DEPOIS DE UM PERÍODO ATRIBULADO: ANÁLISE DE PRONTUÁRIOS DE UMA PROFESSORA E UM ESTUDANTE NO SANATÓRIO PINEL (1929 E 1934)

 

AFTER AN ASSIGNED PERIOD: ANALYSIS OF MEDICAL RECORDS OF A TEACHER AND A STUDENT AT THE PINEL SANATORIUM (1929 AND 1934)

 

TRAS UN PERIODO DE PREOCUPACIÓN: ANÁLISIS DE HISTORIALES MÉDICOS DE UNA PROFESORA Y UN ALUMNO EN EL SANATORIO PINEL (1929 Y 1934)

 

Renata Marcílio Cândido[1], orcid.org/0000-0002-8032-881X

 

Gabriel Meneses Barros[2], orcid.org/0000-0002-6537-8456

 

 

Resumo:

O Sanatório Pinel, uma iniciativa privada do então diretor do Hospital do Juquery, Antonio Carlos Pacheco e Silva (1898-1988), teve como primeira interna uma professora, em dezembro de 1929. Anos depois, em 1934, aparece, na abertura dos prontuários, dentro da categoria profissão uma nova função, a de estudante. O intento deste artigo é realçar convergências e distanciamentos entre os prontuários médicos da primeira professora e do primeiro estudante internados na instituição. A análise dos documentos considerou os conceitos de Erving Goffman sobre instituição total, estigma e carreira, e de Michel Foucault, vontade de saber. Pretende elucidar como tais pressupostos (ou conceitos) podem servir de pistas para a História da Educação no período.

Palavras-chave: História da docência; Sanatório Pinel; prontuários psiquiátricos; Professora; Estudante.

 

Abstract:

The Pinel Sanatorium, a private initiative of the then director of the Juquery Hospital, Antonio Carlos Pacheco e Silva (1898-1988), had a teacher as its first patient in December 1929. Years later, in 1934, a new function appears in the opening of medical records: that of student. The aim of this paper is to highlight convergences and differences between the medical records of the first teacher and the first student admitted to the institution. The analysis of the documents considered Erving Goffman’s concepts of total institution, stigma, and career, and Michel Foucault’s will to know. The intention is to elucidate how these assumptions (or concepts) can serve as clues for the History of Education in that period.

Keywords: History of teaching; Pinel Sanatorium; Psychiatric records; Teacher; Student.

 

Resumen:

El Sanatorio Pinel, iniciativa privada del entonces director del Hospital Juquery, Antonio Carlos Pacheco e Silva (1898-1988), tuvo como primer paciente a una maestra, en diciembre de 1929. Años después, en 1934, se incorpora una nueva función en la apertura de expedientes médicos: la de estudiante. El objetivo de este artículo es destacar convergencias y diferencias entre los expedientes médicos de la primera maestra y del primer estudiante ingresados en la institución. El análisis de los documentos consideró los conceptos de Erving Goffman de institución total, estigma y trayectoria, y la voluntad de saber de Michel Foucault. La intención es dilucidar cómo estos supuestos (o conceptos) pueden servir como claves para la Historia de la Educación en aquel período.

Palabras clave: Historia de la docencia; Sanatorio Pinel; Historiales psiquiátricos; Maestra; Estudiante.

 

 

Introdução

 

Foucault (2018b) discorreu, em palestra, sobre o nascimento da medicina social na Europa, quando refutou a ideia de que a medicina moderna caminhou para um atendimento apenas individual, e apresenta três pontos para sustentar tal tese. Em uma síntese das três, é possível afirmar que houve a produção de dados sobre a cidade e a população. Em posse dessas informações, o governo era capaz de projetar a cidade objetivando o melhor tratamento diante de epidemias e problemas transmissíveis: seja desde o isolamento até o afastamento de possíveis problemas de saúde que poderiam se alastrar, também conter a possível desordem social. Nesse último aspecto, uma medida que pode ser observada é a constituição dos manicômios pela Europa, que logo se espalharam pelo mundo todo.

A essa ideia do Foucault, soma-se outra dele, que é a do biopoder[3], que em linhas gerais, tem relação com o fazer viver e o deixar morrer. Tal poder só pode acontecer mediante técnicas de esquadrinhar, acompanhar e guiar os indivíduos através de setorizações, de estatísticas. Enfim, funciona a partir desse saber sobre os distintos grupos, para exercício do poder, que configuram a lógica foucaultiana de saber-poder.

Com a modernidade e a urbanização, o indivíduo tido por louco, que anteriormente vivia nas ruas, se tornou um problema social, uma vez que alterava os princípios de ordem e organização que os espaços públicos exigiam. No âmbito da cidade, não era passível nem permitido que um indivíduo atrapalhasse, e mais do que o mero atrapalhar, que pudessem gerar mais dificuldades; um bom exemplo disso são os possíveis acidentes automobilísticos.

Nessa esteira, alguns autores, como Cunha (1986), por exemplo, indicam que a modernização e todos os seus avanços, manifestos em várias áreas da vida, precisaram lidar com o movimento inverso. Em outras palavras, a modernização carregou consigo o seu oposto: ao mesmo tempo em que se progride, também há regressão[4]. Quanto à dimensão do progresso, é válido registrar que o Positivismo, como corrente filosófica extremamente tributária dos movimentos de modernização que ocorriam no mundo, ganhou grande relevância na virada do século XIX e primeiras décadas do XX.

A ciência como campo, por excelência, encarregada desses avanços, foi acionada para reter esses sinais de regressão, sobretudo no Brasil, que ainda estava lidando e discutindo sobre o fim da escravização e as consequências disso[5]. Assim, uma série de propostas apareceram para contenção dos indivíduos que se tornavam entraves para o progresso esperado. Um deles, em aliança com a medicina, foram os manicômios e o controle daquele que fugia à normalidade tida no período.

