DERMEVAL SAVIANI: A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO COMO DISCIPLINA, ÁREA DE PESQUISA E OS 40 ANOS DO HISTEDBR
Dermeval Saviani[1], https://orcid.org/0000-0001-9678-4230
Rodrigo Sarruge Molina[2], https://orcid.org/0000-0002-4033-6049
A presente entrevista com Dermeval Saviani foi conduzida em 25 de março de 2026, via rede mundial de computadores. Diante da concorrida agenda do professor, é com satisfação que oferecemos aos leitores da revista Horizontes este diálogo emblemático com um dos expoentes da História da Educação Brasileira e da Pedagogia Latino-americana.
Figura 1 ‒ Escritório do professor Dermeval Saviani

Rodrigo Molina e Dermeval Saviani em reunião de supervisão de pós-doutorado.
Fonte: Arquivo pessoal de Rodrigo Molina (São Paulo, SP – 2025).
Doutor Honoris Causa por diversas instituições nacionais, Saviani acumula diversos prêmios e homenagens, como a Medalha do Mérito Educacional concedida pelo Ministério da Educação em 1994 e o Prêmio Jabuti (2008), conquistado pelo primeiro lugar na categoria Educação, Psicologia e Psicanálise com a obra História das Ideias Pedagógicas no Brasil. Idealizador da Pedagogia Histórico-Crítica (PHC) — teoria de construção coletiva e alcance internacional —, ele é também autor do clássico Escola e Democracia (1983), obra que ultrapassa a marca de dez mil citações na plataforma Google Acadêmico.
A trajetória de Dermeval Saviani, aqui sintetizada a partir de sua autobiografia disponível no portal da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Saviani, [s./d.]), revela raízes profundas na classe trabalhadora. Filho de imigrantes italianos, nasceu no interior de São Paulo em um contexto de subsistência nas fazendas de café. Seus pais, embora sem escolarização formal, eram alfabetizados; o pai atuava como alfabetizador informal e músico, tocando sanfona em festas para complementar a renda familiar, enquanto a família vivia sob as condições exploratórias do regime de colonato.
Em 1948, a família migrou para a capital paulista, onde pai e filhos tornaram-se operários fabris. Saviani cursou o ensino primário em uma escola de periferia, sob os moldes de uma pedagogia tradicional e rigorosa. À época, uma das poucas vias de acesso aos estudos para filhos de trabalhadores eram os internatos católicos; foi por esse caminho que, ainda jovem, o autor transferiu-se para Cuiabá e Campo Grande para cursar o seminário.
Em 1963, retornou a São Paulo para ingressar na Pontifícia Universidade Católica, onde conciliou a carreira bancária com a militância estudantil em oposição à ditadura civil-militar (1964-1985). Nesse período, sob supervisão do Prof. Joel Martins, iniciou sua transição para o magistério como monitor, desenvolvendo seus primeiros planos de ensino.
Saviani ingressou oficialmente na carreira docente em 1967, tendo experiência na educação básica e no ensino superior. Sua práxis sempre buscou articular o rigor teórico à análise da realidade concreta, fundamentando-se no materialismo histórico-dialético. Essa postura resultou em uma vasta produção bibliográfica que visa superar visões hegemônicas idealistas e suprir a carência de materiais críticos e propositivos sobre a educação nacional.
Atualmente, embora aposentado, o professor mantém uma produção acadêmica e política. Esse vigor é evidenciado nas comemorações dos 40 anos do Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil” (HISTEDBR). Fundado em 1986 por Saviani e José Claudinei Lombardi, o grupo consolidou-se como uma rede nacional que hoje abrange 38 núcleos em todo o território brasileiro.
Como coordenador geral do HISTEDBR, Saviani promove a articulação entre a historiografia educacional e a práxis gramsciana, transformando a análise científica do passado em ferramenta de alteração da realidade presente. Para o autor, a História e a Pedagogia Histórico-Crítica são indissociáveis no enfrentamento dos problemas estruturais da área.
Saviani compreende a História (estudo do passado dos homens) como uma ciência que deve colaborar para compreender e resolver os problemas do presente e projetar um futuro melhor para toda a humanidade, o que não pode ser confundido com “futurologia”, mas como proposições ancoradas na realidade material e social por meio da dialética. E isso começa agora, por meio de uma escola pública, laica, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada que de fato socialize o conhecimento científicos, artísticos e filosóficos para todos, independente da origem de classe, raça ou credo.
