o caso de professores, tendo em vista que, por muitos anos, apenas aquele grupo com maior prestígio social ficou registrado na História; todavia, grupos como a classe docente muito têm a desvelar sobre as suas práticas e representações acerca do seu ofício, contribuindo, assim, para novas narrativas na área de história da educação (Almeida, 2014).
Como ensina o historiador francês Peter Burke (1992), as pessoas consideradas comuns e, por isso mesmo, menos importantes quando se trata da história positivista também possuem grande valia para compreendermos aspectos históricos, pois as suas atuações são essenciais para a compreensão de aspectos sociais e culturais em determinado tempo e espaço.
Assim, grupos antes marginalizados e excluídos da historiografia passaram a ser focos de estudos por historiadores e demais pesquisadores das mais variadas áreas do conhecimento, como a Ciência Social e a Psicologia, fazendo com que as vidas de sujeitos comuns passassem a ser vistas como valiosas para se compreender determinados contextos e grupos sociais que agora ganham espaço na escrita da História, a exemplo das mulheres, das crianças, dos negros, dos indígenas e dos quilombolas. De acordo com Dosse (2015), foi muito importante essa reviravolta na escrita da história, porque antes essas pessoas sequer apareciam, como se não existissem, e agora elas já são mencionadas como de grande importância e essenciais para trazer à tona questões que não eram sequer mencionadas, como seus costumes, seus saberes, suas práticas, sua organização social, suas práticas culturais, seus desafios e seus preconceitos, dentre outras.
No caso das mulheres, grupo historicamente relegado ao esquecimento, elas ficaram muitos séculos invisibilizadas e silenciadas nos grandes ou pequenos registros históricos, ainda que, em muitos casos, tenham sido determinantes para grandes descobertas e revoluções. Isso porque, quando a história é escrita por um pequeno grupo, a narrativa tende a seguir a versão que aquele grupo prioriza e defende socialmente (Nunes, 2014), fato que legitimou o apagamento das histórias das mulheres, dos negros e dos indígenas. Dessa maneira, a escrita de histórias vistas de baixo, construídas a partir do olhar de sujeitos historicamente marginalizados, como discutido por Burke (1992), é um ato de grande relevância que vai na contramão de uma história centrada nos donos do poder.
Tendo em vista que a história comumente desconsiderou muitas pessoas durante um largo período, há uma série de versões da história que seguem no anonimato e, por isso mesmo, é importante considerar a diversidade de agentes na escrita dessas versões, principalmente quando se trata da história local, que sequer aparece na grande História documentada pelos “grandes homens”. Dentre esses grupos, numerosos porque a História deixou às margens vários grupos minoritários anteriormente citados, estão os professores, que são fundamentais para a compreensão da educação e dos feitos educativos cotidianos, mas que muitas vezes são desconsiderados pelas grandes reformas educacionais, efetivadas de cima para baixo (Vieira, 2002).
Os professores, envolvidos nas suas lidas diárias no contexto da sala de aula, têm muito a revelar sobre as condições reais da educação regional e local, bem como sobre os saberes e as subjetividades que cercam seu cotidiano e, por isso, devem ter direito à voz e ao registro de narrativas para a história da educação (Nunes, 2014). Dessa maneira, a história da educação deve lançar o seu olhar para as narrativas docentes, escutando e escrevendo sobre as trajetórias de professores que contribuíram para o desenvolvimento da educação em um período histórico e em um espaço específico, a fim de descortinar aspectos da história local, regional e até nacional que seguem no anonimato devido ao desinteresse pelas histórias de pessoas comuns (Burke, 1992). Como explica Vieira (2002), a história da educação não pode ser feita apenas de documentos e registros oficiais, mas também precisa abranger o que de fato acontece nas salas de aula, e tal realidade só pode ser conhecida por meio da escuta de professores que vivenciam a educação todos os dias no contexto micro de suas salas de aula.
Uma vez compreendida essa importância, a presente pesquisa centrou-se em uma personalidade, ainda em condição de anonimato, da educação do município de Iguatu, cidade localizada no interior do Ceará (CE), mais precisamente na região Centro-Sul do Estado. O docente selecionado neste estudo foi Antônio Araújo de Lima, pois, apesar da sua grande importância para a educação municipal, não existe nenhum escrito sobre a sua vida, e esse educador não recebeu nenhuma homenagem até o momento da realização desta pesquisa. Dessa forma, o objetivo do estudo é biografar Antônio Araújo de Lima com foco em sua atuação profissional na cidade de Iguatu-CE.
O citado professor é natural de Iguatu, uma cidade interiorana da região Centro-Sul do Estado do Ceará, e, desde a segunda metade do século XX, muito colaborou com a educação neste município. Salientamos que Antônio Araújo pode ser visto como uma pessoa “comum” por não ter alcançado visibilidade social na cidade onde morou e atuou como docente. Entretanto, o seu lugar social privilegiado (posse de terras, transporte e acesso facilitado à escolarização) torna-o diferenciado em relação a outros grupos sociais que sequer podiam vislumbrar a possibilidade de obter uma formação educativa e seguir uma carreira profissional, como as mulheres e tantos outros menos abastados economicamente. Assim, evidenciamos que Antônio Araújo foi privilegiado nos critérios de classe e de gênero.
