JESUÍTAS NO BRASIL: UM LEGADO EDUCACIONAL EM PERSPECTIVA HISTÓRICA
JESUITS IN BRAZIL: AN EDUCATIONAL LEGACY IN HISTORICAL PERSPECTIVE
LOS JESUITAS EN BRASIL: UN LEGADO EDUCATIVO DESDE UNA PERSPECTIVA HISTÓRICA
Eubia Andréa Rodrigues[1], https://orcid.org/0000-0002-9080-9342
Francisca das Chagas Viana Vale dos Santos[2], https://orcid.org/0009-0003-6270-8696
Matheus de Souza Inhuma Delgado[3], https://orcid.org/0009-0004-5890-0463
Resumo:
Este artigo investiga a atuação educacional da Companhia de Jesus no Brasil Colonial, quando o País não havia ainda se tornado uma nação e cujos atores, no primeiro momento, eram indígenas. Analisam-se seus objetivos de catequese e formação civilizatória e a justificativa de sua missão evangelizadora. A metodologia, baseada na pesquisa bibliográfica, foi voltada para leituras que envolveram o Ratio Studiorum. Por meio de revisão bibliográfica, o estudo aponta como resultados das ações da Companhia no Brasil a fundação das primeiras escolas, a influência na elite e a moldagem de um sistema educacional que deixou um legado duradouro, mesmo após a expulsão da ordem do País, o que impactou as bases da educação brasileira, já que a instrução dos indígenas não constava na agenda de prioridades do clero.
Palavras-chave: jesuítas; educação colonial; Ratio Studiorum; legado educacional.
Abstract:
This article examines the educational activities of the Society of Jesus in Colonial Brazil, at a time when the country had not yet become a nation and its primary population consisted of Indigenous peoples. It analyzes the Society’s objectives regarding catechesis and the promotion of civilization, as well as the rationale behind its evangelizing mission. The methodology, based on bibliographic research, focused on readings related to the Ratio Studiorum. Through a literature review, the study highlights as outcomes of the Society’s actions in Brazil the founding of the first schools, its influence on the elite, and the shaping of an educational system that left a lasting legacy, even after the order’s expulsion from the country—a legacy that impacted the foundations of Brazilian education, since the education of Indigenous peoples was not on the clergy’s list of priorities.
Keywords: jesuits; colonial education; Ratio Studiorum; educational legacy.
Resumen:
Este artículo investiga la labor educativa de la Compañía de Jesús en el Brasil colonial, cuando el país aún no se había convertido en una nación y cuyos protagonistas, en un primer momento, eran los indígenas. Se analizan sus objetivos de catequesis y formación civilizatoria, así como la justificación de su misión evangelizadora. La metodología, basada en la investigación bibliográfica, se centró en lecturas relacionadas con el Ratio Studiorum. A través de una revisión bibliográfica, el estudio señala como resultados de las acciones de la Compañía en Brasil la fundación de las primeras escuelas, la influencia en la élite y la configuración de un sistema educativo que dejó un legado duradero, incluso tras la expulsión de la orden del país, lo que repercutió en los cimientos de la educación brasileña, ya que la instrucción de los indígenas no figuraba en la agenda de prioridades del clero.
Palabras clave: jesuitas; educación colonial; Ratio Studiorum; legado educativo.
Introdução
A educação é um tema sensível quando analisado na sua essência histórica, sobretudo em relação à sua responsabilidade e função social. Ainda hoje, em muitos espaços educacionais, ela se apresenta como um modelo de reprodução e sustentada por um padrão político que impõe o perfil de sociedade que se deseja estabelecer. Destacamos que a educação é ainda palco de disputas contra esse padrão político em prol dos interesses das sociedades, de modo que se criam racionalidades e fragmentações no acesso e na distribuição da educação, pois a busca pela educação trilhou caminhos por diferentes sociedades, criando conflitos pela posse de poder, uma vez que o alcance desse conhecimento está atrelado à obtenção de poder e é um pilar caro entre quem comanda e quem obedece.
Além dessa perspectiva costurada na contemporaneidade da educação, é preciso lembrar que a cientificidade da educação não é absoluta, mas relativa, pois, historicamente, outras formas de educação, como a educação jesuítica, são relevantes dentro do contexto de consolidação das abordagens educacionais. Nesta investigação da educação, propusemos aquela advinda da Igreja Católica com os ensinamentos bíblicos e a mudança de racionalidades com a imposição do cristianismo, sobretudo, por meio da atuação educacional da Companhia de Jesus no Brasil Colonial.
A educação jesuítica no Brasil “esteve relacionada com os propósitos do governo de Portugal. Naquele momento, os padres e sua missão facilitariam a implantação e manutenção do modelo econômico escravista mercantilista e a divulgação da fé e dos valores cristãos, ameaçados pela Reforma” (Appio et al., 2008, p. 7).
Foi com a decisão da Coroa portuguesa – cujos objetivos eram impor a fé cristã para os nativos brasileiros e a sua hegemonia e disciplina; e coagir os habitantes locais, tornando-os escravos – que o Brasil começou a construir o seu modelo de identidade. Os padres jesuítas foram os grandes colaboradores para que essa tarefa se concretizasse, já que tinham a responsabilidade de ajudar a moldar o ideal de sociedade que futuramente representaria o Brasil, conforme os interesses do governo português.
Aos jesuítas coube
orientar a população, desde os filhos dos senhores de engenho, colonos, escravos e índios, na fé cristã, na disciplina do corpo e do silêncio, nos valores morais, nas artes eruditas e nos costumes europeus. Aos índios coube, em especial, a catequese, a leitura e escrita e o idioma de Portugal (Appio et al., 2008, p. 8).
Nesse sentido, o objetivo da educação jesuítica era controlar o comportamento dos homens que compunham a sociedade brasileira. Sua metodologia educacional era radical e relegava a introspecção, adotando um processo de aprendizagem de cunho totalmente voltado para a memorização. Em termos de didática, os padres adotavam a postura de desprezo em relação à cultura dos povos originários, elevando uma pedagogia conhecida popularmente como “empreendimentos localizados. O método era principalmente expositivo, livresco, com pouco ou nenhum sentido prático” (Freire, 2010, p. 180-181).
A educação jesuítica em nenhum momento valorizava ou acolhia o conhecimento de mundo do aluno. O que havia na realidade era a sobreposição dos valores que a igreja defendia aos costumes nativos.
Dessa forma, o presente artigo traz como objetivo a investigação da atuação educacional da Companhia de Jesus no Brasil Colonial, dialogando com os autores que embasam bibliográfica e historicamente por meio de suas narrativas a entonação da educação pelos manuscritos. Sendo assim, não há neutralidade no que diz respeito à educação, mas qual o posicionamento da pedagogia jesuíta? O que ela almeja para a sociedade? Que importantes contribuições pode trazer à sociedade?