Em suma, a contribuição de Saviani é basilar: por meio de seu rigor metodológico, ele estabeleceu os parâmetros para que a história da educação brasileira deixasse de ser um fragmento (“colcha de retalhos") de leis e nomes de grandes personagens para tornar-se uma análise profunda na materialidade social que é dialeticamente marcada pelas lutas de classes no campo pedagógico.
Damos início, a seguir, à entrevista concedida no âmbito dos eventos comemorativos das quatro décadas do HISTEDBR. Trata-se de uma oportunidade singular para realizar um balanço crítico e prospectivo sobre o campo da História da Educação no Brasil.
Eixo 1 - Trajetória da disciplina História da Educação
Rodrigo Sarruge Molina:
Professor, considerando suas reflexões publicadas anteriormente (Saviani, 2008), como o senhor analisa a trajetória e a consolidação da disciplina História da Educação no cenário brasileiro?
Dermeval Saviani:
Como foi indicado no referido número da Revista EccoS (Saviani, 2008), o ensino formal da história da educação no Brasil teve início em 1928, na reforma do ensino no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, de iniciativa de Fernando de Azevedo que introduziu, no currículo da Escola Normal a disciplina “História da Educação” que, em 1932, na nova reforma dirigida por Anísio Teixeira, assumiu a denominação de “Filosofia e História da Educação”. E desde o Decreto-Lei n. 1.190, de 4 e abril de 1939, que deu organização definitiva à Faculdade Nacional de Filosofia, entendida como padrão para as demais faculdades implantadas no país, História da Educação, tanto na forma da História Geral da Educação como da História da Educação Brasileira, passou a figurar como disciplina obrigatória dos Cursos de Pedagogia em todo o país. Atualmente a grande maioria dos Cursos de Pedagogia é oferecida por instituições privadas com fins lucrativos dominantemente no formato a distância. Assim, podemos concluir que se trata de cursos marcados pela precariedade uma vez que, para obter lucro as instituições buscam reduzir custos, o que provoca necessariamente a queda da qualidade. Dessa maneira, ainda que seja obrigatória a presença da História da Educação nos cursos de pedagogia de todo o país, é forçoso concluir que se trata de um ensino deficiente com poucas possibilidades de uma formação adequada.
Eixo 2 – O Grupo HISTEDBR: 40 Anos de Resistência e Pesquisa
Rodrigo Sarruge Molina:
Em 2026, o HISTEDBR completa quatro décadas de existência. Poderia realizar um breve histórico e um balanço dessas décadas de produção? Em sua perspectiva, como o grupo contribuiu para a consolidação do materialismo histórico-dialético na pesquisa educacional? É possível de afirmar que os estudos sobre História da Educação do HISTEDBR colaboraram para a formulação da Pedagogia Histórico-crítica?
Dermeval Saviani:
Ingressei como docente na UNICAMP em 1980 em Regime de RTC (Regime de Turno Completo) com 20 horas semanais no Departamento de Filosofia e História da Educação.
Como se sabe, a seleção dos candidatos à pós-graduação na área de concentração em Filosofia e História da Educação da UNICAMP é feita separadamente para as sub-áreas de Filosofia da Educação e de História da Educação. E havia um desequilíbrio entre essas duas sub-áreas. Enquanto a Filosofia da Educação estava bem guarnecida contando com seis doutores em tempo integral e dedicação exclusiva além de ao menos um mestre também em RDIDP (Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa) a História da Educação contava apenas com uma mestra em RDIDP, a Professora Gilberta Sampaio de Martino Jannuzzi, cursando o doutorado e apenas dois doutores, os professores Casemiro e Evaldo ambos, porém, em Regime de RTC (Regime de Turno Completo) com 20 horas semanais. Ficou claro, então, que minha contratação se destinava a reforçar a sub-área de História da Educação. Assim, passei a assumir disciplinas e orientar alunos tanto de mestrado como de doutorado da sub-área de História da Educação.
