Reavaliando a filosofia da linguagem bakhtiniana como visão de mundo para a etnografia virtual na educação em ciências
DOI:
https://doi.org/10.24933/horizontes.v43i1.1949Palavras-chave:
Etnografia virtual, Metalinguística, Bakhtin, Educação em ciênciasResumo
O presente artigo reexamina o contato dialógico entre etnografia virtual e o pensamento bakhtiniano. Contextualiza a metalinguística e sua relação com a educação em ciências e a antropologia para explorar conceitos e princípios da etnografia virtual desenvolvidos por Christine Hine para usá-los como fundamentação metodológica. Discute a diferença entre dialogicidade e diálogo para tratar da importância do trabalho de campo como ato responsável. Examina o reconhecimento de enunciados como artefatos culturais, da internet como mundo da cibercultura e de descrições etnográficos como interpretações metalinguísticas. Finaliza sintetizando reflexões em uma análise dos argumentos no debate público na plataforma X (Twitter) sobre as queimadas da Amazônia de 2019. Observa-se que pessoas no X buscavam não apenas enunciar opiniões, mas evidenciar algo que 280 caracteres não conseguiam comunicar, algo que foi mudando de natureza de enunciado para enunciado no passar dos dias. Porém, conclui-se que a divisão ideológica entre interlocutores críticos e apologistas do governo bolsonarista se manteve, mesmo as práticas discursivas de ambos sendo relativamente semelhantes.
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