Hoje, já idoso e aposentado, o professor Antônio recorda com saudade seus tempos de docência, especialmente os alunos mais antigos que, segundo ele, eram mais interessados em estudar. Com formação em Física, mas sempre apaixonado por Matemática e dedicado a ela, Antônio Araújo de Lima, por meio de sua trajetória de vida e profissional, apresenta-nos muitos aspectos da educação iguatuense ainda em situação de anonimato, tornando-se um importante objeto da história educativa da região Centro-Sul e do Ceará.
Aspectos metodológicos
A pesquisa teve início no mês de novembro de 2024, com ida a campo para pesquisar professores de Iguatu-CE que pudessem participar do estudo e integrar o projeto de pesquisa “História educativa cearense, educadores e suas práticas”, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual do Ceará (CEP/UECE), sob o Parecer Consubstanciado nº 6.270.536.
Antônio Araújo de Lima foi selecionado, dentre outros professores, por ser um docente antigo que atuou em vários colégios do município citado, o que nos leva a entender que ele muito colaborou com a educação de Iguatu e de cidades vizinhas, já que, por ser uma cidade-polo da região Centro-Sul do Ceará, é comum que várias pessoas recorram a Iguatu em busca de escolarização formal.
O desenvolvimento da pesquisa implicou atenção especial à etapa das entrevistas, que foram realizadas mediante autorização formal do biografado, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Nesse documento, foram apresentados os objetivos do estudo, os procedimentos metodológicos utilizados, o direito de acesso às informações produzidas, bem como a possibilidade de desistência a qualquer momento, sem qualquer prejuízo. Também foram esclarecidos a ausência de benefícios ou custos diretos ao participante e o uso das informações exclusivamente para fins acadêmicos e publicações científicas decorrentes da investigação.
Assim, após o aceite do professor Antônio Araújo em colaborar com o estudo, foi realizada a entrevista livre em história oral, que consiste na realização de entrevistas gravadas, transcritas, transcriadas[4] e validadas para, então, serem utilizadas as narrativas na escrita de aspectos da história por meio das oralidades que envolvem nuances de uma trajetória singular e plural ao mesmo tempo (Avelar, 2007). Essa metodologia de pesquisa, hoje muito utilizada no campo da Educação e das Ciências Sociais, surgiu a partir da invenção do gravador e da necessidade de ampliação de fontes que não fossem escritas ou documentos oficiais elaborados por instituições governamentais. A entrevista em história oral preconiza a gravação das oralidades para sua posterior escuta e transformação da fonte oral em fonte documental passível de ser analisada minuciosamente pelo pesquisador (Meihy; Holanda, 2007).
As narrativas, embasadas nas memórias do tempo passado, podem ser marcadas pelo esquecimento, o que não se constitui em um problema, de acordo com Le Goff (1990), porque, além de esse ser um fato bastante comum quando se tomam como objeto de estudo pessoas de idade avançada, o que interessa para a escrita da história não é necessariamente a ideia de uma verdade absoluta que precisa ser validada, mas principalmente o entendimento de como aquele sujeito constrói determinada perspectiva sobre um fato ou evento histórico por ele vivenciado e que permanece vivo em sua memória.
Foi realizada entrevista livre em história oral no dia 4 de dezembro de 2024, na residência do professor Antônio Araújo de Lima, em Iguatu-CE, sendo registrada com gravador de voz digital disponível em aplicativo para smartphone. A entrevista teve duração de 45 minutos e, de posse da gravação, posteriormente, realizamos a transcrição das narrativas em documento no formato Word. Após documentadas, as oralidades retornaram ao entrevistado no dia 15 de fevereiro de 2025, quando foram validadas e se tornaram fontes documentais que embasam o presente manuscrito.
Após a validação das entrevistas pelo biografado, as fontes foram transcriadas e textualizadas para que pudessem entrar na fase de devolutiva social, quando buscamos dar visibilidade aos sujeitos e às suas narrativas por meio da divulgação de nossas pesquisas.
Vida e docência de
Antônio Araújo de Lima
Antônio Araújo de Lima nasceu em 16 de maio de 1952 e possui 73 anos. Trata-se de um senhor que hoje já está aposentado e vive em um sítio no município de Iguatu-CE. Para ele, este é o melhor período da sua vida, porque pode desfrutar dela de forma mais tranquila: “Hoje eu vivo mais feliz do que antigamente. A minha aposentadoria é a melhor coisa da minha vida, porque eu vivo mais tranquilo aqui no meu sítio, posso descansar, não que não gostasse de ser professor” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024). Conforme pontuou, mesmo que hoje seja muito realizado com a sua aposentadoria, também confessa que ser professor era um motivo de realização e que gostava de exercer essa tarefa.