No processo de orientação adotei uma sistemática que já desenvolvia na PUC de forma bastante exitosa de orientação coletiva. E, assim como ocorria na PUC, também na UNICAMP os estudantes participavam ativamente do processo de orientação desejando manter o vínculo mesmo após a conclusão do doutorado. Foi assim que eles levantaram a questão referente à possibilidade de atender a esse desejo permitindo que aqueles que concluíssem o doutorado pudessem continuar participando dos debates que ocorriam nas reuniões de orientação das novas teses em andamento. Lembro-me que quem verbalizou esse desejo me apresentando o pedido em nome dos colegas foi Gilberto Luiz Alves, que era professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Ele havia feito o mestrado na UFSCar tendo concluído em 1981 mediante a defesa da dissertação denominada “Da História à História da Educação”, o que lhe permitiu ingressar na UNICAMP para fazer o doutorado desenvolvendo o projeto sobre “O pensamento burguês e o plano de estudos do Seminário de Olinda: 1800-1836”. Diante desse pedido respondi que para viabilizar essa participação caberia criarmos um Grupo de Pesquisa. De fato, naquele momento os Programas de Pós-Graduação começavam a organizar grupos de pesquisa. Foi assim que, diante desse pedido que ocorreu em 1986 decidi criar o Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil” que ficou conhecido pela sigla HISTEDBR. Isso porque então já começavam os registros na Internet determinando-se a identificação por uma sigla de, no máximo, 8 caracteres. Daí, a sigla H-I-S-T-E-D-B-R.
Criado o Grupo continuamos com o desenvolvimento dos projetos de pesquisa correspondentes às teses dos doutorandos admitida a participação livre de recém doutores. Mas decidi não oficializar imediatamente a criação do grupo junto à Pós-Graduação, pois queria me certificar de que não se tratava de uma iniciativa efêmera, mas de algo permanente que assegurasse sua continuidade com a realização de novos projetos de estudos e pesquisas. Dessa forma, encaminhei a oficialização do grupo no Programa de Pós-Graduação apenas em 1991.
De qualquer forma, com a criação do grupo surgiu a necessidade de assegurar sua organização com o registro de todos os participantes e a indicação das formas de contato para fazer circular as informações e agendar as atividades com os respectivos cronogramas. Ponderei, então, que, devido à sobrecarga de atividades docentes envolvendo pesquisa, ensino de disciplinas e orientação de mestrandos e doutorandos estando, ainda, em regime de tempo parcial na UNICAMP e coordenando o Programa de Pós-Graduação da PUC-SP, eu não teria condições de realizar essas tarefas. Em consequência, pedi aos próprios estudantes que um deles se encarregasse da referida articulação. Foi nesse processo que o Prof. José Claudinei Lombardi, então vinculado à Universidade Estadual de Maringá, tendo ingressado no referido grupo de doutorandos em 1987, se dispôs a realizar a requerida tarefa de articulação. E aconteceu que, após defender sua tese em 1993, que versou sobre “Marxismo e História da Educação: algumas reflexões sobre a historiografia educacional brasileira recente” abriram-se concurso para preenchimento de uma vaga no Departamento de Filosofia e História da Educação. Zezo, então, inscreveu-se nesse concurso e, uma vez aprovado, foi contratado passando, assim, a ser meu colega de departamento. Aí, obviamente a situação ficou bem mais favorável, o que nos permitiu dividir as tarefas o que acabamos formalizando com a distinção entre a coordenação geral, que ficou a meu encargo, e a coordenação executiva, assumida por José Claudinei Lombardi, o nosso querido Zezo. É assim que Zezo se tornou, na prática, o factótum do HISTEDBR. Com grande dedicação e pleno domínio dos procedimentos afetos às redes digitais, Zezo vem não apenas administrando as tarefas ligadas à participação dos Grupos de Trabalho que foram sendo criados no interior do HISTEDBR nas diversas regiões, estados e municípios do país, mas tomando diversas iniciativas como a programação de disciplinas de pós-graduação e cursos de extensão oferecidos pelo HISTEDBR todos os anos.