Metodologicamente, o artigo se constituiu principalmente de pesquisa bibliográfica. Marconi e Lakatos (2003) descrevem que esse tipo de pesquisa investiga uma bibliografia disponibilizada ao público, a qual pode ter relação com o tema de estudo e estar disponível em múltiplos formatos. Neste trabalho, buscamos revistas, livros, pesquisas e trabalhos científicos a respeito da educação jesuítica e do Brasil Colonial e da procedência em investigar o papel da Igreja Católica nesse período colonial, com as devidas pontuações sobre o ato educacional religioso.
A metodologia utilizada é de caráter qualitativo, de cunho descritivo e explicativo. Descreve a ocorrência da educação jesuítica no Brasil, suas primeiras escolas e seu método de ensino, o Ratio Studiorum. O estudo torna-se explicativo ao traçar reflexões sobre o modo como a escolarização jesuítica conservou os saberes oriundos de Portugal, ou seja, essa educação estava relacionada à racionalidade dominante da Coroa portuguesa, o que a tornou um instrumento de reprodução da ideologia daquele país.
Em resumo, a primeira parte do trabalho trata da constituição e da formação da Companhia de Jesus, ordem religiosa responsável por levar o Evangelho de Deus aos quatro cantos do mundo, a localidades onde não era conhecido. Tal ordem permeia um período da história que não pode ser excluído de pauta: o período das Grandes Navegações, sobretudo as explorações por novas terras; do processo de aculturamento; e do estabelecimento do domínio da Igreja Católica em novas áreas. Adiante, apresentamos os princípios e as premissas que fundamentaram os exercícios espirituais de transformação do homem mundano, a abdicação desta vida para se entregar totalmente a Deus. Os princípios religiosos propostos pela Companhia de Jesus exprimiam a formação da imagem do homem, que estava além dos princípios religiosos; e implicavam a submissão não apenas à criação de homens à imagem do homem europeu, mas também à construção de um novo povo com novos costumes e práticas aos seus moldes. Investigamos aqui o modo como os reflexos da educação jesuítica se manifestam na atualidade.
Os jesuítas: a formação da Companhia de Jesus
A história se inicia nas figuras de Inácio de Loyola, Pedro Fabro e Diogo Laínez, que fizeram seus votos como frades para posteriormente se tornarem sacerdotes. Esses religiosos tomaram direções opostas, porém fizeram a promessa de se unirem novamente, liderados por Loyola, para restaurar a Igreja e salvar a alma dos homens.
Loyola, Fabro e Laínez reencontram-se em Veneza, são ordenados sacerdotes e se autodeclaram “Amigos do Senhor”. Proferiram os quatro votos necessários para se tornar jesuíta: pobreza, castidade, mobilidade e obediência ao Papa. Migraram para Roma e colocaram-se à disposição do Papa, para que este designasse a eles um destino em que pudessem propagar a glória de Deus e a salvação das almas. A obediência e o ato de se colocar sob as ordens do Papa protegem os jesuítas para que não estejam ao alcance de servir aos cardeais, aos bispos e a outras autoridades religiosas, como por exemplo os padres locais, o que poderia comprometer a missão principal jesuítica: salvar almas e glorificar Jesus Cristo.
Adotando a imagem de Companheiros de Cristo, ao professarem o voto da mobilidade, os jesuítas se comprometiam, ao serem enviados pelo Papa, a viajar para qualquer região do mundo onde o homem estivesse em perigo de ter a sua alma condenada ao inferno. Essa obediência a viajar pelo mundo em nenhum momento caracterizaria o voto de fidelidade ao Papa pelos jesuítas. A fidelidade deles estava com a missão, e essa era a de evangelizar os gentios da nova terra na fé cristã – para isso a Companhia era chamada de Companhia de Jesus, e não Companhia do Papa; Deus vinha em primeiro lugar, e não o Papa.
Firmes nos dogmas da Igreja e com a convicção de propagar a palavra de Deus e a salvação das almas, decidiram pedir a aprovação do Papa para fundar uma ordem religiosa. Para isso Inácio formou um comitê para escreverem a Fórmula, documento que especificava em seus artigos a vida de Inácio e dos outros padres que iriam fundar, posteriormente, a Companhia de Jesus. Como algo tão perfeito como a Fórmula, que especificava rigidamente a conduta sem mácula dos jesuítas que vinham sempre “falar das coisas de Deus”, não levantaria suspeitas e repercussões? A Fórmula apresentou contradições, entre elas, a de que seus padres não usavam a “batina”, espécie de traje usado pelo clero; não cantavam o ofício no coro nas missas matinais. Isso não significa que os jesuítas não levam a sua vida em uma perspectiva espiritual e de comunhão com Deus. Essa perigosa forma de misticismo revela ser uma simples observância de ritos e rituais e não prejudica em nada a conduta dos jesuítas como servos de Deus, íntegros e devotos aos ensinamentos da Igreja.
A Fórmula, também chamada de a “Regra dos Jesuítas”, foi aprovada pelo Papa Paulo III e por meio dela os jesuítas fundaram a Companhia de Jesus.
O’Malley (2004 apud Pedro, 2008) descreve que existem quatro categorias maiores de ministérios dos jesuítas, sugeridas pela Fórmula e explicadas em outros documentos. São elas: (1) várias formas de ministérios da palavra de Deus, como a pregação, as preleções sacras, a conversação e a publicação, a catequese, as missões na zona rural e o ensino do cristianismo e dos Exercícios Espirituais; (2) o culto, as orações e a administração dos sacramentos, como a Eucaristia e a confissão; (3) certas obras de misericórdia; (4) e os colégios.
O texto da Fórmula não exemplificava somente a vida de Inácio de Loyola e a dos outros padres da Companhia de Jesus, esse documento também autorizava a fundação de Constituições pela Congregação Geral, composta pelo Superior Geral e pelos membros do Conselho. O Superior da Congregação Geral governava toda a ordem e indicava os cargos que cada membro deveria ocupar. Como relatado em linhas anteriores, foi por meio da Fórmula que Inácio de Loyola fundou a Companhia de Jesus – e posteriormente elaborou as Constituições da Companhia de Jesus, cujos princípios descreviam o modo de proceder dos jesuítas nessa ordem religiosa.