Antônio Araújo de Lima nasceu em Iguatu-CE em uma localidade chamada Alencar, que hoje é um distrito do município, uma região interiorana com características do campo, como ele mesmo falou: “Alencar, no tempo que eu nasci era tudo mato, uma mata fechada, e tinha uns açudes ao redor também, onde a gente brincava, se divertia” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024). Portanto, ele teve uma infância muito tranquila naquele lugarejo campesino, onde vivenciou os primeiros anos de vida, até que a família decidiu se mudar integralmente para o Centro de Iguatu em busca de melhores condições para os filhos estudarem.
Aí, quando foi um tempo, chegou escola em Iguatu para todos os meus irmãos e eu era pequeno ainda, não estudava ainda não. Aí os meus pais decidiram que era melhor nós todos nos mudarmos para a cidade, porque era muito distante de Alencar para o Centro, e não tinha transporte. O que o meu pai ainda tinha era uma bicicleta [...] (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
Percebe-se que Antônio descende de uma família interiorana que não vivia na principal cidade da região Centro-Sul do Ceará, mas em um lugarejo distante. Contudo, ele não deixou de ter uma vida diferenciada daquela enfrentada por outros do seu tempo. Ele teve esse diferencial pelo fato de sua família ter se mudado para a cidade em razão da necessidade de estudo dos filhos, o que era muito incomum. Além disso, vê-se que a sua família tinha algumas posses, como a bicicleta de seu pai, um objeto que, segundo Verde (2023), era inacessível para muitas famílias de Iguatu antigamente, porque era muito caro e somente alguém com poder aquisitivo considerável podia adquiri-lo.
Além disso, sobre a mudança de local por questões de estudo da prole, nota-se que a família dele detinha considerável poder econômico, pois, de acordo com Sousa (1961), era impossível, para a imensa maioria das famílias do interior do Ceará, manter os filhos estudando, porque era muito mais rendoso que eles trabalhassem para ajudar no sustento familiar. Na realidade, segundo o autor, era uma necessidade das famílias mais pobres que os filhos ajudassem na lida com a terra para dela tirar o próprio sustento, de tal maneira que não havia condições de os filhos de famílias mais pobres acessarem a escola.
De fato, Antônio Araújo de Lima era descendente de uma família com considerável distinção. O seu pai trabalhava no comércio de produtos da agricultura, mas os filhos não precisavam ajudar nessa tarefa porque ele tinha pessoas para exercer esse trabalho em seu sítio na localidade de Alencar. Então, quando a família foi embora para Iguatu, o sítio continuou produtivo e, consequentemente, foi possível manter o sustento da família.
Com o sítio produzindo e vendendo diversas frutas, como abacaxi, abacate, caju e manga, bem como castanha de caju, Antônio Araújo de Lima e a sua família continuaram recebendo o dinheiro referente a tal produção. Essa era uma característica que colocava o professor biografado como pertencente a uma família diferenciada das demais desse contexto, tendo em vista o capital econômico que possuía e que foi crucial para que ele e os seus irmãos lograssem uma trajetória diferenciada no que diz respeito ao acesso à educação e à conquista de posições na sociedade, como veremos adiante.
O pai de Antônio Araújo de Lima se chamava Raimundo Marques de Lima e era um homem que não teve acesso aos estudos, mas a sua família tinha terras produtivas, o que foi importante para que ele conquistasse certo montante de capital econômico que garantiu o conforto dos filhos e a permanência deles na escola, como o próprio Antônio Araújo de Lima relatou: “O meu pai tinha um negócio, vendia frutas e castanha de caju [...]. Era com esse dinheiro que o meu pai sustentava toda a família, e nós não precisamos trabalhar para ajudar [...]” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
Conforme a narrativa, confirma-se o berço familiar diferenciado de Antônio Araújo de Lima no período de sua infância no contexto interiorano. Ele continuou falando de seus genitores, agora de sua mãe, Maria Araújo de Lima, uma mulher que viveu toda a sua vida dedicada à casa, ao marido e aos filhos, sem nunca ter estudado – era analfabeta, assim como o marido: “A minha mãe também não estudou, vivia só em casa cuidando de menino e do meu pai. Passou a vida toda no lar, era zelosa, na cozinha ela era muito organizada e fazia umas comidas que até hoje sinto muita saudade” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
A mãe de Antônio Araújo de Lima era, portanto, uma mulher como tantas outras do seu tempo, que não tinha outra perspectiva de vida além do cuidado com a família e, de acordo com Nunes (2014), esse era motivo de grande realização para a mulher. Inclusive, o fato de o filho ter mencionado que a mãe era organizada e cozinhava bem indica que ela era uma mulher que seguia o que era preconizado na época para o seu gênero, pois era muito importante que as mulheres fossem reconhecidas pelos seus dotes culinários e pela gestão da casa.