Nesse contexto o HISTEDBR, sob a coordenação do Zezo, teve igualmente papel relevante no processo que culminou na criação da Sociedade Brasileira de História da Educação, a SBHE, em 1999, o que resultou na minha indicação praticamente por aclamação como primeiro presidente da referida entidade. Igualmente Zezo, de modo especial a partir de sua experiência como secretário de Educação de Limeira, tornou-se grande referência na propagação da Pedagogia Histórico-crítica mediante disciplinas, cursos, seminários e outras modalidades de eventos cuja realização ele próprio articula ou estimula. Igualmente é significativa sua inciativa editorial organizando publicações seja pela Editora Autores Associados, seja pela Editora Navegando.
Tendo assumido explicitamente a concepção do materialismo histórico-dialético como fundamentação e orientação de suas pesquisas em história da educação, o HISTEDBR estabeleceu um diálogo fecundo com a “Escola dos Annales” ao mesmo tempo em que aprofundava suas críticas à chamada Nova História que flertava com a pós-modernidade. Dessa forma o HISTEDBR contribuiu, sim, para a consolidação do materialismo histórico-dialético na pesquisa educacional, pois estimulou a adoção dessa perspectiva no desenvolvimento de projetos de pesquisa no campo da educação ao mesmo tempo em que passou a ser combatido exatamente por ter adotado essa fundamentação teórica, combate esse travado pelos adeptos da orientação de fundo pós-moderno.
Quanto à formulação da Pedagogia Histórico-crítica, cabe observar que inicialmente a mobilização do HISTEDBR e o movimento de construção da Pedagogia Histórico-crítica caminharam paralelamente. A confluência entre essas duas iniciativas do campo da educação ocorreu de modo especial a partir do momento em que o Prof. José Claudinei Lombardi assumiu a Secretaria da Educação de Limeira nos anos de 2013 a 2015. Na sequência, o HISTEDBR passou a organizar cursos, os mais variados, baseados da Pedagogia Histórico-Crítica.
Eixo 3 – Dimensão Institucional: SBHE e ANPEd
Rodrigo Sarruge Molina:
Como um dos fundadores da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE), como o senhor avalia a importância dessa entidade e sua articulação com o GT de História da Educação da ANPEd? Quais são, atualmente, as correntes teóricas e metodológicas predominantes nessas instâncias?
Dermeval Saviani:
Diante da densidade crescente da área de História da Educação e à vista do intercâmbio internacional, em especial com os países ibero-americanos, foi se objetivando a necessidade de criação de uma entidade que articulasse nacionalmente a área de pesquisa em História da Educação e a representasse nos foros internacionais. Com efeito, fomos notando que os pesquisadores de História da Educação da Espanha se faziam representar pela Sociedade Espanhola de História da Educação; os de Portugal tinham como porta-voz a Secção de História da Educação da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação; igualmente o Chile tinha a sua Sociedade Chilena de História da Educação. Além disso, o surgimento dos Congressos Ibero-Americanos de História da Educação Latino-Americana foi acompanhado da tentativa de se criar, de cima para baixo e de forma tutelada, uma Sociedade de História da Educação Latino-Americana (SHELA). O descontentamento e o consequente fracasso dessa tentativa colocaram ainda mais fortemente a necessidade de que cada país organizasse, de forma democrática e pelo empenho coletivo de seus membros, as respectivas sociedades de História da Educação. Assim, coroando um processo que se estendeu por cerca de quatro anos, em outubro de 1999 foi criada a Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE). O HISTEDBR participou ativamente de todo esse processo.
Como reconheceu Marta Carvalho no texto “L'histoire de l'éducation au Brésil: traditions historiographiques et processus de rénovation de la discipline”, publicado na Revista Paedagogica Historica, Reino Unido, Routledge, v. 36, n. 3, p. 909-933, o HISTEDBR “provocou a oposição dos pesquisadores mais engajados no processo de renovação conceitual e metodológica da história da educação. Estes pesquisadores, a maior parte deles ligada ao grupo de trabalho da ANPEd, aí viram uma ameaça ao seu projeto” (Carvalho, 2000, p. 931). E, após mencionar que essa oposição se devia, de um lado, a que “os pressupostos e os procedimentos mesmos de seu trabalho historiográfico” eram postos em cheque pelo HISTEDBR em suas críticas às novas tendências historiográficas e, de outro lado, porque consideravam temerária a iniciativa do HISTEDBR de organizar um programa de localização e catalogação de fontes, explicita que “as reações contra o trabalho conduzido sob o patrocínio do grupo de Campinas tinham também o caráter de objeção política a uma iniciativa que parecia desconhecer a representatividade do grupo de trabalho da ANPEd enquanto instância aglutinadora dos historiadores da educação” (Carvalho, 2000, p. 931). Na sequência, a mesma autora irá reconhecer que os conflitos entre os dois grupos se atenuaram em razão de muitos fatores ligados ao desenvolvimento e fortalecimento da área de história da educação, culminando com a fundação da Sociedade Brasileira de História da Educação (Carvalho, 2000, p. 931-932).
