Reavaliando a filosofia da linguagem bakhtiniana como visão de mundo para a etnografia virtual na educação em ciências

Autores

DOI:

https://doi.org/10.24933/horizontes.v43i1.1949

Palavras-chave:

Etnografia virtual, Metalinguística, Bakhtin, Educação em ciências

Resumo

O presente artigo reexamina o contato dialógico entre etnografia virtual e o pensamento bakhtiniano. Contextualiza a metalinguística e sua relação com a educação em ciências e a antropologia para explorar conceitos e princípios da etnografia virtual desenvolvidos por Christine Hine para usá-los como fundamentação metodológica. Discute a diferença entre dialogicidade e diálogo para tratar da importância do trabalho de campo como ato responsável. Examina o reconhecimento de enunciados como artefatos culturais, da internet como mundo da cibercultura e de descrições etnográficos como interpretações metalinguísticas. Finaliza sintetizando reflexões em uma análise dos argumentos no debate público na plataforma X (Twitter) sobre as queimadas da Amazônia de 2019. Observa-se que pessoas no X buscavam não apenas enunciar opiniões, mas evidenciar algo que 280 caracteres não conseguiam comunicar, algo que foi mudando de natureza de enunciado para enunciado no passar dos dias. Porém, conclui-se que a divisão ideológica entre interlocutores críticos e apologistas do governo bolsonarista se manteve, mesmo as práticas discursivas de ambos sendo relativamente semelhantes.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Daniel Pigozzo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS

Doutorando no Programa do Ensino de Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul -UFRGS. 

Matheus Monteiro Nascimento, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS

Doutor em Ensino de Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).  Docente do departamento de Física e do PPGEnFis da UFRGS.

 

 

 

 

Referências

AGAR, M. An ethnography by any other name... Forum Qualitative Sozialforschung / Forum: Qualitative Social Research, v. 7, n. 4, 2006. DOI: https://doi.org/10.17169/fqs-7.4.177.

ANDRÉ, M. E. Tendências atuais da pesquisa na escola. Cadernos CEDES, v. 18, n. 43, p. 46–57, 1997. DOI: https://doi.org/10.1590/S0101-32621997000200005.

BAKHTIN, M. O discurso no romance. In: BAKHTIN, M. Teoria do romance I. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 19–242.

BAKHTIN, M. As formas do tempo e do cronotopo no romance. In: BAKHTIN, M. Teoria do romance II. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2018. p. 11–237.

BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2016.

BAKHTIN, M. Por uma metodologia das ciências humanas. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2017. p. 57–79.

BEZERRA, P. Uma obra à prova do tempo. In: BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013. p. V–XXII.

BONILLA, Y.; ROSA, J. #Ferguson: Digital protest, hashtag ethnography, and the racial politics of social media in the United States. American Ethnologist, v. 42, n. 1, p. 4–17, 2015. DOI: https://doi.org/10.1111/amet.12112.

BRASIL. Decreto nº 2.661, de 8 de julho de 1998. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 9 jul. 1998.

BRASIL. Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Código Florestal. Brasília: Senado Federal, 2023.

BRASIL 247. Satélites da Nasa registram fumaça [...]. Twitter: @brasil247. 21 ago. 2019. Disponível em: https://twitter.com/brasil247/status/1164256708841156608. Acesso em: 10 nov. 2022.

CALIANDRO, A. Digital methods for ethnography: Analytical concepts for ethnographers exploring social media environments. Journal of Contemporary Ethnography, v. 47, n. 5, p. 551–578, 2018. DOI: https://doi.org/10.1177/0891241617702960.

CLIFFORD, J. (org.). Writing culture: the poetics and politics of ethnography. Berkeley: University of California Press, 2008.

COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO DE SÃO PAULO. E a Amazônia? [...]. Twitter: @proindio. 19 ago. 2019. Disponível em: https://twitter.com/proindio/status/1163896365950394369. Acesso em: 10 nov. 2022.

COUTO JR., D. Etnografia virtual e as contribuições de Mikhail Bakhtin na pesquisa com internautas. Revista Teias, v. 14, n. 31, p. 97–108, 2013.

COUTO JR., D.; OSWALD, M. L. “Tudo o que você disser vira pesquisa”: trilhando caminhos teórico-metodológicos na pesquisa com internautas. Revista Teias, v. 17, [Ed. Esp.], 2016. DOI: https://doi.org/10.12957/teias.2016.24821.

DAUPHIN, L.; VOILAND, A. Fires in Brazil. NASA Earth Observatory, 22 ago. 2019. Disponível em: https://earthobservatory.nasa.gov/images/145464/fires-in-brazil. Acesso em: 10 nov. 2022.