Sobre a Companhia de Jesus como ordem religiosa, Kolvenbach (1997 apud Bioto-Cavalcanti, 2013, p. 14-15) descreve:
Esta foi instituída, principalmente para o aperfeiçoamento das almas na vida e na doutrina cristãs, e para a propagação da fé, por meio das pregações públicas, do ministério da palavra de Deus, dos Exercícios Espirituais e obras da caridade, e nomeadamente pela formação cristã das crianças e dos rudes, bem como por meio de Confissões, buscando principalmente a consolação espiritual dos fiéis cristãos.
Essa maleabilidade de ação da Companhia de Jesus não escondeu que sua verdadeira finalidade era detalhar o que estava exposto nas páginas da Fórmula, ou seja, as Constituições eram uma espécie de declaração da Fórmula.
As Constituições também chamavam a atenção para pontos que deveriam ser observados, por exemplo, o fato de que elas deveriam sofrer alterações de acordo com a cultura de cada região – e sofreram diversas alterações. Essa adequação permitiu a sobrevivência da Companhia de Jesus em todos os lugares nos quais se estabelecia essa ordem religiosa. Diante da adversidade dos locais e também das oportunidades que os jesuítas encontraram para se estabelecer e evangelizar em nome de Deus, o que há na realidade é uma excelente estratégia traçada para que fossem propagados a aculturação e o domínio da ordem.
As primeiras edições das Constituições da Companhia de Jesus foram elaboradas por Loyola e passaram pela supervisão de padres de Roma. Houve exaustivas correções e reformulações antes de as Constituições serem finalmente aprovadas e implantadas pelos jesuítas em suas diversas congregações, tendo em vista que ajudar a salvar almas não podia ocorrer de forma aleatória, sem preparo, sem uma direção.
Pedro (2008) diz que as Constituições eram compostas por dez partes: (1) admissão à provação; (2) demissão dos que foram admitidos, mas não deram boa prova de si; (3) conservação e progresso dos que estão em provação; (4) modo como instruir nas letras e em outros meios de ajudar o próximo e os que permanecem na Companhia; (5) admissão ou incorporação na Companhia; (6) vida pessoal dos que foram admitidos ou incorporados na Companhia; (7) relações com o próximo daqueles que, depois de admitidos no corpo da Companhia, são distribuídos na vinha de Cristo Nosso Senhor; (8) meios de unir com a cabeça e entre si aqueles que estão dispersos; (9) a cabeça e o governo que dela descende; e (10) conservação e desenvolvimento de todo o corpo da Companhia em seu bom estado.
Possuidora de normas detalhadas, no que se trata de educação, a regra 307 é composta de 17 capítulos e confirma claramente em suas páginas a identidade da Companhia de Jesus voltada para o meio educacional – os jesuítas utilizaram a instrução como um meio para que o homem servisse a Deus. Independentemente das razões que levaram Inácio a fundar posteriormente os colégios, esse legado histórico não deixa esquecer que, apesar de os jesuítas terem influenciado e praticado o assujeitamento – ou seja, a imposição de costumes, dialetos, regras, entre outras práticas – com os índios, eles não só organizaram como também implantaram um sistema educacional aberto, com a inclusão de alunos de diversas classes sociais. Isso fez com que as escolas jesuítas se tornassem, segundo O’Malley (2017), a marca registrada do catolicismo no mundo, constituindo-se uma fonte de influência inestimável, tanto cultural quanto religiosa.
Entre outros traços notáveis sobre os jesuítas que a história não revela, está o de que nem tudo eles relatavam à Coroa portuguesa quando chegaram ao Brasil, ou seja, eles também tinham seus segredos. Inácio de Loyola instituiu dois tipos de cartas: a carta principal e as hijuelas. Na carta principal, narravam-se apenas os feitos que edificavam a fé católica, como por exemplo as pregações e as confissões – portanto, ela seria enviada para Portugal e outras pessoas que não faziam parte da Companhia de Jesus. Scabin (2012) descreve que as hijuelas, por sua vez, eram cartas privadas e restritas e só quem as lia eram exclusivamente os membros da Companhia de Jesus. Nelas, estavam os assuntos como os negócios e as doenças. A Coroa portuguesa nunca suspeitou de que os jesuítas, antes de enviarem as cartas para ela, as refaziam e retiravam todo o teor que não provocasse o seu apoio para a missão e não servisse para que fosse propagada a fé cristã. Essa omissão surpreendente convida a ver o que os jesuítas realmente ultrapassaram, o que eles realmente ignoraram em nome de Deus e da fé: apagou-se a diferença entre os homens; e estabeleceu-se que, quando se nega o “outro”, se nega a si próprio junto com ele e a sua alteridade, a sua existência no meio social. Não se trata de aceitarmos que a semelhança torna o homem a imagem e o filho de Deus, trata-se de vermos um apagamento de uma cultura em prol de outra mediante um ato ao mesmo tempo violento e guerreiro, e o preço desse processo de aculturamento religioso exprime na sociedade atual uma historicidade vívida, passada de gerações em gerações no cotidiano, seja por meio dos costumes, seja por meio de princípios que moldaram a formação de uma população, transgredindo e resistindo desde o período colonial. Esse é o nosso sentimento ao adentrarmos nesse período e nesse mundo sob essa configuração de racionalidade e ordem religiosa que se expandia para outros lugares; e ao direcionarmos as lentes para a égide da Igreja Católica naquele momento histórico.
As bases espirituais da Companhia de Jesus
Inácio de Loyola, antes de professar seus votos religiosos, era militar. Em uma das guerras em que defendia os interesses de reis e imperadores, o referido padre sofreu ferimentos graves em ambas as pernas, causados por uma bala de canhão, o que o levou a ficar cocho da perna direita por toda a vida e se afastar por um longo período de suas funções militares em Montserrat. Nesse ínterim, leu duas obras que lhe suscitaram dúvidas sobre o modo como estava se portando no mundo: As vidas dos santos na Fábula Dourada, de Jacopo da Voragine; e A Vida de Cristo, de autoria de Ludolfo da Saxônia (Sabeh, 2009). Ao ler essas obras, Inácio sentiu que Deus estava lhe falando para que salvasse a sua alma, ou seja, mudasse o seu coração e a sua conduta no meio em que vivia. Essa prática de introspecção que nasceu da escuta de si mesmo oferecia um modelo de conversão que levaria à santidade aos olhos de Deus. Essa familiaridade com Deus era o que determinaria a identidade dos jesuítas como missionários e a sua compatibilidade com o cristianismo.
Convertido em fazer parte do exército de Deus e levar uma vida virtuosa, Inácio deixa Montserrat e se dirige a Manresa (Teles, 2014). Foi um período em que meditou e refletiu sobre a vida de Cristo e suas passagens, o que o levou posteriormente a elaborar os Exercícios Espirituais.