Em São Paulo, a primeira instituição asilar, de caráter público e encarregada de regenerar ou manter afastados da sociedade os tidos por insanos, foi o Hospital do Juquery, que data de fim do século XIX, sob a direção de Franco da Rocha (1864-1933). A instituição sobre a qual se discute neste artigo é o Sanatório Pinel, inaugurado em 1929, sob o comando do também diretor do Juquery, Antonio Carlos Pacheco e Silva (1898-1988)[6].

Em forma de síntese sobre o que foi referido até o presente, o próprio Pacheco e Silva escreveu, quando esclareceu sobre o que o levou a construir o Sanatório Pinel:

 

Em 1922, São Paulo começava a crescer de forma assustadora e incoercível. A população do nosso Estado aumentava a olhos vistos, não dando siquer tempo para que as obras públicas e particulares acompanhassem a explosão demográfica, que naquela altura já se processa em incrível escala.

Um dos setores mais atingidos por esse crescimento espantoso foi o hospitalar, dado que o número de leitos disponíveis, nos nosocômios, já não comportava os que deles necessitavam, criando dificuldades insuperáveis. Os médicos, por sua vez, viam-se impedidos de prestar o devido tratamento e assistência aos doentes internados, em virtude da superlotação hospitalar (Pacheco e Silva, s/d, p. 1).

 

O psiquiatra, ao regressar de viagem estrangeira, trazendo consigo as inovações no campo psiquiátrico, decidiu abrir, em parceria com alguns amigos e empresários, um hospital particular para tratamento das pessoas com desequilíbrio mental, atuando concomitantemente, nessa nova empreitada, com a direção do Juquery (Pacheco; Silva, s/d; Tarelow, 2021).

O empreendimento foi chamado de Sanatório Pinel, situado em Pirituba, tendo este nome em homenagem a Philippe Pinel (1745-1826), que foi quem, segundo Pacheco e Silva, “libertou os doentes mentais dos grilhões em que viviam presos, recolhidos a celas escuras e anti-higiênicas. A reforma por ele introduzida foi uma das mais humanitárias de que há memória” (Pacheco e Silva, s/d, p. 6). Assim, a retomada do nome de tal médico também indica os preceitos norteadores da instituição que se fundava.

Em 1929, aberto o Sanatório, a primeira interna na instituição foi uma professora, fato que por si só chama a atenção para aqueles que se debruçam sobre características e estudos educacionais. Na observação desses ingressos, quando percebida a categoria profissão, em 1934, consta uma denominação que, em anos anteriores, não é possível encontrar, que é a função/profissão estudante. Este artigo não objetiva discutir por quais razões estudante consta como profissão, uma vez que, na documentação do próprio Pacheco e Silva, não se localiza nenhuma informação precisa sobre a temática. O objetivo deste estudo é correlacionar essas duas funções/profissões, a partir dos prontuários médicos da primeira professora interna e do primeiro estudante, pretendendo elucidar quais as semelhanças e diferenças dentre ambos. Tal intento inscreve-se na utilização de novos métodos, objetos e fontes para a construção do campo da História da Educação, aqui servindo o prontuário médico.

Para tanto, o presente artigo divide-se em explicitar, em um primeiro momento, os prontuários psiquiátricos, os motivos das duas internações e o que esses pacientes vivenciaram dentro do Sanatório, para em seguida apresentar o que há de comum e diferente neles, fundamentando a discussão dentro das ideias de instituição total, estigma e carreira, propostos por Erving Goffman (2008; 2015), bem como a ideia de vontade de saber, de Michel Foucault (2022). Ainda se faz, nesse momento, uma discussão sobre o erotismo e questões de gênero. Por último, o artigo aproxima essas análises para pensar o que elas elucidam para pensar na História da Educação.

Uma última observação é que, por se tratar de documentação médica, o que exige sigilo dos nomes dos pacientes, apenas será referido o número dos prontuários ou, ora professora e ora estudante. Tais documentos foram consultados no Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP), tendo sido datilografados, não constando o nome do médico que os examinou, nem que acompanharam o caso clínico. Os prontuários são maiores do que folhas A4 e diferem de tamanho de caso a caso. Os dois que aqui utilizados são pequenos, não chegando sequer a dez páginas.

 

O que consta nos prontuários

 

O livro organizado por Ordorika Sacristán e Golcman (2022) demonstra as distintas possibilidades de investigação em história dos saberes psi e as distintas fontes possíveis para isso. O empreendimento das autoras é de refletir sobre o que denominaram “cocina de la investigación[7] (Ordorika Sacristán e Golcman, 2022, p. 10), e debruçaram-se sobre as questões que movimentam e inquietam os pesquisadores e para quais caminhos eles se voltam até chegar em suas pesquisas. Nesse sentido, a preocupação da obra constitui uma espécie de reconstrução do que há por trás de um trabalho conclusivo. Tais apontamentos são pertinentes para saber lidar com o prontuário médico.

Ainda dentro dessa ideia de “cocina de la investigacíon”, importa indicar que a inquietação por trás deste artigo é compreender melhor aspectos da doença mental, sobre docentes e estudantes, em um recorte temporal de fins dos anos 1920 e primeira metade de 1930, com a preocupação de saber o que há de comum e distinto entre docência e o alunado.

Assim, para circunscrever mais apropriadamente sobre o que foi tratado, é importante, a priori, acionar o conceito de carreira, articulado por Goffman (2015), utilizado para retratar internos de hospitais psiquiátricos. O sociólogo argumenta que, costumeiramente, se pensa que carreira é apenas para aqueles que vivenciam alguma ascensão, mas propõe que qualquer vida possui uma carreira, e que “não é algo que possa ser brilhante ou decepcionante; tanto pode ser um triunfo quanto um fracasso” (Goffman, 2015, p. 111). Ainda ressalta que a importância do termo é justamente essa ambivalência. Com esse sucinto esclarecimento, convém apresentar as duas carreiras analisadas neste texto.