Efetivamente, na fundação da SBHE prevaleceu aquela outra propriedade do campo considerada por Bourdieu como menos visível: “todas as pessoas que estão engajadas num campo têm em comum um certo número de interesses fundamentais, a saber, tudo o que está ligado à existência mesma do campo: daí uma cumplicidade objetiva que se encontra subjacente a todos os antagonismos”. Penso que isso foi possível em razão do empenho do HISTEDBR na “pesquisa desinteressada da verdade” a que se referiu Marx, o que lhe permitiu manter um espírito de tolerância e uma atitude pluralista no debate teórico. Na verdade, como escrevi em outro texto, desde o momento em que a nova tendência começou a invadir o campo da historiografia educacional, o HISTEDBR se manteve atento às questões que se levantavam entendendo que, em lugar de aderir comodamente à nova onda que procurava hegemonizar o campo da história da educação, cabia aprofundar a discussão, sem dogmatismos ou pré-julgamentos de qualquer espécie. Essa estratégia permitiu que o HISTEDBR viesse a contribuir de forma importante para o desenvolvimento da área de História da Educação. Sua posição impediu que se instituísse na disciplina uma unanimidade artificial e pouco consistente resultante da adesão incontrastável a uma determinada compreensão que procurava se impor como uma espécie de pensamento único. Assim, podemos considerar que a atuação do HISTEDBR foi decisiva para garantir o debate que permitiu manter oxigenada a área de História da Educação.
Podemos, pois, concluir que o HISTEDBR firmou-se como um espaço em que nenhuma perspectiva teórica é “a priori” interditada haja vista que a própria perspectiva marxista, que sofre restrições frequentes e sistemáticas em diferentes espaços integrantes do campo da história da educação brasileira, tem lugar assegurado em seu interior. E essa é uma contribuição nada desprezível à organização desse campo, à sua historiografia e ao desenvolvimento das ideias pedagógicas no Brasil. (Saviani, 2015, p. 69-77).
Foi a partir da IV Reunião Anual realizada em Belo Horizonte em 1981 que a ANPEd assumiu a decisão da organização de Grupos de Trabalho (GT) e na VII Reunião Anual realizada em Brasília em 1984 foi criado o GT2-História da Educação da ANPEd a partir da proposta do Prof. Luiz Antônio Constant Rodrigues da Cunha. Pessoalmente não cheguei a participar da fundação desse nosso GT. Com efeito, nesse momento eu continuava como coordenador do Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia da Educação da PUC de São Paulo.
Foi por meio do HISTEDBR que passei, desde 1987, a participar do GT2-História da Educação da ANPEd assim como dos eventos da área de História da Educação de iniciativa do GT2 com destaque para os Congressos Luso-Brasileiros de História da Educação (COLUBHE) tendo desembocado na fundação da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) exatamente na 22ª Reunião Anual da ANPEd realizada em Caxambu, em setembro de 1999.
De fato, na fundação da SBHE prevaleceu aquela propriedade do campo (nesse caso, o campo da história da educação) considerada por Bourdieu como menos visível, assim definida: “todas as pessoas que estão engajadas num campo têm em comum um certo número de interesses fundamentais, a saber, tudo o que está ligado à existência mesma do campo: daí uma cumplicidade objetiva que se encontra subjacente a todos os antagonismos (Bourdieu, 1980, p. 1156).