DECONTO, D. C. S.; OSTERMANN, F. Educação em ciências e pensamento bakhtiniano: uma análise de trabalhos publicados em periódicos nacionais. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, p. 121–156, 2020. DOI: https://doi.org/10.28976/1984-2686rbpec2020u121156.

EMERSON LUIS. O primeiro trabalho bem-feito do Bolsonaro [...]. Twitter: @emerluis. 19 ago. 2019. Acesso em: 18 nov. 2022.

EMMANUEL MACRON. Our house is burning […]. Twitter: @EmmanuelMacron. 22 ago. 2019. Disponível em: https://twitter.com/EmmanuelMacron/status/1164617008962527232. Acesso em: 18 nov. 2022.

ESCOBAR, A. et al. Welcome to Cyberia: notes on the anthropology of cyberculture [and comments and reply]. Current Anthropology, v. 35, n. 3, p. 211–231, 1994. DOI: https://doi.org/10.1086/204266.

FELIPE, T. O discurso verbo-visual na língua brasileira de sinais - Libras. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, v. 8, n. 2, p. 67–89, 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/S2176-45732013000200005.

FÓRUM 21. Entre janeiro e agosto, queimadas no Brasil aumentam [...]. Twitter: @cartamaior. 2019. Disponível em: https://twitter.com/cartamaior/status/1163894157720596480. Acesso em: 18 nov. 2022.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2010.

G1 SP. Dia vira “noite” em SP com frente fria e fumaça vinda de queimadas na região da Amazônia. G1, São Paulo, 18 ago. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/08/19/dia-vira-noite-em-sao-paulo-com-chegada-de-frente-fria-nesta-segunda.ghtml. Acesso em: 10 nov. 2022.

GERSHON, I. Reprises: Seeing like an author: early Bakhtin for anthropologists. Journal of the Finnish Anthropological Society, v. 45, n. 1, p. 49–61, 2020. DOI: https://doi.org/10.30676/jfas.v45i1.98265.

GIGLIETTO, F.; ROSSI, L.; BENNATO, D. The open laboratory: limits and possibilities of using Facebook, Twitter, and YouTube as a research data source. Journal of Technology in Human Services, v. 30, n. 3–4, p. 145–159, 2012. DOI: https://doi.org/10.1080/15228835.2012.743797.

GREEN, J.; DIXON, C.; ZAHARLICK, A. A etnografia como uma lógica de investigação. Educação em Revista, v. 21, n. 42, 2005.

HAMMERSLEY, M. Ethnography: problems and prospects. Ethnography and Education, v. 1, n. 1, p. 3–14, 2006.

HAMMERSLEY, Martyn. What is ethnography? Can it survive? Should it?. Ethnography and Education, v. 13, n. 1, p. 1–17, 2018. DOI: https://doi.org/10.1080/17457823.2017.1298458.

HINE, C. Virtual ethnography. London: SAGE, 2000.

HINE, C. Ethnography for the internet: embedded, embodied and everyday. London: Bloomsbury Academic, 2015.

KANG, D.; RAWLINS, W. Exploring languages preservation in Kham Tibet, learning from “Discourse in the Novel,” and writing a dialogical/bakhtinian ethnography. Qualitative Inquiry, v. 23, n. 8, p. 618–630, 2017. DOI: https://doi.org/10.1177/1077800416684873.

KOZINETS, R. On netnography: Initial reflections on consumer research investigations of cyberculture. In: ALBA, J.; HUTCHINSON, J. (org.). Advances in Consumer Research, v. 25. Provo: Association for Consumer Research, 1998. p. 366–371.

LEVY, P. Collective intelligence: Mankind’s emerging world in cyberspace. Cambridge: Basic Books, 1999.

LODI, A. C. Plurilingüismo e surdez: uma leitura bakhtiniana da história da educação dos surdos. Educação e Pesquisa, v. 31, n. 3, p. 409–424, 2005. DOI: https://doi.org/10.1590/S1517-97022005000300006

MARCUS, G. Ethnography in/of the world system: the emergence of multi-sited ethnography. Annual Review of Anthropology, v. 24, n. 1, p. 95–117, 1995. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev.an.24.100195.000523.

MÁXIMO, M. E. et al. A etnografia como método: Vigilância semântica e metodológica nas pesquisas no ciberespaço. In: MÁXIMO, M. E.; LACERDA, J.; BIANCHI, G. (org.). Epistemologia, investigação e formação científica em comunicação. Rio do Sul: UNIDAVI, 2012. p. 293–319.

MFFL RJ. Relatório da Nasa desmente mídia brasileira [...]. 2019. Twitter: @MarleneFFL. Disponível em: https://twitter.com/brasil247/status/1164256708841156608. Acesso em: 18 nov. 2022.