O prontuário 001 refere-se a uma professora de 23 anos, branca, brasileira, solteira, residente em São Paulo, levada ao Sanatório por uma familiar, provavelmente sua irmã. Chegou à instituição em 2 de dezembro de 1929 e recebeu alta em 27 de janeiro de 1930. No ato da entrada, apresentava-se com “Excitação psycho-motora muito accentuada. Atropelo nas associações de idéas. Canta, ri-se alto, dança. Fuga de idéas; extravagancia no modo de associal-as” (Sanatório Pinel, 1929, s/p[8]). Ainda assim, o prontuário também atesta que sua memória se manteve conservada.

É apresentado histórico, tanto familiar quanto pessoal, em que “consta numerosos casos de psycopathias na familia” (Sanatório Pinel, 1929, s/p), e que sua mãe estava, naquela ocasião, internada no Hospital Juquery, também por questões mentais. Ambos os indicativos podem servir, em parte, como justificativa para o acometimento do desequilíbrio mental por parte da professora. Em seus antecedentes, encontra-se registrado:

 

Professora normalista, moça distincta, esforçada, intelligente e applicada, viu-se obrigada, desde cedo, por difficuldades financeiras, a trabalhar e a luctar.

Depois de um periodo atribulado, tendo enfermado sua mãe, surgiram as primeiras desordens mentaes (Sanatório Pinel, 1929, s/p).

 

É interessante perceber que os atributos que vão sendo mencionados referentes a ela são quase como condição de sinalizar que seu problema era fruto de algo para além dela, situação explorada mais à frente. Ademais, no prontuário constam exames somático, neurológico e psíquico, sendo os dois primeiros extremamente específicos do campo da medicina, principalmente na nomenclatura utilizada; devido a isso, por fugir do que pode convergir para pensar na História da Educação, a ênfase recai sobre o último, que se debruça sobre critérios mais específicos do histórico e dos condicionantes sociais e familiares que podem ter incidido sobre a doença mental.

No exame psíquico, os atributos foram retomados, iniciando com a menção de seu “Grau de cultura bastante desenvolvido para uma professora normalista” (Sanatório Pinel, 1929, s/p), passando a descrever sua vida como interna, em que a agitação se acentuou nos primeiros dias, quebrando pratos e copos, desfazendo as camas, rasgando as vestes e tendo “insomnia rebelde” (Sanatório Pinel, 1929, s/p). Também se destaca que “manifesta idéas eroticas, procurando segurar e beijar os que della se aproximam” (Sanatório Pinel, 1929, s/p). Acresce-se ainda:

 

Despe-se, rasga as vestes, põe em desordem as roupas de cama, arrasta o leito de um para outro lado. Tem, por vezes, impulsos aggressivos. Faz grande barulho, movimenta-se de um para outro lado, canta, ri, com affectação, amneiramentos, fallando em tom de falsete. Ironica, mordaz, ridiculariza as enfermeiras, sobretudo as extrangeiras que fallam portuguêz com sotaque carregado. Cobre-se com as roupas da cama, amarra pannos na cabeça, apodera-se dos anneis das companheiras, procurando cobrir-se com enfeites. A excitação psycho-motora faz lembrar, pela sua intensidade, pelo atropelo na associação de idéas, por aguns conceitos acertados, a que se observa nos estados maniacos. Entretanto, os actos extravagantes, os amaneiramentos, a falta de asseio e, sobretudo, a inaffectividade, a desorientação no tempo, a falta de interesse pelas circumstancias exteriores nos levam a não afastar a hyphotese da demencia precoce hebephrenica (Sanatório Pinel, 1929, s/p.).

 

Na sua carreira de interna, intensificaram-se as manifestações eróticas, fazendo uso de termos obscenos, mantendo-se excitada, mas ainda se alimenta bem. O quadro começou a sofrer alterações a partir de 17 de janeiro de 1930, quando a professora “amanheceu mais lucida, solicitando, insistentemente, que a transferissem de pavilhão, indagando, com curiosidade, sobre o hospital, sua situação etc.” (Sanatório Pinel, 1929, s/p), e “não manifesta mais as ideias eroticas, comquanto tenha consciencia das inconveniencias ditas durante a molestia, pedindo desculpas e mostrando-se vexada” (Sanatório Pinel, 1929, s/p). Dez dias depois, recebeu alta. Na documentação localizada, consta regresso da professora pelo prontuário 297, e a informação de que estaria anexado ao primeiro, o que não foi o caso, indicando a possibilidade de o documento ter sido perdido.

Por sua vez, no prontuário 1037, há informações sobre um estudante que, conforme o prontuário esclarece, era de medicina, à época com 23 anos, branco, brasileiro, solteiro, residente de Porto Alegre, com entrada em 27 de agosto de 1934 e saída em 25 de novembro do mesmo ano no Sanatório Pinel. A peculiaridade do caso é que ele foi sozinho para a instituição, pedindo para ser internado. No exame feito na entrada, os médicos nada puderam observar de anormal, apenas a forma taciturna do estudante. Conforme o prontuário:

 

É um tanto "fechado", reticente, não nos querendo revelar á primeira vista o que sente. Sabemos porem que é consciente, tendo mesmo ainda a auto-critica necessaria, para saber que os fenomenos de televisão[9] que apresenta, não são de uma pessoa normal, internando-se mesmo, com o fim de combater esse sintoma morbido (Sanatório Pinel, 1934, s/p).