Eis aí como a cumplicidade entre as ações do GT2 da ANPEd em articulação com as ações do HISTEDBR constituíram o pano de fundo decisivo da criação da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) a tal ponto que, surpreendentemente para mim, fui guindado, por unanimidade, à condição de primeiro presidente da nova entidade. Quanto à pergunta “Quais são, atualmente, as correntes teóricas e metodológicas predominantes nessas instâncias, que complementa a questão, não saberia responder porque não tenho acompanhado ultimamente as atividades do GT2 da ANPEd. Mas creio que, fundamentalmente, se mantém na linha da chamada “Nova História”.
Eixo 4 – A Obra "História das Ideias Pedagógicas no Brasil"
Rodrigo Sarruge Molina:
Sua obra “História das Ideias Pedagógicas no Brasil” é hoje um clássico incontornável nos cursos de licenciatura e pedagogia. Poderia comentar sobre o processo de produção desta síntese monumental? O que o motivou a empreender esse esforço hercúleo de sistematização? Para além do "História das Ideias Pedagógicas no Brasil", o senhor poderia recomendar para nosso público quais são seus principais livros e artigos sobre História da Educação?
Dermeval Saviani:
Como esclareço na Introdução do livro, especificamente no item 2, denominado “Questões teóricas relativas ao conceito de história das ideias pedagógicas e à perspectiva de análise”, no contexto da chamada “Nova história”, a história das ideias é provavelmente o “território historiográfico” mais abalado, tendendo a ser substituído pela história das mentalidades ou história intelectual ou história cultural. Discordando dessas posições que me pareciam de caráter nominalista, resolvi desenvolver o projeto de investigação da história das ideias pedagógicas no Brasil começando por distinguir entre as ideias educacionais e as ideias pedagógicas afirmando que “por ideias pedagógicas entendo as ideias educacionais não em si mesmas, mas na forma como se encarnam no movimento real da educação orientando e, mais do que isso, constituindo a própria substância da prática educativa”. E concluí a Introdução afirmando que foi pensando em contribuir para o desenvolvimento do trabalho dos professores nas salas de aula, assim como dos dirigentes das escolas e sistemas de ensino, que decidi publicar na forma de livro os resultados da pesquisa cujo desenvolvimento ocorreu com o apoio de uma Bolsa Pesquisador 1-A do CNPq.
Lançado em setembro de 2007 o livro teve a primeira edição esgotada no ano seguinte, quando foi contemplado com o prêmio Jabuti, classificado em primeiro lugar na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise", tendo sido lançada a segunda edição em setembro de 2008. E em 2021 foi lançada a 6ª edição, revista e ampliada com o acréscimo dos índices remissivos de autores e de assuntos. Em junho de 2024 veio a lume a 7ª edição que, rapidamente esgotada, foi objeto de uma reimpressão em maio de 2025. Para a 8ª edição pretendo estender a análise até o momento presente tendo em vista que a obra original teve como limite o ano de 2001 quando entrou em vigor o novo Plano Nacional de Educação que concluiu o processo de mudanças na política educacional decorrente da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) promulgada em 20 de dezembro de 1996.
Como se vê, o livro teve grande aceitação e vem correspondendo plenamente a expectativa que expressei no prefácio à primeira edição no sentido de que sua publicação visava colocar ao alcance dos professores um recurso que lhes permitisse abordar a educação brasileira em seu conjunto, desde as origens até nossos dias. Assim, há certa unanimidade em considerar que se trata de uma obra clássica, ou seja, que desempenha um papel permanente e imprescindível à compreensão histórica da educação brasileira e ao seu ensino nas escolas de todo o país. Haja vista que esse livro já foi homenageado inclusive na literatura de cordel exemplificada por um grande poema de 41 estrofes de seis versos cada uma, que tem por título “História das ideias pedagógicas no Brasil: uma homenagem a Dermeval Saviani”, de autoria de Maria Letícia de Sousa David, de Itapipoca-CE, atualmente cursando o mestrado na Universidade Federal do Ceará.
Além disso, no enquete “200 anos da Independência, 200 livros sobre educação para entender o Brasil” promovida pelo Portal do Bicentenário da Independência, entre as 368 obras mencionadas, o livro “História das ideias pedagógicas no Brasil” ocupou a segunda posição, precedido apenas por “Pedagogia do oprimido”, de Paulo Freire, obra amplamente reconhecida nacional e internacionalmente.