A premissa fundamental dos Exercícios Espirituais é que Deus, por meio de seu amor infinito e inesgotável pela humanidade, trabalha continuamente para que ela adquira a sua salvação e seja livrada do fogo do inferno. Porém, para que isso ocorra, o homem precisa não mais pecar e mudar o seu coração, um exercício de transformação além do corpo, da alma como um todo.
Refletindo a espiritualidade de Loyola, os Exercícios Espirituais privilegiam a união do homem com Deus por intermédio da intersecção de Jesus Cristo, após percorrido um período de tempo de quatro semanas. As condições dos Exercícios Espirituais nas semanas é que, na primeira, o homem por sua vez reconheça seus pecados e os conte para Deus e a Virgem Maria. Após esse momento, o homem pede perdão e se compromete diante de Deus a não mais pecar. Iluminado pelo Santo Espírito de Deus na segunda semana, o homem reconhece que é um ser insignificante, cheio de falhas diante do poder e da glória de Deus, e decide seguir a Cristo para alcançar a salvação e perpetuar a sua palavra. Na terceira semana o homem tem Jesus interiorizado dentro de si, e isso ocorre quando o indivíduo medita sobre as passagens presentes na Bíblia sobre a Santa Ceia, a morte de Pôncio Pilatos, a crucificação e morte de Cristo. É nessas três semanas que vai ocorrendo a união real entre Cristo e o homem, para que em seguida, na quarta semana dos Exercícios, o mesmo homem que começou a primeira semana confessando seus pecados diante de Deus se torne digno de contemplar a ressurreição de Cristo, reconhecendo sua presença e o seu amor celestial nos outros homens, na natureza, em tudo que está ao redor. Cheio da glória de Deus e o reconhecendo em si mesmo, finalmente o homem escolhe ser padre e servir à Companhia de Jesus.
Muda-se o cenário, mudam-se as leis, os princípios, tudo muda com o tempo. Vejamos: Exercícios Espirituais não é um livro de cabeceira, um livro de leitura deleite, ele é um livro para ser utilizado com a finalidade de conduzir, sem imposição, ao caminho celestial, a uma comunhão com Deus. Os Exercícios quando praticados levam o noviço a meditar, a fazer um encontro com Deus dentro de si, e não a aprender orações de forma mecânica. Os Exercícios levam a uma proximidade e familiaridade do noviço com o criador. Os Exercícios são um programa, um retiro espiritual – não daqueles que os homens fazem durante o carnaval na Renovação Carismática Católica, pois o indivíduo é afastado de suas atividades para se entregar à meditação. Sua originalidade leva o jesuíta a dar menos importância aos sacramentos da Igreja, aos mandamentos de Deus, já que o plano é fazer com que o futuro padre tenha uma comunicação espiritual com Deus – e muitas vezes o simples recitamento de orações não faz isso.
Educação jesuítica: a imagem do homem que vai ser formado
Uma das crenças mais ilusórias quando falamos em educação, e que perdurou por muito tempo na sociedade, era o emblema de que a vocação de ensinar as crianças cabia apenas ao sexo feminino. Hoje, encontramos, dentro das escolas, homens e mulheres que concentram seus esforços na difícil arte de ensinar – assim, a fragilidade dessa crença se esfacelou nas areias do tempo. Mas como aconteceu realmente essa arte de formar uma criança como um ser que atualmente se constitui na sua relação com o seu semelhante?
Ao considerarmos a herança cultural do modo como se deu a educação em terras brasileiras, remetemo-nos ao Período Colonial, à época em que a Igreja exercia seu poder com mãos de ferro na sociedade sob a égide da fé religiosa.
A sociedade portuguesa do século XVI era sustentada pela aliança entre a nobreza e o clero, que decidiram se unir para não só permanecer no poder – portanto, no topo da pirâmide social –, mas também evitar a expansão da burguesia mercantil (Cunha; Monteiro, 2010). Dessa forma, Portugal tinha a sua sociedade composta pelos que oram, pelos que guerreiam e pelos que trabalham. Por outro lado, enquanto Portugal se configurava nessas três classes, as navegações ultramarinas traçavam um novo mapa mundial em pleno século XVI, o que fez com que nobreza e burguesia almejassem o mesmo sonho: se expandir.
Boatos surgiram sobre novas terras recém-descobertas, e a Coroa portuguesa, sob o comando do rei D. João II, decidiu expandir-se nessas novas terras, passando assim a elaborar – para atingir o seu objetivo – um plano de ocupação chamado povoamento planejado, contando com a Igreja como sua aliada. Então, os jesuítas, além de representarem uma ordem religiosa erguida sobre os pilares da fé e da honra sem fins lucrativos, iriam também realizar uma ação de povoamento. Não podemos dizer que os inacianos iriam promover a colonização, porque ela só ocorre segundo Hilsdorf (2017) quando a cristandade é rompida e apagada – e em seu lugar, e acima de tudo, colocam-se os valores econômicos.
Para essa missão de povoamento, D. João II convocou o primeiro governador-geral Tomé de Souza e o jesuíta Manuel da Nóbrega – este último trouxe com ele mais seis padres. A missão de Tomé de Souza era buscar a fonte da riqueza brasileira, conquistar o poder e levar a glória a Portugal, nem que para isso tivesse que praticar os crimes mais absurdos. Já aos Jesuítas coube converter os habitantes na fé católica. Na realidade, a política de Portugal para o Brasil era que este fosse a sua “galinha dos ovos de ouro”, uma colônia produtora e fornecedora de produtos que pudessem ser vendidos no exterior, gerando assim uma fonte de lucro e riqueza para Portugal (Prado Junior, 1961).
E assim, com a chegada ao Brasil – à cidade de Salvador, capital do estado da Bahia – da esquadra de Tomé de Souza que trazia consigo os jesuítas (Figura 1), estes últimos desembarcavam em sua bagagem um projeto de educação que visava implantar em toda a população a cultura portuguesa cristã. Para isso, eles estavam confiantes de que iriam converter os gentios ao cristianismo.
Figura 1 ‒ Chegada dos portugueses ao Brasil

Fonte: Diniz (2013)
Era preciso haver confiança nessas palavras milagrosas, mas na realidade elas eram cheias de um secreto horror. Os jesuítas trouxeram para nossas terras um sistema complexo e tentaram implantar as diretrizes da cultura portuguesa em um lugar desconhecido, sem ao menos saber se esse sistema iria se ajustar ou não ao novo país ou as consequências que essas mudanças poderiam acarretar para a população.