 

No exame psíquico, por sua vez, indicam, para além da forma reticente, que evitava o contato com terceiro, “só deixando transparecer as suas idéas delirantes depois de se lhe captar a confiança” (Sanatório Pinel, 1934, s/p), a ponto de sequer responder às perguntas feitas pelo médico. No mais, o estudante trazia consigo um relatório feito por ele mesmo, em que expunha os pontos que acarretaram sua internação, fato que confiou aos médicos após grande relutância, e que ao ser mostrado aos familiares, surpreenderam-se com o conteúdo.

No relatório apresentado, o que primeiro chama a atenção é que a idade corresponde a 27 anos, ficando em aberto qual a idade verdadeira do estudante. Em seu relato, escreveu que, quando tinha dificuldades de dormir, sacudia a cabeça, costume que fez durante toda a vida. Em seguida, por conta de uma rinite, sinalizou que as medicações alteraram sua percepção do mundo, sentindo quando as pessoas o observavam. Com a vida sexual ativa, tinha vergonha de seus testículos, por considerá-los pequenos. Assim, ao ver anúncios de jornal, aplicou injeções de cortical para aumentar o órgão, que segundo informado aumentaria seus testículos. Não sabe o quanto de uso fez, mas os sintomas de se sentir observado ganhou novos contornos, passando, segundo ele, a entender os pensamentos de algumas pessoas, inclusive das que estavam distantes. Por esses fatores, decidiu internar-se.

No prontuário não consta, diferentemente do prontuário da professora, sobre a vida do estudante dentro da instituição nos meses em que lá residiu. Essa apresentação sintética dos casos permite analisar os pontos que foram aparecendo e se correlacionam ou distanciam-se.

 

Diferenças e semelhanças dos prontuários

 

O primeiro ponto de distância entre os dois casos é que a professora foi levada por terceiros e o estudante foi por conta própria. Goffman (2015) salienta que a forma de ingresso em uma instituição psiquiátrica interfere diretamente na maneira como o indivíduo se relaciona com os outros, também na forma como compreende o espaço de internação. Especificamente sobre o caso do estudante, pode-se refletir sobre a confiança que detinha sobre a instituição como espaço de cura, e o próprio entendimento de que, o que andava pensando e sentindo, não era da ordem do que se pode compreender como normal.

Por sua vez, a professora poderia estar em um estado tão fora do que era entendido como normal pelos seus que precisou ser conduzida para lá, ainda demonstrando grande agitação ao chegar. Goffman (2015, p. 116), informa que situações como essa podem ser marcadas pela construção de sensações de “abandono, deslealdade e amargura”, o que se pode questionar se houve isso ou não no caso da professora quando, diante da aparente melhora notada pelos médicos, perguntou pelos seus. Seria por preocupação ou pela sensação de abandono?

Outro passo de distinção são os sintomas: enquanto a professora era espalhafatosa, ria, dançava e cantava, o estudante era taciturno, um tanto quanto fechado. Mesmo o prontuário não respondendo, cabe questionar: o quanto os excessos de comportamentos, tanto expansivos quanto intimistas, levam familiares e médicos a identificarem isso como um problema mental?

Nas diferenças, infelizmente o prontuário do estudante não narra sobre sua vida no Sanatório Pinel, o que também indica que, com o passar do tempo, a instituição foi otimizando seu trabalho, sintetizando os prontuários, seja pelo número de pacientes, que possivelmente era considerável alocado naquele período, seja pela aceleração dos procedimentos e comprometimento na hora de preencher os prontuários. O quanto esse aligeiramento pode comprometer os tratamentos ou não? Ademais, a isso pode-se acrescer o quanto a instituição estava crescendo, demonstrando a ideia de que os adoecimentos mentais aumentavam e que as instituições públicas não estavam sendo suficientes. Por outro lado, perde-se o acompanhamento da carreira (Goffman, 2015), elemento central para discernimento dos processos de cura, para a aceitação dos métodos e se houve melhora, realmente, na maneira de o estudante se portar, ou seja, se saiu menos retraído, dialogando mais com terceiros, etc.

Ainda no quesito das distinções, de fundamental importância é a forma como os médicos tratam tanto o estudante quanto a professora. No primeiro caso, o rapaz ser reservado representava algo de estranho, mas nada que sinalizasse uma doença mental, mesmo que se negasse a responder algumas coisas aos médicos. Aparentemente, ao relatarem que mostraram a carta do estudante aos familiares, significa que houve diálogo e aproximação entre eles, mas não houve, ao menos não registrado na documentação, uma preocupação em refletir sobre a hereditariedade e se haveria ou não outros parentes acometidos de algum transtorno mental. No caso da professora, a situação foi bem diferente, sendo o primeiro ponto de seu prontuário salientarem que “Conta numerosos casos de psychopathias na familia” (Sanatório Pinel, 1929, s/p).

A hereditariedade passa a ser compreendida como problema a partir das apropriações da pesquisa de Charles Darwin (1808-1882) a respeito da evolução. Algo que foi pensado para a biologia acabou sendo apropriado para a sociedade, dando espaço para o que foi denominado darwinismo social. Williams (2011) aponta que o darwinismo social nasceu de uma interpretação errônea da biologia, em que a ideia de que haveria uma raça mais pura e melhor do que as outras. Nessa escala, os negros seriam aqueles tidos como o pior, e os brancos como o melhor, entendendo a evolução como uma escada, e não como uma árvore. O autor ainda adverte que essa ideia se espalhou rapidamente, contaminando intelectuais de diferentes vertentes políticas, demonstrando que, no darwinismo social, não havia distinção.