Quanto à indicação de outros livros meus no campo da história da educação posso mencionar “A pedagogia no Brasil: história e teoria; Aberturas para a história da educação” que recebeu o prêmio Jatubi em 2014; “História do tempo e tempo da história” que também recebeu o prêmio Jatubi em 2016. Além disso há as coletâneas, normalmente resultantes de eventos no âmbito do HISTEDB de cuja organização participei juntamente com outros colegas do Grupo de Pesquisa. Cabe mencionar, também, o livro “Estado e políticas educacionais na história da educação brasileira”, obra coletiva que organizei para a Coleção “Horizontes da Pesquisa em História da Educação no Brasil” da Sociedade Brasileira de História da Educação, a SBHE.
Eixo 5 – Retrocessos e ataques aos Fundamentos da Educação
Rodrigo Sarruge Molina:
Observamos hoje uma preocupante perda de espaço das disciplinas de fundamentos (História e Filosofia) nos cursos de Pedagogia, como ficou claro com a Resolução CNE/CP nº 4/2024 (Esse movimento também é claro na educação básica com a perda de espaço das disciplinas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia por meio da BNCC de 2017). Na sua avaliação nos cursos de Pedagogia, esse movimento ocorre em prol de um pragmatismo neotecnicista? Como o senhor interpreta esse movimento de esvaziamento do pensamento crítico e de conteúdos clássicos da História na formação docente?
Dermeval Saviani:
O quadro atual representado por políticas educacionais que secundarizam os fundamentos da educação de modo geral e, especificamente, nos cursos de Pedagogia constitui um agravamento do que apresentei no último capítulo do livro “História das ideias pedagógicas no Brasil” no qual considerei, como consta no próprio título desse capítulo, a predominância do neoprodutivismo com as variantes do neoescolanovismo, neoconstrutivismo e neotecnicismo. Portanto, não deixa de ter sentido considerar que essa situação tem a ver com o pragmatismo neotecnicista. Assim, indiquei, no referido último capítulo: 1. As bases econômico-pedagógicas: reconversão produtiva, neoprodutivismo e a “Pedagogia da Exclusão”; 2. As bases didático-pedagógicas: o “aprender a aprender” e sua dispersão pelos diferentes espaços sociais (neoescolanovismo); 3. As bases psicopedagógicas: a reorientação das atividades construtivas da criança (neoconstrutivismo) e a “pedagogia das competências; e 4. As bases pedagógico-administrativas: a reorganização das escolas e redefinição do papel do Estado (neotecnicismo), “qualidade total” e “pedagogia corporativa”. E, na conclusão do livro, após apresentar uma síntese retrospectiva mostrei o drama do professor diante das orientações da política educacional que apresentavam sucessivamente ideias pedagógicas correspondentes às principais teorias educacionais instando os professores a abraçá-las. Em suma, no espírito da concepção neoprodutivista os dirigentes da educação esperam que os professores exerçam todo um conjunto de funções com o máximo de produtividade e o mínimo de dispêndio, ou seja, com modestos salários. Nesse contexto obviamente não há espaço para o estudo sistemático dos fundamentos da educação.
Eixo 6 – Desafios Historiográficos: Negacionismo e Pós-Modernismo
Rodrigo Sarruge Molina:
Além das reformas curriculares, também vivemos um contexto de hegemonia de correntes teóricas na academia que não se atentam para a importância da História ser uma ciência, sendo que muitos colegas pós-modernos até descartam a possibilidade da ciência da História atingir uma "verdade histórica". Para além desse "fogo amigo", a ciência da História também sofre ataques violentos de movimentos de extrema direita que negam a fatos históricos e propõem o "revisionismo" histórico, realizando publicações onde pretendem "reescrever a história" de uma perspectiva "neutra", contra uma suposta hegemonia da esquerda que estaria dominando as "narrativas". Como o senhor avalia esse cenário de ceticismo pós-moderno e revisionismos ideológicos e negacionistas? Como o historiador da educação deve se posicionar diante desse cenário?