Ao tecer uma análise crítica acerca da trajetória de Maria Araújo de Lima, especialmente no que diz respeito ao seu possível sentimento de realização por se dedicar ao lar e à família, é pertinente frisar que esse desfecho se tratava de uma convenção socialmente disseminada em um contexto patriarcal que relegava a mulher à vida privada e ao afastamento da educação formal. Todavia, conforme explica Sousa (2023), nem todas as mulheres cearenses encontravam motivo de realização pessoal ao constituir uma família, ainda que muitas aceitassem tal fim em suas trajetórias diante da ausência de outras perspectivas. Assim, a vida de Maria Araújo de Lima retrata a realidade vivenciada por tantas outras mulheres que, além de analfabetas, viveram confinadas ao trabalho doméstico em face do patriarcado e da consequente desigualdade de gênero.
Inclusive, seguindo os padrões da época, Maria Araújo de Lima formou uma grande prole com o seu esposo. Além de Antônio Araújo de Lima, o casal teve mais 11 filhos, o que era comum na década de 1950, quando não existiam métodos de prevenção da gravidez amplamente acessíveis, principalmente em uma localidade do interior do Ceará. Os filhos do casal citado, assim como Antônio, também tiveram uma trajetória escolar bastante diferenciada, o que fez com que a maioria alcançasse determinadas ocupações sociais. Antônio falou, com orgulho, que
[…] tenho um irmão que
trabalhou no Banco do Brasil, era concursado e tudo, tenho uma irmã que também
se formou professora, só que ela foi embora para São Paulo depois que se casou
e não mais trabalhou; tenho outro irmão que é dono de posto de gasolina, outro
que trabalha com venda de imóveis. Todos nós estudamos, fomos buscar vencer na
vida, como diziam os meus pais (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
A última frase de Antônio diz muito sobre o que era veiculado à época, quando as famílias menos privilegiadas economicamente passaram a enxergar a educação como uma mola propulsora de mudança de vida. De acordo com Saviani (2013), esse foi um movimento brasileiro que aconteceu entre a primeira e a segunda metade do século XX, quando era motivo de orgulho ter um filho formado, com anel no dedo e diploma na parede, porque isso era símbolo de distinção social.
Então, tendo um lar que o cercou de determinadas condições privilegiadas, como a possibilidade de vislumbrar a educação como caminho de ascensão, Antônio Araújo de Lima, já morando em Iguatu-CE, ingressou na escola de ensino primário para ter acesso à educação inicial. Foi em um grupo escolar, como ele mesmo narrou: “Aí, quando chegou o meu tempo de estudar, minha mãe me matriculou no grupo, onde os meus irmãos já estavam matriculados. Era o grupo escolar, que chamava na época” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
O grupo escolar ao qual Antônio se refere foi um estabelecimento que surgiu no Brasil durante o período republicano, quando se acreditou que era importante alfabetizar o máximo possível de pessoas porque a imagem social do Brasil era muito negativa (Saviani, 2013). Então, com o intuito de alcançar o progresso por meio da educação, foram criados os grupos escolares, com classes multisseriadas, para atender às pessoas e alfabetizá-las o mais rapidamente possível. Foi no grupo escolar de Iguatu que Antônio e os irmãos cursaram as séries iniciais, aprenderam a ler e a escrever, bem como adquiriram noções básicas de Matemática, que eram essenciais ao cidadão da época.
Após concluir os estudos no grupo escolar, Antônio Araújo de Lima ingressou na Escola Agrotécnica de Iguatu, uma instituição mantida pelo Governo Federal, onde hoje funciona o Instituto Federal de Educação do Ceará (IFCE). Na Escola Agrotécnica de Iguatu, Antônio realizou o ensino secundário, que coincidiu com o contexto histórico da ditadura civil-militar brasileira, quando os movimentos sociais e estudantis se opunham criticamente a esse período de repressão e de perda de direitos (Paulo Netto, 2014).
Durante o curso de ensino secundário, ele se envolveu com o movimento estudantil por meio do Grêmio Acadêmico e defendeu os direitos dos estudantes da região Centro-Sul do estado do Ceará: “No meu ensino secundário, antigo secundário que hoje é ensino médio, eu estudei muito, me dediquei muito, e também fiz parte do Grêmio estudantil, porque eu era muito político, era muito crítico” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024). Diante da efervescência política do período ditatorial, o grêmio estudantil constituía um espaço de reflexão política e de organização dos estudantes, que buscavam compreender as discussões político-ideológicas da realidade em que estavam inseridos, bem como considerar propostas de resistência.