Nesse aspecto, os atributos tidos por inadequados, social e moralmente, seriam apropriados pelos descendentes. Quando tal conceito ganhou aderência, em fins do séc. XIX e começo do XX, um termo que vem associado a ele é o da degenerescência. Com a degenerescência, houve novas contribuições, também errôneas, mas que tiveram ampla aceitação, da ciência criminal que se desenvolvia, sobretudo com Cesare Lombroso[10].

Assim, não é mero acaso apontar que há outros psicopatas[11] na família da professora, indicando a propensão de que ela mesma poderia ser. Mais: sua mãe sendo, e estando internada no Juquery, a probabilidade de ela, a professora, adquirir algum transtorno era grande, segundo o saber científico do período. Por isso parece pertinente realçar, em várias ocasiões, os atributos da professora, como “moça distincta, esforçada, intelligente e aplicada” (Sanatório Pinel, 1929, s/p).

Sobre a distinção no tratamento, também se percebem os elogios dispensados à professora, o que não aparece para o rapaz Nesse quesito, destaca-se especificamente, no caso da docente, uma representação social do saber que uma professora normalista deveria ter, quando afirmam o “Grau de cultura bastante desenvolvido para uma professora normalista” (Sanatório Pinel, 1929, s/p). O quanto uma professora deveria saber? Quais saberes são esses? E o que ela fez, apesar de sua enorme agitação, ou foi sobretudo por essa agitação de ideias que demonstrou seu grau de erudição? São informações que não transparecem. Todavia, chama a atenção que, possuindo grau bastante desenvolvido, ainda assim ridicularizava as enfermeiras estrangeiras[12].

Uma última distinção repousa sobre a probabilidade de regresso para a instituição asilar. No caso da professora, mesmo não localizando o prontuário de retorno, na documentação do APESP, há menção a ele, gerando a dúvida. No caso do estudante, não. Entretanto, não se pode perder de vista que ele viera de outra cidade, o que não impede de ter vivenciado novo acometimento de doença mental e ter sido novamente internado. O que isso indica, por si só, é que a internação de alguém em uma instituição psiquiátrica retrata somente um episódio da vida desses indivíduos, não esgotando a própria experiência da existência deles.

No plano das semelhanças, há dois indivíduos brancos, da mesma faixa etária e que, mesmo em circunstâncias distintas, são assistidos por seus familiares, mesmo que no caso do estudante essa assistência e acompanhamento tenha ocorrido depois do ato da internação, pelo que é indicado no prontuário. Outras semelhanças que merecem maior atenção são: a sexualidade aguçada em ambos os casos e a vergonha que o Sanatório constitui e/ou restaura.

Sobre o primeiro ponto, referente à sexualidade aguçada, Foucault (2022), no início de sua obra, indica que houve vários sistemas repressivos da sexualidade na história, mas questiona se eles foram mais abundantes do que aquilo que o autor denomina vontade de saber. Em outras palavras, o desejo de médicos, teóricos, intelectuais e especialistas de saberem sobre os gostos, desejos, pulsões dos indivíduos, no que concerne ao sexo. Para o filósofo, sua hipótese é de que, do séc. XVII em diante houve um movimento para se aproximar e entender melhor mais a vida dos indivíduos, aprofundado em vários movimentos.

Tal situação também é assegurada pelo mesmo autor na obra Microfísica do poder (Foucault, 2018b), referida anteriormente, também em Vigiar e punir (Foucault, 2013), quando debate sobre a disciplina e o quanto esse saber é algo importante para homogeneizar o grupo e, ao mesmo tempo, ter características de cada um, podendo mapeá-los e controlá-los. Nesse sentido, é pertinente que a sexualidade aflore, ou se manifeste, para que os médicos saibam dar o tratamento adequado e agir de forma rápida para que não se alastre, levando ao segundo ponto, que é com relação à vergonha, sua manifestação na instituição asilar.

Em outra de suas obras, Foucault (2018a) estuda e explora os distintos processos de dizer a verdade ao longo da história, e como por uma série de fatores, passando por distintos poderes, como o religioso, o judiciário e o médico, os indivíduos vão sendo conduzidos ao falar (dialogando com sua obra História da Sexualidade, referido anteriormente). Entretanto, é um falar que condiz com expor a verdade, com a precisão sobre o que se sente para encontrar a solução. Desse modo, as próprias instituições também precisam demonstrar que são aptas a lidar com essa verdade enunciada e a resolver o que se lhe apresenta. Portanto, é uma espécie de ciclo que se estrutura: a crença na instituição faz com que se fale a verdade para ela, pois é ela quem pode solucionar a demanda apresentada.

Goffman (2015) informa, na abertura de seu livro, que uma instituição total é aquela em que o indivíduo passa a viver por um tempo apartado da sociedade, o que significa que é outra lógica administrativa. Ao longo do texto, adverte que há uma subtração do eu para uma condução administrativa da própria vida, com horários pré-determinados para absolutamente tudo que acontece. Isso significa salientar que a própria vida do indivíduo não está mais em sua mão quando está dentro de uma instituição total, e que há sempre alguém hierarquicamente superior indicando a melhor forma de conduzir os dias. Segundo o autor:

 

Toda instituição conquista parte do tempo e do interesse de seus participantes e lhes dá algo de um mundo; em resumo, toda instituição tem tendências de “fechamento” [...]. Seu fechamento ou seu caráter total é simbolizado pela barreira à relação social com o mundo externo (Goffman, 2015, p. 16).