Esconder e camuflar a realidade, a vida é segundo Piletti (1996) ingrata em si. Cheia de moralismo, este com endereço certo segundo o autor, que relaciona o bom aos valores burgueses, que contribuem para preservar o poder da burguesia: o espírito pacífico e ordeiro encobrindo a violência como única alternativa dos marginalizados; a crença na felicidade eterna como meio de estimular a renúncia a esta vida impregnada de pecado. O homem é feito de pó segundo a Bíblia e pó voltará a ser quando morrer. A Igreja tinha pressa de salvar a alma do homem e convertê-lo ao cristianismo, porém seu discurso era muito mais no sentido de esconder do que revelar a verdadeira realidade de sua vinda ao Brasil. Para Piletti (1996, p. 23),
hoje ninguém mais tem dúvida a respeito do que estava por trás dessa razão: a sujeição do índio e a conquista de suas terras para o enriquecimento dos colonizadores. E a religião foi um instrumento eficaz dessa submissão. Afinal de contas, para conquistar o paraíso na outra vida, qualquer sacrifício vale a pena, mesmo o sacrifício da própria vida. E os padres, como interpretes [sic] da vontade divina, a serviço do rei e do papa, estavam aqui para isso: converter os índios, por bem ou por mal, facilitando o trabalho de conquista e de dominação dos brancos europeus.
Após a instalação no Brasil os jesuítas começaram o processo de “salvar” os indígenas por meio da catequese, conforme Portugal tinha instruído. Estima-se que nessa época existiam no Brasil cerca de cinco milhões de índios (Ferreira Junior, 2010). O raciocínio dos jesuítas era o seguinte: como os índios nunca haviam tido contato com o branco, seria muito fácil catequizá-los e colonizar as suas terras, dizendo que tudo aquilo estava sendo feito para a glória de Deus na terra e era abençoado pelo seu representante no mundo, o Papa. E assim, a verdadeira colonização começa: mediante a aliança entre a Igreja e Portugal. De um lado, Portugal fecha os olhos, facilitando o trabalho dos padres com os índios em seu processo de aculturação na fé cristã e nos costumes europeus, e do outro, estes últimos facilitam a colonização feita por Portugal.
O difícil, ou até impossível, aconteceu no momento de os jesuítas começarem a catequisar os índios: essa etnia tinha seus próprios elementos culturais muito bem enraizados, portanto, foi impossível para os jesuítas mudar a concepção de mundo da sociedade tupi-guarani brasileira, que incluía práticas de poligamia, nudez, culto aos deuses da natureza e fé no pajé, líder religioso da aldeia. Tudo isso fez com que a catequese que seria aplicada nos índios adultos falhasse totalmente. Dessa forma, precisava-se de uma outra alternativa para que a catequese fosse realizada, de um outro público a ser salvo do pecado, após a resistência dos índios adultos em serem iniciados na fé cristã. Os padres jesuítas não se deram por derrotados e, após esse difícil começo com os índios adultos, começaram a elaborar uma outra estratégia para que ocorresse a evangelização indígena: evangelizar os curumins indígenas.
Essa nova estratégia dos jesuítas, de evangelização das crianças, se deu a partir do momento em que eles perceberam que as crianças indígenas não estavam adaptadas totalmente aos elementos culturais de sua etnia, como era o caso dos índios adultos. Também, no futuro, quando essas crianças já estivessem totalmente praticando os preceitos religiosos da Igreja, poderiam combater nas aldeias os costumes culturais praticados pelos outros índios. Estava aberta a porta para a conversão dos brasis (indígenas) como também para a sua submissão aos costumes europeus. Observamos que, no momento em que os jesuítas se desvirtuaram de seu objetivo, eles foram expulsos das colônias administradas por Portugal.
Como o público-alvo mudou – agora era representado pelas crianças ameríndias –, o fato de os índios não falarem o idioma português era uma barreira para que ocorresse a evangelização, e os jesuítas precisavam que as crianças internalizassem, que falassem o idioma português. Para que isso acontecesse, os padres contaram com a ajuda de crianças órfãs portuguesas que tinham vindo junto com a expedição de Tomé de Souza. Foram os órfãos, por meio do convívio diário com os curumins, que fizeram com que eles aprendessem o idioma português mais rapidamente.
A educação ocorre sempre quando qualquer instituição utiliza certos meios para atingir um determinado fim. Com os jesuítas não foi diferente – nesse primeiro momento de evangelização dos curumins, eles usaram as crianças órfãs para que, por meio da convivência social com os índios, estes pudessem falar a língua portuguesa e ser em seguida escolarizados.
O passo seguinte foi os jesuítas gramaticarem a língua tupi, e para isso contaram com a ajuda do Padre Juan Azpilcueta Navarro, que tinha vindo com os outros padres (Santos, 2015). Esse sacerdote aprendeu, em um curto período de tempo, a língua brasílica que os indígenas falavam, sem contar com nenhum tipo de código – ele ensinava as orações aos índios nessa língua e traduzia para eles passagens da Bíblia Sagrada.
“Irmão língua”: eram assim chamados os padres que, com o passar do tempo, interpretavam o tupi, porém eles não eram só intérpretes, eram também os preceptores. Eram chamados assim porque evangelizavam os índios em sua língua, transmitindo os dogmas do cristianismo.
Como já havia os padres que interpretavam a língua tupi, o terceiro passo foi a elaboração de um catecismo bilíngue nas línguas português e tupi – era o chamado “Catecismo Brasílico” – como forma de avançar, cada vez mais, no processo de evangelização (Sabeh, 2009). Era uma cartilha, cuja composição abrangia os sete sacramentos, os mandamentos da Lei de Deus, o Pai-Nosso, a Ave-Maria e os pecados mortais. Para que os indígenas pudessem compreender o que estava escrito no catecismo, foram utilizados os elementos que compunham a sua própria cultura. Em nossa compreensão e diante de tudo que foi exposto, a evangelização proferida pelos jesuítas teve dois significados: a aprendizagem de duas línguas, no caso o português e o tupi por intermédio do catecismo brasílico; e a implantação da cultura europeia por meio da violência simbólica contra a estrutura cultural indígena, com a imposição dessa cultura externalizada.
De posse de uma cartilha e diante do fato de que os índios já internalizavam a língua portuguesa, os jesuítas compreenderam que faltava mais alguma coisa para que eles aprendessem a se converter realmente na fé de Nosso Senhor Jesus Cristo: a leitura e a escrita. Tinha chegado a vez de os jesuítas pensarem o espaço escolar, e das trevas fez-se a luz: a criação das casas de bê-á-bá ou escolas das primeiras letras, consideradas os embriões dos futuros colégios da Companhia de Jesus no Brasil.