Depois do ensino secundário e da inserção no grêmio, Antônio Araújo de Lima conta que queria seguir para o Ensino Superior, mas não havia curso de graduação em sua cidade, apenas em cidades mais distantes, como Crato e Juazeiro do Norte, assim como na capital do Ceará, Fortaleza. Por conta da distância, não foi possível que ele ingressasse de imediato no Ensino Superior e, por isso, teve de trabalhar com seu pai no sítio de Alencar. Posteriormente, soube que uma faculdade seria implantada próximo à sua região de moradia. A instituição era a Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu (FECLI), campus da UECE situado em Iguatu, que ofertou inicialmente alguns cursos de licenciatura, como Pedagogia, Matemática e Física. Antônio interessou-se por esse último e logo fez a sua inscrição para concorrer a uma vaga.
Antônio formou-se no curso de Licenciatura em Física e tornou-se professor de Física e Matemática em várias instituições de ensino no município de Iguatu. Para ele, a docência não foi exatamente uma escolha, pois era a opção disponível em sua cidade naquela época, mas, com o passar do tempo, acabou se identificando com a profissão:
Eu só queria mesmo era
continuar estudando. No colégio, gostava de números, aí fiz Física. Nunca
pensei, até ali, que queria ser professor; na verdade eu fiz licenciatura
porque era o que tinha, era o que o Governo do Estado mandou para o interior.
Mas depois que comecei a rotina em sala de aula passei a gostar e depois me
apaixonei pela profissão. Tudo melhorou depois que passei a gostar de ser
professor e terminei a minha trajetória profissional ainda muito realizado
(Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
Como podemos perceber, temos como sujeito um professor que teve a docência como um caminho possível para continuar estudando, embora essa não tenha sido propriamente uma escolha, mas a única possibilidade de ingressar no Ensino Superior. No entanto, durante a sua jornada em sala de aula, ele acabou gostando da profissão e desenvolvendo um bom trabalho, fato que o fez encerrar sua atuação profissional com um sentimento de realização pelos resultados obtidos por meio do ato de ensinar.
Ao concluir a graduação em Física pela FECLI/UECE, Antônio Araújo de Lima ingressou em uma escola particular para dar aulas de Matemática. Para ele, esse momento foi muito importante, porque marcou o início de sua atuação profissional formal como professor, conforme narrou: “Bom, eu terminei a graduação e logo comecei a ser professor na escola, que na época se chamava Moranguinho. Era particular e me pagava muito pouco, mas foi muito importante pra mim. Eu dava aulas de Matemática para as turmas de quinta e sexta séries” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
Antes de ingressar nessa escola, porém, Antônio Araújo de Lima já ministrava aulas de reforço, ainda como aluno do curso de licenciatura. Essa atuação era informal porque não existia vínculo empregatício, sendo ele próprio quem organizava e geria a sua prática; o pagamento era quinzenal, feito pelos pais dos alunos que o contratavam, como ele explicou: “Eu mesmo fui atrás de dar umas aulas de reforço [...]. Aí aproveitei que era aluno sendo preparado para ser professor e divulguei na vizinhança que ia dar aula de matemática particular, tipo reforço. Aí os pais acharam uma boa ideia [...]” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
Ainda de acordo com Antônio Araújo de Lima, as aulas só tiveram sucesso porque Matemática é uma disciplina difícil e muitos alunos apresentavam dificuldades e, por isso, precisavam de reforço para conseguirem aprender: “Eu aproveitei que matemática era difícil, que muitos alunos não sabiam, não aprendiam os conteúdos, e fiz essa ação, que deu muito certo porque durou quase toda a minha faculdade, e os alunos aprendiam mais comigo do que na escola deles” (Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024). Portanto, percebe-se que Antônio Araújo de Lima se considerava um bom professor, pois conseguia fazer com que os alunos aprendessem com ele o que não aprendiam na escola regular com professores já formados, o que, para ele, era motivo de orgulho.
Então, após essa experiência, Antônio ingressou, já depois de formado no curso de licenciatura, em sua primeira experiência profissional formal como professor, em uma escola particular de Iguatu. A escola era de pequeno porte e pertencia a um casal de professores, mas acabou fechando com o passar do tempo, à medida que outras escolas maiores foram abertas e atraíram a clientela.
Esse foi um movimento que, segundo explica Saviani (2013), aconteceu em todo o país com o surgimento das grandes empresas educacionais, que passaram a tratar a educação como um negócio. No caso de Iguatu, segundo o relato do professor entrevistado, isso se efetivou já no início dos anos 2000, quando algumas escolas, mais precisamente duas, foram abertas e alinharam seus sistemas aos de duas grandes instituições de Fortaleza, capital do Ceará: o Sistema Ari de Sá (SAS) e o Farias Brito (SFB).
No entanto, como a escola Moranguinho, onde Antônio Araújo de Lima trabalhava, não se adequou às novas demandas sociais que colocam a educação como um negócio a ser mercantilizado, acabou sendo desprestigiada socialmente, como tantas outras no estado do Ceará, e fechou as suas portas, conforme discutido por Sousa (2023).