 

Assim, a instituição total possui seus atributos de ganho, por exemplo, o próprio fato de se afastar da sociedade, como no caso do estudante, para se resguardar e melhorar sua condição mental. Isso significa salientar que a tutela também possui suas situações de conquista e relevância. Tal distanciamento da sociedade também permite um olhar mais acurado para as próprias condutas e um movimento de cair em si, percebendo os comportamentos que destoam das questões de urbanidade, preparando para a retomada desse tipo de convívio. Em ambos os casos, tal situação é extremamente demarcada: no estudante, é isso que o leva para o Sanatório, no intento de se reorganizar para estar em sociedade novamente; já a professora, em sua estadia lá dentro, aparentemente recupera esses aspectos quando, em primeiro lugar, apresenta vergonha pelo que fizera anteriormente, durante seu descontrole.

Dessa feita, a vergonha[13] é um ponto importante e crucial para o processo de cura. É a vergonha que indica que as marcas de estigma fazem efeito sobre os indivíduos, uma vez que não querem ser rotulados como esquisitos ou anormais pela conduta que executam. Ainda, segundo Goffman (2008), o estigma realça aquele que deve ser evitado, aquele que é inabilitado para aceitação social e, portanto, a pessoa estigmatizada é aquela que socialmente deve ser ignorada. Nos dois casos, a constituição da vergonha e o saber de que suas condutas diferem do que lhes é esperado socialmente estimula, por um lado, a procura da cura, e por outro, de entender que seu procedimento havia levado à condição de interna.

Conforme o autor, em sua concepção originária, o estigma era ligado a sinais corporais. Pondera que isso mudou, sendo estigmatizado aquele que passa por alguma desgraça, no campo psicológico e sentimental, do que ao corpo. Nos dois prontuários analisados, percebe-se que as desgraças aparecem manifestadas sobretudo em seus corpos, seja pela agitação de uma, ou pela forma fechada de outro. É pelo corpo inicialmente que se verifica a postura estranha, depois, quando analisados com mais cuidado, na situação de enunciação, constata-se o desvio e a anormalidade.

Bataille (1987) é um autor que se debruçou sobre o erotismo, e alguns dos seus apontamentos podem ser interessantes. A priori, introduz o seu texto afirmando que, “do erotismo é possível que ele é a aprovação da vida até na morte” (Bataille, 1987, p. 11), o que significa assinalar que é a prova do próprio existir, ou quase uma reivindicação de que se vive. Assim, a manifestação erótica, tanto no estudante quanto na professora, assinala essa afirmação da vida.

Entretanto, o erotismo é algo que se mantém em segredo, conforme o filósofo. Por isso o estudante reluta em entregar o relatório que ele mesmo redigiu, uma vez que era ali que estava exposto o seu erotismo. A professora, por sua vez, sente vergonha dos seus episódios eróticos durante o seu desvario, o que a leva ao voltar o seu segredo.

O erotismo é algo que só pertence aos humanos, e para Bataille (1987, p. 15), no erotismo, “o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser”. Isso significa que, além de afirmação da vida, também é uma luta contra o próprio isolamento: ninguém é erótico sozinho ou para si mesmo, mas o é para um terceiro, manifesta-se no desejo para com outro, por isso é um movimento de quem não quer ficar sozinho.

Apesar da semelhança na questão do erotismo, as manifestações na professora e no estudante são completamente díspares: a professora manifesta-o durante sua fase de desvario; por sua vez, o estudante, por já ter uma vida sexual e erótica ativa, a fim de melhorar seus testículos, medica-se e passa a ter os episódios de alucinação. O que isso demonstra é o quanto os homens podiam ter uma vida sexual ativa, mas as mulheres precisavam se manter fechadas e com os desejos escondidos. Sobre isso, o debate de gênero pode acrescentar algumas noções pertinentes.

Bard (2021), ao mapear os ideários que influenciaram o maio de 1968, no que diz respeito à revolução sexual, observa que grande parte dos textos foram traduções de obras, sobretudo de 1930, o que significa que havia um debate pelo mundo que questionava a sexualidade e as maneiras como ela ocorria. Bard (2021) ainda afirma que as contribuições de Freud impulsionaram esse revisionismo, sobretudo no que tange ao feminino. Ao mesmo tempo, também observa a autora, que as maneiras repressivas se reinventaram, na tentativa de que os desejos sexuais não se manifestassem, e a maneira de conduzir a vida não fosse exposta. Ainda identifica que, apesar de vários autores trabalharem a questão em 1930, o que impediu o avanço e apropriações dos achados desses estudos foi o avanço do nazismo e dos movimentos nacionalistas.

Quanto às proposições referentes ao debate de gênero, Beauvoir (1970) traz uma contribuição interessante. Para ela, o homem é o “Sujeito Absoluto; ela [a mulher] é o Outro” (Beauvoir, 1970, p. 10). Segundo as reflexões da autora, o homem se manifesta sem a necessidade da mulher, enquanto esta só o é pelo querer masculino, e vista e entendida apenas como objeto sexual. Todo o empreendimento dessa autora é em demonstrar o quanto essa categoria do Outro é sócio-histórica, e incentivar que as mulheres se afirmem e vivam sem a prerrogativa masculina. O que se percebe, pelos prontuários, é essa natureza de que a mulher só se afirma, revela seus desejos sexuais e eróticos quando acometida de uma doença mental, enquanto para o homem, é natural que tenha uma vida sexual ativa.

 

Perspectivas para a História da Educação

 

Dessas semelhanças e diferenças, o que pode ser aproveitado e servir de reflexão pela História da Educação? O que revela especificamente para a educação? A primeira questão que se coloca para pensar é referente a quem tem direito a ser estudante em São Paulo. Quando se observa, professora e estudante possuíam a mesma faixa etária quando da internação, o que os diferencia é que uma “viu-se obrigada, desde cedo, por difficuldades financeiras, a trabalhar e a luctar” (Sanatório Pinel, 1929, s/p), enquanto o outro pode levar uma vida como uma espécie de bon vivant, não tendo profissão fixa, podendo ter uma vida sexual ativa e tendo recursos para viajar para São Paulo quando lhe aprouvesse. Além disso, referente ao homem, ele já havia deixado de estudar há quatro anos, e ainda assim era denominado estudante. Por qual razão?