Na escola de bê-á-bá os indígenas aprendiam as primeiras letras e as operações matemáticas elementares, porém isso ainda era muito pouco para que fossem implantados os costumes europeus na população indígena. Então, os jesuítas decidiram recorrer a algumas práticas executadas pelos índios, como a música e a dança. Com esses recursos lúdicos oriundos da própria cultura indígena, os jesuítas começaram a enfatizar o processo evangelizatório. Eles deturparam o real significado da dança, dos sons, das brincadeiras, das cores pintadas nos rostos dos índios – ou seja, tudo o que pertencia à cultura dos índios foi transmutado para um sentido cristão. E foi assim, nesse ambiente de controle, de exercício de poder simbólico, que os jesuítas pregaram a fé, em um ambiente estranho ao seu, cujo quadro cultural não lhes pertencia. E, sem pedir licença aos primeiros moradores do Brasil, usaram e abusaram de seu poder em nome de Portugal e de Deus, sob julgamento das raízes culturais indígenas.
Além da música e da dança, como processo evangelizatório, os jesuítas adotaram o teatro de José de Anchieta. Esse teatro era de cunho religioso e descrevia passagens da Bíblia e temas de teor moralizante, porém sempre com o mesmo objetivo: difundir os ensinamentos da religião cristã. No entanto, o teatro tinha uma segunda finalidade, e não apenas a intenção de evangelizar: ele foi usado como um meio de imposição do padrão linguístico português sobre o idioma tupi. Nesse sentido, o teatro soube reproduzir um dos principais traços mais horrendos com os brasis (indígenas): a aculturação.
Quando não temos mais a cultura de um povo, temos o extermínio de uma nação, e ela simplesmente deixa de existir, deixa de ser lembrada no percurso da história da humanidade. Igreja Católica, casas de bê-á-bá, catequese, padres jesuítas, eis os fantasmas que assolaram o Brasil no século XVI e que representam as colunas arquitetônicas de Portugal. Foram séculos de exploração, foram séculos em que houve nas fileiras brasileiras processos de exclusão e elitismo – elitismo porque se privilegiou a classe dos senhores de terra; e exclusão porque foram deixados de fora do processo educacional os índios e a classe social menos abastada.
O “progresso das almas” estava se desenvolvendo. Segundo Ferreira Junior (2010), o Brasil já contava com cinco casas de bê-á-bá (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga), localizadas nos aldeamentos ou missões. Ocorreu um esforço imenso nas casas de bê-á-bá por parte dos jesuítas para formar os índios no sacerdócio e não apenas catequizá-los – mesmo assim, isso não aconteceu e os indígenas foram apenas catequizados. Esse fato levou os jesuítas a fundar para os índios, nos aldeamentos, as oficinas de ensino profissionalizante artesanal e agrícola – entre elas, o índio se adaptou melhor à de tecelagem.
Essa nova estratégia dos jesuítas significou um amargo sucesso, pois nessa nova fase de sua atuação eles não se atentaram para o fato de que os índios, ao terem acesso ao ensino profissionalizante, se tornariam alvo dos colonos e posteriormente seriam escravizados. Para Barbosa (2010), os índios, durante o processo de catequização, ficaram à mercê dos interesses do homem branco colonizador. Os padres jesuítas desejavam convertê-los ao cristianismo e aos valores europeus; os colonos estavam interessados em usá-los como escravos. Por outro lado, nas casas de bê-á-bá a instrução também estava voltada para os filhos dos colonos e da elite. O índio sai da cena do processo educacional e seu lugar é ocupado pelos filhos do homem branco. Agora tinha chegado a vez de a parcela ilustrada da sociedade ser a beneficiada na história.
As casas de bê-á-bá, basicamente, eram mantidas com as esmolas arrecadadas entre os colonos, o que com o passar do tempo se tornou insuficiente. Enquanto os jesuítas estavam expandindo cada vez mais as casas de bê-á-bá no Brasil, no outro lado do mundo, na Europa, os outros integrantes da Companhia de Jesus já estavam desenvolvendo trabalhos nas escolas e nas universidades.
Apesar do numeroso sucesso dos jesuítas na Europa nas escolas e nas universidades, a educação de um país é muito cara, requer recursos, requer um governo comprometido com o seu povo. No Brasil não foi o que aconteceu. O que começou com a evangelização em nome de Deus teve uma reviravolta drástica: os jesuítas mudaram de olhar e o que era considerado divino passou a ter olhos interesseiros. Uma outra ideia surgiu no cenário colonial e os jesuítas abriram um novo leque de atividade: a fundação de colégios exclusivamente para os filhos dos colonos e da elite. A fala de Ferreira Junior (2010) lembra que, no âmbito da escola de bê-á-bá, aqueles alunos que se destacavam eram enviados à metrópole com o objetivo de complementar os estudos no nível do Ensino Superior, fosse em Teologia, para os noviços da Ordem, fosse em Direito ou Medicina, para os filhos dos senhores de engenho.
Mas de onde provinham os recursos para manter os colégios, visto que as casas de bê-á-bá eram mantidas por meio de esmolas dos colonos? Segundo Ferreira Junior (2010, p. 21), Nóbrega foi até Portugal:
ele reivindicou que a Coroa portuguesa repassasse uma fração dos dízimos, a redizima, para a Companhia de Jesus como forma de financiamento da missão evangelizadora dos “brasis”. Além disso, passou a solicitar de forma sistemática que o Rei de Portugal cedesse terras (sesmarias), “negros da Guiné” e gado para garantir o consumo material das “casas de meninos”.
Por meio da redizima os jesuítas compraram casas para alugar, fazendas de cana-de-açúcar e gado; e com o lucro obtido fundaram seus colégios no Brasil. Esse conjunto de fatores foi uma trilha aberta para que acontecesse uma ruptura da colônia. Podemos dizer – de modo esquemático e até um pouco grosseiro – que, como os jesuítas vieram ao Brasil com o objetivo de evangelização, seus colégios iriam ter atividades de função missionária e toda a população do Brasil, independentemente de cor, raça e classe social, iria ter acesso a eles. Hilsdorf (2017) diz que os jesuítas, apesar de oferecerem em seus colégios o ensino secundário, ficaram apenas com os alunos brancos – recusavam os mestiços, os mamelucos e os índios, com a justificativa de que seu propósito era formar os padres da Companhia.