Nessa primeira escola em que atuou formalmente como professor, Antônio Araújo de Lima trabalhou por cinco anos e, depois, passou a trabalhar na Prefeitura de Iguatu. Como professor do município, atuando em escolas municipais, ele disse que as condições de trabalho eram muito boas para ele, porque conseguia ficar lotado em escolas da sede, ou seja, do Centro de Iguatu, que eram mais bem equipadas em comparação com as demais instituições da região. Ainda assim, afirmou que enfrentou alguns problemas, como a falta de material pedagógico, por exemplo:
[...] eu trabalhei em
escolas daqui da sede mesmo, então não eram tão ruins. Eu sei que nas
comunidades era pior, a situação, mas aqui até que era melhor. A estrutura da
escola era boa, os alunos eram bons naquela época, mas faltava as coisas, como
livro, giz. A prefeitura parece que não tinha muito dinheiro naquele tempo, ou
se tinha, não colocava muito para a educação (Antônio Araújo de Lima, dezembro
de 2024).
Portanto, conforme
o relato, percebemos que o professor reconhece que trabalhava em uma situação
melhor do que aquela enfrentada pelos colegas docentes que atuavam nas
comunidades mais distantes do centro da cidade. Essa realidade, conforme estudo
realizado por Sousa (1961), era bastante comum no Ceará e em outros estados,
porque havia maior desprestígio dos lugares mais afastados e interioranos, onde
muitas vezes não existiam escolas, como era o caso da localidade de Alencar na
época em que o professor Antônio Araújo realizou os primeiros anos de seus
estudos. Essa situação levou sua família a se mudar para a cidade de Iguatu
para que os filhos pudessem dar continuidade aos estudos. Essa era a realidade
de muitos dos habitantes da região Centro-Sul do Ceará no século XX, os quais,
muitas vezes, ficavam fora do processo educativo simplesmente porque não havia
escola perto de onde moravam e/ou porque não tinham condições de se mudar ou de
se deslocar diariamente para o centro da cidade.
Ainda sobre as condições de trabalho de Antônio Araújo de Lima, especificamente quanto ao salário recebido, o professor afirmou que considerava a remuneração boa, tendo em vista que vinha de uma escola particular que pagava bem menos do que a Prefeitura. No entanto, se comparado aos salários atuais, considerava-o muito desvalorizado e avaliava que hoje o professor é mais bem remunerado, conforme recordou durante a entrevista:
Eu achava que a Prefeitura pagava
bem. Claro, né... Na escola particular onde eu estava pagava menos, então
quando eu fui para a Prefeitura achei uma grande mudança. Mas, se a gente for
comparar com o que um professor ganha hoje, é claro que hoje é bem melhor, mas
para a época estava bom, não tenho o que reclamar não (Antônio Araújo de Lima,
dezembro de 2024).
Antônio Araújo de Lima rememorou que gostava especialmente de ensinar os conteúdos da área de Matemática, embora fosse formado em Física, porque percebia que os alunos estavam aprendendo e apreciava essa sensação. Ele narrou que buscava utilizar uma metodologia de ensino que valorizava muito, mas que era oposta à utilizada por outros professores: procurava envolver os alunos e despertar neles o interesse pelo conteúdo, em vez de apenas “transmiti-lo” de uma vez, seguindo os conteúdos previstos para a turma e exigindo que os alunos os decorassem mecanicamente:
Matemática é a minha paixão até hoje. Engraçado,
porque sou é físico e não matemático [risos]. Eu via que as crianças estavam
aprendendo, e aquilo era bom demais. E eu gostava de fazer assim em sala de
aula: chegava com um assunto para passar, e eu começava contando uma história
sobre aquele assunto, ou fazendo com que os alunos vissem esse determinado
assunto no nosso meio, e depois é que eu passava o conteúdo para eles. E eles
aprendiam melhor assim, porque matemática é mais difícil do que a gente
imagina, e se o professor não souber usar esses meios, os alunos não aprendem
(Antônio Araújo de Lima, dezembro de 2024).
De fato, Matemática é hoje uma das disciplinas consideradas mais difíceis pelos alunos da Educação Básica, e lançar mão de metodologias e práticas diferenciadas faz com que os discentes se envolvam, vejam sentido nos assuntos abordados e, enfim, aprendam Matemática (Sousa; Fernandes, 2021). De acordo com as autoras, essa é uma das disciplinas que mais causam traumas nos alunos, e muitos professores poderiam mudar as suas condutas para facilitar o rendimento dos discentes, como fez Antônio Araújo de Lima quando era professor do município de Iguatu.
É crucial destacar que a postura didática adotada por Antônio Araújo, ao envolver os alunos no processo de conhecimento para além da transmissão de conteúdos, dialoga com os ensinamentos de Paulo Freire no que concerne ao ensino dialógico e com significado para o educando, na contramão de uma educação bancária e descontextualizada. Nessa perspectiva, sua prática aproxima-se dos pressupostos freireanos e da pedagogia da autonomia, que, por sua vez, toca a dimensão ética e política do ato de ensinar (Freire, 1996).