Quanto à docência, o quanto os condicionantes financeiros viram prerrogativa para a entrada na profissão? Já na virada do século XIX para o XX, Monarcha (1999) indicava que havia mais mulheres inscritas na instituição, o que poderia não necessariamente refletir na atuação, mas naquele período, a maioria do professorado era majoritariamente feminino. O quanto disso se deve à necessidade financeira? Obviamente que não se pode responder a tal questão, mas o indicativo é de que o fator financeiro também corroborou para o impulso da feminização do magistério[14].

No mais, o que se observa é que a professora apresenta seus primeiros sintomas “depois de um período atribulado” (Sanatório Pinel, 1929, s/p) em que a mãe adoecera. Não se sabe se esse período atribulado se deve ao estresse por não poder cuidar da mãe, ou pelo contrário, por ter cuidado dela, acrescendo funções de trabalho. Ainda que o prontuário não indique, pode-se levantar a prerrogativa de que, por vezes, professores adoecem e se afastam de suas atividades laborais muito em decorrência de preocupações com membros da família, uma vez que isso afeta sua condição corporal e mental, seja por poder se dispor a auxiliar, encarando de perto a doença de um familiar e a sobrecarga que isso carrega consigo, ou pela distância e possíveis sentimentos de estar em falta, deixando a desejar, não se fazendo útil em uma situação delicada.

Outro tópico pode ser encontrado naquilo que se discorreu sobre vergonha e no quanto ela é uma baliza para as construções sociais, e principalmente para os espaços educativos, uma vez que a sociedade se constitui pelos pudores e no quanto se retraem os desejos e vontades para o bem do contrato social, do viver em conjunto. Assim, a escola, moralizadora das décadas de 1920 e 1930[15], tinha grande força para solidificar, em professores e estudantes, os valores morais que se prezava no Brasil civilizado que erigiam. Nesse quesito, ainda está por se registrar uma história das emoções docentes e estudantis para verificação de quais delas transparecem com maior ênfase. A partir dos prontuários desses dois casos, o que prevalece é a vergonha.

 

Considerações finais

 

Ainda que sucintamente apresentados e analisados os dois casos, resta uma questão: o quanto esses dois exemplos podem, seguindo as linhas foucaultianas, oferecer um saber[16] sobre docentes e estudantes e a escola pública? Responder tal questão pressupõe algumas inferências.

A primeira delas repousa no quanto a instituição escolar se fez um espaço de construção e transmissão de determinados saberes e valores, como referido anteriormente, e que a vergonha, bem como a própria ideia do que é normal para a referida sociedade, são parte desses valores transmitidos. Como marco, principalmente desde o advento da República no Brasil, da civilização/colonização[17], a escola foi lugar da construção e projeção da vergonha, do que é socialmente entendido como normal e o quanto, professora e estudante, em contextos e anos distintos, vivenciaram isso nos próprios corpos e mentes, como ilustrado nos dois prontuários aqui apresentados.

Outra inferência é o olhar social sobre o homem e a mulher: de idade similar, sobressai, no prontuário da professora, um julgamento por suas questões hereditárias e pelas manifestações sexuais dela. Por outro lado, o estudante não recebe um olhar similar, ao menos não transparece no texto. Por exemplo, não questionam o fato de que ele não exercia qualquer profissão, ou da sexualidade ativa e aflorada dele. O quanto esse olhar médico, aparentemente enviesado, se encaixa em outros casos? O quanto isso também dialoga com o olhar social para o homem e a mulher, também um olhar escolar? O quanto o ambiente educacional é espaço para manifestações de um olhar muito mais estigmatizante sobre a mulher do que ao homem? Não se ignora que a escola estigmatize ambos, mas se infere, a partir desses dois prontuários, a maior preponderância de estigma para a mulher.

Uma última indagação dialoga com as questões da sexualidade: o quanto o sexo, que é algo que é escamoteado pela escola, porque cabe a ela construir a vergonha, sobretudo com relação ao próprio corpo, também é determinante na forma de se relacionar e sentir o mundo, mesmo havendo propostas de ensino de sexualidade e de higiene à época[18]?

Responder as questões aqui apresentadas, bem como indicar se as inferências são coerentes e se sustentam olhando um contexto mais amplo, carece de estudos mais aprofundados, seja sobre a própria realidade escolar, seja sobre sanatórios e hospitais psiquiátricos. Eis, assim, um convite a novos desdobramentos e pesquisas para que se possa, de alguma forma, superar os períodos atribulados que circundam a história do país.

 

Referências

 

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BARD, Christine. Século XX e início do XXI. In: STEINBERG, S. Uma história das sexualidades. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2021.

 

BARROS, Gabriel Meneses. “A pedagogia destruirá a penalogia”: discussões educacionais e de ensino presentes no Boletim de Eugenia (1929-1933). In: GUALTIERI, Regina Cândido Ellero; BARROS, Gabriel Meneses. (orgs.). Imprensa e impressos [livro eletrônico]: o formativo e o doutrinário na educação brasileira da primeira metade do século XX. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 2025, p. 94-130.

 

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FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

 

FOUCAULT, Michel. Malfazer, dizer verdadeiro: função da confissão em juízo. Curso de Louvain, 1981. Edição estabelecida por Fabienne Brion e Bernard E. Harcourt. Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2018a.

 

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Org., intro e revisão técnica de Roberto Machado. Rio de Janeiro/ São Paulo: Paz e Terra, 2018b.

 

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: A vontade de saber. Trad. Maria Thereza de Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2022. (Coleção Biblioteca de Filosofia).