NELSON, S. Synanon women’s narratives: A bakhtinian ethnography. 1994. Tese (Doutorado) - University of Southern California, Los Angeles, 1994.

NORMAN ADAMS, N. ‘Scraping’ Reddit posts for academic research? Addressing some blurred lines of consent in growing internet-based research trend during the time of Covid-19. International Journal of Social Research Methodology, p. 1–16, 2022. DOI: https://doi.org/10.1080/13645579.2022.2111816.

O FISCAL do IBAMA. Queimadas em Pimenta Bueno-RO... 2019. Twitter: @ofiscaldoibama. Disponível em: https://twitter.com/fiscaldoibama/status/1163527855558529024. Acesso em: 18 nov. 2022.

OSTERMANN, F. et al. Speech analysis under a Bakhtinian approach: contributions to research on physics education. Physical Review Physics Education Research, v. 19, n. 1, p. 010141, 2023. DOI: https://doi.org/10.1103/PhysRevPhysEducRes.19.010141.

PEIRANO, M. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, v. 20, n. 42, p. 377–391, 2014. DOI: https://doi.org/10.1590/s0104-71832014000200015.

PIGOZZO, D.; NASCIMENTO, M. M. Uma exploração antropológica do rastro digital da CPI da Pandemia para a educação em ciências. Ensino e Tecnologia em Revista, v. 7, n. 1, p. 379–393, 2023. DOI: http://dx.doi.org/10.3895/etr.v7n1.16707.

PIGOZZO, D. Crise de autoridade: uma investigação sobre as sessões da CPI da Pandemia pelo viés da antropologia digital em contato dialógico com a educação em ciências. 2016. Tese (Doutorado) - UFRGS, Porto Alegre, 2025.

PINK, S. et al. Design ethnography: research, responsibilities, and futures. London: Routledge, 2022.

PINK, S. Ethnography for construction 5.0. In: SCHOLTENHUIS, L.; OSWALD, D. (org.). Embracing Ethnography. London: Routledge, 2024. p. 104–120.

RIFIOTIS, T. Desafios contemporâneos para a antropologia no ciberespaço: o lugar da técnica. Civitas - Revista de Ciências Sociais, v. 12, n. 3, 2013. DOI: https://doi.org/10.15448/1984-7289.2012.3.13016.

SCOTT, John. Social network analysis: developments, advances, and prospects. Social Network Analysis and Mining, v. 1, n. 1, p. 21–26, 2011. DOI: https://doi.org/10.1007/s13278-010-0012-6.

SEGATA, J. A etnografia como promessa e o “efeito Latour” no campo da cibercultura. Ilha Revista de Antropologia, v. 16, n. 2, p. 69–87, 2014. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-8034.2014v16n2p69.

SHERMAN, B. et al. Dialogic meta-ethnography: troubling methodology in ethnographically informed qualitative inquiry. Cultural Studies of Science Education, v. 16, n. 1, p. 279–302, 2021. DOI: https://doi.org/10.1007/s11422-019-09961-8.

SNIUKAITE, I. Feminist cyberdialogics: Speech-action and online community – A case study. Tese (Doutorado) - University of Warwick, Coventry, 2007.

SOUZA, E. M.; FERREIRA, L. Ensino remoto emergencial e o estágio supervisionado nos cursos de licenciatura no cenário da Pandemia COVID 19. Revista Tempos e Espaços em Educação, v. 13, n. 32, p. 1–19, 2020. DOI: DOI: https://doi.org/10.20952/revtee.v13i32.14290.

Titica Sta CÚs Paródia. Morei 9 anos na Região Amazônica [...]. 2019. Twitter: @CusTitica. Disponível em: https://twitter.com/CusTitica/status/1164981863267651589. Acesso em: 18 nov. 2022.

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2021.

UNDERBERG, N.M.; ZORN, E. Digital ethnography: anthropology, narrative, and new media. Austin: University of Texas Press, 2013.

WILLIS, P.; TRONDMAN, M. Manifesto for ethnography. Cultural Studies ↔ Critical Methodologies, v. 2, n. 3, p. 394–402, 2002.

YON, D. Highlights and overview of the history of educational ethnography. Annual Review of Anthropology, v. 32, n. 1, p. 411–429, 2003. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev.anthro.32.061002.093449.

Downloads

Publicado

10-11-2025

Como Citar

Pigozzo, D., & Nascimento, M. M. (2025). Reavaliando a filosofia da linguagem bakhtiniana como visão de mundo para a etnografia virtual na educação em ciências. Horizontes, 43(1), e023222. https://doi.org/10.24933/horizontes.v43i1.1949

Edição

Seção

Seção Temática: A perspectiva de M. Bakhtin e do círculo para pesquisas em Educação