Dermeval Saviani:
Diante da problemática levantada creio que a melhor resposta nos foi dada por Hobsbawn conforme transcrição que fiz no artigo publicado na revista Eccos, v. 10, n. especial, 2008, p. 147-167:
A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores. Em 1989 todos os governos do mundo, e particularmente todos os ministérios do Exterior do mundo, ter-se-iam beneficiado de um seminário sobre os acordos de paz firmados após as duas guerras mundiais, que a maioria deles aparentemente havia esquecido. (Hobsbawm, 1995, p.13).
Friso: o ofício dos historiadores é lembrar o que os outros esquecem. Talvez seja essa a principal coisa que a pesquisa histórico-educacional tem a nos dizer mesmo porque também os cursos de formação de educadores parecem mover-se num “presente contínuo” em decorrência do esquecimento da história. Pelo trabalho historiográfico, cabe-nos lembrar aos educadores e a toda a sociedade do país aquilo que, embora presente em sua prática cotidiana, tende a ser sistematicamente esquecido: que a situação na qual o trabalho educativo se processa, os avanços e recuos, os problemas que os educadores enfrentam são produtos de construções históricas. Nessa condição, sofrem, por um lado, as determinações do passado; mas, por outro lado, assim como a educação anterior foi produto da ação dos que nos precederam, nós, educadores atuais, também temos a prerrogativa de agir sobre o presente e mudar-lhe os rumos.
Assim, em lugar de sucumbir aos atrativos do jogo da construção e desconstrução da memória, cumpre restabelecer o que parece, hoje, fora de moda: a investigação desinteressada da verdade. Como assinalou Hobsbawm (1998, p. 8), “[...] sem a distinção entre o que é e o que não é assim, não pode haver história”. E acrescenta:
Seja como for, o relativismo não fará na história nada além do que faz nos tribunais. Se o acusado em um processo por assassinato é ou não culpado, depende da avaliação da velha evidência positivista, desde que se disponha de tal evidência. Qualquer leitor inocente que se encontrar no banco dos réus fará bem em recorrer a ela. São os advogados dos culpados que recorrem a linhas pós-modernas de defesa. (Hobsbawn, 1998, p. 8-9).
Vê-se, então, que as pesquisas histórico-educacionais têm muito a nos dizer sobre a educação no Brasil. A educação brasileira, ré de tantas acusações, inclusive de historiadores, necessita de uma linha de defesa baseada na velha evidência factual, ou, como diria Marx, na pesquisa desinteressada da verdade. Uma linha de defesa pós-moderna só fará que sua inocência seja obscurecida pelas verossimilhanças com as mais diversas mazelas que têm marcado a vida social e cultural de nosso país. Com a palavra os historiadores da educação. Querem eles advogar a causa da educação brasileira? Para responder afirmativamente, basta serem simplesmente historiadores. A história e a historiografia possuem virtudes formativas intrínsecas, não carecendo de justificativa externa. Isso porque o ser humano é um ser histórico por excelência: a historicidade define sua essência e a história é sua morada. Eis aí o princípio educativo que deveria presidir a organização das instituições escolares na atualidade: a radical historicidade do homem.
Encerramento:
Rodrigo Sarruge Molina:
Professor, agora o senhor pode se despedir do público. Se ficou faltando algo que não perguntei, o senhor pode ficar livre para falar nesse momento. Obrigado.
Dermeval Saviani:
Não tenho propriamente algo a acrescentar. Ou melhor: teria muitas coisas a acrescentar. Mas não é o caso, agora. Creio que a estrutura da entrevista com as perguntas formuladas levantou questões importantes sobre a História da Educação tanto como disciplina de ensino como área de pesquisa. De minha parte, procurei responder abordando aspectos que considerei importantes sempre, porém, limitado ao tempo restrito de uma entrevista cuja mensagem, para ser conhecida e assimilada não convém estender-se para além de uma hora.
Ao encerrar transmito, pois, minhas saudações a todas as pessoas que vierem a ter acesso a essa entrevista tanto as da área de História da Educação como aquelas do todo o campo educativo convocando-as para que se engajem num amplo movimento de valorização e defesa da educação pública de alta qualidade acessível a toda a população de nosso país. Muito obrigado!
Referências
BOURDIEU, Pierre. Questions de sociologie.Paris, Les Éditions de Minuit, 1980.
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Recebida em: 27.03.26
Aceita em: 25.04. 26
Publicada em: 21.05.26