Essa postura evidencia uma concepção de educação na qual o educando deixa de ocupar uma posição passiva diante do conhecimento e passa a ser compreendido como sujeito ativo no processo de aprendizagem. Assim, Antônio Araújo parece reconhecer que ensinar não consiste apenas em transmitir conhecimentos previamente estabelecidos, mas em criar possibilidades para que os estudantes construam e atribuam significado ao que aprendem. Tal perspectiva aproxima-se da compreensão freireana de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar condições para a sua produção e construção (Freire, 1996). Nesse sentido, a prática pedagógica de Antônio Araújo pode ser compreendida para além de uma escolha metodológica, assumindo também uma dimensão ética, uma vez que pressupõe o reconhecimento dos alunos como sujeitos históricos e ativos no processo de aprendizagem.
Depois de sua atuação no Ensino Fundamental em Iguatu, ele ingressou profissionalmente no Ensino Médio, quando passou a ser professor do Estado, vínculo que manteve até se aposentar. Como professor da rede estadual de ensino do Ceará, passou a lecionar Física, sua área de formação, e não mais Matemática. Para ele, foi uma mudança muito grande; porém, queria atuar no Ensino Médio e considerou que a mudança valeu a pena:
Eu saí do município e vim para o Estado [...]. Era
bom, eu gostava do ensino médio. O ruim é que eu gostava mais de matemática e
no Estado eu dava aula de Física. Não deixavam dar aula fora da área de
formação. Eles olhavam a nossa formação [...]. Mas eu queria essa experiência
no Estado, aí valeu muito a pena fazer essa mudança (Antônio Araújo de Lima,
dezembro de 2024).
Quando estava vinculado ao Governo do Estado do Ceará, mais precisamente à Secretaria da Educação (Seduc), Antônio Araújo de Lima atuou em várias escolas de Iguatu, como Filgueiras Lima, Adauto Bezerra e Liceu, onde formou alunos dos quais se lembra com bastante saudade.
O professor reforçou a ideia de que antigamente era mais fácil ensinar do que nos tempos atuais e afirmou que esse foi um motivo a mais para ter se aposentado assim que completou o tempo de contribuição:
Eu tinha alunos muito bons
antigamente, gente que prestava atenção nas aulas, que não atrasava, que
respeitava o professor. Esses dias encontrei um ex-aluno meu, o Arimatéia, que
hoje trabalha como moto taxista, que ele era um bom aluno, era bom demais! Só
não foi ser coisa melhor porque não teve oportunidade, porque bom ele era
demais. E tinha vários outros também, a Vânia, a irmã dela... O Eufrásio, o Zé
Augusto que hoje é dono de uma mercearia que fica lá no Fomento (um bairro de
Iguatu). E hoje não temos mais alunos como eles, já mais para o final da minha
vida como professor, percebia que na sala de aula era aluno chegando atrasado,
aluno mexendo no celular na hora da explicação, mostrando desinteresse, aluno
querendo me responder com ignorância. Por isso que, quando eu pude me
aposentar, logo aposentei e pronto. Não fiz como outros que ficam em sala de
aula mesmo com o tempo de contribuição, porque eu não aguentava mais viver
algumas dessa situações não (Antônio de Araújo Lima,
dezembro de 2024).
Dessa maneira, vemos a figura de um professor que hoje sente saudade dos tempos passados, tanto que recorda muitos de seus alunos pelo nome e sabe onde estão e o que fizeram em suas vidas, fato que não demonstrou quando falou de seus alunos mais recentes. Vemos, ainda, por meio da trajetória de Antônio Araújo de Lima, algumas das características da educação formal desenvolvida em Iguatu, como as condições de estudo dos alunos e a disponibilidade de materiais didáticos. Também realçamos a mudança no perfil discente com o passar dos anos, o que é compreensível, tendo em vista que estamos tratando de gerações muito diferentes, com formações socioculturais e influências também distintas.
Assim, a trajetória de vida e profissional de Antônio Araújo de Lima nos apresenta vários aspectos da educação de Iguatu e da região Centro-Sul do Ceará, desde o tempo em que foi aluno até o período em que atuou como professor. Isso demonstra que as suas experiências particulares são influenciadas pelo momento em que viveu e pelo contexto social em que se situam as suas vivências, evidenciando que as vidas singulares de sujeitos comuns são muito importantes para revelar as condições de vida em determinado tempo e espaço. Sempre que tratamos de uma vida particular, também abordamos os aspectos macrossociais que a cercam, tendo em vista que somos constantemente influenciados pelo meio em que vivemos, assim como também o influenciamos. Trata-se de uma relação de mão dupla: ao abordarmos um período, tratamos da vida das pessoas e, ao abordarmos a vida das pessoas, também tratamos do período em que viveram (Dosse, 2015).