Era como se Deus escolhesse as pessoas para terem acesso ao sistema educacional de acordo com a sua etnia e descartasse aquelas que não faziam parte do mundo do branqueamento. Na inauguração dessa nova fase dos jesuítas, no caso os colégios, eles sofreram represálias. Os motivos são: a previsão, em um dos artigos que compunha as Constituições, de oferecer apenas o ensino secundário, e não o elementar; e a compra de bens pelos jesuítas para manter os colégios. Essas aquisições chamaram a atenção do Padre Luís da Grã, que começou a enviar cartas aos Diretores Gerais da Companhia de Jesus, no caso Inácio de Loyola e Diogo Laynes. Este último, posteriormente, seria o sucessor de Inácio de Loyola e cobrou o fechamento dos colégios no Brasil por eles ferirem o que estava determinado nas Constituições – o que não foi aceito, e os jesuítas continuaram cada vez mais a fundar os seus colégios pelo Brasil.
Em meio a todo esse posicionamento e com o crescimento cada vez maior dos colégios, era esperado que se criasse para essas instituições um método de ensino: o Ratio Studiorum (Ferreira Junior, 2010). O Ratio Studiorum, como um importante documento para a educação, prescrevia não só as regras que toda a comunidade escolar devia seguir – e isso abrange do docente até a quem era incumbida a responsabilidade pelos colégios – como também os exercícios que deviam serem realizados nas salas. Para Teixeira (2013, p. 38),
todos deveriam seguir as normas prescritas no Ratium Studiorum; os alunos deveriam obedecer aos professores; estes deveriam obedecer aos superiores e ás prescrições dos métodos e planos de estudos; os superiores (prefeitos, e estudos, provinciais e reitores) obedeciam ao geral; este seguiria as obrigações que Deus e o Papa lhe impuseram.
Na Figura 2, a seguir, está inserido um esquema que representa o sistema educacional no Brasil no período colonial.
Figura 2 ‒ Sistema educacional dos jesuítas no Brasil no período colonial

Fonte: Ferreira Junior e Bittar (2012, p. 699)
Embora o método de ensino dos jesuítas fosse considerado de excelência, pois se empenhava na formação de intelectuais, não contemplou as ciências da natureza – estas se basearam, nos colégios jesuíticos brasileiros, na filosofia de São Tomás de Aquino.
Entender a educação do período quinhentista, colonial, é um desafio. Se voltarmos mais atentamente o nosso olhar, podemos observar que a educação desse período foi emergida muito mais das condições existentes que os jesuítas encontraram ao desembarcar no Brasil do que propriamente dos dogmas e preceitos religiosos da Companhia de Jesus. Isso tudo leva a afirmar ainda que a educação em seu início foi apenas uma espécie de invento, pois antes do Ratio Studiorum não havia nenhuma normalização a priori destinada ao sistema educacional brasileiro.
A vida dos jesuítas seguiu um ritmo, e seu patrimônio no Brasil abrangeu 350 fazendas, o que, juntamente com a indicação do Padre Antônio Vieira para ser conselheiro político na corte portuguesa, lhes deu mais poderes para tomar decisões políticas. E, para piorar a situação, o ouro em Minas Gerais estava se esgotando, o que não permitiu a construção das obras de Portugal em terras brasileiras. O caos estava instalado. Para ajudar a Coroa a sanar essa crise, assumiu o cargo de primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.
Para elevar Portugal novamente à glória, Pombal implantou uma política que expulsou a Companhia de Jesus, e com isso o poder dessa última deixou de existir em terras brasileiras. Esse monarca também extinguiu o sistema educacional criado pelos jesuítas e confiscou todos os bens adquiridos por eles no Brasil – para, com esses imóveis, saldar todas as dívidas contraídas pela Coroa. E assim se encerra a passagem dos jesuítas pelo Brasil.
Os desafios da pedagogia jesuíta hoje
Vivemos em uma sociedade mundial desafiadora. Demandas relacionadas à desigualdade social fazem parte de grande parcela dessa sociedade. Alguns países parecem, com mais empenho, conseguir atenuar essa realidade, com suas políticas públicas. Porém, em nossa sociedade desigual, parece estranhamente normal que as coisas sejam assim, desiguais ao extremo. Assim, o direito das pessoas menos favorecidas fica ameaçado principalmente pela falta de “afeto” das demais. Referimo-nos a afeto como ato de afetar-se pelo que se vê, pelo que se percebe a partir disso e pelo que se transforma dentro de cada um. Se isso se acomoda dentro das pessoas como uma contingência da vida, então estamos mesmo fadados ao fracasso. E se isso atinge as escolas – e é sabido que atinge –, muito pouco essas instituições poderão fazer pela sociedade.
A esse respeito, Klein (2014, p. 5) afirma que “os jesuítas não ingressaram no mundo dos colégios para ensinar técnicas de sucesso profissional, mas para contribuir para o pleno desenvolvimento das pessoas e, mediante elas, para a transformação da sociedade”. A reafirmação desse ideal consta no livro Pedagogia Inaciana – Uma proposta prática (Companhia de Jesus, 1993, p. 23), em que é definido o objetivo da educação jesuíta como “[...] o desenvolvimento global da pessoa, que conduz à ação inspirada pelo espírito e à presença de Jesus Cristo, filho de Deus e homem para os outros”. Assim, formam-se líderes no serviço e na imitação de Jesus Cristo, homens e mulheres competentes, conscientes e comprometidos na compaixão.
Nesse contexto, faz-se necessária a formação permanente do professor, instrumentalizando-o para que possa, com intencionalidade, planejar e aplicar estratégias que possibilitem ao educando desenvolver-se integralmente, atingindo a excelência humana e acadêmica.
Uma das bases da espiritualidade inaciana para iluminar a prática pedagógica é a meditação do amor a Deus e à criação, importante, sobretudo, na questão ambiental. Se tivermos consciência real das mazelas que afligem o mundo, talvez possamos reverter a situação e, assim, ter uma visão mais positiva do ser humano.
Em consonância com os quatro pilares imprescindíveis para a educação – aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser – apontados por Delors (2010), a pedagogia jesuíta ampliou esses conceitos e acrescentou ainda outros: aprender a construir, aprender a empenhar suas capacidades para a transformação da realidade, aprender a conviver priorizando os necessitados, aprender a desenvolver-se integralmente ao longo da vida e aprender a direcionar a vida com vistas à transcendência.
Klein (1997, p. 11) reforça essa ideia: “Por todo o exposto, a Pedagogia Jesuíta tem uma contribuição a oferecer ao mundo contemporâneo, através de uma teoria e de processos que formam a inteligência, o caráter, a personalidade, o relacionamento, o posicionamento e a missão dos educandos”.
Nesse entendimento, a pedagogia jesuíta tem o seu projeto educativo centrado na pessoa e preocupa-se em ajudá-la a desenvolver-se de forma lúcida, íntegra, livre e autônoma.