 

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SCHWARCZ, Lilian Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

 

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TARELOW, Gustavo Querodia. Psiquiatria e política: o jaleco, a farda, e o paletó de Antonio Carlos Pacheco e Silva. Rio de Janeiro: Editora da FioCruz, 2021.

 

VEIGA, Cynthia Greive. Subalternidade e opressão sociorracial: questões para a historiografia da educação latino-americana. Prefácio de Rosa Fátima de Souza Chaloba. São Paulo: Editora Unesp/SBHE, 2022. (Coleção Diálogos em História da Educação). 

 

WILLIAMS, Raymond. Cultura e materialismo. Trad. André Glaser. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

 

 

SOBRE OS AUTORES

 

Renata Marcílio Cândido. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Departamento de Educação da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Doutorado em Educação (2012) pela Universidade de São Paulo. Integra o Grupo de Pesquisa 'História da Educação: Intelectuais, Instituições, Impressos'' (Unifesp).

 

Contribuições: Conceituação, curadoria de dados, análise formal, investigação, metodologia, redação do manuscrito original, redação – revisão e edição.

 

Lattes: http://lattes.cnpq.br/9931089607245261

 

Gabriel Meneses Barros. Doutorando e mestre pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor da rede estadual de São Paulo. Membro do GEPHED (Grupo de Estudos e Pesquisas Históricas sobre Escola e Docência). Bolsista CAPES PDSE, processo n. 88881.980997/2024-01 e CAPES DS, processo n. 88887.182669/2025-00.

 

Contribuições: Conceituação, curadoria de dados, análise formal, investigação, metodologia, redação do manuscrito original, redação – revisão e edição.

 

Lattes: http://lattes.cnpq.br/9755233672183757

 

 

AUTODECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS ÉTICOS

Respeitando as diretrizes legais (Lei 12.527/2011; Resolução 466/2012; a nível estadual o Decreto nº 61.836/2016), ocultamos o nome dos professores envolvidos e tivemos projeto autorizado pelo Comitê de Ética, parecer n. 7.676.355.

 

 

Recebido em: 02.12.25

Aceito em: 28.02.26

Publicado em: 21.05.26



[1] Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, SP, Brasil; renata.candido@unifesp.br

[2] Secretaria Estadual de Educação, São Paulo, SP, Brasil; gabrielmbarros@uol.com.br

[3] Tal ideia aparece pela primeira vez na obra do autor, em sua última aula no curso Em defesa da sociedade (Foucault, 2010), ministrado no dia 17 de março de 1976.

[4] Embora o presente artigo não explore, a ideia de regressão foi uma temática importante para os frankfurtianos. Para aprofundamentos, ver Adorno e Horkheimer (1985).

[5] Importa o registro de que a maioria dessas discussões apontava para o lugar de que a população negra era perigosa. Por alguns anos, os cientistas debruçaram-se sobre o problema da mestiçagem, na tentativa de compreender se ela era benéfica ou não para o povo brasileiro. A esse respeito, ver Schwarcz (1993) e Munanga (1999).

[6] Pacheco e Silva foi figura relevante na medicina paulista, também na política. Foi professor e catedrático nas principais instituições médicas do estado, deputado, e ocupou cargos públicos na secretaria de educação e saúde à frente da assistência aos psicopatas. Ademais, integrou as principais Ligas de higiene mental e psiquiatria do estado e do país (Tarelow, 2021).

[7] cozinha de pesquisa, em espanhol.

[8] Os prontuários não são numerados em sua paginação. Assim, optou-se em preservar como o documento foi encontrado. Além disso, foi mantida a grafia da época quando se trata de citações diretas.

[9] Não foi possível localizar o significado que tal termo possuía no período em que o prontuário foi escrito.

[10] Conforme Gould (2014), é interessante que o autor traz alguns outros conceitos que foram pertinentes no período, e as incoerências que sustentavam tais ciências.

[11] Importa salientar que psicopata, naquela circunstância, não possuía a conotação que atribuímos hoje, sendo um termo utilizado muito mais como sinônimo para alienado ou doente mental.

[12] O prontuário não dá margem para explorar a questão, nem se circunscreve no espaço deste estudo, mas convém questionar se o ideário nacionalista que cresce por todo o globo nos períodos subsequentes, tendo o marco no Brasil a Revolução de 1930, em que Getúlio Vargas ascende ao poder, já estava presente na sociedade paulista e brasileira. A crença é de que sim, mas não compete ao debate aqui erigido. Ademais, convém explorar a ideia do preconceito para com os estrangeiros, que se torna crescente a partir das greves e motins que eles vão organizando, à medida que reivindicam melhorias nas suas condições de trabalho, na década de 1910. Sobre a temática, ver o amplo estudo de Sevcenko (2024), que toca nas transformações ocorridas em São Paulo na década de 1920.

[13] Aqui, a temática é explorada à luz da perspectiva do estigma (Goffman, 2008), mas é pertinente assinalar que a análise do tema realizada por Eribon (2022) poderia fornecer outros caminhos para a questão.

[14] Ainda sobre a feminização do magistério, destacam-se as pesquisas de Jane de Almeida, e dentre essas o artigo intitulado Mulheres na escola: algumas reflexões sobre o magistério feminino (1996).

[15] Quem discorre sobre os vários processos moralizadores difundidos no Brasil na década de 1920 é Carvalho (1998).

[16] Entendido aqui como um conjunto de conhecimentos que podem proporcionar um saber específico sobre a escola pública brasileira.

[17] Tal leitura, mostrando como pontos quase convergentes, é proposto por Veiga (2022). A autora defende que o processo de civilização, que é uma ideia europeia, executa, na outra ponta, a colonização.

[18] Sobre a proposta de educação sexual como exercício eugênico, ver Barros (2025).