Considerações finais
A presente pesquisa tratou da trajetória educativa de Antônio Araújo de Lima como docente que atuou por vários anos na cidade de Iguatu-CE, tendo contribuído, assim, para o desenvolvimento educativo dessa cidade interiorana do Ceará. O objetivo foi biografar esse profissional da educação com foco na sua atuação educativa em Iguatu-CE. A escolha desse biografado se explica, justamente, pelo seu envolvimento ativo nas questões educacionais, tanto que ainda é lembrado pelos seus alunos até os dias de hoje.
O estudo foi desenvolvido por meio de entrevista livre realizada com Antônio Araújo de Lima e, para tanto, a história oral foi adotada como metodologia. A entrevista foi gravada, transcrita e validada, tornando-se fonte documental que permitiu desenvolver a escrita deste produto de pesquisa.
Abordar a trajetória de Antônio Araújo, um homem de posses que conseguiu ocupar um lugar social inacessível a muitos do seu tempo, assevera ainda mais a necessidade da escrita de uma história da educação centrada também nas mulheres, conforme exposto na introdução deste manuscrito. Aqui, porém, a escolha por ressaltar uma figura masculina cercada por privilégios se justifica pelo fato de não ter sido localizada nenhuma mulher educadora que tivesse atuado, em Iguatu, no mesmo período que Antônio Araújo de Lima e, dessa maneira, a escuta das narrativas de Antônio Araújo constituiu um meio viável para revelar aspectos da tarefa educativa no interior cearense que, não fossem as suas narrativas, seguiriam anônimos. Ademais, essa realidade evidencia, mais uma vez, a sociedade patriarcal de outrora, que colocava a mulher em segundo plano, negando-lhe voz e protagonismo na teia social (Almeida, 1998).
Os dados permitiram entender a vida de Antônio Araújo de Lima desde a sua origem familiar e trajetória educativa e, principalmente, compreender como foi a sua atuação docente, principal foco do estudo. Revelaram, ainda, que a vida de pessoas comuns é muito importante para se entender a história local e que, no caso dos profissionais da educação, é de grande valia que eles sejam escutados para que se construam outros conhecimentos sobre variados momentos da história. Assim, é possível reescrevermos a história educativa sob o olhar dos seus principais agentes, revelando muito mais do que aquilo que se encontra registrado em documentos oficiais e discursos reformistas.
No caso do presente estudo, foi possível conhecer as condições da educação formal de Iguatu-CE tanto por meio da escolarização de Antônio Araújo de Lima quanto de sua atuação como professor. Portanto, a sua trajetória de vida profissional constitui um objeto de estudo de grande valia para a educação de Iguatu, da região Centro-Sul do Ceará e do estado como um todo. Por isso, especialmente quando tratamos da história da educação, a vida daqueles que se empenharam nessa tarefa possui grande significado para revelar as condições em que se desenvolve o processo educativo em sua vertente prática. Fica aberto o convite para que outros pesquisadores se empenhem nessa empreitada e deem continuidade às discussões ora suscitadas.
Referências
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Edições Demócrito Rocha, 2002.
SOBRE AS AUTORAS
Francisca Genifer Andrade de Sousa. Doutora
em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual
do Ceará (PPGE/UECE). Professora assistente da UECE. Integrante do grupo de
pesquisa Práticas Educativas, Memórias e Oralidades (PEMO).
Contribuição de autoria: metodologia, investigação, supervisão.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4904576198000368
Francisca Risolene Fernandes Rocha. Mestra em Artes pelo Programa de Pós-Graduação Profissional em Artes (PROFARTES) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Professora efetiva da Rede Municipal de Ensino de Horizonte-CE.
Contribuição de autoria: redação – rascunho original, escrita – revisão e edição.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1700981050573327
Vitória Chérida Costa Freire. Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará (PPGE/UECE). Professora assistente da UECE. Integrante do grupo de pesquisa Práticas Educativas, Memórias e Oralidades (PEMO).
Contribuição de autoria: curadoria de dados, redação – rascunho original, escrita – revisão e edição, análise formal, validação.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3973477219174231
AUTODECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS ÉTICOS
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (CEP/UECE), sob o Parecer Consubstanciado nº 6.270.536. Não houve uso de ferramentas de inteligência artificial em nenhuma fase.
Submetido: 01.12.2025
Aprovado: 31.08.2025
Publicado: 21.10.2026
[1] Universidade Estadual do Ceará
(UECE), Fortaleza, Ceará, Brasil; geniferandrade@yahoo.com.br.
[2] Secretaria Municipal de Educação
de Horizonte (SMEH), Horizonte, Ceará, Brasil; profarisolenefernandes@gmail.com.
[3] Universidade Estadual do Ceará (UECE), Fortaleza,
Ceará, Brasil; vitoriacherida91@gmail.com.
[4] Transcriação é o processo de reelaboração da narrativa oral para a forma escrita, para além da transcrição literal, buscando preservar os sentidos, a intencionalidade e o contexto da fala do entrevistado, ao mesmo tempo que se adequa o relato às características do texto escrito (Meihy; Holanda, 2007).