Referências
APPIO, Célia Regina et al. Educação Jesuítica: contexto, surgimento e desdobramentos. Revista Eletrônica de Ciências da Educação, Campo Largo, v. 7, n. 2, p. 1-18, nov. 2008. Disponível em: www.periodicosibepes.org.br/index.php/reped/article/viewFile/474/363. Acesso em: 11 maio 2026.
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Brasil 1800-1900. Rio de Janeiro: Mauad X, 2010.
BIOTO-CAVALCANTI, Patrícia Ap. Entre o devocional e o operacional: a obra educativa da Companhia de Jesus no Brasil. In: BIOTO-CAVALCANTI, Patrícia Ap.; TEIXEIRA, Rosiley A. (org.). História da Educação Brasileira. São Paulo: Paco, 2013. p. 13-47.
COMPANHIA DE JESUS. Pedagogia Inaciana: uma proposta prática. 12. ed. Tradução de Pe. Mauricio Ruffier, S. J. São Paulo: Loyola, 1993.
CUNHA, Mafalda Soares da; MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Aristocracia, poder e família em Portugal, séculos XV-XVIII, Sociedade, família e poder na Península Ibérica: elementos para uma história comparativa. Lisboa: Universidad de Murcia, 2010.
DELORS, Jacques. Os quatro pilares da educação. 2010. Disponível em: https://www.profsergio.net/delors-pilares.pdf. Acesso em: 3 dez. 2025.
DINIZ, Janguiê. Os 513 anos do Brasil. Janguiê Diniz. 2013. Disponível em: https://janguiediniz.com.br/artigo/view/os-513-anos-do-brasil.html. Acesso em: 7 jun. 2026.
FERREIRA JUNIOR, Amarilio. História da educação brasileira. São Carlos: EdUFSCar, 2010.
FERREIRA JUNIOR, Amarilio; BITTAR, Marisa. Artes liberais e ofícios mecânicos nos colégios jesuíticos do Brasil colonial. Revista Brasileira de Educação, [S. l.], v. 17, n. 51, p. 693-716, set. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/7Y3phsmDjDYH7Z878n9FPJj/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 7 jun. 2026.
FREIRE, Luiz Gustavo Lima. Educação Jesuítica do século XVI ao XVIII: a memória do espaço e o espaço da memória. Cadernos do CEOM, Santa Catarina, v. 22, n. 31, p. 177-191, 2010. Disponível em: https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/rcc/article/view/541/0. Acesso em: 11 maio 2026.
HILSDORF, Maria Lúcia Spedo. História da Educação Brasileira: leituras. São Paulo: Thomson, 2017.
KLEIN, Luiz Fernando. Atualidade da pedagogia jesuítica. São Paulo: Loyola, 1997.
KLEIN, Luiz Fernando. Restauração: da Companhia de Jesus e da pedagogia jesuíta. JORNADA INTERNACIONAL DE INNOVACIÓN ACADÉMICA. In: ENCUENTRO DE REFLEXIÓN SOBRE PEDAGOGÍA IGNACIANA, 2014, [online]. Anais [...]. [S. I.]: Universidad Rafael Landívar, 2014. Disponível em: https://pedagogiaignaciana.com/biblioteca-digital/biblioteca-general?view=file&id=475:restauracion-de-la-compania-de-jesus-y-de-la-pedagogia-jesuita&catid=8&filename=Klein%20L.F.%202014%20Restauracin%20SJ%20y%20educacin-edic%20Univ%20Landvar.pdf. Acesso em: 7 jun. 2026.
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003.
O’MALLEY, John W. Uma história dos jesuítas: de Inácio de Loyola a nossos dias. São Paulo: Loyola, 2017.
PEDRO, Lívia Carvalho. História da Companhia de Jesus no Brasil: biografia de uma obra. 2008. 117 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008. Disponível em: http://www.repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/11372. Acesso em: 7 jun. 2026.
PILETTI, Nelson. História da educação no Brasil. São Paulo Ática, 1996.
PRADO JUNIOR, Caio. História econômica do Brasil. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.
SABEH, Luiz Antonio. Colonização salvífica: os jesuítas e a coroa portuguesa na construção do Brasil (1549-1580). 2009. 166 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2009. Disponível em: http://www.poshistoria.ufpr.br/documentos/2009/LuizSabeh.pdf. Acesso em: 3 dez. 2025.
SANTOS, João Marinho dos. A escrita e as suas funções na missão Jesuítica do Brasil quinhentista. Revista História, São Paulo, v. 34, n. 1, p. 109-127, jan./jun. 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-436920150001000035. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/a/sKy89bWXSRKnPcSWDbTYHGw/?format=html&lang=pt. Acesso em: 7 jun. 2026.
SCABIN, Rafael Cesar. A correspondência jesuítica e a vivência religiosa dos colonos do planalto paulista (1549-1588). 2012. 121 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-10052013-124905/publico/2012_RafaelCesarScabin_VCorr.pdf. Acesso em: 3 dez. 2025.
TEIXEIRA, Rosiley A. A escola primária paulista e a nova arte de governar. In: BIOTO-CAVALCANTI, Patrícia Ap.; TEIXEIRA, Rosiley A. (org.). História da Educação Brasileira. São Paulo: Paco, 2013. p. 47-78.
SOBRE OS AUTORES
Eubia Andréa Rodrigues. Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Rondônia (2024), Mestrado em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (2011), Graduação em Geografia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1996), Professora da Universidade do Estado do Amazonas.
Contribuição de autoria: conceituação, metodologia, supervisão, redação (revisão e edição).
Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/3924271025509966
Francisca das Chagas Viana Vale dos Santos. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2025), Graduanda em Geografia pela Universidade do Estado do Amazonas (2026). Bolsista de Apoio Técnico (Agência de Fomento: FAPEAM) do Laboratório de Geografia do Trabalho e Dinâmicas Territoriais na Amazônia – LAGETTAM.
Contribuição de autoria: conceituação, metodologia, redação do manuscrito original.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9153144408478796
Matheus de Souza Inhuma Delgado. Graduando em Geografia pela Universidade do Estado do Amazonas (2022-), Bolsista de Iniciação Científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (2023, 2025-).
Contribuição de autoria: conceituação, metodologia, redação (revisão e edição).
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7887521021473753
AUTODECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS ÉTICOS
Neste trabalho, por se tratar de uma revisão bibliográfica, não houve a necessidade de aprovação em Comitê de Ética em Pesquisa, nem foi necessário o uso de ferramentas de IA para a sua elaboração.
Submetido em: 03.12.25
Aceito em: 22.05.26
Publicado em: 19.06.26